"Texto para a (Amélia)"
O medo de envelhecer – esse verdadeiro pânico existencial que consome tantas mulheres, especialmente aquelas que vivem na constante corrida contra o tempo. Não é só um medo, é uma batalha épica contra uma força implacável e absolutamente imparável: o envelhecimento. Como se fosse possível escapar a uma das únicas certezas da vida, muitas mulheres abraçam todas as estratégias imagináveis para enganar o espelho e – coitadas – a própria natureza. E a beleza disso tudo? Elas acreditam que estão a vencer. Mas convenhamos, o tempo é um inimigo silencioso que, ao contrário dos cremes anti-rugas, funciona sem precisar de publicidade.
Há algo quase cómico no esforço descomunal que se dedica a tentar parecer mais nova, como se cada ruga fosse uma traição pessoal, cada fio de cabelo grisalho, uma ofensa ao mundo. O ritual começa, claro, com o investimento em cremes milagrosos que prometem fazer desaparecer anos da pele – e, com sorte, também da alma. Hidratantes à base de caviar, séruns com veneno de serpente, máscaras de ouro, tudo, absolutamente tudo, está ao dispor desde que prometa um retorno aos dias de juventude. Claro, a única coisa que estes produtos conseguem, na maioria das vezes, é reduzir drasticamente o saldo bancário – mas ei, pelo menos a pele fica brilhante. Talvez de vergonha.
E depois vem a "grande arma": o Botox, esse líquido que promete suspender a ação da gravidade na pele, como se pudéssemos anular a física com umas picadelas bem estratégicas. As rugas desaparecem, sim, mas também a expressão facial. Há algo paradoxalmente trágico em viver com uma testa lisa, enquanto as emoções parecem estar a ser transmitidas por um boneco de cera num museu. O riso, o choro, a surpresa – tudo passa a ser uma ligeira variação da mesma máscara plástica. Quem vê de fora até pensa: será que ela está a sentir algo ou está apenas a pensar no próximo tratamento de preenchimento labial?
E os lábios! Porque, claro, se há algo que o tempo adora fazer, é esvaziar os lábios como balões murchos. Mas nunca temas! Há soluções. Há sempre soluções. As agulhas estão prontas e, de repente, os lábios incham de tal forma que parecem prestes a flutuar como bóias no mar. É um espetáculo fascinante: a obsessão em parecer mais jovem leva algumas a criar uma versão de si mesmas que só poderia ter nascido de uma sessão de Photoshop mal feita.
E depois temos a cirurgia estética – a “arte” de remodelar o corpo para fazer parecer que a juventude está ali, firme e forte. Porque se não podemos parar o tempo, ao menos podemos esculpi-lo. E então, estica-se daqui, corta-se dali, puxa-se de acolá, até que a mulher fica mais tensa que um elástico esticado ao limite. O problema? Muitas vezes, no final, o rosto perde a batalha com a realidade e ganha aquele aspecto indefinido, onde a idade não desaparece, apenas se confunde – entre os 40 e os 140, quem sabe?
Há uma ironia profunda nesta corrida desenfreada. A busca incessante por parecer jovem transforma a mulher não numa versão rejuvenescida de si mesma, mas numa caricatura que desmente tudo aquilo que ela tenta desesperadamente esconder. Porque, no fim das contas, não se trata de evitar o envelhecimento. O verdadeiro problema é a recusa em aceitá-lo com graça e humor, transformando o inevitável numa tragédia grega.
O mais irónico de tudo é que as mulheres que procuram parecer jovens a todo o custo não parecem estar a viver no presente. Elas estão presas num tempo que já passou, numa versão de si mesmas que já não existe. Ao tentar reviver o passado, esquecem-se de apreciar o que o presente tem de melhor. O charme da experiência, a sabedoria acumulada, a confiança que deveria vir com a idade são substituídos por uma corrida fútil contra o espelho.
E enquanto o espelho nunca mente, o sorriso (quando ainda pode ser esboçado sem a interferência do Botox) continua a tentar contar uma história de juventude que ninguém mais acredita.
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