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"Vontade de Poder"

 A noção de Vontade de Poder — Wille zur Macht — ocupa um lugar axial no pensamento de Friedrich Nietzsche , constituindo não apenas um conceito filosófico isolado, mas antes um princípio interpretativo transversal, quase uma lente ontológica através da qual a própria realidade se deixa entrever. Longe de ser uma simples teoria psicológica ou uma apologia da dominação, a Vontade de Poder revela-se como uma dinâmica fundamental da vida, uma força imanente que impele todos os seres a ultrapassarem-se, a intensificarem-se, a afirmarem-se num movimento incessante de expansão. Desde logo, importa desfazer um equívoco recorrente: a Vontade de Poder não se reduz a uma vontade de domínio sobre os outros. Tal leitura, frequentemente vulgarizada, empobrece radicalmente a profundidade do conceito. Em Nietzsche, o “poder” não é meramente político ou social; é, antes de mais, ontológico e vital. Trata-se de uma tendência constitutiva da vida para se exceder a si mesma, para transformar limit...

"Quarta-feira da Semana Santa"

 Na Quarta-feira da Semana Santa, a narrativa cristã abranda o ritmo e detém-se num gesto que, à primeira vista, parece quase insignificante — um acto breve, silencioso, aparentemente inofensivo. No entanto, é precisamente aí que se concentra uma das maiores densidades simbólicas da condição humana. Judas Iscariotes aproxima-se de Jesus Cristo . Não há confronto físico, não há violência explícita, não há dramatização exterior. Há proximidade. Há reconhecimento. Há um beijo. E é nesse gesto — íntimo, culturalmente associado ao afecto, à confiança, à entrega — que se consuma a traição. Um beijo que não é amor, mas instrumento. Um beijo que não acolhe, mas expõe. Um beijo que, em vez de proteger, entrega. E talvez o mais inquietante não seja apenas o episódio em si, mas a sua permanência. Porque esta realidade não ficou confinada ao tempo bíblico, nem àquela noite específica. Ela prolonga-se, repete-se, infiltra-se nas relações contemporâneas, muitas vezes com uma subtileza a...

"Não quero saber..."

 Não me interessam conversas superficiais. Não por arrogância, mas por consciência do tempo — esse recurso finito que já não desperdiço com aquilo que não acrescenta, não constrói, não transforma. Lamento, se for necessário lamentar, mas não me disponibilizo para diálogos vazios, para curiosidades disfarçadas de interesse, para ruído social que se alimenta de si mesmo. E, com a mesma serenidade, afirmo: não me interessa o que dizem a meu respeito. Não por indiferença artificial, mas por lucidez. Porque, na maioria das vezes, são opiniões formadas por quem não me conhece, sustentadas em fragmentos, percepções enviesadas, interpretações que dizem mais sobre quem as formula do que sobre quem é alvo delas. Como pode alguém conhecer-me sem me atravessar? Como pode alguém definir-me sem me compreender? Não pode. O que dizem revela-os. Não me define. Julgar não me pertence. Nunca pertenceu. Esse lugar — último, absoluto — cabe a Deus. E há uma tranquilidade profunda em reconhecer is...

“Purificação”

 Há uma tendência cada vez mais visível — e, arrisco dizer, intelectualmente preguiçosa — de procurar transformação onde ela não exige compromisso. Multiplicam-se os rituais, os símbolos, os gestos performativos de “purificação”, como se a mudança pudesse ser convocada por via estética, aromática ou quase mística… sem que se toque no essencial. Purifica-se o ar. Organiza-se o espaço. Acendem-se velas, queimam-se incensos, evocam-se energias. E, não raras vezes, replicam-se também certos discursos importados de contextos onde a espiritualidade se transforma em encenação — verdadeiros palcos onde se dramatiza o mal, se amplifica a culpa e se atribui ao “demónio” tudo aquilo que exigiria responsabilidade pessoal, enquanto, com notável conveniência, se solicita entrega, devoção e até contribuição material como se isso, por si só, resolvesse aquilo que nunca foi enfrentado. E, no entanto, permanece intocado aquilo que verdadeiramente desorganiza: o vínculo humano. Porque não há ri...

"Inseto"

 Há momentos em que a realidade se apresenta com um grau de ironia tão refinado que quase dispensa interpretação — não fosse o facto de, por uma questão de rigor intelectual, merecer ser devidamente dissecada. Deve ser, imagino, profundamente limitador habitar um lugar onde o pensamento não amadurece, onde a linguagem é utilizada como instrumento rudimentar de ataque e onde a intenção precede sempre a consciência. Não diria que é apenas triste — seria simplista. É, sobretudo, revelador. Hoje, num dos meus locais de trabalho — escolhido, sublinhe-se, com a mesma discrição com que conduzo a minha vida — fui abordada por uma senhora que decidiu, num exercício de coragem questionável e oportunidade inexistente, dirigir-me a palavra num contexto que, por si só, exigiria o mínimo de decência: um velório. Há algo de profundamente sintomático em quem, perante a dor alheia, escolhe a irrelevância como forma de afirmação. Ignorar o luto para performar uma tentativa de ataque não é apenas ...

