Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta literatura contemporânea

"Vitrário Íntimo"

 Quem acompanha o meu blogue desde o início reconhece, sem esforço hermenêutico excessivo, uma mutação profunda, quase tectónica. E não me refiro apenas ao polimento da escrita, ao alargamento do léxico ou à maturação estilística — isso seria uma leitura superficial, quase preguiçosa. Falo, sobretudo, da transfiguração da matéria íntima, da mudança de substância e de intenção. Este espaço foi, em tempos, um diário assumido, um território de confissão onde os dias se alinhavam como contas de um rosário imperfeito: aventuras miúdas, entusiasmos desmedidos, quedas silenciosas. Havia reflexão pessoal sem pudor, poemas escritos com a urgência de quem sangra em palavras, dor vertida em frases que não pediam absolvição. Nos relatos surgiam a família e os amigos, não como personagens literárias, mas como presenças vivas, falíveis, ternas. Comentava acontecimentos que me feriam e outros que me salvavam; nomeava defeitos e virtudes com a honestidade crua de quem ainda acredita que a verdade...