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"Entre o trabalho, o mundo e o silêncio: a hercúlea arte de viver um verão inteiro"

Este verão é uma aventura de gestão. E digo-o com um sorriso, porque há alturas da vida em que parece que precisamos de uma agenda, uma bússola, um relógio suplementar e, talvez, de mais umas seis horas por dia para conseguirmos fazer tudo aquilo que gostaríamos. O problema é que eu continuo a trabalhar. Portanto, não tenho propriamente aquele verão idílico em que os dias se estendem infinitamente e podemos decidir, todas as manhãs, o que nos apetece fazer. A vida continua a exigir horários, responsabilidades, compromissos e trabalho. E, ainda assim, eu quero viver. Quero aproveitar. Quero estar com os meus filhos, com o meu marido, com os meus amigos. Quero conhecer lugares, caminhar, ir à praia, fazer canoagem, sair, conversar, rir, jantar fora, tomar cafés demorados, descobrir festas, escrever, pensar, rezar e, sobretudo, ter tempo para estar comigo mesma. E talvez seja precisamente aí que esteja a verdadeira dificuldade deste verão: não em encontrar coisas para fazer, mas em conseg...

"Os sonhos que ainda sabem o meu nome"

Há sonhos que não chegam durante a noite. Vivem acordados dentro de nós. Crescem silenciosamente enquanto cumprimos tarefas, respondemos a perguntas, atravessamos dias iguais, sorrimos quando é preciso sorrir e continuamos a fazer aquilo que a vida espera de nós. Não fazem barulho. Não exigem passagem. Permanecem. Às vezes durante anos. Talvez seja por isso que os sonhos sejam tão estranhos: não obedecem ao calendário. Podemos envelhecer, mudar de cidade, mudar de pessoas, mudar de ideias, aprender a viver com aquilo que não conseguimos realizar e, ainda assim, existe dentro de nós uma parte que continua a lembrar-se de uma possibilidade que o tempo não conseguiu apagar. Não é necessariamente ingenuidade. Talvez seja memória de futuro. Uma espécie de lembrança daquilo que ainda não aconteceu, mas que, de alguma maneira, já começou a existir dentro de nós no instante em que o imaginámos. Porque antes de uma coisa existir no mundo, alguém teve de a conseguir imaginar. Uma casa foi primei...

"Há uma coisa extraordinária na Bíblia: ela não tem medo de mostrar pessoas no limite"

Há uma ideia de fé que sempre me pareceu profundamente estranha: a de que acreditar em Deus deveria tornar uma pessoa permanentemente forte. Como se a fé eliminasse o medo. Como se a oração impedisse o cansaço. Como se quem confia nunca pudesse chegar ao ponto de dizer: “Já não consigo.” Mas depois abrimos a Bíblia. E encontramos outra coisa. Encontramos homens que tiveram medo. Homens que se cansaram. Homens que desejaram desaparecer. Homens que chegaram a um lugar interior onde já não conseguiam continuar a desempenhar o papel de quem sabia exactamente para onde ia. Moisés, aquele a quem tantas vezes associamos à força, à liderança e à libertação de um povo inteiro, chega a um momento em que a responsabilidade se torna demasiado pesada e pede a Deus que lhe tire a vida: “Se assim hás-de proceder comigo, mata-me, peço-te, se achei graça aos teus olhos; e não me deixes ver a minha desgraça.” Números 11,15 Não é uma frase bonita. Não é uma frase religiosa. Não é uma frase de alguém que ...

