"Inseto"
Há momentos em que a realidade se apresenta com um grau de ironia tão refinado que quase dispensa interpretação — não fosse o facto de, por uma questão de rigor intelectual, merecer ser devidamente dissecada. Deve ser, imagino, profundamente limitador habitar um lugar onde o pensamento não amadurece, onde a linguagem é utilizada como instrumento rudimentar de ataque e onde a intenção precede sempre a consciência. Não diria que é apenas triste — seria simplista. É, sobretudo, revelador. Hoje, num dos meus locais de trabalho — escolhido, sublinhe-se, com a mesma discrição com que conduzo a minha vida — fui abordada por uma senhora que decidiu, num exercício de coragem questionável e oportunidade inexistente, dirigir-me a palavra num contexto que, por si só, exigiria o mínimo de decência: um velório. Há algo de profundamente sintomático em quem, perante a dor alheia, escolhe a irrelevância como forma de afirmação. Ignorar o luto para performar uma tentativa de ataque não é apenas ...