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"Quem Decide o Que Cada Um Merece?"

Hoje alguém disse uma frase que atravessa os séculos com uma convicção quase inabalável: — Todos temos o que merecemos. Respondi, quase sem pensar: — Não quero saber. A pessoa insistiu. — Ela só faz chorar. Está sempre cansada. E foi nesse instante que percebi que a minha reação não era a que normalmente se espera. Não senti satisfação. Não senti justiça. Não senti sequer aquela pequena vaidade que, por vezes, acompanha a ideia de que a vida acabou por colocar tudo no seu devido lugar. Senti tristeza. Uma tristeza difícil de explicar. Porque imediatamente me ocorreu outra pergunta. Quem sabe, verdadeiramente, o que cada um merece? Quem recebeu essa autoridade? Quem olha para uma vida inteira e consegue afirmar, com rigor filosófico, psicológico ou simplesmente humano, que determinado sofrimento é justo? Quem decide que uma pessoa merece chorar? Quem estabelece que o cansaço é uma sentença adequada? Quem mede as dores, pesa as culpas e distribui as consequências como se a existência fos...

"O Verdadeiro Boletim de Avaliação"

Hoje fui devolver os livros escolares. Um gesto aparentemente administrativo, quase burocrático, mas que acabou por se transformar numa reflexão sobre aquilo que realmente significa educar. Mudei a rotina. Outra vez. Percebi há muito tempo que as rotinas existem para servir as pessoas e não para as aprisionar. A flexibilidade é uma forma discreta de inteligência: quem sabe adaptar-se preserva a serenidade e poupa energia às guerras desnecessárias. Passei pelo café mais cedo. Mostrei as notas do meu filho. Não pelas classificações de excelência, embora delas me orgulhe. Confesso, com uma honestidade que talvez faça sorrir alguns pedagogos, que houve uma classificação que me arrancou uma satisfação particularmente divertida: Educação Física. Depois de tantas conversas, tantas opiniões, tantas previsões quase proféticas sobre aquilo que ele deveria ou não deveria ser, aquela simples positiva pareceu-me possuir um sentido de humor extraordinariamente refinado. Continuei caminho até à escol...

"Não Foi a Paixão Que Me Desarmou. Foi a Forma Como Ele Ainda Sabia Ler o Meu Silêncio."

 Quando o meu filho saiu para a piscina, a casa mudou de respiração. Nunca acreditei que as paredes fossem apenas paredes. Há silêncios que alteram a temperatura das divisões e há ausências que deixam espaço para que duas pessoas se reencontrem sem o ruído do mundo. Mal fechei a porta, senti-o aproximar-se. Não ouvi passos. Reconheci-o pela forma como a minha própria respiração desacelerou. As mãos pousaram nos meus braços com uma firmeza tranquila. Virou-me de costas e fiquei diante da parede branca da entrada, onde a luz da tarde desenhava pequenas manchas douradas. Durante um instante ninguém falou. Sorri. Talvez porque soubesse que o desejo não começa quando alguém nos toca. Começa muito antes, na memória acumulada de todos os outros dias, nas conversas interrompidas, nas mãos que se cruzam na cozinha, nos olhares cúmplices enquanto o jantar fica pronto, na intimidade construída pela repetição de uma vida inteira. Aproximei o rosto da parede e fechei os olhos. Senti-o ainda mai...

"Eugénio III: o Centésimo Sexagésimo Quinto Papa da Igreja Católica"

