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"Apocalipse 1,12–20"

  Apocalipse 1,12–20 — A Visão do Filho do Homem Glorificado Entramos agora no coração teológico do capítulo. Depois da saudação e da autoapresentação divina, João narra a primeira grande teofania cristológica do livro: não é apenas uma visão simbólica, mas uma revelação da identidade cósmica de Cristo ressuscitado. O Movimento de Conversão: “Voltei-me para ver a voz” (1,12) O texto diz algo surpreendente: “Voltei-me para ver a voz que falava comigo.” Não se trata apenas de virar o corpo. Na tradição bíblica, voltar-se é linguagem de conversão ( shuv no hebraico). João realiza um gesto espiritual: para compreender a revelação, é preciso reorientar a existência . Ele não vê primeiro — ele escuta. E só depois de escutar é que pode ver. Isto estabelece uma hierarquia fundamental: Na teologia bíblica, a fé nasce da escuta, não da visão. Os Sete Candelabros de Ouro (1,12–13) João vê: “Sete candelabros de ouro, e no meio deles alguém semelhante a um Filho de Homem.” ...

"Continuação, estudo"

  O Sétimo Selo e o Silêncio do Céu (Capítulo 8) no Apocalipse Depois da visão consoladora da multidão salva, o texto regressa à abertura dos selos. Mas o que acontece agora é inesperado — quase desconcertante. Quando o Cordeiro abre o sétimo selo, não surge imediatamente nenhuma acção. “Fez-se silêncio no Céu, cerca de meia hora.” Este versículo é um dos mais densos de toda a Escritura. O Silêncio: Não é Vazio, é Plenitude Na Bíblia, o silêncio não significa ausência. Significa presença tão intensa que as palavras já não conseguem contê-la. É o silêncio da adoração, o silêncio diante do mistério, o silêncio que antecede uma revelação decisiva. Depois de tantas imagens e vozes, o Céu cala-se. Porque o sentido último da história não se explica — contempla-se. A tradição espiritual sempre viu aqui o modelo da oração profunda: quando a alma deixa de falar para simplesmente estar diante de Deus. A Oração dos Santos Sobe como Incenso Surge então um anjo junto do a...

"O tempo dirá"

 Hoje, quando o meu filho saiu da escola, trazia nos olhos um brilho diferente — uma luz serena e determinada que não me passou despercebida. Assim que me viu, correu para mim, abraçou-me com força e, ainda ofegante da excitação, anunciou: — Mãe, afinal, quando for grande quero ser professor! De Matemática ou de Inglês. E quero ser professor aqui na minha escola. Confesso que, naquele instante, senti o coração vacilar. Não era, de todo, a profissão que alguma vez imaginei ou ambicionei para ele. Sorri, procurando não deixar transparecer a minha surpresa, e respondi que ainda tinha muito tempo para decidir, para crescer, para pensar melhor sobre o futuro. Perguntei-lhe, com genuína curiosidade, o que o fizera mudar de ideias. Com entusiasmo, explicou-me que, naquele dia, a professora de Inglês o escolhera para ajudar a corrigir os trabalhos dos colegas. Sentira-se como um pequeno professor adjunto, investido de uma responsabilidade nova e emocionante. Disse-me que adorara orientar o...

"Livre"

 Tudo o que amo, deixo livre. Que isto não seja lido como renúncia, mas como princípio. Não é afastamento — é elevação. Amar, para mim, tornou-se um acto de soberania interior: não prendo, não retenho, não reduzo. Sustento sem possuir. Acompanho sem invadir. Confio sem vigiar. Não me pertence o tempo de ninguém. Não me pertencem os caminhos, nem os desvios, nem as estações íntimas que cada ser humano precisa de atravessar. Amar não é delimitar território; é partilhar horizonte. E horizonte não se fecha — expande-se. Há uma forma menor de amor que nasce da insegurança. Essa forma exige garantias, contabiliza presenças, mede silêncios. Confunde proximidade com controlo e intensidade com domínio. Mas o amor que necessita de clausura para sobreviver já está fragilizado na sua origem. O que é autêntico não implora grades. O amor verdadeiro tem estrutura interna. Não depende de fiscalização emocional. Não se sustenta na ansiedade da perda. Vive da escolha renovada, da consciência lúcida,...

"Continuação, estudo"

  O Selo dos Servos de Deus e a Multidão Vestida de Branco (Capítulo 7) no Apocalipse Depois das imagens duras do capítulo anterior, este surge como uma pausa inesperada. Não é uma interrupção narrativa — é uma resposta teológica à pergunta deixada em aberto: “Quem poderá manter-se de pé?” O capítulo 7 mostra que, no meio da turbulência da história, Deus conhece, guarda e conduz aqueles que Lhe pertencem. Os Quatro Anjos e a Suspensão do Juízo João vê quatro anjos segurando os ventos da terra. Na linguagem bíblica, os ventos simbolizam forças de destruição, mudança, crise. Mas aqui estão contidos. Isto ensina algo essencial: o mal não tem autonomia absoluta. Nada acontece fora da permissão divina. A história não é desgovernada. Existe um tempo de espera — um tempo de misericórdia. O Selo na Fronte dos Servos Outro anjo aparece com “o selo do Deus vivo” e ordena: “Não causeis dano… até que tenhamos marcado os servos de Deus.” O selo é um símbolo antigo de p...

