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"Onde me sentaria eu?"

 Há perguntas que não são apenas perguntas — são espelhos. E este é um desses casos. Onde me sentaria eu? Numa mesa impecável, onde tudo parece certo, onde as palavras são medidas, os gestos controlados, as falhas escondidas sob uma estética de perfeição? Ou numa mesa imperfeita, onde há tropeços assumidos, culpas reconhecidas, verdades ditas ainda que com voz trémula? A resposta não é apenas uma escolha moral. É uma posição existencial. Durante muito tempo, ensinaram-nos — de forma subtil, mas persistente — que a santidade se mede pelo que se vê. Pela forma como se fala, como se veste, como se comporta. Construímos, quase sem dar conta, uma ideia de pureza que se aproxima mais de um cenário do que de uma realidade interior. E, no entanto, quanto mais observo, mais compreendo que a aparência pode ser o lugar mais sofisticado da ilusão. Porque Deus — esse olhar que não se deixa impressionar por superfícies — não habita vitrines. Ele atravessa-as. Não se detém no gesto ensaiado, nem ...

"Vontade de Poder-quarta parte "

 No centro mais rigoroso e irredutível da Vontade de Poder, tal como pensada por Friedrich Nietzsche , encontra-se a ideia de auto-superação . Não como um ideal motivacional superficial, mas como uma exigência estrutural da própria vida enquanto devir. Tudo o que vive, para Nietzsche, não procura um estado final de equilíbrio ou satisfação; procura antes ultrapassar-se continuamente, transformar-se, tornar-se mais do que é. É aqui que se impõe uma distinção decisiva: a lógica da comparação externa — competir com os outros, medir-se por padrões alheios, buscar validação social — pertence ainda a uma forma empobrecida de compreensão do poder. Trata-se de uma dinâmica dependente, reativa, que coloca o valor fora de si. Em contrapartida, a auto-superação desloca radicalmente o eixo: o verdadeiro confronto não é com o outro, mas com o próprio passado. A fórmula é simples na aparência, mas de uma profundidade exigente: não se trata de ser melhor do que alguém, mas de não permanecer igu...

"Vontade de Poder- terceira parte"

 Quando se pergunta como opera, na prática, a Vontade de Poder — no sentido rigoroso que lhe atribui Friedrich Nietzsche — a resposta exige que abandonemos qualquer abstração excessiva e desçamos ao terreno concreto da experiência vivida. Não se trata de um princípio distante ou metafísico, mas de uma força que se manifesta, silenciosa e persistentemente, nos gestos mais banais e, simultaneamente, mais decisivos da existência quotidiana. O primeiro traço dessa manifestação é o impulso para o crescimento constante . Tudo o que está vivo não se limita a conservar-se; tende a expandir-se, a complexificar-se, a ultrapassar o seu estado atual. Este movimento não é imposto de fora — emerge de dentro, como uma exigência interna de intensificação. A vida, para Nietzsche, não tolera a estagnação prolongada: ou cresce, ou declina. Neste sentido, aprender algo difícil não é apenas adquirir uma competência; é um acto de afirmação da própria potência. Quando alguém se confronta com um probl...

"Vontade de Poder- segunda parte"

 Importa insistir — com rigor conceptual e vigilância interpretativa — que a Vontade de Poder , tal como concebida por Friedrich Nietzsche , não se deixa reduzir à caricatura simplista de um impulso de dominação externa. Essa leitura, além de filosoficamente pobre, denuncia uma incompreensão estrutural do pensamento nietzschiano: confundir poder com autoridade, intensidade com hierarquia, afirmação com opressão. Nietzsche não está interessado no poder enquanto instrumento político, nem na supremacia social como fim. A sua investigação incide sobre algo mais originário: a dinâmica interna da vida enquanto força que se organiza, se expande e se reconfigura. A Vontade de Poder não é, portanto, um projeto de controlo do outro — é um processo de auto-superação . Neste sentido, o verdadeiro “campo de batalha” não é o mundo exterior, mas o próprio sujeito. A pluralidade de impulsos, desejos, medos e contradições que habitam o indivíduo constitui o espaço onde a Vontade de Poder se exerc...

