"Não sou escritora"

 Eu não sou escritora, sou uma escrivinhadora. Escritora é aquele ser refinado, que domina as palavras com maestria, uma artista cujas criações fluem com elegância e precisão, transformando simples frases em obras de arte literárias, verdadeiras sinfonias de letras e pensamentos. Escritora é quem consegue, com uma delicadeza quase mística, conduzir o leitor por entre paisagens emocionais, ideias complexas e mundos fictícios, sempre com a certeza de que, ao final da jornada, haverá uma conclusão, uma epifania, ou, pelo menos, uma sensação de completude. O texto da escritora é polido, revisado, ponderado, lapidado como uma joia preciosa até que cada palavra esteja no lugar certo, brilhando no contexto certo.

Eu, por outro lado, sou uma simples escrivinhadora. Faço o que posso com as palavras, e quase sempre de maneira desajeitada. Escrivinhadora é aquele termo que carrega em si a humildade de quem lida com a linguagem como quem lida com uma matéria-prima rebelde, difícil de moldar. Escrevo porque as palavras não me deixam em paz, porque as ideias, ainda que embaralhadas, insistem em sair de dentro de mim. No entanto, ao contrário da escritora, eu não tenho a ilusão de controle absoluto sobre elas. As minhas palavras são como peças de um quebra-cabeça cuja imagem final nunca foi revelada – tento encaixá-las, torcendo para que, no final, o todo faça algum sentido. Mas muitas vezes, não faz.

Enquanto a escritora tem total domínio sobre o que quer dizer, eu navego em mares de incerteza. Escrever, para mim, é uma constante luta com o caos. As ideias surgem aos trambolhões, disputando espaço umas com as outras, desordenadas, cada qual querendo se manifestar antes de ter sido devidamente refletida. Tento alinhá-las, mas, na maioria das vezes, elas ganham vida própria e fogem da intenção original, levando-me por caminhos que nem eu mesma previa.

O que me separa da escritora não é apenas a habilidade técnica – é também a intenção. Enquanto a escritora talvez escreva para ser lida, para iluminar o mundo com suas reflexões cuidadosamente elaboradas, eu escrevo porque preciso. Escrevo porque as palavras me empurram. Elas estão lá, como uma multidão inquieta, dentro de mim, exigindo ser colocadas no papel, nem que seja de forma desajeitada, improvisada. É quase como uma terapia – cada palavra que deixo escapar me traz algum alívio, como se as estivesse libertando de um confinamento forçado.

Escrevo sem a ilusão de grandeza, sem pretensões literárias ou ambições de reconhecimento. As minhas palavras não são aquelas que ecoarão por séculos, não são aquelas que definirão uma era ou uma geração. Elas são, no máximo, uma tentativa de autoexpressão, de tentar entender a mim mesma e o mundo ao meu redor. Escrevo porque, de alguma forma, é o único jeito de lidar com a cacofonia de pensamentos que me invade diariamente. É um alívio temporário, mas necessário. E mesmo que o produto final não seja uma obra-prima, ao menos é um reflexo honesto do meu caos interior.

A diferença entre escritora e escrivinhadora é que, enquanto a primeira vê a escrita como uma arte elevada, como um processo que envolve rigor, paciência e técnica, eu vejo a escrita como uma luta, uma batalha diária com as palavras. Eu rabisco, rascunho, erro e recomeço, muitas vezes sem saber para onde estou a ir ou se algum dia chegarei a algum lugar. A escritora parece dançar com as palavras, enquanto eu tropeço nelas. Ela domina, eu resisto.

E no meio desse processo de resistência, nasce a escrita da escrivinhadora. Não há polidez, não há lapidação minuciosa, há tentativa. É quase como uma confissão: a confissão de quem sabe que não vai alcançar a perfeição, mas que ainda assim tenta. Porque no fundo, ser escrivinhadora é aceitar a imperfeição do processo, é saber que as ideias podem ser tortas, que o texto pode ser cheio de buracos, mas que o importante é não desistir de escrever. Escrevo com a sensação de que, talvez, um dia, algo fará sentido. Talvez, ao fim de tanto rascunho, algo surja que tenha valor.

Mas também há um certo conforto em ser escrivinhadora. Enquanto a escritora carrega o peso da expectativa – a dela e a dos outros –, eu escrevo livre desse fardo. Escrevo sem ter de corresponder a padrões elevados, sem a pressão de produzir algo sublime. A escrita da escrivinhadora é uma escrita de liberdade, uma escrita que não se prende a fórmulas nem a expectativas externas. É uma escrita que existe porque sim, porque precisa de existir, mesmo que não seja perfeita, mesmo que nunca seja digna de aplausos.

No fundo, ser escrivinhadora é ser humana. É aceitar que a linguagem, tal como a vida, é imperfeita, cheia de falhas, de tentativas frustradas e de momentos de confusão. É saber que, por mais que tentemos controlar as palavras, elas têm vida própria, assim como os nossos pensamentos e sentimentos. Ser escrivinhadora é, de certa forma, celebrar essa imperfeição, abraçar o processo como ele é, com todas as suas falhas e incertezas.

Enquanto a escritora busca a obra-prima, eu, como escrivinhadora, busco apenas o próximo rascunho. Não estou atrás de elogios ou de reconhecimento, estou atrás de compreensão – não dos outros, mas de mim mesma. Cada palavra, cada frase, é uma peça do puzzle da minha própria existência, uma tentativa de dar sentido ao que muitas vezes não faz sentido algum.

Escrevo porque preciso, não porque sei. Porque no final das contas, ser escrivinhadora não é sobre saber, é sobre continuar a tentar, mesmo quando as palavras parecem fugir, mesmo quando o texto se recusa a fazer sentido. Porque, no fundo, escrever não é um fim – é um meio. Um meio de existir, de expressar, de resistir. E isso, para mim, já é o suficiente.

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