"Caminho."
Não somos livres enquanto não formos todos livres. E isso dói. De que maneira.
Esta frase ecoa dentro de mim, como uma sinfonia triste que ressoa em cada espaço vazio da minha alma, lembrando-me, incessantemente, do peso da liberdade que ainda não possuímos verdadeiramente. Caminho pelas ruas da vila, envolta num véu de indiferença e solidão, com o olhar perdida entre as sombras dos edifícios altos e impassíveis, como se fossem testemunhas silenciosas de uma injustiça que subsiste há séculos. A minha mente, por mais que tente fugir, volta sempre à mesma reflexão: o que é, afinal, ser livre?
Cada dia é uma batalha interna para encontrar significado nas palavras, nas acções, nos gestos dos outros, nas minhas próprias escolhas. E pergunto-me constantemente se sou, de facto, livre. A sociedade em que vivo não o parece. Há algo no ar — uma tensão, um murmúrio contido, como se todas as pessoas, mesmo sem se darem conta, estivessem presas a algo invisível, mas omnipresente. Uma prisão construída por normas, expectativas, preconceitos, desigualdades que sufocam a nossa capacidade de realmente sermos nós próprias.
A dor de ver a desigualdade em cada esquina é quase insuportável. Não somos livres enquanto uma mulher se sentir inferiorizada pelo simples facto de existir num corpo feminino. Não somos livres enquanto uma criança, por nascer numa família pobre, estiver condenada a uma vida de oportunidades limitadas. Não somos livres enquanto alguém for julgado pela cor da sua pele, pela sua fé, ou por quem ama. E, por mais que tente, não consigo ignorar essa realidade. E isso dói. De uma forma que me consome, como se cada injustiça que testemunho fosse uma ferida aberta no meu ser, uma lembrança de que a minha própria liberdade está incompleta enquanto todos à minha volta não forem, também, libertos das suas correntes.
Há uma ironia amarga em tudo isto. Eu, que nasci sem privilégios que outros tinham, sinto-me aprisionada pela sociedade que, de certa forma, sempre me desfavorece. Mas esse desfavorecimento é uma armadilha. O que adianta ter certas liberdades quando outros, por perto ou longe, continuam a sofrer? Como posso ser realmente feliz, plena, se as vozes dos oprimidos, das vítimas de injustiças, ecoam em cada silêncio meu? Há momentos em que pergunto-me se esta sensação de impotência, de tristeza, é o preço da consciência. Quanto mais sabemos, quanto mais entendemos as desigualdades que nos cercam, mais sentimos o fardo de viver num mundo imperfeito.
Lembro-me de uma tarde, em particular. O sol estava a pôr-se, tingindo o céu com uma paleta de cores que misturava o dourado com tons de rosa e violeta. As sombras das árvores estendiam-se sobre o parque onde sentei-me, observando as pessoas que passavam. Um homem idoso caminhava lentamente, apoiando-se numa bengala, os olhos perdidos num ponto distante, talvez numa memória de tempos mais fáceis. Uma mãe corria atrás de um filho pequeno, rindo, a sua felicidade momentânea como uma bolha de luz num mundo escuro. E eu, ali, sentada, sentia-me desconectada, como se estivesse a ver um filme, uma realidade que não era a minha, mas que, paradoxalmente, me envolvia por completo.
Esses momentos fazem-me perceber que a liberdade que procuramos não é apenas física ou política. É uma liberdade da alma, do espírito. E essa liberdade, acredito, só será alcançada quando cada ser humano, independentemente da sua história, da sua origem, da sua condição, puder viver sem medo, sem opressão, sem a dor da desigualdade. Enquanto houver um só ser que não tenha essa possibilidade, eu também estarei aprisionada, mesmo que as minhas correntes sejam invisíveis.
As palavras de grandes pensadores, activistas, e poetas ressoam na minha mente com mais força a cada dia que passa. Lembro-me de uma frase de Nelson Mandela: "Para ser livre, não basta livrar-se das correntes; é necessário viver de uma forma que respeite e valorize a liberdade dos outros." E estas palavras não poderiam ser mais verdadeiras. A minha liberdade está intrinsecamente ligada à liberdade de todos à minha volta, de todas as pessoas com quem partilho este mundo. Enquanto houver um só ser humano a sofrer, a ser subjugado, a ser desrespeitado, a minha liberdade será apenas uma ilusão.
E isso dói. De uma forma que não consigo descrever totalmente, mas que sinto profundamente. É uma dor que me motiva, que me impele a continuar a questionar, a lutar, a procurar um mundo mais justo. Mas também é uma dor que me cansa, que me faz sentir perdida, por vezes impotente, face à magnitude dos problemas que enfrentamos. Contudo, sei que desistir não é uma opção. Mesmo que a liberdade total pareça, por vezes, um sonho distante, sei que cada pequena acção, cada gesto de bondade, cada palavra dita em defesa dos outros, nos aproxima mais desse ideal.
E assim, continuo. Vivo com a esperança de que um dia, talvez num futuro que eu não verei, seremos todos livres. E, nesse dia, a dor que sinto agora será substituída por uma paz profunda, uma sensação de plenitude que só a verdadeira liberdade pode trazer.
Mas até lá, eu caminho.
Comentários
Enviar um comentário