"Vontade de Poder"

 A noção de Vontade de Poder — Wille zur Macht — ocupa um lugar axial no pensamento de Friedrich Nietzsche , constituindo não apenas um conceito filosófico isolado, mas antes um princípio interpretativo transversal, quase uma lente ontológica através da qual a própria realidade se deixa entrever. Longe de ser uma simples teoria psicológica ou uma apologia da dominação, a Vontade de Poder revela-se como uma dinâmica fundamental da vida, uma força imanente que impele todos os seres a ultrapassarem-se, a intensificarem-se, a afirmarem-se num movimento incessante de expansão. Desde logo, importa desfazer um equívoco recorrente: a Vontade de Poder não se reduz a uma vontade de domínio sobre os outros. Tal leitura, frequentemente vulgarizada, empobrece radicalmente a profundidade do conceito. Em Nietzsche, o “poder” não é meramente político ou social; é, antes de mais, ontológico e vital. Trata-se de uma tendência constitutiva da vida para se exceder a si mesma, para transformar limit...

"Quarta-feira da Semana Santa"

 Na Quarta-feira da Semana Santa, a narrativa cristã abranda o ritmo e detém-se num gesto que, à primeira vista, parece quase insignificante — um acto breve, silencioso, aparentemente inofensivo. No entanto, é precisamente aí que se concentra uma das maiores densidades simbólicas da condição humana. Judas Iscariotes aproxima-se de Jesus Cristo . Não há confronto físico, não há violência explícita, não há dramatização exterior. Há proximidade. Há reconhecimento. Há um beijo. E é nesse gesto — íntimo, culturalmente associado ao afecto, à confiança, à entrega — que se consuma a traição. Um beijo que não é amor, mas instrumento. Um beijo que não acolhe, mas expõe. Um beijo que, em vez de proteger, entrega. E talvez o mais inquietante não seja apenas o episódio em si, mas a sua permanência. Porque esta realidade não ficou confinada ao tempo bíblico, nem àquela noite específica. Ela prolonga-se, repete-se, infiltra-se nas relações contemporâneas, muitas vezes com uma subtileza a...

"Não quero saber..."

 Não me interessam conversas superficiais. Não por arrogância, mas por consciência do tempo — esse recurso finito que já não desperdiço com aquilo que não acrescenta, não constrói, não transforma. Lamento, se for necessário lamentar, mas não me disponibilizo para diálogos vazios, para curiosidades disfarçadas de interesse, para ruído social que se alimenta de si mesmo. E, com a mesma serenidade, afirmo: não me interessa o que dizem a meu respeito. Não por indiferença artificial, mas por lucidez. Porque, na maioria das vezes, são opiniões formadas por quem não me conhece, sustentadas em fragmentos, percepções enviesadas, interpretações que dizem mais sobre quem as formula do que sobre quem é alvo delas. Como pode alguém conhecer-me sem me atravessar? Como pode alguém definir-me sem me compreender? Não pode. O que dizem revela-os. Não me define. Julgar não me pertence. Nunca pertenceu. Esse lugar — último, absoluto — cabe a Deus. E há uma tranquilidade profunda em reconhecer is...

“Purificação”

 Há uma tendência cada vez mais visível — e, arrisco dizer, intelectualmente preguiçosa — de procurar transformação onde ela não exige compromisso. Multiplicam-se os rituais, os símbolos, os gestos performativos de “purificação”, como se a mudança pudesse ser convocada por via estética, aromática ou quase mística… sem que se toque no essencial. Purifica-se o ar. Organiza-se o espaço. Acendem-se velas, queimam-se incensos, evocam-se energias. E, não raras vezes, replicam-se também certos discursos importados de contextos onde a espiritualidade se transforma em encenação — verdadeiros palcos onde se dramatiza o mal, se amplifica a culpa e se atribui ao “demónio” tudo aquilo que exigiria responsabilidade pessoal, enquanto, com notável conveniência, se solicita entrega, devoção e até contribuição material como se isso, por si só, resolvesse aquilo que nunca foi enfrentado. E, no entanto, permanece intocado aquilo que verdadeiramente desorganiza: o vínculo humano. Porque não há ri...

"Inseto"

 Há momentos em que a realidade se apresenta com um grau de ironia tão refinado que quase dispensa interpretação — não fosse o facto de, por uma questão de rigor intelectual, merecer ser devidamente dissecada. Deve ser, imagino, profundamente limitador habitar um lugar onde o pensamento não amadurece, onde a linguagem é utilizada como instrumento rudimentar de ataque e onde a intenção precede sempre a consciência. Não diria que é apenas triste — seria simplista. É, sobretudo, revelador. Hoje, num dos meus locais de trabalho — escolhido, sublinhe-se, com a mesma discrição com que conduzo a minha vida — fui abordada por uma senhora que decidiu, num exercício de coragem questionável e oportunidade inexistente, dirigir-me a palavra num contexto que, por si só, exigiria o mínimo de decência: um velório. Há algo de profundamente sintomático em quem, perante a dor alheia, escolhe a irrelevância como forma de afirmação. Ignorar o luto para performar uma tentativa de ataque não é apenas ...