"Lucidez terminal"
Ultimamente tenho pensado muito sobre morrer. Não de uma forma deprimente. Nem dramática. Nem como quem decidiu viver enrolada numa manta a ouvir violinos e a contemplar o vazio. Mais como quem tropeçou numa ideia estranha e pensou: espera… isto afinal é muito mais interessante do que assustador. Porque comecei a perceber uma coisa. A morte não é propriamente um mistério biológico. Nós é que temos um talento extraordinário para a transformar num. Mas o corpo… o corpo parece saber exactamente o que está a fazer. E isto, para mim, é simultaneamente reconfortante e irritante. Reconfortante porque significa que não vou ter de estudar para morrer. Irritante porque aparentemente o meu corpo tem um plano e nunca achou necessário partilhá-lo comigo. Passei anos a imaginar a morte como um desastre clínico. Uma espécie de emergência absoluta. Alarmes. Luzes. Música dramática. Últimas palavras eloquentes. Mas afinal, muitas vezes, morrer parece estar muito mais próximo de ou...