"Entregar.... Terminado"
Entrego o dia como quem regressa ao princípio — não ao início cronológico das coisas, mas ao lugar onde tudo ainda é inteiro, antes de ser interpretado, distorcido, nomeado. É um gesto íntimo, quase secreto, onde me desarmo de mim mesma. Não levo máscaras, não levo justificações. Levo apenas o que sou naquele exacto instante: a soma imperfeita de tudo o que fiz, pensei, calei, desejei e falhei. E entrego. Entrego como quem sabe que há uma inteligência maior do que a minha a sustentar o fio invisível da existência. Porque, no fundo, viver é caminhar sobre um tecido que não vemos, confiando que não cede. E essa confiança não nasce da ausência de dor, mas da experiência repetida de que, mesmo quando tudo parece ruir, há algo que permanece — silencioso, firme, inexplicável. Peço discernimento não como quem quer controlar o futuro, mas como quem quer habitar o presente com lucidez. Porque decidir é um acto profundamente solitário. É o instante em que todas as vozes — as herdadas, as...