"Estes dias."
Desde sexta-feira que a minha vida tem sido uma verdadeira correria. Mal o sol se atreveu a surgir no horizonte, já eu estava a caminho do Alentejo, embrenhada na imensidão de campos e na serenidade bucólica que caracteriza aquela terra. A viagem logo pela madrugada, com a fresca a acariciar-me o rosto, parecia prometer um dia tranquilo. Mas, mal dei por mim, já estava de volta, ansiosa por uns breves momentos de descanso, que logo se dissiparam diante da promessa de uma festa na terrinha. E quem sou eu para recusar? Festa é festa, e a animação parece correr-me nas veias.
A noite foi uma mistura deliciosa de passos de dança e conversas intermináveis, até que o cansaço me venceu, quase sem me aperceber. Quando a manhã seguinte irrompeu, deslizei para fora da cama como se cada músculo do meu corpo estivesse em protesto contra aquela nova aventura. Mas lá fui, de novo, rumo ao Alentejo.
E lá, em plena solidão dos campos, a minha companhia matinal são as vacas. Sim, vacas. Que me olham, com aqueles olhos grandes e lânguidos, cheios de uma calma que me escapa completamente. Imagino-as a cochicharem entre si, talvez a pensar: "Mas que faz esta mulher? Está ali a mexer na terra, a fazer barulho, enquanto nós tentamos dormir mais um pouco debaixo da árvore?". E não as posso censurar. De facto, parece uma cena absurda. Eu, ali, debaixo daquele sol crescente, enquanto elas, tão sábias, permanecem refasteladas na sombra, como que a lembrar-me que, por vezes, a verdadeira sabedoria está em saber descansar.
Pergunto-me, porquê? Talvez elas saibam de algo que eu ainda estou a aprender. Mas, para já, sigo o meu caminho, entre as vacas e o calor do Alentejo, ainda a tentar decifrar o mistério dessa sua serenidade enigmática.
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