"Verdade silenciosa"

 Há uma verdade silenciosa que aprendi ao longo do meu caminho — e aprendi-a não nos livros, mas na experiência crua de viver: existem pessoas que torcem contra nós sem que lhes tenhamos feito mal algum. Não lhes passei por cima. Não prejudiquei. Não manipulei. Apenas segui o meu percurso, com as quedas e os recomeços que me couberam. E, ainda assim, há quem prefira assistir à nossa queda em vez de celebrar o nosso crescimento. Durante muito tempo interroguei-me. Procurei em mim a culpa invisível, o erro não identificado, a falha escondida. Mas a maturidade — essa que dói, mas ilumina — ensinou-me algo essencial: nem tudo o que é projetado sobre mim me pertence. Há sentimentos que não nascem daquilo que sou, mas do vazio que habita o outro. Social e psicologicamente, é um fenómeno conhecido: a frustração não resolvida procura sempre um alvo externo. Quem não está reconciliado com a própria história sente desconforto diante de quem avança. O crescimento alheio funciona como espel...

"Aprovação... Não"

 Não sou uma mulher à procura de aprovação. Há uma serenidade que nasce quando deixamos de mendigar reconhecimento fora e começamos a habitá-lo dentro. A minha medida não é o aplauso circunstancial, nem a interpretação apressada de quem observa de longe. A minha medida constrói-se no espaço mais exigente e mais verdadeiro que existe: o da convivência diária, onde não há palco, apenas vida. Em casa não se representam papéis — vive-se. Os meus filhos e o meu marido não aprovam uma versão idealizada de mim; conhecem a realidade inteira. Conhecem os dias luminosos e os dias difíceis, as palavras certas e os silêncios necessários, as fragilidades que não se exibem e a força que não precisa de ser anunciada. E, ainda assim, permanecem. A aprovação que nasce desse lugar não é julgamento, é vínculo. Não é validação externa, é pertença. Eles não confirmam apenas quem sou: acompanham quem ainda estou a aprender a ser. Por isso, quando alguém afirma conhecer-me e depois desenha uma personagem...

"Continuação, estudo"

  A Abertura dos Selos — A História Vista à Luz de Deus (Capítulo 6) Depois de o Cordeiro tomar o livro, inicia-se algo que muitos leitores interpretam como uma sucessão de castigos. Porém, a teologia deste capítulo é muito mais profunda: não se trata de “previsões do fim”, mas de uma leitura espiritual da história humana tal como ela realmente se desenrola . Os selos não desencadeiam desgraças novas. Eles revelam o que já está presente no mundo quando Deus é ignorado. É uma revelação, não uma condenação arbitrária. O Primeiro Selo — O Cavalo Branco Surge um cavaleiro com arco, avançando como vencedor. Durante séculos houve confusão sobre esta figura. Não representa Cristo, mas sim o fenómeno das conquistas humanas que prometem salvação histórica . É o símbolo das ideologias, dos impérios, dos projectos humanos que afirmam: “Agora será diferente. Agora construiremos o mundo perfeito.” O cavalo branco é a sedução do poder que se apresenta como redenção. O Segundo Se...

"Continuação do estudo"

  O Livro Selado e o Mistério do Cordeiro (Capítulo 5) Se o capítulo anterior nos mostrou o trono , isto é, Deus como centro da realidade, agora surge a pergunta decisiva: Se Deus reina, porque continua a história marcada por dor, injustiça e silêncio? Quem pode abrir o sentido do que vivemos? É a grande interrogação humana: a história tem significado — mas quem o revela? O Livro Selado: O Mistério da História O vidente contempla, na mão direita d’Aquele que está no trono, um livro escrito por dentro e por fora, fechado com sete selos . Na linguagem simbólica bíblica, este livro representa: ➡ o desígnio de Deus sobre o mundo, ➡ o sentido total da história humana, ➡ o “porquê” último do sofrimento e da redenção. O facto de estar escrito “por dentro e por fora” indica plenitude: nada falta, nada é acrescentado — tudo já está contido na sabedoria divina. Mas há um problema dramático: O livro está selado. Isto significa que o homem, por si só, não consegue interpreta...

"Estudo, superficial"

  A Liturgia do Céu — O Trono de Deus (Capítulo 4) no Apocalipse Depois das cartas às sete Igrejas — que constituem um apelo à conversão histórica — o texto muda abruptamente de horizonte. Já não estamos na terra, nas comunidades concretas, nas suas fragilidades. João é agora introduzido numa visão que ultrapassa o tempo. “Depois disto, vi uma porta aberta no Céu…” A imagem da porta aberta é profundamente simbólica: não é o homem que sobe ao mistério; é Deus que o deixa entrever. A revelação não é conquista intelectual — é dom. A Subida “em Espírito” João diz: “Fui arrebatado em espírito.” Este arrebatamento não é fuga do mundo, mas participação momentânea na realidade divina. A tradição teológica chama a isto visão profética : ver a história a partir de Deus, e não Deus a partir da história. Aqui começa uma mudança essencial de perspectiva: Na terra, tudo parece confuso. No Céu, tudo tem centro. O Apocalipse quer ensinar que o sentido da história só é com...