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"Estou cansada"

Estou cansada de uma forma que não sei descrever. Não é aquele cansaço que se resolve com uma noite de sono, umas férias, um fim de semana sem obrigações ou uma manhã em que ninguém nos pede nada. É outro. É um cansaço que parece ter chegado a um lugar onde as palavras já não chegam. Não é o ruído constante da cabeça. Esse conheço-o há demasiado tempo. Aprendi cedo a viver com pensamentos que não fazem fila, com perguntas que chegam todas ao mesmo tempo, com aquela espécie de tumulto interior que, para quem olha de fora, nem sequer existe. Aprendi a funcionar dentro dele. O corpo também continua. Mesmo quando dói. Mesmo quando está cansado. Mesmo quando pede uma pausa que quase nunca lhe concedo. Continua. Levanta-se. Anda. Faz. Cuida. Responde. Sorri quando é preciso. Não é infelicidade. Essa seria, talvez, uma explicação demasiado simples. Sou amada. Sei que sou. Sou feliz. E não tenho qualquer necessidade de pertencer a todos os lugares, nem de ser escolhida por toda a gente. Há mui...

"As raízes não escolhem o solo"

Há raízes que nos deram água. E há raízes que, apesar de nos terem alimentado, também nos apertaram. Há árvores que crescem direitas porque encontraram desde cedo espaço, luz e terra suficiente para se expandirem. E há outras que crescem inclinadas, não porque lhes falte vontade de alcançar o céu, mas porque passaram anos a contornar pedras que ninguém via. Talvez sejamos um pouco assim. Crescemos a partir de um lugar que não escolhemos. A família é o nosso primeiro solo. É ali que chegamos ao mundo antes de possuirmos linguagem para o compreender. É ali que aprendemos, muito antes de sabermos nomeá-lo, se um abraço significa segurança ou se pode desaparecer a qualquer momento; se podemos falar ou devemos permanecer calados; se errar é uma oportunidade para aprender ou uma ameaça; se somos recebidos pelo que somos ou se precisamos de nos transformar para merecer amor. Antes de sabermos quem somos, alguém nos devolve uma imagem de nós. E passamos muitos anos a descobrir se essa imagem c...

"Alguns textos voltam à luz"

Depois de vários pedidos e de uma nova ponderação, decidi voltar a tornar visíveis alguns dos textos que, embora nunca tenham sido apagados do blogue, estavam, por assim dizer, escondidos — permaneciam publicados, mas fora da vista de quem por aqui passa. Começo por dois: o texto mais pedido, de 2014, e outro, de 2020 . Ambos continuam a fazer parte da história deste blogue; simplesmente estiveram algum tempo resguardados, longe da montra. Ainda vou rever e ponderar os restantes textos que me têm sido pedidos. Alguns poderão voltar a ver a luz do dia, outros talvez permaneçam onde estão. Há coisas que, com o passar dos anos, merecem ser relidas não apenas com os olhos de quem as escreveu, mas também com a distância de quem já não é exactamente a mesma pessoa. Por agora, estes dois regressam ao blogue. E confesso que há qualquer coisa de curioso em perceber que, tantos anos depois, ainda há quem procure determinados textos e queira voltar a encontrá-los. ________________________________...

"Querida... Amiga"

 Li o que escreveste com muita atenção. E talvez porque te conheço, algumas das tuas palavras ficaram comigo mais tempo do que outras. A frase que mais me tocou foi precisamente essa: “eu construí isso.” Porque existe uma solidão que nos acontece e existe outra que, pouco a pouco, vamos construindo à nossa volta. Não necessariamente porque queremos ficar sozinhos, mas porque, em determinados momentos da vida, estar com os outros se torna demasiado difícil, demasiado exigente ou simplesmente demasiado doloroso. Às vezes afastamo-nos para nos protegermos. Primeiro deixamos de sair. Depois deixamos de procurar. Deixamos de responder. Deixamos de contar o que nos acontece. Começamos a habituar-nos ao silêncio. E, quando damos por nós, aquilo que começou como uma defesa tornou-se uma espécie de casa. Uma casa estranha, talvez, mas uma casa conhecida. E o conhecido, mesmo quando dói, pode tornar-se assustadoramente confortável. Eu compreendo isso talvez mais do que gostaria. Também houve...

"Há coisas que não estão no texto. Estão apenas nos olhos de quem o lê."

Por vezes é difícil fazer alguém compreender uma coisa muito simples: aquilo que procuras não está neste espaço. Nunca esteve. E talvez a dificuldade não esteja naquilo que escrevi, mas naquilo que decidiste procurar antes de começar a ler. Eu escrevo. Escrevo sobre carácter, sobre pessoas, sobre vivências, sobre aquilo que observo, sobre aquilo que aprendi, sobre aquilo que me atravessou e sobre aquilo que, em determinados momentos, precisei de compreender dentro de mim. Escrevo pensamentos. Escrevo perguntas. Escrevo sentimentos. Escrevo aquilo que a vida me ensinou quando deixou de ser teoria e passou a ser experiência. Mas aquilo que vivi não é uma história inventada. Foi real. Foi duro. Foi doloroso. Teve consequências. Teve silêncios que ninguém ouviu, pensamentos que nunca foram publicados e experiências que não precisam de ser explicadas para serem verdadeiras. E existe uma diferença enorme entre escrever sobre aquilo que se viveu e escrever para contar uma história sobre algué...

"Tempos coevos"

 No tempo dos meus avós, os porcos tinham uma função simples e bastante apreciada: serviam para as típicas bifanas, às quais poucos conseguem ficar indiferentes. Nos tempos coevos, porém, os porcos parecem ter evoluído. Já não se limitam a grunhir, chafurdar na lama e acabar numa bifana: alguns falam, escrevem, fazem vídeos, dão lições e, aparentemente, até possuem licenciatura em tudo aquilo sobre que decidem opinar. A ciência académica dos mesmos já não se resume à lama — embora, por vezes, o conteúdo continue surpreendentemente próximo dela. O problema, naturalmente, não está em ter uma opinião. A liberdade de expressão é demasiado importante para ser confundida com isso. O problema começa quando a internet passa de espaço de diálogo a megafone de boatos; quando a insinuação é apresentada como facto, a mentira ganha o estatuto de “informação” e a ofensa é disfarçada de coragem. Há quem pareça ter descoberto uma fórmula extraordinária: fala-se mais alto, repete-se mais vezes, pub...

"Há coisas que terminam e, ainda assim, continuam a ser bonitas"

Sabes, há uma coisa que demoramos algum tempo a compreender: nem tudo aquilo que nos entristece quando termina foi um erro. Às vezes, a tristeza não aparece porque deveríamos ter ficado. Aparece porque estivemos verdadeiramente lá. Porque houve entrega. Porque houve presença. Porque, durante algum tempo, alguma coisa ou alguém ocupou um lugar real dentro de nós. E quando esse lugar fica vazio, sentimos. É humano. É inevitável. Talvez até seja uma das formas mais honestas de reconhecer que aquilo que vivemos teve significado. Vivemos numa época particularmente desconfortável com a tristeza. Queremos ultrapassar tudo depressa. "Segue em frente." "Esquece." "Já passou." "Há coisas melhores." Como se recuperar significasse apagar. Como se amadurecer fosse deixar de sentir. Como se uma pessoa emocionalmente forte fosse aquela que consegue fechar uma porta sem olhar para trás. Mas não é assim. Há despedidas que precisam de ser sentidas. Não para perman...