"Ilusão."
O homem, qual barca em mares revoltos,
Navega na névoa densa da ilusão,
Buscando no eco vazio, sem razão,
O conforto dos ventos, falsos, soltos.
Mais fácil é crer no sussurro enganos
Que dança nas sombras da alma inquieta,
Do que ver na luz clara e completa
A verdade que, por ser nua, é insana.
Porquê esta sede de sombra, esta ânsia
De desviar os olhos do que é claro?
É talvez porque o falso é menos caro,
E à mentira se abraça a ignorância.
A verdade, rígida como rocha fria,
Traz consigo o peso do absoluto,
E o humano, que é frágil, ama o oculto,
Prefere a penumbra à luz do dia.
Na crítica feroz encontra abrigo,
Pois nela jaz a miséria alheia,
E quem na dor do outro se enleia
Sente no seu próprio peito um amigo.
Destruir é simples, fácil, risonho,
É lançar pedra onde o vidro quebra,
E ao ver que a construção se leva,
Esquiva-se o coração do esforço tristonho.
Mas criar... oh, criar é bem mais duro!
É erguer a alma a par de cada gesto,
E quando, no silêncio, é manifesto
O fruto do labor, jaz nele o futuro.
Mas quantos ousam plantar na terra dura,
Que exige suor, paciência e vontade?
Fácil é crer que a realidade
É menos bela que a própria impostura.
Assim o homem, de mente contorcida,
Busca no espelho a sombra distorcida,
E nela vê, não a sua própria vida,
Mas o eco do mundo em fuga perdida.
A verdade é claridade impiedosa,
Que exige coragem e força bravia,
Mas quem prefere a rota mais sombria
Caminha nas brumas, alma ansiosa.
E assim, entre a mentira que encanta
E a verdade que pesa e nos arranca
Da zona de conforto, o homem banca
O amante da ilusão que o acalanta.
Que mais belo seria se, no dia,
Se ousasse erguer à pura criação,
Não temendo o erro, mas a ação,
E à verdade rendesse honras e valia.
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