"Inércia"
É absolutamente irritante constatar a passividade das pessoas em situações tão preocupantes. Hoje, na festa, deparo-me com uma cena que me perturbou profundamente. Uma jovem adulta, visivelmente alterada pelo álcool, acompanhada por dois rapazes – um deles, um tanto baixinho. Algo na situação não me agradou e, decidida a não ser mais uma espectadora passiva, aproximei-me. Perguntei-lhe diretamente se conhecia aqueles dois, mas nem sequer consegui uma resposta clara. O mais alto, claramente incomodado com a minha intervenção, fez logo questão de mostrar o seu desagrado. O "gnomo de jardim", como se quisesse desviar o foco, atirou: "Quer dançar?" – e antes que eu pudesse recusar, agarrou-me na mão.
Confesso, tive de respirar fundo. Com toda a calma, mas sem esconder a firmeza, disse-lhe que era casada. A resposta? Surreal. "Eu mantenho sigilo e ainda te ensino umas coisas", disse ele, convencido. Não pude deixar de soltar uma gargalhada interna. Olhei-o nos olhos e respondi, sem pestanejar, que eu poderia ensiná-lo muito mais, mas infelizmente não sou pedófila. Acrescentei que me respeito demasiado para aceitar qualquer proposta vinda de alguém que, visivelmente, não sabe onde está metido.
A situação começou a aquecer e, embora eu estivesse perfeitamente capaz de lidar com aquilo sozinha, eis que surge um senhor, cheio de boas intenções, com ar de quem vem "salvar a donzela em apuros". Como se eu precisasse de ser salva! Respirei fundo, mais uma vez. Não queria transformar a situação numa cena ainda maior. Só me retirei do local quando a polícia chegou para esclarecer se, afinal, a jovem conhecia ou não aqueles dois rapazes.
Fiquei perplexa com o desinteresse geral. Como é possível estarmos rodeados de pessoas que fingem não ver o que se passa à sua volta? Todos viram, mas ninguém quis intervir. Preferem o conforto da inércia ao desconforto de fazer o que é certo. Mas eu? Eu não consigo ignorar. Não me permito ser cúmplice desse silêncio que tantas vezes encobre o pior das situações.
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