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“Juventude em manutenção”

 Sabemos que estamos oficialmente a entrar naquela fase delicada da vida chamada “juventude em manutenção” quando vamos para os Passadiços do Paiva com entusiasmo de influencer fitness… e ao fim de dez escadas já estamos a reconsiderar todas as decisões que nos trouxeram ali.  Fui com a minha amiga. A amiga das energias. Dos cristais. Dos incensos. A mulher que acredita genuinamente que uma pedra retirada do interior da Terra consegue equilibrar chakras, afastar más vibrações e abrir caminhos espirituais… mas que nem com três ametistas e um quartzo rosa conseguiu abrir os pulmões naquela subida.  Ela aparece sempre preparada para tudo. Mochila minimalista. Água alcalina. Cristal “para proteção energética”. Spray de lavanda “para ansiedade”. Parecia pronta para uma peregrinação espiritual no Tibete. Coitada. Nem sabia que ia apenas subir escadas até entrar em contacto direto com Jesus Cristo.  E lá fomos nós. Todas felizes. Outfit pensado ao detalhe como duas ...

"Explicação"

 Como alguns já repararam, ultimamente não publico os textos de imediato. E há até alguns que nunca chegam aqui. Os motivos pertencem-me e permanecem no espaço reservado das coisas que nem sempre precisam de explicação pública. Talvez escrever também seja isto: escolher o que se revela e o que se protege. Ainda assim, os textos que aqui chegam vêm sempre na sua melhor versão. São os mais depurados, os mais sentidos, os mais próximos daquilo que realmente quero deixar dito. Porque certas palavras exigem tempo antes de encontrarem o lugar certo onde existir. Nos últimos tempos, tenho partilhado mais no meu Facebook e no meu WordPress. São espaços mais privados, mais silenciosos, onde posso escrever com outro ritmo, ilustrar com fotografias, explorar outros temas e permitir que os textos respirem de forma diferente. Há uma intimidade particular nesses lugares — uma liberdade mais serena, menos sujeita ao ruído imediato. Contudo, os textos que têm maior aceitação acabam, mais tarde, po...

"Como Reconhecer um Estúpido"

 Como Reconhecer um Estúpido (num Mundo Cheio Deles), de Robert Musil, é muito mais do que um pequeno ensaio sobre comportamentos irritantes do quotidiano. Apesar do título parecer quase humorístico ou provocador, o livro apresenta uma reflexão séria, filosófica e até desconfortável sobre um tema que quase toda a gente acredita compreender facilmente: a estupidez humana. Musil parte de uma ideia fundamental e surpreendente: a estupidez não é simplesmente falta de inteligência. Pelo contrário, muitas vezes manifesta-se precisamente em pessoas instruídas, cultas, bem posicionadas socialmente e até admiradas pelos outros. O autor desmonta a ideia simplista de que o “estúpido” é apenas alguém ignorante ou com pouca formação. Para ele, essa é apenas a forma mais visível e menos perigosa do problema. Ao longo da obra, distingue essencialmente dois tipos de estupidez. A primeira é a estupidez simples, mais próxima da ingenuidade ou da limitação natural de conhecimento. Esta pode até despe...

"Bode expiatório"

 Há quem diga que a memória é um refúgio; no meu caso, é também um arquivo implacável. Não esquece, não suaviza, não negocia com o tempo. Recorda com a nitidez de quem sabe que a verdade, mesmo quando distorcida pelos outros, deixa sempre vestígios — e eu aprendi a lê-los. Fui, em momentos distintos, aquilo a que chamam bode expiatório. Não por vocação, mas por conveniência alheia. É sempre mais fácil concentrar a culpa numa só pessoa do que distribuí-la pela complexidade dos factos. Há uma espécie de economia moral nisso: simplifica-se o erro, purifica-se o grupo, sacrifica-se o indivíduo. E assim se constrói uma narrativa confortável, onde a verdade é menos importante do que a estabilidade das aparências. Eu conheço bem esse mecanismo — não o estudei apenas, vivi-o. Senti o peso silencioso de carregar culpas que não eram minhas, e o mais subtil ainda: a expectativa de que o fizesse com discrição, quase com gratidão. Mas se o bode expiatório é o corpo que absorve a culpa, o gasl...

"Etapas"

 Há frases que não se limitam a ser lidas — desinstalam. Instalam-se num lugar mais profundo do que o pensamento imediato, obrigam a uma pausa que não é confortável e revelam, com uma clareza quase implacável, aquilo que tantas vezes preferimos manter difuso. Quando li que “a sociedade é apenas pecadores a julgar outros pecadores por pecarem de forma diferente”, não encontrei apenas uma ideia provocadora — encontrei um espelho. E os espelhos, quando são verdadeiros, não suavizam. Vivemos numa cultura onde o julgamento se tornou quase uma linguagem comum. Opina-se com facilidade, avalia-se com rapidez, condena-se com uma convicção que raramente é acompanhada por introspecção. Há sempre uma análise pronta sobre o erro do outro, sobre a escolha que falhou, sobre o comportamento que não corresponde ao que se considera aceitável. Mas essa prontidão levanta uma questão inevitável: Com que legitimidade julgamos? Não no plano moral abstracto, mas no plano humano concreto. Porque, se formos...

