"Tempo"
O tempo tem uma forma singular de nos transformar. Raramente chega com estrondo. Na maioria das vezes instala-se devagar, quase sem ruído, infiltrando-se nos lugares mais íntimos daquilo que acreditávamos ser. Não pede autorização. Não anuncia mudanças. Não nos consulta antes de alterar prioridades, desmontar convicções ou obrigar-nos a abandonar versões antigas de nós próprias. Existe uma ideia reconfortante — mas profundamente ilusória — de que crescemos por decisão. Como se a maturidade fosse sempre um acto consciente, linear, voluntário. Não é. Muitas vezes crescemos porque já não existe alternativa. Porque o tempo, indiferente às nossas resistências, continua a avançar e obriga-nos a acompanhar aquilo que ainda não compreendemos. Há lições que chegam com delicadeza. Dias que nos educam sem violência. Pessoas que passam pela nossa vida e deixam conhecimento sem deixar ruína. Mas existem outras aprendizagens — talvez as mais decisivas — que chegam de forma menos generosa. ...