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"Hoje, quando a vi"

 Hoje tirei a manhã para estar com ela. Já não a via há um ano. É estranho como o tempo pode ser tão breve e tão infinito ao mesmo tempo. Quando finalmente a vi, senti o corpo a falhar. O peito apertou-se, as pernas tremeram, o mundo girou à minha volta e tive de me sentar, porque o meu síndrome vasovagal não me perdoa quando as emoções me atropelam de forma tão brutal. Sorri, para disfarçar, e deixei as lágrimas caírem. Disse que eram de felicidade — e eram. Mas não só. Eram também de dor, de medo, de impotência. Não estava preparada para a ver assim. O Parkinson levou-lhe um pouco da leveza, da firmeza, da segurança que sempre vi nela. E ao mesmo tempo, ali estava ela: a mesma amiga, a mesma mulher que tantas vezes me segurou nos braços quando eu não tinha nada. Ela foi casa quando eu não tinha onde ficar. Ela foi pão quando eu tinha fome. Ela foi silêncio e escuta quando a minha dor não tinha palavras. Ela foi mãe, sem ser sangue. E agora, diante de mim, estava frágil. Mas mesmo...