"Há presenças que incomodam sem terem feito absolutamente nada"

Há uma coisa estranha na natureza humana: por vezes, alguém pode entrar numa sala sem dizer uma palavra e, ainda assim, alterar a forma como outra pessoa se sente. Não porque tenha feito alguma coisa. Não porque tenha procurado atenção. Não porque seja mais bonita, mais inteligente, mais rica ou mais interessante. Simplesmente porque existe. E talvez uma das coisas mais difíceis de compreender nas relações humanas seja precisamente esta: nem todas as reacções que provocamos nas pessoas nasceram daquilo que fizemos. Algumas nascem daquilo que a nossa existência desperta nelas. Há pessoas diante das quais nos sentimos tranquilamente nós próprios. E há outras cuja presença nos obriga, ainda que por instantes, a olhar para aquilo que tentamos manter fora do campo de visão. É aí que começa a comparação. Não aquela comparação consciente, racional, quase inocente, que nos permite aprender com alguém. Essa pode ser saudável. Podemos olhar para outra pessoa e pensar: gosto da maneira como ela v...

"Há pessoas que precisam de medir até o afecto dos outros"

É curioso como conseguimos perceber tanto sobre uma pessoa através de coisas aparentemente insignificantes. Às vezes não é preciso ouvi-la falar durante horas. Basta observar aquilo a que presta atenção. Há quem repare numa paisagem. Há quem repare numa conversa. Há quem repare num gesto de carinho. E há quem, mal entra num lugar, comece imediatamente a medir. Quem tem mais. Quem tem menos. Quem conhece quem. Quem é mais importante. Quem recebe mais atenção. Quem é mais admirado. Quem parece ter uma vida mais preenchida. E existe ainda uma forma particularmente curiosa de competição: aquela que nasce quando alguém observa a felicidade ou o afecto dos outros e, em vez de simplesmente o reconhecer, sente necessidade de o questionar. Foi precisamente isso que me aconteceu. Eu estava sentada num café com uma amiga de infância. E dizer “amiga de infância” é pouco para explicar o que aquela pessoa representa na minha vida. Conhecemo-nos há mais de quarenta anos. Andámos no primeiro ciclo na ...

"Antes de querer alguém, aprende a conhecê-lo"

O que vos escrevo vale para eles e para elas. Para homens e mulheres. Para quem ama. Para quem é casado. Para quem namora. Para quem é pai ou mãe. Para quem é filho. Para quem tem amigos. Para quem procura alguém com quem partilhar a vida e para quem, simplesmente, deseja construir relações humanas que tenham mais profundidade do que aparência. Porque existe uma pobreza relacional que não se mede pelo número de pessoas que temos à nossa volta, mas pela incapacidade de verdadeiramente conhecermos aquelas que estão perto de nós. E talvez seja aqui que esteja uma das maiores confusões do nosso tempo: confundimos acesso com intimidade. Ter acesso ao corpo de alguém não significa conhecer essa pessoa. Ter acesso à vida de alguém não significa compreender a sua história. Saber onde alguém está não significa saber onde essa pessoa se encontra interiormente. Conhecer os hábitos de alguém não significa conhecer aquilo que o inquieta quando fica sozinho. E podemos viver vinte anos ao lado de uma...

"A vida ensinou-me"

A vida ensinou-me coisas que nenhum livro poderia ensinar exactamente da mesma maneira. Não porque os livros não tenham respostas — têm muitas, algumas capazes de nos acompanhar durante uma existência inteira —, mas porque há aprendizagens que só chegam quando deixamos de as estudar de fora e passamos a vivê-las por dentro. Aprendi, sobretudo, que há verdades que não fazem barulho. Chegam devagar. Instalam-se depois de algumas desilusões, de algumas pessoas que passam, de outras que ficam, de erros que nos obrigam a olhar para nós próprias e de silêncios que dizem mais do que determinadas conversas. Uma dessas verdades foi esta: aprende-se muito mais quando se sabe ouvir do que quando se sente necessidade de falar. Durante muito tempo, confundimos inteligência com capacidade de resposta. Pensamos que a pessoa mais inteligente é aquela que tem sempre alguma coisa para dizer, a resposta mais rápida, o argumento mais elaborado, a última palavra. Mas a verdadeira inteligência também sabe c...