"Farta"
Eu não me irrito com críticas – longe disso. Na verdade, agradeço profundamente quando alguém se dá ao trabalho de apontar algo que tenha dito ou feito de errado. É um presente disfarçado, uma oportunidade para crescer, para melhorar. Críticas construtivas são como aquele espelho fiel que nos mostra as imperfeições que talvez não tenhamos notado, e isso só pode ser visto como uma ajuda valiosa no nosso desenvolvimento pessoal. O processo de crescer, de nos transformarmos em versões melhores de nós próprios, não pode existir sem que, ao longo do caminho, sejamos desafiados a enfrentar aquilo que está errado, aquilo que falhou, ou o que pode ser aperfeiçoado. A crítica funciona como uma espécie de bússola que, embora muitas vezes desconfortável, aponta a direção para onde devemos ir se queremos avançar. E é exatamente isso que procuro – esse avanço.
Eu acolho as críticas com a seriedade que merecem, seja uma correção profissional, um conselho pessoal ou até mesmo uma observação casual. Cada crítica construtiva que recebo é uma porta aberta para a autoconsciência e para o aperfeiçoamento. Gosto de olhar para essas críticas como tijolos que vou adicionando à minha própria estrutura, reforçando aquilo que sou e cimentando os meus valores com mais firmeza. É claro que, no momento da crítica, pode haver aquele momento de desconforto, aquele espelho que nos é colocado à frente e que reflete uma parte de nós que preferíamos ignorar. Mas esse desconforto é o primeiro passo da mudança, é o empurrão necessário para sair da zona de conforto. Afinal, só quem está disposto a ver as suas falhas e a lidar com elas é que pode, efetivamente, melhorar.
Agora, o que realmente me tira do sério, o que me faz sentir um misto de desgosto, frustração e indignação, são as mentiras. Mentiras, deturpações, dissimulações – todo esse folclore verbal que certas pessoas criam para maquilhar a verdade ou para se beneficiarem de situações à custa de falsidades. Mentir é uma arte tóxica, uma que não só mina a confiança, como também gera todo um espetáculo de adjetivos rebuscados, distorções teatrais e exageros que não servem para nada além de confundir e manipular. O problema das mentiras não está apenas no seu conteúdo, mas também no efeito devastador que têm sobre as relações, sobre o ambiente à nossa volta. Cada mentira é como uma peça de dominó que, ao cair, derruba todas as outras à sua volta, sem que, muitas vezes, haja forma de controlar os danos.
As mentiras são traições, são uma afronta à honestidade e à integridade que devem estar presentes em qualquer relação humana. O simples ato de mentir carrega consigo uma prepotência – como se o mentiroso se achasse mais esperto, mais astuto, capaz de manipular a realidade e de moldá-la ao seu bel-prazer. Mentir é um jogo sujo, um jogo para quem não tem a coragem de enfrentar a verdade. E, como qualquer outro jogo sujo, deixa marcas. As mentiras podem ser pequenas, grandes, bem-intencionadas ou malignas, mas o seu impacto é sempre corrosivo. Elas corroem a confiança, que é a base de qualquer relação, e criam um vazio onde antes havia respeito e compreensão. Mentir é uma afronta à inteligência do outro, um insulto à capacidade de discernir entre o certo e o errado.
A mentira irrita-me pela sua falta de honestidade, pela sua insidiosa capacidade de se infiltrar nas situações mais simples e transformá-las num circo de falsidades e ilusões baratas. É o teatro da falsidade, com cortinas de encenação e falas decoradas, tudo numa tentativa de fazer parecer que a realidade é outra. E eu? Eu não faço parte desse elenco. Adjetivos? Superfluamente rebuscados. Atores? Falsamente convictos. E a trama? Absolutamente desnecessária. Porque a vida já é complicada o suficiente sem que tenhamos de lidar com o embuste que são as mentiras. Prefiro sempre a verdade nua e crua, com todas as suas imperfeições, a uma mentira embalada em floreados e enfeites, que no final só deixa um gosto amargo.
O que me irrita é que as mentiras não vêm sozinhas. Elas trazem consigo um séquito de incertezas, de dúvidas, de desconfiança. Cada mentira contada é uma quebra na corrente da honestidade, uma falha no sistema de comunicação. E não há nada mais destrutivo para uma relação, seja ela qual for – profissional, pessoal, familiar – do que uma quebra de confiança. Quando mentem para mim, o que vejo não é apenas a mentira em si, mas o ato de desconsideração, de desrespeito pelo meu direito de saber a verdade. A mentira é uma arma de dois gumes: corta quem a recebe e quem a diz.
Se há algo que verdadeiramente me revolta é essa dança constante de meias-verdades, de omissões estratégicas, de jogos de palavras cuidadosamente construídos para enganar. É como uma coreografia mal feita, onde os dançarinos tropeçam nas próprias pernas, e o público, já saturado, mal consegue acompanhar a farsa. Não tenho paciência para o jogo, para os bastidores mal iluminados dessa peça que é a mentira. Prefiro mil vezes a crítica mais feroz, mas honesta, do que uma mentira docemente embrulhada em ilusões.
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