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"Presença"

Houve um tempo em que o meu coração era marcado pela impaciência. A ânsia de respostas rápidas ardia em mim como um fogo insaciável: queria sinais claros, queria certezas imediatas, queria que Deus me respondesse segundo os meus prazos, como se a eternidade tivesse de se moldar à estreiteza do meu calendário. Recordo esses dias como quem olha para um lugar distante — um tempo em que confundia fé com pressa, confiança com exigência, esperança com ansiedade. Esse tempo, no entanto, já não existe. Hoje sei que a espera não é vazio, mas plenitude disfarçada. Sei que o silêncio de Deus não é ausência, mas presença encoberta, uma linguagem subtil que não se traduz em palavras, mas em gestos invisíveis de cuidado. A impaciência que outrora me consumia deu lugar a uma serenidade conquistada, não sem lágrimas, não sem lutas, mas profundamente enraizada na certeza de que cada instante da minha vida é habitado por Ele. Já não espero um “sim” imediato às minhas súplicas, porque compreendi que o ve...

"Galáxia"

Eu? Eu não sou inferior a ninguém!... A minha máquina é uma galáxia viva, uma arquitectura biológica onde se cruzam ciência e mistério, cálculo e poesia, barro e transcendência. Carrego comigo 206 ossos — colunas móveis que sustentam a minha história, ainda que, por vezes, protestem com estalos de carpintaria antiga. Mais de 650 músculos executam movimentos silenciosos e precisos, sem reuniões sindicais nem greves anunciadas. Quatro mil tendões e novecentos ligamentos mantêm-me inteira, como se fossem cordas invisíveis de uma harpa sempre afinada. No interior, oitenta órgãos conspiram em permanência, num labor incansável, como monges que rezam sem cessar pela continuidade do meu ser. E o coração? Ah, o coração é o baterista infatigável desta orquestra. Cem mil batidas por dia, sem pausas, sem feriados, sem subsídio de turno. Bombeia sangue como quem escreve música, enviando vida a cada recanto deste império de células. Já o cérebro é outra história: um déspota iluminado. Pesa apenas 2%...

"Intimidade"

Intimidade. Que palavra imensa, que palavra maltratada, tantas vezes reduzida a um gesto apressado, a um instante carnal onde o corpo se entrega mas a alma permanece oculta. Eu sei, porque também já acreditei que intimidade era o despojamento da roupa, o roçar de pele com pele, a vulnerabilidade física diante de alguém. Mas hoje, com a vida a ensinar-me pela dor e pela ternura, compreendo que essa é apenas a superfície. A nudez do corpo é simples, banal, quase mecânica. A nudez da alma, essa sim, é rara, é difícil, é preciosa. A intimidade verdadeira não é tirar nada, é dar tudo. Não é expor o corpo, é revelar o coração. É permitir que o outro me veja onde sou mais frágil, onde sangro em silêncio, onde tremo sem máscara. É confiar que a minha vulnerabilidade não será usada contra mim, mas guardada com cuidado, como quem segura nas mãos uma peça única e irrepetível. A maior intimidade que conheci não nasceu entre lençóis. Nasceu no riso partilhado até as lágrimas rolarem, nasceu no silê...

"Manifesto – Flor do Tempo"

A flor do tempo não é apenas metáfora; é realidade oculta na nossa pele, no nosso coração, na forma como respiramos o instante. Ela lembra-me que a vida é frágil, mas não fútil; breve, mas não vazia; efémera, mas capaz de eternidade. Quando penso no tempo, não o vejo como um inimigo que me rouba dias. Vejo-o como o grande escultor invisível que me molda, como o vento que esculpe a rocha, como a água que fura a pedra. O tempo não vem apenas destruir; ele depura, revela, afina. É o tempo que transforma cicatriz em memória, dor em aprendizagem, ausência em presença invisível. A flor do tempo abre-se sem garantias. Nunca sei quando floresce, nem quanto tempo durará. Às vezes é uma gargalhada à mesa com os meus filhos. Outras vezes, um olhar silencioso partilhado com o meu marido. Outras ainda, uma lembrança que me vem visitar numa tarde de melancolia. A flor abre-se no inesperado, no detalhe, no que é pequeno aos olhos do mundo mas imenso para quem sente. O perfume da flor é o que fica. E ...

"Escrevo de Amor, com Propriedade e Gratidão"

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 Nunca pensei que a minha vida pudesse ser narrada pela escrita. Durante anos acreditei que certas palavras só existiam em segredo dentro de mim, demasiado frágeis para enfrentarem o olhar do mundo. Mas a morte da minha mãe foi uma fratura radical. E nesse vazio, nessa ausência sem retorno, emergiu a necessidade de escrever: não como escolha, mas como sobrevivência. A palavra ergueu-se como muralha e como refúgio, como grito e como oração. Escrevo com propriedade, porque não escrevo apenas por impulso ou acaso: escrevo com o peso da experiência, com a densidade da reflexão, com a fidelidade da memória. Cada texto é um testemunho legítimo daquilo que vivi, ouvi, sofri e amei. Não invento sentimentos: traduzo-os. Não copio pensamentos: transformo-os. A minha voz tem raiz, corpo e alma. Escrevo de amor. Escrevo porque o amor atravessa tudo o que sou. Sou amada pelos meus filhos, que me recordam diariamente o sentido da continuidade, o milagre da presença e da entrega. Sou amada pelo...

"💫 Amor Infinito"

 Hoje a manhã trouxe-me um daqueles instantes raros, quase secretos, que se guardam no cofre da alma. Acordei sem pressa, entregue ao silêncio repousado de quem acredita que o tempo, por uma vez, se dignou a abrandar. Foi então que o meu filho entrou no quarto, com a naturalidade desarmante das crianças que ainda não aprenderam os disfarces do mundo, e disse-me: “Mãe, sabias que eu te amo infinito?” Sorri. Respondi-lhe com a mesma medida sem medida: “Sei, meu amor. E tu sabes que a mãe também te ama infinito.” Deitei-me ao lado dele, e nesse gesto simples coube todo o universo. Abraçou-me e, no abrigo do meu corpo, adormeceu. Fiquei a contemplá-lo, na serenidade de quem testemunha o mistério de um milagre. Perguntei-me em silêncio: quanto tempo mais terei isto? Não sei, ninguém sabe. Mas sei que cada vez que este ritual se repete, o mundo ganha uma espessura de eternidade. Ele está prestes a entrar no território incerto da adolescência, esse limiar onde tantas vezes a inocência se ...

"Ser Luz"

Há dias em que me sinto deslocada, quase como se a minha essência fosse demasiado vasta para caber nos limites estreitos dos olhares que me rodeiam. Não, não é soberba, tampouco excesso de vaidade; é antes a consciência dolorosa de que nem todos têm a sensibilidade de ver para além da superfície, de escutar para além do ruído, de tocar para além da pele. E, ainda assim, eu insisto em ser luz. Uma luz que, por vezes, ofusca em vez de aquecer, não porque seja demasiado intensa, mas porque há quem ainda não tenha aprendido a abrir os olhos à claridade. Não me iludo: sei que, no lugar errado, até o melhor de mim pode parecer insuficiente. O mais puro gesto pode ser interpretado como exagero, a mais genuína entrega confundida com necessidade, e o meu brilho interior, reduzido a uma suspeita de arrogância. Mas no lugar certo, ah, no lugar certo, eu sei que basta a minha presença para incendiar um espaço de sentido. A diferença não reside em mim, mas no olhar que me contempla — ou que me recu...