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"O silêncio é o inimigo número um dos mentirosos."

Porque quem procura respostas e encontra silêncio fica, inevitavelmente, diante de um problema que não consegue controlar: a ausência de informação. Vêm procurar histórias, explicações, detalhes, contradições. Querem saber onde estou, com quem estou, o que faço, o que penso, o que aconteceu, o que deixei de fazer. Procuram uma frase que possam retirar do contexto, um pormenor que possam torcer, qualquer fragmento que lhes permita completar aquilo que não sabem. Mas não encontram. E quando não encontram factos, começam a fabricar versões. É aí que o silêncio se torna particularmente incómodo. Porque eu não lhes dou matéria-prima. Não explico aquilo que não lhes diz respeito. Não corrijo todas as interpretações que fazem sobre mim. Não corro atrás de cada mentira para a desmentir, porque há uma armadilha nessa necessidade constante de justificar a própria existência: quanto mais tentamos responder a tudo, mais importância concedemos à narrativa de quem inventou. Então ficam sozinhos com ...

"Quero que saibam."

 Quero que saibam uma coisa, não como justificação, mas como verdade: eu também luto, todos os dias, para viver aquilo em que acredito. Conheço-me demasiado bem para precisar de fingir diante de alguém que sou uma mulher acabada, sem contradições, sem defeitos, sem zonas interiores que ainda exigem trabalho. Sei exactamente onde falho. Conheço as minhas fragilidades, reconheço os meus excessos, sei onde por vezes me falta paciência, onde o orgulho se intromete, onde uma ferida antiga pode falar mais alto do que a razão. Não tenho qualquer interesse em construir uma imagem de perfeição, porque a perfeição, além de impossível, seria uma forma bastante pobre de humanidade. O que procuro é outra coisa. Procuro tornar-me melhor. E isso é muito diferente. Há palavras que consigo oferecer com facilidade e que, quando a vida as coloca diante de mim, exigem uma coragem que eu própria não sabia que me seria pedida. Consigo falar de esperança. Mas também tenho dias em que preciso desesperadam...

"Venham comigo."

Não vos prometo chegar a nenhum lugar extraordinário. Aliás, talvez a viagem nem seja sobre chegar. Quero apenas retribuir-vos, à minha maneira, toda a atenção, toda a persistência, todas as vezes em que ficaram por aqui, entre uma palavra e outra, mesmo quando eu escrevi coisas que talvez fossem difíceis de compreender à primeira leitura. Mas aviso-vos desde já: não vou retribuir da forma como talvez esperem. Eu sou peregrina. E um peregrino não caminha porque conhece a estrada inteira. Caminha apesar de não a conhecer. Talvez seja precisamente isso que fazemos todos os dias sem nos apercebermos: avançamos por uma vida cujo mapa nunca nos foi entregue. Sabemos de onde partimos. Imaginamos para onde queremos ir. Mas ninguém nos explica o que encontraremos depois da próxima curva. Há estradas que começam luminosas e acabam cobertas de nevoeiro. Há outras que parecem não levar a lado nenhum e, inesperadamente, abrem diante de nós uma paisagem que jamais teríamos encontrado se o caminho t...

"A culpa foi da sangria"

Eu estive na Suíça. Mas não é sobre a Suíça que vou escrever hoje. Ainda não. Mais tarde levarei todos comigo pelos lugares onde andei, pelas paisagens que vi, pelas estradas que parecem desenhadas por alguém que teve a desfaçatez de tornar a natureza excessivamente bonita. Hei de falar-vos daquele país extraordinário, de uma beleza quase extenuante, dessas paisagens que nos fazem desconfiar da própria fotografia porque parece impossível que a realidade tenha conseguido ser tão meticulosamente composta. Mas isso fica para depois. Hoje quero falar-vos de ontem. Ou, mais rigorosamente, daquilo que acontece quando duas amigas se encontram para lanchar e alguém, algures no percurso, comete o erro estratégico de introduzir sangria na equação. A minha amiga mora na Suíça e veio ter comigo. A ideia inicial era absolutamente inocente: conversar um pouco, falar sobre a Suíça, contar-lhe o que achei, o que visitei, trocar impressões e, naturalmente, lanchar. Nada que pudesse ameaçar a estabilida...

"O que ela me disse junto ao Tejo"

Fomos caminhar até à praia sem sabermos, talvez, que aquela caminhada acabaria por nos levar a lugares muito mais interiores do que aqueles que os nossos pés percorriam. Há conversas que começam enquanto caminhamos e que parecem, à primeira vista, apenas conversas. Falamos de coisas pequenas. Da vida. De pessoas. De acontecimentos. Rimos de qualquer coisa. Paramos por momentos. Retomamos o caminho. E depois, sem aviso, alguém diz uma frase que muda a natureza inteira da conversa. Foi o que aconteceu quando ela me disse: — Sinto falta do toque. Não foi a primeira vez que ouvi aquelas palavras. Anos antes, outra pessoa tinha-me dito exactamente a mesma coisa. E talvez seja estranho dizer isto, mas naquele momento pensei nessa coincidência. A mesma frase. Outra pessoa. Outro tempo. E eu, agora, diferente daquela mulher que tinha escutado a mesma confissão no passado. Porque há coisas que a vida nos repete não para que voltemos ao mesmo lugar, mas para percebermos que já não somos capazes ...