"Onde me sentaria eu?"
Há perguntas que não são apenas perguntas — são espelhos. E este é um desses casos. Onde me sentaria eu? Numa mesa impecável, onde tudo parece certo, onde as palavras são medidas, os gestos controlados, as falhas escondidas sob uma estética de perfeição? Ou numa mesa imperfeita, onde há tropeços assumidos, culpas reconhecidas, verdades ditas ainda que com voz trémula? A resposta não é apenas uma escolha moral. É uma posição existencial. Durante muito tempo, ensinaram-nos — de forma subtil, mas persistente — que a santidade se mede pelo que se vê. Pela forma como se fala, como se veste, como se comporta. Construímos, quase sem dar conta, uma ideia de pureza que se aproxima mais de um cenário do que de uma realidade interior. E, no entanto, quanto mais observo, mais compreendo que a aparência pode ser o lugar mais sofisticado da ilusão. Porque Deus — esse olhar que não se deixa impressionar por superfícies — não habita vitrines. Ele atravessa-as. Não se detém no gesto ensaiado, nem ...