Não sou a mesma... Têm razão
Dizem que já não sou a mesma pessoa. E é verdade, mudei. Mudou a minha forma de pensar, as minhas atitudes, a maneira como me posiciono perante a vida. E sabem que mais? A mudança foi inevitável, quase forçada, porque as crenças que eu outrora abraçava revelaram-se ilusões que me arrastaram para erros dolorosos, erros que me marcaram profundamente.
Acreditei, por um tempo, que a dignidade era um princípio universalmente respeitado. Que todos, ou quase todos, partilhavam essa noção de respeito mútuo, essa ética básica de convivência. Errei. Descobri que a dignidade é uma moeda escassa, e que muitos estão dispostos a vendê-la ao preço da conveniência. Essa constatação fez-me recuar, fez-me fechar ainda mais as portas que sempre mantive entreabertas, porque percebi que confiar na integridade dos outros é, muitas vezes, um risco demasiado elevado.
Acreditei também no poder quase místico do diálogo assertivo, transparente e honesto. Na minha inocência, achei que a verdade dita com clareza era suficiente para sanar quase todas as desavenças, para esclarecer todos os mal-entendidos. Ah, mais uma vez, errei. O diálogo não tem o poder que eu lhe atribuía, pelo menos não quando esbarra em ouvidos que não querem ouvir. Descobri que a verdade pode ser distorcida, manipulada, e que há quem prefira mentir para si próprio a encarar a crueza de uma conversa franca.
Outro erro, e este quase me faz rir pela ingenuidade, foi acreditar que a troca de informações entre a escola e os encarregados de educação era crucial, eficaz e mutuamente benéfica. Ingénua, achei que essa comunicação seria uma ponte de entendimento, um canal de cooperação pelo bem comum. Pois bem, errei. As instituições nem sempre têm interesse em facilitar o diálogo, e muitas vezes não passam de uma máquina burocrática onde os problemas são varridos para debaixo do tapete, até que ninguém mais os consiga ver — ou, pelo menos, finja que não os vê.
Talvez o erro que mais me custe admitir seja o de acreditar que a maioria das pessoas que eu conhecia era incapaz de magoar uma criança, muito menos para me ferir a mim. Esse erro cortou mais fundo do que eu poderia imaginar. A realidade é que alguns seres humanos são mestres na arte da manipulação, e as suas motivações podem ser tão distorcidas que até as crianças se tornam peças de um jogo sórdido. Subestimei a maldade. Julguei que era boa a identificar desumanidade, que sabia reconhecer uma índole corrompida à distância. Errei, e errei de forma monumental.
E tudo isso – todos esses erros, todas essas ilusões que se desmoronaram – afetaram-me profundamente, mas o pior é que não foram apenas as minhas feridas que tive de carregar. Foram os meus que mais sofreram. Na minha tentativa de manter a cabeça erguida, de acreditar no bem, deixei que aqueles que mais amo fossem vulneráveis aos males do mundo. Eu, que sempre fui fechada, cautelosa, criei um crivo rigoroso, mas até os poucos que passaram por ele revelaram-se erros. Parece que, apesar de todos os cuidados, continuei a falhar na avaliação de quem realmente merece a minha confiança.
Chega a ser irónico, não é? Uma pessoa já calejada, que viu e ouviu quase tudo, ainda se surpreender com a capacidade alheia de enganar, de trair, de desiludir. E aqui estou, depois de tantos enganos, com uma nova certeza: já me fizeram quase tudo, já disseram quase tudo sobre mim. E, no entanto, aqui estou, de pé, mais endurecida, menos crente na bondade humana, mas talvez, de certa forma, mais realista.
Agora, acertar em mim? Essa tarefa tornou-se praticamente impossível. Não porque me acho invulnerável, mas porque as minhas cicatrizes servem como uma armadura que poucos conseguem penetrar. Já foi feito tanto, já foi dito tanto, que o que resta é apenas uma versão mais sagaz, mais cautelosa de mim mesma. E, se isso me torna diferente aos olhos dos outros, paciência. Prefiro ser uma versão desconfiada, mas protegida, do que uma alma ferida a caminhar no campo minado que é a natureza humana.
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