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"Intensidade em contenção"

 Sabes… acho que uma das coisas mais pesadas da vida não é aquilo que sentimos. É aquilo que sentimos e não dizemos. Há pessoas que passam anos inteiros a carregar emoções em silêncio, como quem tenta convencer-se de que o tempo resolve tudo sozinho. Guardam palavras. Guardam vontades. Guardam afectos. E, pouco a pouco, habituam-se a transformar intensidade em contenção. Por medo. Medo de não serem correspondidas. Medo de estragar uma amizade. Medo de complicar aquilo que ainda está em equilíbrio. Medo da rejeição. Porque a rejeição toca numa parte muito primitiva do ser humano. Ninguém gosta de sentir que avançou emocionalmente em direcção a alguém e encontrou distância do outro lado. Expor sentimentos exige vulnerabilidade e a vulnerabilidade nunca será confortável. Nunca. Mas o silêncio também tem um preço. E talvez seja disso que quase ninguém fale suficientemente. As pessoas falam muito do desconforto de dizer o que sentem, mas falam pouco do desgaste lento de nunca dizer nada...

"A Forma Como Nos Fomos Ficando..."

  -  Engraçado como algumas pessoas pensam que estão a conduzir uma conversa… quando na verdade só estão a reagir ao ritmo que lhes é imposto. - E tu achas que estás a impor ritmo? -Não acho. Sei. A diferença é subtil, mas importante. Há quem fale para preencher silêncio. E há quem fale para observar o efeito do que disse. - Isso soa a controlo disfarçado de análise. - Ou análise demasiado precisa para ser confortável de ignorar. - E o que é que estás a tentar observar, exatamente? - Reações. Pequenas variações. O tipo de resposta que não é pensada apenas para responder, mas para se proteger daquilo que a frase anterior provocou. - E achas que me provocas? - Não uso essa palavra de forma ligeira. Prefiro “influência”. Provocar é barulho. Influenciar é silêncio. - E tu gostas de silêncio? - Gosto de controlo. E o silêncio revela mais controlo do que qualquer frase bem construída. - Estás a tentar ler-me. - Não. Estou a deixar-te revelar-te. Há diferença. - E se e...

"Sexualidade... Porquê "

 Existe uma tendência curiosa no ser humano: mal vê outra pessoa durante sete minutos, sente imediatamente que recebeu competências clínicas, sociológicas e espirituais suficientes para concluir exactamente quem ela é, do que gosta e com quem dorme. Uma mulher muito feminina? “Heterossexual, claramente.” Um homem delicado, emocionalmente expressivo ou com maneirismos considerados femininos? “Homossexual.” E eu às vezes fico a olhar para as pessoas com a mesma expressão com que se olha para alguém que tentou aquecer alumínio no micro-ondas. Porque… em que momento decidimos que os seres humanos funcionavam como embalagens de iogurte? “Agitar antes de consumir. Conteúdo facilmente identificável.” Não funcionamos assim. Nunca funcionámos. A sexualidade humana sempre foi muito mais complexa, fluida, contraditória e imprevisível do que a necessidade colectiva de simplificação consegue tolerar. Mas as pessoas gostam de categorias rápidas porque pensar profundamente dá trabalho. ...