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"Seletividade"

 Há quem interprete a mudança como uma renúncia. Quem observe uma pessoa mais silenciosa e conclua que ela desistiu de dizer aquilo que pensa. Quem veja uma postura mais reservada e a confunda com medo, conformismo ou insegurança. No entanto, algumas das transformações mais profundas não representam uma retirada. Representam uma depuração. Durante muitos anos fui uma pessoa directa. Não no sentido impulsivo da palavra, mas no sentido rigoroso. Pensava antes de falar. Observava antes de concluir. Analisava antes de formular uma opinião. E, uma vez construída essa opinião, expressava-a sem excessivas preocupações com a forma como seria recebida. Se concordava, dizia que concordava. Se discordava, dizia que discordava. Não via nisso qualquer acto de coragem extraordinária. Via apenas coerência. Parecia-me natural que existisse correspondência entre aquilo que uma pessoa pensava e aquilo que verbalizava. Nunca compreendi a necessidade de dizer uma coisa e pensar outra. Nunca me senti c...

"Intensidade em contenção"

 Sabes… acho que uma das coisas mais pesadas da vida não é aquilo que sentimos. É aquilo que sentimos e não dizemos. Há pessoas que passam anos inteiros a carregar emoções em silêncio, como quem tenta convencer-se de que o tempo resolve tudo sozinho. Guardam palavras. Guardam vontades. Guardam afectos. E, pouco a pouco, habituam-se a transformar intensidade em contenção. Por medo. Medo de não serem correspondidas. Medo de estragar uma amizade. Medo de complicar aquilo que ainda está em equilíbrio. Medo da rejeição. Porque a rejeição toca numa parte muito primitiva do ser humano. Ninguém gosta de sentir que avançou emocionalmente em direcção a alguém e encontrou distância do outro lado. Expor sentimentos exige vulnerabilidade e a vulnerabilidade nunca será confortável. Nunca. Mas o silêncio também tem um preço. E talvez seja disso que quase ninguém fale suficientemente. As pessoas falam muito do desconforto de dizer o que sentem, mas falam pouco do desgaste lento de nunca dizer nada...

"A Forma Como Nos Fomos Ficando..."

  -  Engraçado como algumas pessoas pensam que estão a conduzir uma conversa… quando na verdade só estão a reagir ao ritmo que lhes é imposto. - E tu achas que estás a impor ritmo? -Não acho. Sei. A diferença é subtil, mas importante. Há quem fale para preencher silêncio. E há quem fale para observar o efeito do que disse. - Isso soa a controlo disfarçado de análise. - Ou análise demasiado precisa para ser confortável de ignorar. - E o que é que estás a tentar observar, exatamente? - Reações. Pequenas variações. O tipo de resposta que não é pensada apenas para responder, mas para se proteger daquilo que a frase anterior provocou. - E achas que me provocas? - Não uso essa palavra de forma ligeira. Prefiro “influência”. Provocar é barulho. Influenciar é silêncio. - E tu gostas de silêncio? - Gosto de controlo. E o silêncio revela mais controlo do que qualquer frase bem construída. - Estás a tentar ler-me. - Não. Estou a deixar-te revelar-te. Há diferença. - E se e...

"Sexualidade... Porquê "

 Existe uma tendência curiosa no ser humano: mal vê outra pessoa durante sete minutos, sente imediatamente que recebeu competências clínicas, sociológicas e espirituais suficientes para concluir exactamente quem ela é, do que gosta e com quem dorme. Uma mulher muito feminina? “Heterossexual, claramente.” Um homem delicado, emocionalmente expressivo ou com maneirismos considerados femininos? “Homossexual.” E eu às vezes fico a olhar para as pessoas com a mesma expressão com que se olha para alguém que tentou aquecer alumínio no micro-ondas. Porque… em que momento decidimos que os seres humanos funcionavam como embalagens de iogurte? “Agitar antes de consumir. Conteúdo facilmente identificável.” Não funcionamos assim. Nunca funcionámos. A sexualidade humana sempre foi muito mais complexa, fluida, contraditória e imprevisível do que a necessidade colectiva de simplificação consegue tolerar. Mas as pessoas gostam de categorias rápidas porque pensar profundamente dá trabalho. ...