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"Lucidez terminal"

  Ultimamente tenho pensado muito sobre morrer. Não de uma forma deprimente. Nem dramática. Nem como quem decidiu viver enrolada numa manta a ouvir violinos e a contemplar o vazio. Mais como quem tropeçou numa ideia estranha e pensou: espera… isto afinal é muito mais interessante do que assustador. Porque comecei a perceber uma coisa. A morte não é propriamente um mistério biológico. Nós é que temos um talento extraordinário para a transformar num. Mas o corpo… o corpo parece saber exactamente o que está a fazer. E isto, para mim, é simultaneamente reconfortante e irritante. Reconfortante porque significa que não vou ter de estudar para morrer. Irritante porque aparentemente o meu corpo tem um plano e nunca achou necessário partilhá-lo comigo. Passei anos a imaginar a morte como um desastre clínico. Uma espécie de emergência absoluta. Alarmes. Luzes. Música dramática. Últimas palavras eloquentes. Mas afinal, muitas vezes, morrer parece estar muito mais próximo de ou...

"Frase... Pensamento"

  Penso mais do que aquilo que digo. Não digo mais do que aquilo que penso. E a vida — a vida continua a ser um enigma. Há frases que parecem simples apenas porque chegam sem esforço. Mas algumas das ideias mais densas da experiência humana apresentam-se precisamente assim: sem ornamentação inicial, quase discretas, e só mais tarde revelam a profundidade que transportavam. Durante muito tempo disseram-nos que autenticidade significava dizer tudo. Expressar tudo. Exteriorizar tudo. Transformar cada emoção em discurso, cada pensamento em opinião, cada inquietação em explicação. Como se o valor de uma vida estivesse directamente relacionado com a quantidade de coisas que conseguimos tornar visíveis. Mas talvez exista um equívoco moderno nessa obsessão pela exposição. Talvez maturidade não seja dizer mais. Talvez maturidade seja compreender melhor aquilo que merece ser dito. Por isso digo: Penso mais do que aquilo que digo. Não porque esconda. Não porque tema. Não porqu...

"A paz"

 Hoje falava com uma amiga e, como tantas vezes acontece nas conversas que começam num lugar banal e acabam num lugar que não esperávamos visitar, o diálogo desviou-se para uma pergunta. Ela olhou para mim e perguntou: — Depois de tudo aquilo por que passaste… depois desse caminho, desse sofrimento… como é que endireitaste? Como é que encontraste a paz? Eu comecei a rir. Não por desrespeito pela pergunta. Nem porque a resposta fosse simples. Ri porque percebi que, durante muito tempo, eu própria tinha feito exactamente a mesma pergunta às pessoas que me pareciam tranquilas. Como se a paz fosse um lugar. Como se existisse uma estrada secreta. Como se houvesse um dia específico em que alguém acorda e diz: agora sim, finalmente encontrei-a. E respondi-lhe: Amiga, acho que há uma coisa que descobri tarde. A paz não se procura. A paz não se encontra. A paz escolhe-se. E dizer isto não significa dizer que a dor desaparece. Nem que a vida se torna leve. Nem que deixamos de t...

"Tempo"

O tempo tem uma forma singular de nos transformar. Raramente chega com estrondo. Na maioria das vezes instala-se devagar, quase sem ruído, infiltrando-se nos lugares mais íntimos daquilo que acreditávamos ser. Não pede autorização. Não anuncia mudanças. Não nos consulta antes de alterar prioridades, desmontar convicções ou obrigar-nos a abandonar versões antigas de nós próprias. Existe uma ideia reconfortante — mas profundamente ilusória — de que crescemos por decisão. Como se a maturidade fosse sempre um acto consciente, linear, voluntário. Não é. Muitas vezes crescemos porque já não existe alternativa. Porque o tempo, indiferente às nossas resistências, continua a avançar e obriga-nos a acompanhar aquilo que ainda não compreendemos. Há lições que chegam com delicadeza. Dias que nos educam sem violência. Pessoas que passam pela nossa vida e deixam conhecimento sem deixar ruína. Mas existem outras aprendizagens — talvez as mais decisivas — que chegam de forma menos generosa. ...

"Quando Vou à Escola da Fé e Acabo com Uma Seguidora Presencial"

Há um fenómeno humano que me intriga profundamente. Não é religioso. Não é filosófico. Nem sequer psicológico. É geográfico. Porque eu vou para a escola da fé e sento-me sempre sozinha. Não por misantropia. Não por trauma. Não porque tenha sido expulsa de grupos sociais em tenra idade. Gosto apenas. Há pessoas que rezam em comunidade. Eu gosto de ter um pequeno perímetro emocional de segurança. Chego. Escolho lugar. Sento. Organizo discretamente a alma. Olho em frente. Preparo-me para pensar. É um momento bonito. Silencioso. Quase contemplativo. E depois… ela aparece. Agora: antes que isto avance para níveis desnecessários de dramatização, quero deixar claro. Ela é simpática. Muito simpática. Não tenho nada contra ela. Não é desagradável. Não é invasiva no sentido clássico. Não mastiga de boca aberta. Não faz perguntas sobre signos. Mas existe nela uma energia muito específica. A energia de alguém que acredita sinceramente que ainda vai conseguir corrigir-me. Eu entro. Escolho um lugar...

"Aquilo que quase ninguém vê quando um professor ensina"

 Isto que escrevo infelizmente não é geral, então este texto não é para todos os docentes. É para os poucos que são docentes por aptidão e amor. Há uma parte da profissão dos professores que quase ninguém vê. Não aparece nas avaliações externas. Não entra nos rankings. Não cabe nos relatórios de desempenho nem nos discursos sobre excelência educativa. Não produz números suficientemente claros para serem apresentados em reuniões nem resultados suficientemente imediatos para serem celebrados em conferências. E, no entanto, talvez seja precisamente aí que habita aquilo que há de mais difícil, mais humano e mais extraordinário no acto de ensinar. Os microgestos. Aqueles movimentos quase invisíveis que não ficam registados em lado nenhum e que, ainda assim, mudam completamente o dia de uma criança, de um adolescente, de uma turma inteira. A presença. A maneira como alguém entra numa sala. A maneira como ocupa o silêncio. A maneira como olha. A maneira como espera. Há o profes...

"Teste"

 Hoje foi quarta-feira, dia da Escola da Fé, e também dia de avaliação. Há uma espécie de solenidade própria nestes dias: não pela grandiosidade do acontecimento em si, mas porque o acto de ser avaliado tem sempre qualquer coisa de revelador. Obriga-nos a sair do território confortável da escuta, da reflexão silenciosa e da aprendizagem progressiva para entrar num espaço mais exposto, onde aquilo que ficou — ou não ficou — de semanas de estudo ganha forma concreta. E talvez seja precisamente isso que torna os dias de teste tão particulares: não avaliamos apenas o que sabemos; sentimos, por instantes, que estamos também a ser confrontados com aquilo que somos diante da exigência. Hoje tivemos a nossa avaliação. O primeiro teste incidiu sobre o Novo Testamento; o segundo, sobre Cristologia. Dois temas que, apesar de estarem ligados, exigem disposições intelectuais diferentes. O Novo Testamento pede memória, atenção ao contexto, capacidade de compreender narrativas, discursos, símbol...