"Texto para a (Ana)"

Na cabeça de certas pessoas, tudo o que se escreve, partilha ou diz é automaticamente para elas. Não importa se a frase é algo tão universal como "o tempo cura todas as feridas" ou uma receita de lasanha — para essas mentes brilhantes, tudo é uma mensagem subliminar, uma crítica velada, um desabafo dirigido com precisão cirúrgica à sua existência única e incomparável. É quase como se tivessem um chip interno que as fizesse pensar: "Olha, está a falar de mim outra vez!"

E o mais curioso? Essas pessoas acham que estão no centro de todas as atenções, como se o mundo fosse um palco e nós, meros figurantes na sua grande epopeia dramática. Estão sempre prontas a interpretar qualquer frase, qualquer post nas redes sociais, como uma indireta pessoal. Escreves algo do tipo: “Hoje estou cansada de gente tóxica.” — e pronto! Lá está ela, a rainha da ofensa, a sussurrar para si mesma: “Eu sabia que era sobre mim!” Como se tivesses uma agenda secreta e a tua missão fosse atacá-la subtilmente nas redes, com uma foto do teu gato ou uma reflexão filosófica sobre o tempo.

Será que não conseguem perceber que existem mais pessoas no mundo? Que não, nem tudo gira à volta delas? É difícil acreditar, mas sim, há mais seres humanos no planeta, com histórias tão complexas, ou até mais, que a sua. E muitas dessas histórias são cíclicas, repetidas. Tipo moda. Hoje é calças à boca de sino, amanhã é sobre uma crise existencial. O que tu estás a viver já foi tendência em 1995, e adivinha? Voltará a ser em 2030, como um remake de novela mexicana.

É quase como se acreditassem que a história da sua vida fosse uma obra prima, uma saga épica e única que ninguém mais consegue compreender. A pessoa leva com um "está tudo bem?" num grupo de amigos e pensa: “Ai meu Deus, descobriram que ontem comi aquele último bolo escondido no frigorífico?!” Ou, pior: "Devem estar a insinuar que eu não sou confiável... será que descobriram os meus segredos?" Não, querida, ninguém quer saber do teu bolo, e o segredo que achas tão importante provavelmente já é piada de mesa de café há anos.

O mais engraçado é que, por vezes, a história é tão comum, tão batida, que podíamos fazer um reality show só com as mesmas situações a repetirem-se. Tipo: "Oh, meu namorado não me liga o suficiente." Amiga, isso é como o regresso das calças de cintura subida. Já foi moda, depois saiu, e agora voltou outra vez — e todos já passámos por isso. Ou a famosa: "O meu chefe não me valoriza!" Bem-vinda ao clube, onde a entrada é gratuita, e o drama é infinito. É como dizeres que preferes pizza a salada — todos temos esse dilema pelo menos três vezes por semana.

O que essas pessoas não entendem é que a vida, tal como a moda, é cíclica. A dor que sentes hoje já foi sentida por milhares antes de ti e será vivida por outros depois de ti. O desespero que achas teu e só teu já está documentado, categorizado, e provavelmente até tem um meme a ilustrar. Se estivéssemos todos a fazer questão de mandar indiretas, o mundo seria uma rede de mensagens secretas a vaguear pelas redes sociais, onde ninguém diz nada abertamente, mas toda a gente lê nas entrelinhas como se fosse o Código Da Vinci.

E convenhamos, viver com essa paranoia constante de que tudo e todos têm uma mensagem para ti deve ser exaustivo. Imagina, qualquer frase solta, qualquer piada, até uma citação de livro infantil pode ser um "ataque disfarçado". “O Pequeno Príncipe disse o quê? Que sou irresponsável com os meus compromissos?” Calma, o pobre príncipe só estava a falar de rosas. Ou será que as rosas eram sobre ti também?

No fim do dia, tudo o que podemos fazer é rir. Rir dessas almas sensíveis que veem conspirações em cada esquina, que transformam reflexões simples em telenovelas e que acreditam piamente que o universo lhes deve alguma explicação. Talvez o segredo seja aceitar que, na verdade, estamos todos a viver as mesmas histórias, com variações ligeiras, e que o verdadeiro drama só acontece quando alguém insiste em ser a estrela principal de um enredo que ninguém mais está a assistir.

Então, relaxa, respira, e aceita que o mundo não gira à tua volta. Porque, sinceramente, é mais fácil viver quando percebemos que nem todas as palavras são flechas e que, às vezes, uma publicação nas redes é só... uma publicação nas redes. E que, afinal, a vida é como a moda: cíclica, repetitiva, e cheia de reviravoltas que já vimos antes.








 

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