"Palavras "

 Há palavras que passam por nós como luz sobre água — tocam, brilham por um instante e dissipam-se sem deixar rasto. Outras, porém, entram como lâmina fina, silenciosa, e permanecem. Não porque sejam mais verdadeiras, mas porque encontram em nós um terreno antigo, preparado ao longo de milénios para reconhecer o perigo antes de acolher a beleza. O cérebro humano não é neutro; é vigilante. Foi moldado num tempo em que sobreviver dependia menos da celebração do que da antecipação da ameaça. Nesse contexto, o elogio nunca foi urgente — mas o insulto, a crítica, o sinal de rejeição, esses podiam significar exclusão, risco, vulnerabilidade. E o que era risco precisava de ser lembrado. Assim se construiu esta assimetria silenciosa: o negativo fixa-se, o positivo escorre. Uma palavra dura não é apenas ouvida — é registada, analisada, arquivada com um cuidado quase obsessivo. Ativa zonas profundas, emocionais, instintivas, como se ainda estivéssemos à mercê de perigos invisíveis. Já o e...

"Onde começa"

 Há hábitos que entram na nossa vida como uma brisa quase imperceptível — não pedem licença, não fazem ruído, não deixam marcas imediatas. Instalam-se como quem pousa um copo numa mesa alheia, com uma naturalidade desarmante. No início, nada parece digno de alarme: um desvio mínimo, uma cedência subtil, uma escolha que se justifica com a leveza do “não tem importância”. E, de facto, naquele instante, talvez não tenha. Mas imagina agora que a tua vida é uma casa em construção contínua. Todos os dias levantas paredes, escolhes materiais, defines estruturas. Há decisões que são vigas mestras, pesadas e visíveis — ninguém ignora a sua importância. Porém, há outras, quase invisíveis, que se escondem nos interstícios: pequenas fissuras, desalinhamentos discretos, imperfeições aparentemente irrelevantes no reboco. No primeiro dia, a fissura é apenas um traço fino, quase decorativo. Passas por ela e pensas: “Depois trato disto.” No segundo dia, já nem reparas. No terceiro, começas a ada...

" Sentir no peito"

 Existem histórias que não se ouvem apenas com os ouvidos — sentem-se no peito. Histórias que entram devagar, mas ficam. Que nos obrigam a baixar os olhos, não por vergonha deles, mas por vergonha nossa. Porque há frases que deviam rasgar-nos por dentro. “Não querem olhar para mim.” “Passam por mim como se eu não existisse.” “Mandam-me trabalhar, como se eu nunca tivesse trabalhado.” “Negaram-me um copo de água.” “Deitaram a loiça fora depois de eu beber um café.” Isto não é apenas pobreza. Isto é desumanização. É quando alguém deixa de ser visto como pessoa e passa a ser tratado como incómodo. Como paisagem triste. Como culpa ambulante. Como se a ausência de uma casa retirasse também o direito ao respeito. E talvez o mais cruel não seja a fome. Nem o frio. Nem a rua. Talvez o mais cruel seja a forma como lhes roubam a dignidade com um simples olhar. Porque há olhares que ferem mais do que palavras. Olhares que julgam sem conhecer. Que condenam sem perguntar. Que resumem uma vida i...

"Perguntas"

 Por vezes perguntam-me como consigo estar há tantos anos com o meu marido, se o amor continua igual. E eu sorrio sempre, porque a verdade é simples: não, não é igual. É maior. Não tem a intensidade apressada do início, nem a urgência bonita dos primeiros encontros. Não vive de surpresas constantes nem da ilusão de perfeição. Hoje é mais profundo do que isso. É mais calmo, mais consciente, mais verdadeiro. É um amor que aprendeu a ficar. Um amor que já atravessou dias bons e dias difíceis, silêncios, cansaços, medos e recomeços. Um amor que já viu a versão mais bonita e também a mais frágil um do outro — e ainda assim escolheu permanecer. Porque amar alguém a sério não é apaixonarmo-nos apenas pela luz. É saber sentar-nos ao lado das sombras sem fugir. É conhecer as falhas, os medos, as imperfeições e, mesmo assim, continuar a escolher a mesma pessoa, todos os dias, sem aplausos e sem espetáculo. Talvez seja por isso que também me perguntam como consigo ter tantas amizades verdadei...

"Real"

Durante muito tempo, achei que viver bem era conseguir manter tudo em equilíbrio aos olhos dos outros — parecer serena, parecer forte, parecer certa. Como se a vida fosse, de alguma forma, uma montra onde precisávamos de expor apenas aquilo que era bonito, limpo e aceitável. Mas a verdade é que a alma cansa-se de viver de aparências. Cansa esconder o que dói. Cansa fingir tranquilidade quando por dentro existe inquietação. Cansa sustentar versões de nós mesmas que servem aos outros, mas que já não nos pertencem. E foi aí que percebi que, sem dar conta, também eu tinha aprendido a amar as trevas — não porque fossem boas, mas porque nelas era mais fácil esconder as imperfeições. Nas trevas ninguém vê. Ninguém questiona. Ninguém pede mudança. A luz faz o contrário. A luz mostra. Expõe. Obriga-nos a olhar para aquilo que evitamos durante anos: o orgulho disfarçado de força, o silêncio que era medo, a permanência onde já só existia desgaste, a necessidade constante de agradar para não desil...