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"Ritual"

Eu tenho um ritual de domingo. E já o transmiti aos meus filhos. É uma coisa simples. Tão simples que, dita em voz alta, quase parece pequena demais para explicar. Durante a semana fazemos a higiene como quase toda a gente faz. Duches rápidos. Entrar. Lavar. Sair. A água como função. Como eficiência. Como mais uma tarefa entre todas as outras tarefas. Mas ao domingo é diferente. Ao domingo eu tomo banho. Ao domingo eu entro na água. E para mim existe uma diferença enorme entre estas duas coisas. Tomo um banho de imersão. Deito o corpo na banheira. Não para me lavar. Para parar. Deixo a água tocar levemente a pele. Não a usar-me — a envolver-me. Fico ali. Quieta. Sem objectivo. Sem produtividade. Sem estar a fazer duas coisas ao mesmo tempo. Só deitada. E sempre me foi difícil explicar isto sem parecer exagerada, mas a verdade é que sinto mesmo que algo se reorganiza. Como se durante a semana o corpo fosse acumulando pequenas tensões invisíveis. Conversas. Barulho...

"Tu nas redes sociais... Quem és "

 Há uma personagem dominante do nosso tempo que merece observação antropológica séria: o habitante profissional da atenção. O nome muda conforme a plataforma — influencer, TikToker, YouTuber — mas a lógica é frequentemente semelhante: transformar presença em moeda e reação em rendimento. Primeiro, sem caricaturas simplistas. Um influencer deveria ser alguém que influencia — ideias, consumo, gostos, hábitos, cultura. Em teoria, é neutro: pode ser um divulgador científico brilhante ou alguém que filma diariamente o próprio café como se estivesse a documentar o renascimento florentino. Um TikToker trabalha sobretudo no território da velocidade psicológica: segundos para capturar, segundos para provocar, segundos para impedir que o dedo deslize. Um YouTuber opera num formato mais longo e potencialmente mais rico — mas também aí existe desde documentário sério até novela emocional em alta definição. Até aqui tudo normal. O fenómeno interessante começa quando observamos uma part...

"Bom dia. Como estás hoje?"

  Bom dia. Como estás hoje? Espero que estejas bem. Eu gosto imenso de caminhar e falar. Há qualquer coisa nas caminhadas que me parece mais verdadeira do que muitas conversas sentadas frente a frente. Talvez porque quando caminhamos não estamos apenas a trocar palavras — estamos a avançar. O corpo acompanha o pensamento. As ideias respiram melhor. Os silêncios pesam menos. Anda. Acompanha-me. Não precisamos de saber exactamente para onde vamos. Às vezes basta começar. Caminhemos devagar. Sem obrigação de resolver o mundo antes do meio-dia. Sem a urgência de chegar. Porque aprendi uma coisa que demorou mais tempo do que eu gostaria de admitir: nem sempre são os caminhos direitos que nos levam mais longe. Há percursos que parecem simples e acabam por nos deixar exactamente onde começámos. E depois há aqueles caminhos sinuosos, inclinados, cansativos — aqueles que nos obrigam a parar, a ajustar o passo, a reaprender a respirar — e que, sem nos apercebermos, nos transform...

"Sou a essência, sou a matéria."

Sou a essência, sou a matéria. Sou a frágil que chora, a durona quando é necessário. Não sou mais nem menos do que aquilo que todas somos. Humana. Vivendo e aprendendo a cada dia. Durante muito tempo achei que me tinha de escolher. Como se existir exigisse coerência absoluta. Como se para ser forte tivesse de abandonar a fragilidade. Como se para ser sensível tivesse de renunciar à firmeza. Como se crescer significasse tornar-me uma versão mais estável, mais definida, mais previsível de mim mesma. Demorei tempo a perceber que talvez uma parte importante da maturidade seja exactamente deixar de exigir de nós essa pureza impossível. Porque eu sou muitas coisas ao mesmo tempo. Sou a essência e sou a matéria. Sou aquilo que pensa e aquilo que sente. Aquilo que sonha e aquilo que lava a loiça, responde a mensagens, se atrasa, se cansa e adormece no sofá. Sou aquilo que imagina o infinito e aquilo que precisa de dormir oito horas para funcionar minimamente bem. Há qualquer coi...

"Pensamos em tanto… e somos tão pouco"

Pensamos em tanto… e somos tão pouco. Temos o mundo e desvalorizamos o que de bom ele nos dá. Há dias em que esta ideia me aparece quase como uma provocação. Pensamos em tanto. Planeamos tanto. Interpretamos tanto. Antecipamos tanto. Criamos cenários, hipóteses, versões alternativas da realidade que nunca chegam a existir. Vivemos dentro da cabeça com uma dedicação impressionante. E, no meio disso tudo, esquecemo-nos frequentemente de uma coisa desconfortável: somos tão pouco. E digo isto sem pessimismo. Não no sentido de insignificância triste. Mas no sentido de proporção. Porque existe qualquer coisa de profundamente curiosa na condição humana. Somos suficientemente pequenos para não controlar quase nada — e suficientemente conscientes para sofrer por isso. Passamos anos a acreditar que somos o centro da narrativa. Que tudo depende de nós. Que precisamos de resolver, prever, organizar, decidir. Como se a existência fosse um projecto de gestão. E depois basta uma n...

"Lucidez terminal"

Ultimamente tenho pensado muito sobre morrer. Não de uma forma deprimente. Nem dramática. Nem como quem decidiu viver enrolada numa manta a ouvir violinos e a contemplar o vazio. Mais como quem tropeçou numa ideia estranha e pensou: espera… isto afinal é muito mais interessante do que assustador. Porque comecei a perceber uma coisa. A morte não é propriamente um mistério biológico. Nós é que temos um talento extraordinário para a transformar num. Mas o corpo… o corpo parece saber exactamente o que está a fazer. E isto, para mim, é simultaneamente reconfortante e irritante. Reconfortante porque significa que não vou ter de estudar para morrer. Irritante porque aparentemente o meu corpo tem um plano e nunca achou necessário partilhá-lo comigo. Passei anos a imaginar a morte como um desastre clínico. Uma espécie de emergência absoluta. Alarmes. Luzes. Música dramática. Últimas palavras eloquentes. Mas afinal, muitas vezes, morrer parece estar muito mais próximo de outros p...

"Frase... Pensamento"

Penso mais do que aquilo que digo. Não digo mais do que aquilo que penso. E a vida — a vida continua a ser um enigma. Há frases que parecem simples apenas porque chegam sem esforço. Mas algumas das ideias mais densas da experiência humana apresentam-se precisamente assim: sem ornamentação inicial, quase discretas, e só mais tarde revelam a profundidade que transportavam. Durante muito tempo disseram-nos que autenticidade significava dizer tudo. Expressar tudo. Exteriorizar tudo. Transformar cada emoção em discurso, cada pensamento em opinião, cada inquietação em explicação. Como se o valor de uma vida estivesse directamente relacionado com a quantidade de coisas que conseguimos tornar visíveis. Mas talvez exista um equívoco moderno nessa obsessão pela exposição. Talvez maturidade não seja dizer mais. Talvez maturidade seja compreender melhor aquilo que merece ser dito. Por isso digo: Penso mais do que aquilo que digo. Não porque esconda. Não porque tema. Não porque viva...