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"Porque Estamos a Correr?"

Hoje acordei cedo. Antes de qualquer compromisso, antes do ruído das notificações, antes de o mundo reclamar a minha atenção, sentei-me a escrever. Não procurei respostas. Procurei perguntas. E uma delas recusou abandonar-me. Porque estamos a correr? Corremos desde o instante em que aprendemos a medir a vida em resultados. Corremos para terminar cursos. Corremos para construir carreiras. Corremos para educar filhos. Corremos para pagar contas. Corremos para sermos reconhecidos. Corremos para não parecermos insuficientes. Corremos para chegar antes dos outros. Mas, de repente, uma segunda pergunta tornou a primeira quase insignificante. Chegar onde? E logo surgiu uma terceira, ainda mais desconfortável. Alcançar o quê? Talvez a grande tragédia da condição humana nunca tenha sido a velocidade. Talvez tenha sido esquecer o destino. Porque uma vida acelerada pode continuar a ter sentido. Uma vida sem horizonte transforma-se apenas num movimento incessante. Recordei então algumas homilias d...

"Escrevo de Amor, com Propriedade e Gratidão"

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 Nunca pensei que a minha vida pudesse ser narrada pela escrita. Durante anos acreditei que certas palavras só existiam em segredo dentro de mim, demasiado frágeis para enfrentarem o olhar do mundo. Mas a morte da minha mãe foi uma fratura radical. E nesse vazio, nessa ausência sem retorno, emergiu a necessidade de escrever: não como escolha, mas como sobrevivência. A palavra ergueu-se como muralha e como refúgio, como grito e como oração. Escrevo com propriedade, porque não escrevo apenas por impulso ou acaso: escrevo com o peso da experiência, com a densidade da reflexão, com a fidelidade da memória. Cada texto é um testemunho legítimo daquilo que vivi, ouvi, sofri e amei. Não invento sentimentos: traduzo-os. Não copio pensamentos: transformo-os. A minha voz tem raiz, corpo e alma. Escrevo de amor. Escrevo porque o amor atravessa tudo o que sou. Sou amada pelos meus filhos, que me recordam diariamente o sentido da continuidade, o milagre da presença e da entrega. Sou amada pelo...

"A Liberdade de Ser Julgada: Monólogo entre Pessoa e Eu"

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Ontem, uma amiga enviou-me uma frase pelo WhatsApp — “A tua maior conquista é aceitar que o que os outros pensam de ti é problema deles” . E eu sorri. Sorri com aquele sorriso cúmplice de quem reconhece uma verdade antiga, já pressentida, já vivida. Disse-lhe, sem hesitar: “ concordo plenamente, vou utilizar!" Aqui está. E aqui estou, a transformar essa frase simples num rio de palavras, porque em mim nada é simples: tudo se expande, tudo se multiplica, tudo se torna reflexão. Há muito tempo que faço este exercício de desapego. Mas, paradoxalmente, nunca deixa de ser difícil. Porque o olhar dos outros é como um espelho deformado: devolve-me versões de mim que não reconheço, mas que, por vezes, quase acredito. Quantas vezes não me vi através de opiniões que nada tinham a ver comigo? Quantas vezes fui demasiado para uns e insuficiente para outros? Pessoa, com o seu humor melancólico, teria achado graça. Ele, que foi “tudo de todas as maneiras”, sabia que nenhuma interpretação extern...

"Silêncio e Arrumação"

 Hoje, finalmente, estou de folga. Folga relativa, porque a vida raramente nos dá intervalos absolutos. Não fui trabalhar, não saí com a família, não combinei nada com amigos, nem levei a minha cadela a passear. Comecei a manhã com um café tranquilo, desses que sabem melhor porque não há relógio a empurrar. Arrumei a casa e terminei um dos livros que me acompanhava há dias. Quando fechei a última página, dei por mim a olhar para o relógio e a pensar: e agora? É curioso como passamos tanto tempo a desejar tempo livre e, quando o conquistamos, não sabemos o que lhe fazer. Mas eu gosto do silêncio. O silêncio não me pesa. Ele é o lugar onde me volto a encontrar. Não preciso de o preencher a todo o custo, como quem tem medo de se ouvir. O silêncio, para mim, é música discreta que afina a alma. Ainda assim, decidi ir até à lojinha com a minha madrinha de crisma. Não porque quisesse fugir do silêncio, mas porque havia que arrumar. E arrumar, para mim, é também um gesto espiritual. Organi...

"Coragem, Paz e Autenticidade"

 Eu costumo dizer que não tenho medo de ninguém. Não é heroísmo de catálogo, é higiene mental. O medo existe; não o nego, não o romantizo. Engulo-o — mesmo quando sabe a ferrugem e vinagre — e avanço. A coragem, na minha gramática, é metabolismo: transformar pânico em passo, tremor em decisão. Contudo, a minha saúde ensinou-me um capítulo que a literatura da valentia costuma censurar: há batalhas que são, simplesmente, perda de glóbulos brancos. Fujo, sim. Evito, sim. Afasto-me sem remorso de certas pessoas e ambientes. Não por preconceito: por paz. Quem me acusa de fuga confunde teimosia com bravura e martírio com sentido. Eu escolho viver — e viver em paz dá trabalho. Sou mãe. Educo pelo exemplo, porque descobri que a moral sem musculatura quotidiana é monólogo inútil. Os meus filhos não são o porta-estandarte de um manual de perfeição — que ideia risível —; são a prova quotidiana de que autenticidade, sinceridade, respeito, partilha, paciência e altruísmo são competências treiná...

"Subjetiva"

 É mais fácil ver os problemas nos outros em vez de ver os nossos por várias razões psicológicas e sociais. Primeiramente, a projeção é um mecanismo de defesa que nos permite atribuir a outros pensamentos e sentimentos que são difíceis de aceitar em nós mesmos. Quando vemos defeitos nos outros, estamos frequentemente a refletir as nossas próprias inseguranças e falhas, sem o saber conscientemente. Além disso, a nossa perceção é inevitavelmente subjetiva. Tendemos a interpretar as ações e palavras dos outros através das nossas próprias experiências e preconceitos, o que pode levar-nos a ver defeitos inexistentes ou a tomar atitudes de forma pessoal, mesmo quando não são dirigidas a nós. Este fenómeno é amplificado pelo egocentrismo natural, a tendência de ver o mundo principalmente a partir da nossa própria perspetiva, o que pode resultar na leitura de textos ou situações como sendo diretamente sobre nós, mesmo que não sejam. A leitura de um texto e a sua interpretação como sendo di...