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"O Escândalo dos Pronomes: Porque “Vi Ela” É um Crime que Parece Inocente"

A língua portuguesa tem um estranho sentido de humor. Passa anos a ensinar-nos substantivos, verbos, adjetivos e advérbios como se fossem as partes importantes da frase. E depois, quando já estamos distraídos, surge um pronome e destrói completamente a nossa autoconfiança. Porque poucas coisas conseguem transformar adultos perfeitamente funcionais em seres inseguros tão rapidamente como esta pergunta: É “vi ela” ou “vi-a”? Nesse momento, metade da população portuguesa começa a olhar para o horizonte como quem procura respostas espirituais. A outra metade responde imediatamente. E depois corrige toda a gente para sempre. Comecemos pelo princípio. Os pronomes existem para evitar repetições. Porque a língua portuguesa, apesar de tudo, aprecia elegância. Imagine-se a seguinte frase: A Teresa encontrou a Teresa no supermercado e depois a Teresa telefonou à Teresa. Isto não é uma frase. É um acidente rodoviário sintático. É precisamente para evitar estes cenários que exist...

"A Arte Perigosa de Esperar"

Há pessoas que perdem alguém. E há pessoas que se perdem a si próprias enquanto esperam que alguém regresse. A diferença parece pequena. Mas muda uma vida inteira. No início, a espera parece um acto de amor. Parece nobre. Parece leal. Parece até uma demonstração de profundidade emocional. Esperamos porque acreditamos. Esperamos porque sentimos. Esperamos porque uma parte de nós recusa aceitar que algo tão importante possa terminar sem explicação, sem reparação ou sem um último capítulo capaz de dar sentido ao livro inteiro. E assim começamos a negociar com o tempo. Mais uma semana. Mais um mês. Mais uma conversa. Mais uma oportunidade. Mais uma hipótese. Mais um sinal. Mais um "talvez". É sempre o "talvez". Essa palavra extraordinária que consegue manter uma pessoa emocionalmente ocupada durante anos sem lhe oferecer absolutamente garantia nenhuma. O "talvez" é um arquitecto brilhante. Constrói castelos com tijolos que nunca existiram. Constrói futuros int...

"O Mercado das Exigências e o Défice de Autoavaliação"

Existe um fenómeno fascinante na condição humana: a facilidade com que avaliamos os critérios dos outros e a dificuldade com que avaliamos os nossos. Muitas pessoas perguntam-se porque não encontram um parceiro ou uma parceira "de valor". A questão é legítima. O problema raramente está na pergunta. Está na ausência da pergunta seguinte. Tenho eu o valor que procuro? Esta é a parte da conversa onde o silêncio costuma entrar na sala. Porque é relativamente fácil elaborar listas de exigências. É mais difícil transformar-se na pessoa capaz de corresponder a essas mesmas exigências. Há homens que desejam uma mulher inteligente, mas sentem-se ameaçados quando ela pensa de forma autónoma. Desejam uma mulher culta, mas não suportam ser contrariados por alguém que estudou mais. Desejam uma mulher emocionalmente equilibrada, mas recusam qualquer trabalho de autoconhecimento sobre si próprios. Desejam uma mulher disciplinada, mas vivem entregues à impulsividade. Desejam uma mulher madur...