"A persistência"

 Ah, a persistência macabra! Quem diria que ela viria embrulhada num presente de horror cómico, trazido por ninguém menos que o meu estimado stalker. Sim, meus queridos leitores, eu, movida pelo doce néctar de Baco, o deus do vinho e da irresponsabilidade com classe, acabei de perceber que tenho um stalker. E é tão ridiculamente surreal que só posso rir. Isto não é uma carta de agradecimento, longe disso, nem uma nota de rodapé para um futuro documentário de "true crime". Não. Isto é uma celebração ao meu recém-adquirido estatuto de “vítima perseguida” com um toque de "bem me parecia que isto ia acabar mal."

Estava eu no meio da festa, com as taças a tilintar e o vinho a fluir mais rápido do que a minha capacidade de processar os eventos. Ah, o vinho! Esse maravilhoso elixir divino que, além de nos dar a coragem para usar chapéus ridículos em público, também nos faz questionar se a sanidade vale mesmo a pena. É sempre durante estas festas – onde já ninguém sabe a diferença entre um brinde e um monólogo sobre a vida – que as revelações chegam. "Sabias que aquele gajo te segue até ao supermercado?", "Ele comentou a tua roupa de ontem no Instagram sem tu teres sequer publicado uma foto!". Pois é, minha gente. Enquanto eu, inspirada por Baco, me afundava numa celebração absurda à vida e à falta de bom senso, algures, na penumbra, estava um indivíduo tímido, quieto, mas persistente, a contar quantos passos dou do sofá à cozinha.

O que mais me diverte neste enredo (além de perceber que, aparentemente, a minha vida cotidiana tem mais suspense que uma novela venezuelana) é a perseverança do sujeito. O amor platónico nunca foi tão... insistente! Qualquer pessoa normal teria desistido logo após me ver de pijama, com o cabelo a parecer uma esfregona, a arrastar-me pela casa às três da manhã. Mas não ele. Ele mantém-se firme. Ele persiste. Ele observa-me, sem fazer barulho, como se eu fosse algum tipo de estudo académico sobre como uma pessoa pode falhar repetidamente ao tentar abrir uma garrafa de vinho.

E o mais delicioso de tudo isto é que ele só me segue de longe. Não se aproxima. É tímido, o coitado. Não quer invadir o meu espaço... apenas rondar-me de longe, tipo um gato curioso. Imagino-o a ensaiar mil conversas na cabeça, mas sempre a pensar "Hoje não. Talvez amanhã." Essa hesitação patética até tem o seu encanto. A distância respeitosa que ele mantém torna esta perseguição numa espécie de coreografia silenciosa, onde eu sou a estrela, e ele o espectador invisível, sempre na última fila.

Seria até comovente, se não fosse tão cómico. E confesso que, embalada pelo vinho e pela euforia alcoólica, a ideia de ter um stalker tímido quase me parece um elogio. Como se a minha existência fosse tão fascinante que alguém decidiu assistir a tudo, mas sem ter a coragem de participar. É como um filme onde o vilão nunca chega a fazer nada de realmente perigoso, só anda ali... a ver o que acontece. Talvez ele tenha um caderno cheio de anotações, rabiscadas com grande dedicação: "Hoje, ela foi ao café da esquina. Conclusão: deve gostar muito de cafés fracos." Ou então: "Mudou de marca de vinho. Será uma crise de identidade?"

A parte mais surreal é imaginar qual será o grande plano dele. Porque toda perseguição, mesmo uma tímida, tem de ter um clímax, certo? Será que um dia ele vai ganhar coragem? Aproximar-se devagar, como quem não quer a coisa, e sussurrar: "Eu SEI que tu foste três vezes à padaria esta semana!"? Ou será que o ápice da obsessão será seguir-me até à porta de casa e deixar uma nota anónima no tapete com uma observação meticulosa sobre as minhas compras do mês?

