"Pauta"

 Caminho por uma pauta infinita,

Onde cada nota é um passo incerto,

E a melodia, ora doce, ora aflita,

Traz-me o eco do que é certo e aberto.

A vida soa com timbre profundo,

Ritmando-me ao compasso do mundo.


As cordas da alma vibram, tensas,

Em busca do acorde perfeito e puro,

Mas é nas falhas que me pertenças,

E no imperfeito que encontro o seguro.

Pois há beleza no erro, no som dissonante,

Que me leva a sentir-me viva a todo instante.


Por vezes, sou piano de notas robustas,

Sustentando a canção com firmeza,

Noutras, flauta suave, de linhas justas,

Deslizando na melodia com leveza.

E entre esses extremos de som e silêncio,

É onde me descubro, vulnerável e imenso.


Há dias em que o compasso hesita,

E o silêncio se estende por entre as notas,

É aí que a alma, mesmo aflita,

Aprende a escutar suas próprias derrotas.

E no vazio, no eco do nada,

Floresce a próxima canção, ainda calada.


Mas a pauta da vida, já traçada,

Carrega um fim no horizonte distante,

Mesmo assim, cada nota tocada

É como uma estrela num céu cintilante.

Pois o encanto reside no meio, no agora,

E não no destino que se avista lá fora.


Cada acorde, cada som é escolha,

Entre o certo e o improviso constante,

E danço entre ambos, sem quem me tolha,

Abraçando o erro, sem medo do instante.

Afinal, a liberdade é tocar sem partitura,

Seguindo o coração com doçura e ternura.


Nos compassos altos, toco com vigor,

Sentindo o pulsar de uma sinfonia plena,

Mas é nos silêncios que entendo o valor

Do tempo, da pausa, da espera serena.

É o espaço entre as notas que me ensina,

A saborear a vida, doce ou ferina.


Entre altos e baixos, surge a harmonia,

Não no que é previsível, mas no inesperado.

Cada novo compasso traz-me alegria,

Mesmo que o destino já esteja traçado.

Pois o segredo é sentir a emoção,

E fazer da vida a minha canção.


Há um ritmo que nunca se cala,

Mesmo quando a alma quer desistir,

E, embora a pauta, às vezes, embale,

É nas dissonâncias que escolho persistir.

Cada erro, cada falha, é um verso,

Escrito no infinito do universo.


Por vezes, sou mar, por vezes, sou rio,

Que flui entre margens, sem direção.

Em alguns dias, sou brisa no estio,

Em outros, um vendaval em expansão.

Mas, em tudo, há uma melodia constante,

Que me leva sempre em frente, radiante.


E mesmo com o fim já lá distante,

Como o último acorde de uma canção,

Não deixo de tocar, de ser vibrante,

De seguir ao som do meu coração.

Porque é no presente que me realizo,

E em cada nota nova, me reviso.


A vida é, assim, uma sinfonia intensa,

Que não se repete, que nunca cessa,

E, mesmo que o fim traga a sentença,

É no agora que a alma tropeça.

E é no tropeço que encontro o rumo,

Que me leva à luz, ao todo e ao sumo.


Assim, toco a minha pauta, a minha melodia,

Sabendo que há um fim, mas não o temendo,

Pois em cada compasso encontro a poesia,

E em cada pausa, o silêncio me compreendendo.

A vida não precisa de perfeição,

Apenas de emoção, de pura expressão.


Por isso sigo, como maestro imperfeito,

Conduzindo minha orquestra interior,

Sabendo que o que importa é o efeito

De cada nota, de cada som, de cada cor.

E assim, no final, a melodia finda,

Mas o que ficou, para sempre, é ainda.

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Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).

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