"Subir"
Há metáforas que parecem simples até ao momento em que as habitamos. E depois deixam de ser imagens — tornam-se revelações. Fala-se de quem sobe de elevador e de quem sobe pelas escadas como se fosse apenas uma diferença de percurso. Mas não é apenas o percurso que diverge — é a arquitectura interna que se constrói em cada trajecto. É a forma como o tempo se inscreve no corpo, como o esforço se traduz em consciência, como a experiência molda a maneira de estar no mundo. Porque chegar não é o mesmo que tornar-se. Quem sobe de elevador conhece a eficiência do movimento sem fricção. A progressão que não exige interrupção, a subida que não pede negociação com o cansaço, a linearidade confortável de um trajecto que se cumpre quase sem resistência. Há uma rapidez nesse processo que pode ser sedutora — e, em certos contextos, até legítima. Mas há também uma ausência. A ausência de confronto prolongado consigo mesmo. A ausência de repetição que testa limites. A ausência de um certo tipo d...