"Há pessoas que não desaparecem quando vão embora"
Há pessoas que não desaparecem quando vão embora. Retiram-se apenas do calendário, nunca da geografia interior. Continuam a existir em lugares inesperados: na inclinação de uma frase, na maneira de segurar uma chávena, num certo tipo de riso que aprendemos sem saber que aprendíamos. Permanecem em hábitos invisíveis, nesses gestos que julgávamos nossos até descobrirmos que eram, em parte, herança de um encontro. Há pessoas que deixam de ocupar o espaço e começam a ocupar o tempo. E o mais estranho é que não ficam onde as deixámos. Movem-se. Acompanham-nos. Aparecem num fim de tarde qualquer, numa frase lida ao acaso, num pensamento que não pede licença e que chega inteiro, com a nitidez das coisas que nunca foram verdadeiramente embora. Não é saudade no sentido pobre da palavra. Não é desejo de retorno. Não é a fantasia ingénua de recuperar o que o tempo já traduziu noutra língua. É outra coisa. É reconhecer que existiram pessoas que tiveram acesso a versões nossas que já não e...