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"Gratidão. Até por quem nunca acreditou."

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Hoje olhei para os números do blogue. Confesso que, durante alguns minutos, não vi estatísticas. Vi pessoas. Cada visualização representa alguém que, por instantes, parou o ritmo da própria vida para ler aquilo que saiu do silêncio da minha. E isso nunca será um número. Será sempre um privilégio. Escrever sempre foi, para mim, muito mais do que juntar palavras. É uma forma de pensar, de compreender o ser humano, de organizar a vida e de transformar as minhas perguntas em pontes para quem, talvez, carregue as mesmas inquietações. Por isso, hoje só consigo sentir gratidão. Curiosamente, essa gratidão começa por quem menos imagina. Quero agradecer a todos aqueles que, ao longo do caminho, me julgaram, criticaram, duvidaram de mim, inventaram histórias, diminuíram o meu trabalho, falaram nas minhas costas ou me ofereceram, tantas vezes, aquilo a que gosto de chamar "banhos de realidade". Obrigado. Sim, obrigado. Porque, sem o saberem, obrigaram-me a estudar mais, a esc...

"O único lugar onde a vida acontece chama-se hoje."

Já reparaste como, por vezes, nós, seres humanos, somos profundamente contraditórios? Passamos anos a sacrificar o presente por causa do futuro. Trabalhamos mais do que o corpo suporta, adiamos encontros, sufocamos afectos, deixamos sonhos em suspenso e convencemo-nos de que, um dia, quando tudo estiver finalmente no lugar, então começaremos verdadeiramente a viver. Mas o futuro chega. E, quando chega, transforma-se imediatamente em presente. É então que olhamos para trás e percebemos que aquilo por que tanto ansiávamos acabou por nos roubar aquilo que nunca poderemos recuperar: o tempo vivido. É curioso. Preocupamo-nos tanto com o amanhã que nos esquecemos de habitar o hoje. Depois, quando o amanhã se torna ontem, choramos precisamente o hoje que deixámos escapar. Talvez uma das maiores ironias da condição humana seja esta: destruímos o presente por medo do futuro e, mais tarde, sofremos porque o passado já não pode ser mudado. Vivemos, muitas vezes, como se a vida estivesse sempre no...

"Há casas onde o silêncio faz mais barulho do que os gritos."

Por vezes, aquilo que vemos não é a realidade. É apenas a parte da realidade que nos foi permitida conhecer. A vida humana possui bastidores. E é precisamente nos bastidores que, muitas vezes, se desenrolam as histórias que ninguém imagina. Há homens admirados em público e temidos dentro de casa. Há mulheres que sorriem diante de todos e regressam a um lugar onde deixaram de reconhecer a própria voz. Há famílias que parecem perfeitas nas fotografias, enquanto, entre quatro paredes, sobrevivem numa tensão permanente que ninguém consegue fotografar. Vivemos numa sociedade profundamente influenciada pela aparência. Julgamos depressa, concluímos depressa e acreditamos que conhecemos alguém porque conhecemos a sua imagem pública. No entanto, a imagem é apenas uma representação; nunca é a totalidade da pessoa. É por isso que tantas vítimas escutam frases que, mesmo sem intenção, aumentam a sua dor: "Mas ele parece tão boa pessoa." "Sempre foi tão educado." "Nunca ser...

"Há pessoas que não entram na nossa vida. Regressam a um lugar onde a alma já as conhecia."

Nem todos os encontros têm a mesma profundidade. Há pessoas que cruzam o nosso caminho e deixam uma memória agradável. Outras permanecem durante anos e, ainda assim, nunca chegam verdadeiramente a conhecer-nos. Depois existem aqueles encontros raros, quase inexplicáveis, em que sentimos que alguém não apenas nos viu… mas nos reconheceu. Não falo da paixão impulsiva que tantas vezes confunde intensidade com profundidade. Também não falo da idealização romântica que transforma o outro num projecto de felicidade. Refiro-me àquele encontro sereno entre duas pessoas que, sem perderem a própria identidade, encontram uma forma singular de habitar a vida uma da outra. Talvez uma das maiores necessidades humanas nunca tenha sido apenas amar. Sempre foi ser compreendida. Existe uma diferença enorme entre alguém gostar daquilo que mostramos e alguém conseguir permanecer diante daquilo que escondemos. Há olhares que apenas observam. E há olhares que compreendem. Há pessoas que escutam palavras. E ...

"A mulher, o desejo e a coragem de habitar o próprio corpo"

Durante demasiado tempo, ensinaram a mulher a conhecer o mundo antes de lhe permitirem conhecer-se a si própria. Ensinaram-na a cuidar, a servir, a proteger, a compreender, a escutar. Prepararam-na para ser filha, esposa, mãe, profissional e, tantas vezes, o lugar seguro onde todos os outros encontram descanso. Contudo, entre tantas aprendizagens, esqueceram-se de uma das mais importantes: ensinaram-na pouco a habitar o próprio corpo sem culpa. É curioso. Desde a Antiguidade que o corpo feminino ocupa a pintura, a escultura, a poesia e a literatura. Foi exaltado, contemplado, desejado, regulamentado, censurado e interpretado. Todos pareciam ter algo a dizer sobre ele. Poucos perguntaram à mulher como era viver dentro dele. Talvez por isso ainda exista quem core de vergonha ao pronunciar palavras como desejo, prazer ou orgasmo, como se a dignidade feminina dependesse da ignorância do próprio corpo. Mas a ignorância nunca foi sinónimo de virtude. O conhecimento, quando aliado à consciênc...

"Há dores que não desaparecem. Apenas aprendem a esconder-se."

Há uma ideia profundamente enraizada na cultura contemporânea: a de que o tempo cura tudo. É uma frase repetida com a melhor das intenções, talvez porque oferece esperança quando ainda não existem respostas. No entanto, a experiência humana revela uma realidade mais complexa. O tempo não possui, por si só, qualquer poder terapêutico. Limita-se a avançar. Somos nós, através da forma como atravessamos esse tempo, que podemos transformar uma ferida numa cicatriz ou permitir que uma cicatriz continue a comportar-se como uma ferida aberta. Importa, contudo, evitar uma simplificação igualmente perigosa. Nem toda a dor que sentimos hoje nasce exclusivamente do passado, nem todas as nossas escolhas podem ser explicadas por aquilo que vivemos. O ser humano nunca é o resultado de uma única causa. Somos feitos daquilo que herdámos, do que nos aconteceu, das circunstâncias que nos envolveram, das relações que construímos e, sobretudo, das decisões que continuamos a tomar. Ainda assim, aquilo que p...

"Nem toda a ajuda é um acto de bondade"

Há uma forma de manipulação particularmente perigosa porque raramente se apresenta com o rosto da violência. Apresenta-se com o rosto da ajuda. Nem todas as pessoas que estendem a mão desejam verdadeiramente levantar-te. Algumas estendem-na apenas depois de terem contribuído, directa ou indirectamente, para a tua queda. Outras alimentam silenciosamente o problema para depois se oferecerem como a única solução possível. E há ainda aquelas que criam dependência, enfraquecem a tua autonomia e, no fim, convencem-te de que lhes deves gratidão por uma liberdade que nunca deixaram realmente existir. Por isso, aprende a observar mais do que as palavras. Observa os processos. Há pessoas que, metaforicamente, partem as tuas pernas, vendem-te as muletas e ainda conseguem convencer-te de que só continuas a caminhar graças à generosidade delas. E o mais inquietante é que muitas vítimas nunca chegam a perceber o mecanismo. Porque a manipulação sofisticada raramente funciona através da força. Funcion...