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"Há pessoas que não desaparecem quando vão embora"

Há pessoas que não desaparecem quando vão embora. Retiram-se apenas do calendário, nunca da geografia interior. Continuam a existir em lugares inesperados: na inclinação de uma frase, na maneira de segurar uma chávena, num certo tipo de riso que aprendemos sem saber que aprendíamos. Permanecem em hábitos invisíveis, nesses gestos que julgávamos nossos até descobrirmos que eram, em parte, herança de um encontro. Há pessoas que deixam de ocupar o espaço e começam a ocupar o tempo. E o mais estranho é que não ficam onde as deixámos. Movem-se. Acompanham-nos. Aparecem num fim de tarde qualquer, numa frase lida ao acaso, num pensamento que não pede licença e que chega inteiro, com a nitidez das coisas que nunca foram verdadeiramente embora. Não é saudade no sentido pobre da palavra. Não é desejo de retorno. Não é a fantasia ingénua de recuperar o que o tempo já traduziu noutra língua. É outra coisa. É reconhecer que existiram pessoas que tiveram acesso a versões nossas que já não e...

"Lugar antigo"

 Há momentos em que pensamos que o amor acontece na proximidade, quando na verdade certas ligações parecem nascer num lugar mais antigo do que a presença. Não sei se lhe devemos chamar destino, memória ou apenas essa estranha capacidade humana de reconhecer no outro algo que nunca soubemos nomear em nós. Foi assim que comecei a compreender a tua existência. Não como quem encontra. Como quem reconhece. Porque há pessoas que entram na nossa vida como novidade e há outras que chegam com o desconcerto silencioso do regresso. Não trazem a sensação de descoberta — trazem a sensação inquietante de evidência. Como se uma parte de nós, até então dispersa, deixasse finalmente de procurar. E foi aí que percebi uma coisa que me recusava a aceitar: talvez as almas não se procurem. Talvez se identifiquem. Não pelas palavras certas. Não pelos gestos perfeitos. Nem pela permanência física que tantas vezes confundimos com profundidade. Reconhecem-se por um fenómeno mais discreto e mais difícil...

"Ritual"

Eu tenho um ritual de domingo. E já o transmiti aos meus filhos. É uma coisa simples. Tão simples que, dita em voz alta, quase parece pequena demais para explicar. Durante a semana fazemos a higiene como quase toda a gente faz. Duches rápidos. Entrar. Lavar. Sair. A água como função. Como eficiência. Como mais uma tarefa entre todas as outras tarefas. Mas ao domingo é diferente. Ao domingo eu tomo banho. Ao domingo eu entro na água. E para mim existe uma diferença enorme entre estas duas coisas. Tomo um banho de imersão. Deito o corpo na banheira. Não para me lavar. Para parar. Deixo a água tocar levemente a pele. Não a usar-me — a envolver-me. Fico ali. Quieta. Sem objectivo. Sem produtividade. Sem estar a fazer duas coisas ao mesmo tempo. Só deitada. E sempre me foi difícil explicar isto sem parecer exagerada, mas a verdade é que sinto mesmo que algo se reorganiza. Como se durante a semana o corpo fosse acumulando pequenas tensões invisíveis. Conversas. Barulho...

"Tu nas redes sociais... Quem és "

 Há uma personagem dominante do nosso tempo que merece observação antropológica séria: o habitante profissional da atenção. O nome muda conforme a plataforma — influencer, TikToker, YouTuber — mas a lógica é frequentemente semelhante: transformar presença em moeda e reação em rendimento. Primeiro, sem caricaturas simplistas. Um influencer deveria ser alguém que influencia — ideias, consumo, gostos, hábitos, cultura. Em teoria, é neutro: pode ser um divulgador científico brilhante ou alguém que filma diariamente o próprio café como se estivesse a documentar o renascimento florentino. Um TikToker trabalha sobretudo no território da velocidade psicológica: segundos para capturar, segundos para provocar, segundos para impedir que o dedo deslize. Um YouTuber opera num formato mais longo e potencialmente mais rico — mas também aí existe desde documentário sério até novela emocional em alta definição. Até aqui tudo normal. O fenómeno interessante começa quando observamos uma part...

"Bom dia. Como estás hoje?"

  Bom dia. Como estás hoje? Espero que estejas bem. Eu gosto imenso de caminhar e falar. Há qualquer coisa nas caminhadas que me parece mais verdadeira do que muitas conversas sentadas frente a frente. Talvez porque quando caminhamos não estamos apenas a trocar palavras — estamos a avançar. O corpo acompanha o pensamento. As ideias respiram melhor. Os silêncios pesam menos. Anda. Acompanha-me. Não precisamos de saber exactamente para onde vamos. Às vezes basta começar. Caminhemos devagar. Sem obrigação de resolver o mundo antes do meio-dia. Sem a urgência de chegar. Porque aprendi uma coisa que demorou mais tempo do que eu gostaria de admitir: nem sempre são os caminhos direitos que nos levam mais longe. Há percursos que parecem simples e acabam por nos deixar exactamente onde começámos. E depois há aqueles caminhos sinuosos, inclinados, cansativos — aqueles que nos obrigam a parar, a ajustar o passo, a reaprender a respirar — e que, sem nos apercebermos, nos transform...

"Sou a essência, sou a matéria."

Sou a essência, sou a matéria. Sou a frágil que chora, a durona quando é necessário. Não sou mais nem menos do que aquilo que todas somos. Humana. Vivendo e aprendendo a cada dia. Durante muito tempo achei que me tinha de escolher. Como se existir exigisse coerência absoluta. Como se para ser forte tivesse de abandonar a fragilidade. Como se para ser sensível tivesse de renunciar à firmeza. Como se crescer significasse tornar-me uma versão mais estável, mais definida, mais previsível de mim mesma. Demorei tempo a perceber que talvez uma parte importante da maturidade seja exactamente deixar de exigir de nós essa pureza impossível. Porque eu sou muitas coisas ao mesmo tempo. Sou a essência e sou a matéria. Sou aquilo que pensa e aquilo que sente. Aquilo que sonha e aquilo que lava a loiça, responde a mensagens, se atrasa, se cansa e adormece no sofá. Sou aquilo que imagina o infinito e aquilo que precisa de dormir oito horas para funcionar minimamente bem. Há qualquer coi...

"Pensamos em tanto… e somos tão pouco"

Pensamos em tanto… e somos tão pouco. Temos o mundo e desvalorizamos o que de bom ele nos dá. Há dias em que esta ideia me aparece quase como uma provocação. Pensamos em tanto. Planeamos tanto. Interpretamos tanto. Antecipamos tanto. Criamos cenários, hipóteses, versões alternativas da realidade que nunca chegam a existir. Vivemos dentro da cabeça com uma dedicação impressionante. E, no meio disso tudo, esquecemo-nos frequentemente de uma coisa desconfortável: somos tão pouco. E digo isto sem pessimismo. Não no sentido de insignificância triste. Mas no sentido de proporção. Porque existe qualquer coisa de profundamente curiosa na condição humana. Somos suficientemente pequenos para não controlar quase nada — e suficientemente conscientes para sofrer por isso. Passamos anos a acreditar que somos o centro da narrativa. Que tudo depende de nós. Que precisamos de resolver, prever, organizar, decidir. Como se a existência fosse um projecto de gestão. E depois basta uma n...