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"Vitrário Íntimo"

 Quem acompanha o meu blogue desde o início reconhece, sem esforço hermenêutico excessivo, uma mutação profunda, quase tectónica. E não me refiro apenas ao polimento da escrita, ao alargamento do léxico ou à maturação estilística — isso seria uma leitura superficial, quase preguiçosa. Falo, sobretudo, da transfiguração da matéria íntima, da mudança de substância e de intenção. Este espaço foi, em tempos, um diário assumido, um território de confissão onde os dias se alinhavam como contas de um rosário imperfeito: aventuras miúdas, entusiasmos desmedidos, quedas silenciosas. Havia reflexão pessoal sem pudor, poemas escritos com a urgência de quem sangra em palavras, dor vertida em frases que não pediam absolvição. Nos relatos surgiam a família e os amigos, não como personagens literárias, mas como presenças vivas, falíveis, ternas. Comentava acontecimentos que me feriam e outros que me salvavam; nomeava defeitos e virtudes com a honestidade crua de quem ainda acredita que a verdade...

"2023/2024. A liberdade."

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 Na primavera de 23/24( ano letivo), o meu filho recebeu da sua jovem professora uma proposta simples mas profundamente significativa: elaborar uma maquete sobre o 25 de Abril. Um desafio aparentemente escolar, mas que acabou por se transformar numa verdadeira viagem de memória, criatividade e consciência histórica. Recordo com nitidez cada etapa do processo. A maquete foi nascendo a partir de materiais reciclados — a prova viva de que a imaginação, quando aliada à dedicação, pode dar nova vida a objectos do quotidiano. O tanque, ou melhor, a chaimite, foi construído a partir de uma caixa de ovos, meticulosamente recortada e adaptada até adquirir a forma robusta que simboliza a presença militar da época. A base, sólida e discreta, surgiu de uma caixa de sapatos, transformada em palco onde toda a narrativa se erguia. Os soldados, moldados em massa de papel, revelavam a fragilidade e, ao mesmo tempo, a firmeza de quem ousou sonhar com um país livre. As flores, cravos feitos de folhas...

"Manifesto – Flor do Tempo"

A flor do tempo não é apenas metáfora; é realidade oculta na nossa pele, no nosso coração, na forma como respiramos o instante. Ela lembra-me que a vida é frágil, mas não fútil; breve, mas não vazia; efémera, mas capaz de eternidade. Quando penso no tempo, não o vejo como um inimigo que me rouba dias. Vejo-o como o grande escultor invisível que me molda, como o vento que esculpe a rocha, como a água que fura a pedra. O tempo não vem apenas destruir; ele depura, revela, afina. É o tempo que transforma cicatriz em memória, dor em aprendizagem, ausência em presença invisível. A flor do tempo abre-se sem garantias. Nunca sei quando floresce, nem quanto tempo durará. Às vezes é uma gargalhada à mesa com os meus filhos. Outras vezes, um olhar silencioso partilhado com o meu marido. Outras ainda, uma lembrança que me vem visitar numa tarde de melancolia. A flor abre-se no inesperado, no detalhe, no que é pequeno aos olhos do mundo mas imenso para quem sente. O perfume da flor é o que fica. E ...