"Penso logo afasto-me"
Há um ponto na consciência em que a lucidez deixa de ser reconfortante e passa a ser irrevogável. Não é um lugar de epifania luminosa, nem de redenção súbita. É, antes, um território austero, quase mineral, onde a verdade se impõe sem ornamento e onde já não é possível regressar à confortável ignorância de quem ainda não viu. Eu cheguei a esse ponto não por escolha deliberada, mas por exaustão ontológica — uma saturação íntima de incoerência entre aquilo que eu sentia e aquilo que me permitia viver. Durante demasiado tempo, habitei uma versão de mim que se construía na intersecção entre a empatia excessiva e a auto-anulação subtil. Não era um gesto consciente de sacrifício; era uma disposição enraizada, quase ética, de acolher o outro até ao limite da minha própria diluição. Confundi profundidade com disponibilidade irrestrita. Confundi generosidade com ausência de fronteira. Confundi amor com permanência, mesmo quando essa permanência me corroía com uma lentidão quase imperceptív...