"Vamos rir..."
Encontro-me numa fase em que o melhor remédio é rir da própria situação, e a criatividade para lidar com o absurdo é a única resposta sensata. Recentemente, fui acusada de coisas tão peculiares quanto enviar e-mails que nunca enviei, violar contas, que não o faria nem sei, sem qualquer intenção e realizar ações que eu nem sequer sabia que eram possíveis. Parece que a minha vida virou uma série de comédia, com personagens e enredos tão elaborados que até um roteirista de ficção científica ficaria perplexo. Imaginação fértil e distorcida a da pessoa.
Para começar, há quem insista que sou uma pessoa com múltiplas personalidades, só pode visto a insistência. A teoria é que as minhas “outras personalidades” são responsáveis por estas façanhas misteriosas. Assim, comecei a considerar a hipótese de que posso estar a lidar com um espectro de personalidades cada uma mais excêntrica do que a anterior. Quem sabe, uma delas é uma artista de performance que envia e-mails bizarros só para animar o expediente. Se este for o caso, então talvez eu esteja apenas a esquecer-me de escrever o próprio enredo.
No entanto, a minha busca por explicações levou-me a considerar possibilidades ainda mais fascinantes. Se eu não sou eu mesma, então talvez haja uma entidade espiritual a ocupar o meu corpo. Neste caso, a solução pode ser uma visita a um padre exorcista ou a um centro espiritual. No melhor estilo de um épico de exorcismo, estou agora a ponderar sobre uma consulta com a Mãe de Santo e o Pai de Santo para um diagnóstico esotérico. Seria a minha própria versão de "Ghostbusters", mas com um toque de umbanda e candomblé.
Não contente com as abordagens convencionais, decidi explorar todas as vias possíveis. Fui ao hospital, à procura de respostas científicas, e também a terreiros de umbanda e candomblé, onde me ofereceu uma série de rituais e práticas espirituais. Fui aconselhada a consultar não só Zé Pelintra e Maria Navalha, mas também a Pomba Gira das Sete Encruzilhadas e o Caboclo Velho da Serra. Em cada consulta, o cenário parecia um misto de comédia e drama, com espíritos a oferecerem conselhos que variavam de “não leve a vida tão a sério” a “procure um terapeuta que faça um combo de psicologia e espiritualidade”.
Agora, tenho a sensação de que todos os envolvidos — seja o psiquiatra, o terapeuta, o padre, a mãe de santo ou os diversos espíritos — estão a preparar um grande show de comédia com a minha vida como palco. Penso que talvez sejamos todos os protagonistas de uma peça que mistura elementos de comédia absurda com uma análise profunda da condição humana.
Portanto, se há algo de realmente ridículo nesta situação, é a incrível quantidade de pessoas e práticas espirituais envolvidas na tentativa de resolver o que pode ser simplesmente uma série de mal-entendidos e acusações absurdas. Será que todos nós poderíamos estar a encontrar-nos num grande hospital psiquiátrico ou num terreiro, discutindo a nossa própria versão do “O Circo das Maravilhas”? Não seria a situação tão hilariante se não fosse trágica? Pois bem, o que resta é rir, apreciar o espetáculo e aceitar que a vida, por vezes, é uma comédia de erros digna dos mais sofisticados roteiros de stand-up. Fico a pensar, as pessoas não têm noção, não utilizam minimamente o cérebro. As limitações são gritantes, tanto que escrevem e falam coisas que não faz sentido algum. Onde está a inteligência e raciocínio lógico?
Vamos dizer e escrever o que eu imagino que é, sem comprovar nada, porque , não sei. Em vez de abrir a boca para falar coisas que parecem ter saído do intestino grosso, escrevam histórias de quinta categoria. Deixo o convite para uma consulta psiquiátrica! Bora lá!
E o mais curioso de toda esta história é a confiança cega daqueles que me acusam. As pessoas que têm todas as certezas, que dizem com convicção que enviei um e-mail que nunca escrevi, ou que invadi contas como se fosse uma hacker de filme, são as mesmas que só enxergam metade da realidade. A outra metade? Ah, essa nem sequer lhes interessa. Porque, afinal, a verdade completa é demasiado complexa e inconveniente. É mais fácil viver num mundo onde as respostas já estão prontas, onde não precisam de fazer perguntas incômodas nem refletir sobre o que pode, na realidade, estar a acontecer.
É como se vivessem numa bolha de segurança, onde tudo o que não encaixa no seu pequeno puzzle mental é simplesmente ignorado. “Se eu acredito, então é verdade.” Já a parte que não encaixa — os factos, a lógica, a racionalidade? Esses detalhes são apenas ruído de fundo. Mas a vida não é assim tão simples, e insistir em ver só uma parte da imagem faz com que percam o espetáculo todo.
É engraçado, no fundo, perceber que enquanto eu ando a questionar se estou possuída por algum espírito brincalhão, se as minhas personalidades alternativas andam a dar ordens nas sombras ou se um erro cósmico me colocou no centro de uma conspiração surreal, eles vivem numa segurança artificial. Talvez um dia, ao final deste circo, quando o pano cair e todos perceberem o quão ridícula é esta peça, será óbvio que enquanto riam das minhas supostas "esquisitices", eram eles que estavam presos no seu próprio enredo, cegos para metade do palco.
E é por isso que eu rio. Porque no final de contas, quem só vê metade do mundo perde o show completo.
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