"Porque o Pastor Nunca Chega Tarde"

Há palavras que uma pessoa escolhe para si quando ainda está viva.

Não as escolhe por acaso. Escolhe-as porque nelas encontrou abrigo quando tudo o resto parecia ruir. O meu irmão escolheu o Salmo 23. Não porque fosse o mais conhecido, nem porque fosse o mais belo aos olhos dos homens, mas porque ali encontrou uma verdade maior do que a sua própria história.

Pediu que fosse lido no seu funeral.

Não pediu elogios.

Não pediu que esquecessem os seus erros.

Não pediu que lhe inventassem uma vida sem quedas.

Pediu apenas que deixassem Deus falar por ele.

Esse pedido ficou por cumprir.

Hoje, como irmã, tomo a liberdade de o cumprir, ainda que as minhas palavras cheguem tarde. Porque o amor não conhece relógios. E há promessas que continuam vivas enquanto houver alguém disposto a carregá-las.

«O Senhor é o meu pastor...»

Talvez esta seja a frase mais difícil de pronunciar para quem passou grande parte da vida a sentir-se sozinho.

Há quem caminhe pela existência convencido de que nunca pertenceu verdadeiramente a lugar algum. Há quem cresça a aprender que sobreviver é mais urgente do que sonhar. Há quem procure em tantos caminhos aquilo que apenas um olhar de misericórdia consegue oferecer.

O meu irmão conheceu essa procura.

Conheceu o peso das escolhas, o deserto das consequências, a vergonha que tantas vezes cala uma alma e a esperança que, apesar de tudo, se recusa a morrer.

E um dia encontrou o Pastor.

Não porque fosse melhor do que os outros.

Mas porque descobriu que Deus nunca espera que uma ovelha esteja limpa para a tomar ao colo.

«...nada me faltará.»

A quem olha de fora, esta frase pode parecer impossível.

Faltou-lhe tanto.

Faltaram-lhe dias serenos.

Faltaram-lhe oportunidades.

Faltaram-lhe pessoas.

Faltou-lhe uma despedida rodeada daqueles que o amavam.

Morreu sozinho.

E esta verdade continuará a doer enquanto eu viver.

Mas talvez o salmista não estivesse a falar daquilo que as mãos conseguem segurar.

Talvez estivesse a falar da única realidade que nenhuma morte consegue roubar.

Quando Deus habita um coração, já nada lhe falta que seja eterno.

«Conduz-me...»

Como é belo pensar que Deus não empurra.

Conduz.

Não humilha.

Levanta.

Não grita.

Chama pelo nome.

O meu irmão conheceu caminhos difíceis.

Alguns escolheu.

Outros foram escolhidos por ele antes mesmo de compreender que existiam escolhas que nasciam de feridas antigas.

Mas Deus nunca confundiu o caminho percorrido com o destino preparado.

Continuou sempre a caminhar ao seu lado.

Mesmo quando parecia invisível.

«...junto das águas tranquilas.»

Há uma sede que nenhuma água da terra consegue matar.

É a sede de paz.

Durante anos procurou-a onde todos nós, por vezes, também a procuramos: em promessas que duram pouco, em fugas que parecem aliviar, em dias que apenas adiam a dor.

Até descobrir que existe uma água que não se bebe com os lábios.

Recebe-se com o coração.

E quem a encontra começa, finalmente, a descansar.

«Refrigera a minha alma.»

Há almas que envelhecem demasiado cedo.

Não por causa da idade.

Mas por causa do peso.

O peso da culpa.

O peso da memória.

O peso das palavras que nunca ouvimos.

O peso das palavras que nunca conseguimos dizer.

Creio que Deus conhece esse peso melhor do que qualquer ser humano.

Por isso não promete apagar o passado.

Promete restaurar a alma.

E uma alma restaurada não é uma alma sem cicatrizes.

É uma alma onde as cicatrizes já não têm a última palavra.

«Guia-me pelas veredas da justiça...»

Que expressão extraordinária.

Não diz que já caminhamos nelas.

Diz que somos conduzidos até elas.

Porque todos precisamos de aprender.

Todos precisamos de regressar.