E claro, há algo deliciosamente irónico nisto tudo. Em tempos em que mal conseguimos que os nossos amigos ponham um "gosto" nas nossas fotos, este ser humano dedicou-se a ser o seguidor na vida real. Ele não só me stalkeia nas redes (certamente já viu as fotos embaraçosas da minha adolescência), como se deu ao trabalho de fazer um estudo de campo. É um fã-clube de uma só pessoa, mas com um nível de empenho que eu só posso invejar.

Enquanto isto não se resolve – e enquanto o meu tímido stalker continua na sua missão de me seguir à distância, como um fantasma introvertido – eu seguirei aqui, inspirada por Baco e pelo seu néctar divino, a dançar pela sala com uma taça na mão e a rir-me desta piada privada entre mim e o destino. Porque, afinal de contas, quem mais transformaria uma perseguição num sketch de comédia negra? Quem mais conseguiria ver o lado “engraçado” em ser seguida por alguém tão persistentemente tímido que, na prática, é quase como se não estivesse lá?

Por isso, um brinde ao meu stalker! Que a sua timidez nunca desapareça, que a sua dedicação não vacile, e que ele continue a seguir-me de longe, sempre tímido, sempre vigilante, enquanto eu, sem qualquer cerimónia, ignoro solenemente a sua existência.


Ah, claro, este texto não é para ninguém. Afinal, por que seria? A não ser, claro, que alguém esteja a ler isto, escondido nas sombras, com uma lupa na mão e um bloco de notas onde anota cada palavra que escrevo, convencido de que sou eu, a autora de uma carta secreta, dirigida a alguém que nem sei que existe... um stalker. Mas não, meu caro leitor das sombras, este texto não é para ti. Eu não seria capaz de tal coisa, nem em sonhos, nem bêbada com três garrafas de vinho de Baco na veia!

A ideia de que tu, sim, tu aí no escuro, acredites que este texto foi cuidadosamente elaborado com segundas intenções é quase comovente. Imagina só: cada vírgula, cada ponto final, tu a leres e a sublinhares, talvez até com um marcador fluorescente, como se isto fosse o Código Da Vinci da perseguição moderna. Só que, infelizmente, o meu caro stalker dos dias digitais (ou será que és mais tradicional, daqueles que ainda usam binóculos?), a verdade é que este texto não tem mistérios profundos, nem segredos ocultos. É apenas o desabafo de alguém que acha imensa graça a esta ideia bizarra de ser seguida.

Mas admitamos por um segundo que, por algum milagre das coincidências, isto fosse mesmo para ti. Vamos imaginar: tu, no teu covil de perseguição, com a tua playlist "Stalker Vibes 2024", a leres isto e a pensares: "Ela sabe! Ela está a falar comigo!" Calma, não te entusiasmes. É apenas a tua imaginação. Ou será que não?

A cena é quase cinematográfica. Vejo-te a revirar os teus papéis, a tentar decifrar cada frase como se houvesse uma mensagem subliminar escondida no meio das piadas. Se calhar até pensas que o facto de eu mencionar Baco é algum tipo de código secreto. Não, não é. O vinho é só vinho, acredite, e o deus da festa e da loucura não tem tempo para perseguidores tímidos. Aliás, ele provavelmente te mandaria beber um copo e deixar de ser tão introspectivo!

Agora, a parte realmente divertida: imagino-te a interpretar isto como um desafio. “Ela quer que eu me aproxime mais? Devo deixar de ser tímido? Ou será uma armadilha?” Ah, meu querido aspirante a Sherlock Holmes, a única coisa que podes deduzir aqui é que estás a perder tempo. Este texto não foi escrito para ti, nem para qualquer outro seguidor incógnito, tímido ou não. Mas, já que estás aqui a ler até ao fim, aproveita a viagem. Pega numa taça, brinda comigo ao absurdo da situação e lembra-te: nem sempre tudo o que escrevemos tem um destinatário secreto. Às vezes, uma vírgula é só uma vírgula.

E, por favor, para bem da tua sanidade, não penses que cada frase foi escrita só para te provocar... ou será que foi? Eu era para escrever sobre algo bem mais interessante, o aniversário do meu filho. Outro dia... talvez.

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