Após a morte de Lúcio II, a Igreja de Roma elegeu Eugénio III , reconhecido como o centésimo sexagésimo quinto Papa da Igreja Católica e sucessor de Lúcio II na Sé de Roma. O seu pontificado decorreu entre os anos 1145 e 1153 da era cristã e ficou marcado pela convocação da Segunda Cruzada , pelo apoio às reformas monásticas e pelo seu estreito relacionamento com São Bernardo de Claraval. Foi o primeiro monge da Ordem de Cister a ser eleito Papa. Origem e formação Eugénio III nasceu em Pisa, na Itália, e o seu nome de nascimento era Bernardo Paganelli di Montemagno . Recebeu formação religiosa ainda jovem e ingressou na: Ordem de Cister onde se tornou discípulo de: São Bernardo de Claraval A sua humildade, espiritualidade e capacidade de governo levaram-no a ser nomeado abade e, posteriormente, cardeal. Eleição ao papado Após a morte de: Lúcio II os cardeais reunidos em Roma elegeram Bernardo Paganelli em 1145 , que adoptou o nome de Eugénio III. A sua eleição surpreende...

"Lúcio II: o Centésimo Sexagésimo Quarto Papa da Igreja Católica"

Após a morte de Celestino II, a Igreja de Roma elegeu Lúcio II , reconhecido como o centésimo sexagésimo quarto Papa da Igreja Católica e sucessor de Celestino II na Sé de Roma. O seu pontificado decorreu entre os anos 1144 e 1145 da era cristã e foi marcado por um intenso conflito entre o papado e a recém-formada Comuna de Roma, que procurava limitar a autoridade temporal dos pontífices. Origem e formação Lúcio II nasceu em Bolonha , na Itália, e o seu nome de nascimento era Gherardo Caccianemici dal Orso . Pertencia a uma família nobre bolonhesa e recebeu sólida formação eclesiástica. Antes de ser eleito Papa, serviu como cardeal-presbítero e participou activamente na administração da Igreja, adquirindo reputação de homem prudente e experiente. Eleição ao papado Após a morte de: Celestino II os cardeais reunidos em Roma elegeram Gherardo em 1144 , que adoptou o nome de Lúcio II. A sua eleição ocorreu num momento de grande instabilidade política na cidade. A Comuna de Rom...

"A Ansiedade Colectiva Perante a Intimidade Alheia"

Há um fenómeno extraordinariamente humano que me diverte e, ao mesmo tempo, me intriga. Quanto menos informação existe, maior é a convicção com que algumas pessoas constroem conclusões. Basta um abraço mais demorado. Uma fotografia. Uma mão dada. Um sorriso. Uma cumplicidade. E, quase instantaneamente, inicia-se um complexo processo de engenharia narrativa onde a imaginação trabalha muito mais do que a observação. É fascinante. A mente humana detesta espaços vazios. Quando não conhece os factos, inventa coerência. Quando não possui respostas, fabrica explicações. Quando não compreende a complexidade, reduz tudo a categorias simples que lhe permitam voltar a sentir a confortável ilusão de controlo. Talvez seja por isso que a intimidade alheia desperta um interesse tão persistente. Ela funciona como um espelho. Cada pessoa acredita observar o outro, quando na realidade revela sobretudo o seu próprio universo simbólico, os seus códigos morais, as suas inseguranças, os seus desejos, as sua...

"A Mais Sofisticada Forma de Fracasso: Esperar Pela Certeza"

Existe uma ilusão que atravessa todas as épocas, todas as culturas e praticamente todas as biografias humanas: a convicção de que um dia existirá um momento absolutamente seguro para viver. Esperamos ter mais dinheiro. Mais estabilidade. Mais conhecimento. Mais coragem. Mais certezas. Esperamos que desapareçam as dúvidas, que o medo se dissolva, que todas as variáveis se organizem numa espécie de harmonia cósmica onde finalmente será possível dar aquele passo, mudar de vida, começar um projecto, pedir desculpa, oferecer um abraço, declarar amor ou simplesmente ser quem somos. Mas a vida possui uma elegância cruel. Nunca promete segurança. Promete apenas possibilidade. E existe uma diferença filosófica, psicológica e antropológica profunda entre ambas. A possibilidade exige participação. A segurança exige passividade. Talvez por isso tantas vidas permaneçam suspensas. O ser humano é uma criatura extraordinariamente paradoxal. Sonha com a liberdade, mas procura incessantemente a garantia...