"A Ansiedade Colectiva Perante a Intimidade Alheia"
Há um fenómeno extraordinariamente humano que me diverte e, ao mesmo tempo, me intriga. Quanto menos informação existe, maior é a convicção com que algumas pessoas constroem conclusões. Basta um abraço mais demorado. Uma fotografia. Uma mão dada. Um sorriso. Uma cumplicidade. E, quase instantaneamente, inicia-se um complexo processo de engenharia narrativa onde a imaginação trabalha muito mais do que a observação. É fascinante. A mente humana detesta espaços vazios. Quando não conhece os factos, inventa coerência. Quando não possui respostas, fabrica explicações. Quando não compreende a complexidade, reduz tudo a categorias simples que lhe permitam voltar a sentir a confortável ilusão de controlo. Talvez seja por isso que a intimidade alheia desperta um interesse tão persistente. Ela funciona como um espelho. Cada pessoa acredita observar o outro, quando na realidade revela sobretudo o seu próprio universo simbólico, os seus códigos morais, as suas inseguranças, os seus desejos, as sua...