Todos precisamos de alguém que nos mostre o caminho quando deixámos de acreditar que ainda existe um caminho.

Foi isso que aconteceu ao meu irmão.

Regressou.

Talvez lentamente.

Talvez em silêncio.

Mas regressou.

«Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte...»

Agora compreendo porque amavas tanto este versículo.

Ele não diz que o vale desaparece.

Nem que a morte deixa de doer.

Nem que o medo deixa de existir.

Diz apenas que a escuridão nunca é suficientemente profunda para apagar a presença de Deus.

Tu atravessaste esse vale sozinho aos olhos do mundo.

Mas recuso-me a acreditar que o tenhas atravessado sozinho aos olhos de Cristo.

Há solidões que pertencem à terra.

Nenhuma pertence ao Céu.

«...Tu estás comigo.»

Talvez esta seja a frase mais importante de todo o salmo.

Não porque responda às nossas perguntas.

Mas porque permanece quando todas as respostas falham.

Eu não sei porque morreste assim.

Não sei porque não pudemos estar contigo.

Não sei porque o sofrimento visitou tantas vezes a tua vida.

Mas sei que Deus não abandonou o lugar onde nós já não conseguíamos chegar.

E essa certeza sustenta hoje as minhas lágrimas.

«O teu cajado e o teu bordão me consolam.»

Há quem veja nestas palavras autoridade.

Eu vejo cuidado.

Porque só procura quem ama.

Só corrige quem não desistiu.

Só espera quem continua a acreditar.

Talvez Deus nunca tenha deixado de acreditar em ti.

Nem mesmo quando tu próprio já não acreditavas.

«Preparas uma mesa...»

Que imagem maravilhosa.

Depois de uma vida inteira a procurar um lugar, Deus prepara uma mesa.

Uma casa.

Uma pertença.

Não um tribunal.

Não uma humilhação.

Uma mesa.

É assim que ama um Pai.

«Unges a minha cabeça...»

O óleo cura.

Protege.

Consagra.

É como se Deus dissesse que nenhuma vida fica reduzida às suas quedas.

Há sempre uma dignidade que nenhuma culpa consegue destruir.

Porque ela não nasce do que fazemos.

Nasce do amor com que fomos criados.

«O meu cálice transborda.»

Quem diria que um homem que conheceu tantas perdas pudesse terminar a falar de abundância?

Mas talvez seja este o maior paradoxo da fé.

Quem encontra Deus descobre uma riqueza que nunca dependeu daquilo que possuía.

«A bondade e a misericórdia...»

Durante anos pensei que éramos nós a procurar Deus.

Hoje acredito que foi Deus quem nunca deixou de procurar o meu irmão.

Mesmo quando ele fugia.

Mesmo quando caía.

Mesmo quando recomeçava.

A misericórdia caminhou sempre atrás dele.

E alcançou-o.

«Habitarei na casa do Senhor...»

É aqui que termina tudo.

Ou talvez seja aqui que tudo começa.

Não na morte.

Não no sofrimento.

Não na culpa.

Na casa.

Talvez fosse essa casa que procuravas desde criança.

Talvez fosse esse abraço que sempre existiu, mesmo quando a vida parecia dizer o contrário.

Hoje continuo a chorar.

Porque a saudade não desaparece quando existe fé.

Mas a fé impede que a saudade seja desespero.

E é por isso que hoje, finalmente, compreendo o teu pedido.

Tu não querias apenas que lessem um salmo.

Querias que todos soubessem que a tua vida não terminava na última noite, nem nas tuas quedas, nem nas tuas fragilidades.

Querias que terminasse onde o salmo termina.

Na casa do Senhor.

Perdoa-nos por não termos escutado esse último desejo.

Mas acredita, meu irmão: nenhuma palavra que ficou por dizer na terra ficou por dizer diante de Deus.

Porque o Pastor que te chamou pelo nome muito antes de nasceres não precisou que alguém Lhe lesse o Salmo para saber que eras a ovelha que regressava a casa.

E eu acredito, com toda a esperança que ainda me resta, que foi precisamente aí que te encontrou.

Em casa.

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