"Sábado"

 Hoje escolho partilhar o dia de ontem — sábado, 28 de março de 2026 — não por necessidade de validação, mas por uma questão de integridade narrativa. Prefiro a clareza assumida à distorção conveniente. Conheço demasiado bem o ruído que nasce quando o silêncio é ocupado por versões alheias, frequentemente intensificadas por intenções que pouco têm de inocentes. E, sim, há algo que afirmo sem rodeios: não tenho tolerância para a perversidade disfarçada de interpretação. Ontem foi um dia memorável. Não no sentido ruidoso ou exuberante, mas naquilo que verdadeiramente importa: na autenticidade dos afectos, na qualidade das presenças, na coerência entre o que se é e o que se demonstra. Celebrei — com a minha família — o aniversário de uma mulher extraordinária. E não utilizo o termo de forma leviana. Extraordinária não pelo que possui, mas pela forma como existe. A celebração foi preparada pela filha e pelo esposo, com um cuidado que não se improvisa: um cuidado que nasce do amor viv...

"Nunca..."

 Há um equívoco recorrente — subtil na aparência, mas profundamente corrosivo na prática — que insiste em disfarçar-se de virtude: a confusão entre controlo e amor. Como se vigiar fosse cuidar. Como se apertar fosse proteger. Como se reter o outro fosse, de algum modo, garantia de permanência. Mas não é. Nunca foi. O que muitas vezes se apresenta como “excesso de cuidado” nasce, na verdade, de um território interno menos nobre e raramente assumido: o medo. Medo de perder. Medo de ser traído. Medo — talvez o mais silencioso e mais determinante — de não ser suficiente. E é desse núcleo emocional, tantas vezes ignorado ou disfarçado, que emergem comportamentos que se legitimam como amor, mas operam como contenção. Surgem as cobranças constantes, a necessidade de saber, de prever, de antecipar, de controlar cada variável como se a imprevisibilidade do outro fosse um erro a corrigir e não uma condição inevitável da relação. Há, aqui, uma ilusão de domínio: a crença de que, se tudo for o...

"Persona"

 Olá. Há um talento que, admito, exige prática: esse de chegar leve, sorrir como quem não deve nada a ninguém e revestir cada frase com diminutivos e uma doçura quase infantil — uma espécie de açúcar performativo que tenta convencer que ali existe cuidado. Só que não há. Há cálculo. Há intenção. Há um verniz demasiado fino a tentar esconder uma matéria que não suporta luz direta. E é curioso como quase resulta. Quase — porque a incoerência tem uma forma muito própria de se infiltrar. Não grita, não se impõe, mas escapa. Num olhar ligeiramente deslocado, numa pausa milimetricamente fora do tempo, num gesto que não acompanha a narrativa. O corpo não mente com a mesma disciplina com que a boca ensaia. E é aí que tudo se denuncia. Eu vejo. Não por esforço — por evidência. Eu ouço. Não por atenção redobrada — por padrão repetido. Essa simpatia que apresentas não é empatia. É estratégia social. É uma forma elegante de intervir sem assumir o impacto. Dizes sem dizer, feres sem tocar...

"Desilusão"

 Há uma proposta que, à primeira leitura, soa quase ofensiva à sensibilidade comum: agradecer por uma grande desilusão. Sim, agradecer. Não tolerar, não suportar, não “ultrapassar” com esforço contido — agradecer. Absurdo? Claro que parece. E ainda bem que parece. Porque tudo o que verdadeiramente transforma raramente se apresenta de forma confortável ou intuitiva. A desilusão não chega com delicadeza. Não pede licença. Não se anuncia com elegância emocional. Entra, rompe, expõe. E, no meio desse desconforto, há uma verdade quase inconveniente: ela não vem para destruir — vem para revelar. Retira o véu. Desmonta a encenação. Interrompe a narrativa que, com tanto empenho, construíste para fazer caber aquilo que, no fundo, nunca coube. E dói. Claro que dói. Dói porque investiste. Porque acreditaste. Porque projetaste cenários onde tudo fazia sentido — ou, pelo menos, fazia sentido suficiente para continuares a insistir. Dói porque depositaste confiança, porque acolheste palavr...