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"Tempo"

O tempo tem uma forma singular de nos transformar. Raramente chega com estrondo. Na maioria das vezes instala-se devagar, quase sem ruído, infiltrando-se nos lugares mais íntimos daquilo que acreditávamos ser. Não pede autorização. Não anuncia mudanças. Não nos consulta antes de alterar prioridades, desmontar convicções ou obrigar-nos a abandonar versões antigas de nós próprias. Existe uma ideia reconfortante — mas profundamente ilusória — de que crescemos por decisão. Como se a maturidade fosse sempre um acto consciente, linear, voluntário. Não é. Muitas vezes crescemos porque já não existe alternativa. Porque o tempo, indiferente às nossas resistências, continua a avançar e obriga-nos a acompanhar aquilo que ainda não compreendemos. Há lições que chegam com delicadeza. Dias que nos educam sem violência. Pessoas que passam pela nossa vida e deixam conhecimento sem deixar ruína. Mas existem outras aprendizagens — talvez as mais decisivas — que chegam de forma menos generosa. ...

"Quando Vou à Escola da Fé e Acabo com Uma Seguidora Presencial"

Há um fenómeno humano que me intriga profundamente. Não é religioso. Não é filosófico. Nem sequer psicológico. É geográfico. Porque eu vou para a escola da fé e sento-me sempre sozinha. Não por misantropia. Não por trauma. Não porque tenha sido expulsa de grupos sociais em tenra idade. Gosto apenas. Há pessoas que rezam em comunidade. Eu gosto de ter um pequeno perímetro emocional de segurança. Chego. Escolho lugar. Sento. Organizo discretamente a alma. Olho em frente. Preparo-me para pensar. É um momento bonito. Silencioso. Quase contemplativo. E depois… ela aparece. Agora: antes que isto avance para níveis desnecessários de dramatização, quero deixar claro. Ela é simpática. Muito simpática. Não tenho nada contra ela. Não é desagradável. Não é invasiva no sentido clássico. Não mastiga de boca aberta. Não faz perguntas sobre signos. Mas existe nela uma energia muito específica. A energia de alguém que acredita sinceramente que ainda vai conseguir corrigir-me. Eu entro. Escolho um lugar...

"Aquilo que quase ninguém vê quando um professor ensina"

 Isto que escrevo infelizmente não é geral, então este texto não é para todos os docentes. É para os poucos que são docentes por aptidão e amor. Há uma parte da profissão dos professores que quase ninguém vê. Não aparece nas avaliações externas. Não entra nos rankings. Não cabe nos relatórios de desempenho nem nos discursos sobre excelência educativa. Não produz números suficientemente claros para serem apresentados em reuniões nem resultados suficientemente imediatos para serem celebrados em conferências. E, no entanto, talvez seja precisamente aí que habita aquilo que há de mais difícil, mais humano e mais extraordinário no acto de ensinar. Os microgestos. Aqueles movimentos quase invisíveis que não ficam registados em lado nenhum e que, ainda assim, mudam completamente o dia de uma criança, de um adolescente, de uma turma inteira. A presença. A maneira como alguém entra numa sala. A maneira como ocupa o silêncio. A maneira como olha. A maneira como espera. Há o profes...

"Teste"

 Hoje foi quarta-feira, dia da Escola da Fé, e também dia de avaliação. Há uma espécie de solenidade própria nestes dias: não pela grandiosidade do acontecimento em si, mas porque o acto de ser avaliado tem sempre qualquer coisa de revelador. Obriga-nos a sair do território confortável da escuta, da reflexão silenciosa e da aprendizagem progressiva para entrar num espaço mais exposto, onde aquilo que ficou — ou não ficou — de semanas de estudo ganha forma concreta. E talvez seja precisamente isso que torna os dias de teste tão particulares: não avaliamos apenas o que sabemos; sentimos, por instantes, que estamos também a ser confrontados com aquilo que somos diante da exigência. Hoje tivemos a nossa avaliação. O primeiro teste incidiu sobre o Novo Testamento; o segundo, sobre Cristologia. Dois temas que, apesar de estarem ligados, exigem disposições intelectuais diferentes. O Novo Testamento pede memória, atenção ao contexto, capacidade de compreender narrativas, discursos, símbol...

"Quem te amaria"

 Há uma pergunta que tem uma elegância quase cruel porque desmonta muitas ilusões sem levantar a voz: quem te amaria ainda se deixasses de ser útil? Porque durante muito tempo confundimos amor com função. Chamamos amor ao hábito de sermos necessárias. Chamamos amor ao facto de resolvermos, sustentarmos, organizarmos, carregarmos, anteciparmos, segurarmos. Tornamo-nos especialistas em sermos indispensáveis e, quando alguém permanece, convencemo-nos de que foi por quem somos — quando talvez tenha sido apenas pelo conforto daquilo que garantíamos. Existe uma tristeza silenciosa nesta descoberta: perceber que algumas relações não sobrevivem ao momento em que deixamos de produzir valor mensurável. Quando deixas de servir. Quando deixas de pagar. Quando deixas de resolver. Quando deixas de ser o porto seguro. Quando deixas de carregar emocionalmente toda a gente. Quando deixas de ser submissa. Subitamente, certos afectos evaporam-se com uma rapidez que seria quase cómica se não f...

"Dia do pai...2026"

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 Então hoje apeteceu-me mostrar uma coisa que eu e o meu filhote fizemos para o Dia do Pai. Sim, já passou tempo. Mas talvez haja trabalhos que não tenham prazo. Porque alguns ficam na mesa durante uma tarde. Outros ficam guardados muito mais tempo sem ninguém perceber bem porquê. Este foi um desses. Veio da escola com instruções simples e espaço suficiente para inventar. E gosto disso. Gosto da ideia de haver propostas que chegam a casa incompletas, porque obrigam a trazer para dentro delas aquilo que cada família é. Não há resposta certa. Não há modelo perfeito. Há só uma pergunta silenciosa: como é que vocês querem fazer isto? E nós fizemos à nossa maneira. Houve materiais espalhados, mudanças de ideias a meio, decisões tomadas com absoluta convicção e abandonadas cinco minutos depois. Houve aquela negociação típica entre o que parece possível aos adultos e o que parece completamente razoável às crianças. E, como quase sempre acontece, ganhou a imaginação. No meio disso apareceu...

"Escola... Halloween"

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  Eu ultimamente não partilho textos em tempo real do que estou a fazer. Onde vou, com quem. Nem sequer aquilo que fazemos em família. Mas não estou esquecida. Há um tempo que escolhi guardar mais do que mostrar. Não por mistério, nem por ausência. Apenas porque descobri que há coisas que crescem melhor longe da urgência de serem vistas. Nem tudo o que é bonito precisa de acontecer diante de um ecrã para existir com mais verdade. Continuamos aqui. A viver. A aprender. A construir memórias pequenas que, no fim, acabam por ser as maiores. A escola que o meu filho frequenta é como tantas outras escolas: tem aquilo que se espera que tenha, aquilo a que qualquer criança tem direito. Mas há uma coisa que me toca particularmente e que, para mim, vale muito mais do que actividades extraordinárias ou calendários cheios. Há uma tentativa genuína de aproximar as famílias sem lhes entrar pela porta dentro. Existe, por exemplo, um dia em que os pais podem entrar na sala e ler para os aluno...