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"Vitrário Íntimo"

 Quem acompanha o meu blogue desde o início reconhece, sem esforço hermenêutico excessivo, uma mutação profunda, quase tectónica. E não me refiro apenas ao polimento da escrita, ao alargamento do léxico ou à maturação estilística — isso seria uma leitura superficial, quase preguiçosa. Falo, sobretudo, da transfiguração da matéria íntima, da mudança de substância e de intenção. Este espaço foi, em tempos, um diário assumido, um território de confissão onde os dias se alinhavam como contas de um rosário imperfeito: aventuras miúdas, entusiasmos desmedidos, quedas silenciosas. Havia reflexão pessoal sem pudor, poemas escritos com a urgência de quem sangra em palavras, dor vertida em frases que não pediam absolvição. Nos relatos surgiam a família e os amigos, não como personagens literárias, mas como presenças vivas, falíveis, ternas. Comentava acontecimentos que me feriam e outros que me salvavam; nomeava defeitos e virtudes com a honestidade crua de quem ainda acredita que a verdade...

"Manifesto – Flor do Tempo"

A flor do tempo não é apenas metáfora; é realidade oculta na nossa pele, no nosso coração, na forma como respiramos o instante. Ela lembra-me que a vida é frágil, mas não fútil; breve, mas não vazia; efémera, mas capaz de eternidade. Quando penso no tempo, não o vejo como um inimigo que me rouba dias. Vejo-o como o grande escultor invisível que me molda, como o vento que esculpe a rocha, como a água que fura a pedra. O tempo não vem apenas destruir; ele depura, revela, afina. É o tempo que transforma cicatriz em memória, dor em aprendizagem, ausência em presença invisível. A flor do tempo abre-se sem garantias. Nunca sei quando floresce, nem quanto tempo durará. Às vezes é uma gargalhada à mesa com os meus filhos. Outras vezes, um olhar silencioso partilhado com o meu marido. Outras ainda, uma lembrança que me vem visitar numa tarde de melancolia. A flor abre-se no inesperado, no detalhe, no que é pequeno aos olhos do mundo mas imenso para quem sente. O perfume da flor é o que fica. E ...

"Ser Luz"

Há dias em que me sinto deslocada, quase como se a minha essência fosse demasiado vasta para caber nos limites estreitos dos olhares que me rodeiam. Não, não é soberba, tampouco excesso de vaidade; é antes a consciência dolorosa de que nem todos têm a sensibilidade de ver para além da superfície, de escutar para além do ruído, de tocar para além da pele. E, ainda assim, eu insisto em ser luz. Uma luz que, por vezes, ofusca em vez de aquecer, não porque seja demasiado intensa, mas porque há quem ainda não tenha aprendido a abrir os olhos à claridade. Não me iludo: sei que, no lugar errado, até o melhor de mim pode parecer insuficiente. O mais puro gesto pode ser interpretado como exagero, a mais genuína entrega confundida com necessidade, e o meu brilho interior, reduzido a uma suspeita de arrogância. Mas no lugar certo, ah, no lugar certo, eu sei que basta a minha presença para incendiar um espaço de sentido. A diferença não reside em mim, mas no olhar que me contempla — ou que me recu...