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"Não é meu. E é precisamente por isso que sei agradecer"

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Eu não sou pessoa de dizer que possuo aquilo que não é meu. Parece uma coisa demasiado óbvia para precisar de ser explicada, mas, olhando para a forma como tantas vezes se apresenta a vida, talvez já não seja assim tão óbvia. Não tenho uma vida financeira de abundância. Não vivo numa realidade em que posso comprar tudo aquilo que me apetece, nem tenho qualquer interesse em construir uma aparência de prosperidade que não corresponde à minha vida. Não tenho uma piscina enorme, uma casa de férias, um jardim digno de catálogo ou uma sucessão de luxos particulares que possa apresentar como se fossem património pessoal. E não tenho qualquer problema em dizê-lo. Aliás, tenho muito mais dificuldade em compreender a necessidade de fingir. Se uma coisa não é minha, não é minha. Ponto. Mas isso não significa que não possa usufruir dela. E aqui está talvez uma das diferenças mais interessantes entre ter e viver . Esta semana, por exemplo, vou estar praticamente todos os dias na piscina. ...

"Entre o trabalho, o mundo e o silêncio: a hercúlea arte de viver um verão inteiro"

Este verão é uma aventura de gestão. E digo-o com um sorriso, porque há alturas da vida em que parece que precisamos de uma agenda, uma bússola, um relógio suplementar e, talvez, de mais umas seis horas por dia para conseguirmos fazer tudo aquilo que gostaríamos. O problema é que eu continuo a trabalhar. Portanto, não tenho propriamente aquele verão idílico em que os dias se estendem infinitamente e podemos decidir, todas as manhãs, o que nos apetece fazer. A vida continua a exigir horários, responsabilidades, compromissos e trabalho. E, ainda assim, eu quero viver. Quero aproveitar. Quero estar com os meus filhos, com o meu marido, com os meus amigos. Quero conhecer lugares, caminhar, ir à praia, fazer canoagem, sair, conversar, rir, jantar fora, tomar cafés demorados, descobrir festas, escrever, pensar, rezar e, sobretudo, ter tempo para estar comigo mesma. E talvez seja precisamente aí que esteja a verdadeira dificuldade deste verão: não em encontrar coisas para fazer, mas em conseg...

"Os sonhos que ainda sabem o meu nome"

Há sonhos que não chegam durante a noite. Vivem acordados dentro de nós. Crescem silenciosamente enquanto cumprimos tarefas, respondemos a perguntas, atravessamos dias iguais, sorrimos quando é preciso sorrir e continuamos a fazer aquilo que a vida espera de nós. Não fazem barulho. Não exigem passagem. Permanecem. Às vezes durante anos. Talvez seja por isso que os sonhos sejam tão estranhos: não obedecem ao calendário. Podemos envelhecer, mudar de cidade, mudar de pessoas, mudar de ideias, aprender a viver com aquilo que não conseguimos realizar e, ainda assim, existe dentro de nós uma parte que continua a lembrar-se de uma possibilidade que o tempo não conseguiu apagar. Não é necessariamente ingenuidade. Talvez seja memória de futuro. Uma espécie de lembrança daquilo que ainda não aconteceu, mas que, de alguma maneira, já começou a existir dentro de nós no instante em que o imaginámos. Porque antes de uma coisa existir no mundo, alguém teve de a conseguir imaginar. Uma casa foi primei...

"Há uma coisa extraordinária na Bíblia: ela não tem medo de mostrar pessoas no limite"

Há uma ideia de fé que sempre me pareceu profundamente estranha: a de que acreditar em Deus deveria tornar uma pessoa permanentemente forte. Como se a fé eliminasse o medo. Como se a oração impedisse o cansaço. Como se quem confia nunca pudesse chegar ao ponto de dizer: “Já não consigo.” Mas depois abrimos a Bíblia. E encontramos outra coisa. Encontramos homens que tiveram medo. Homens que se cansaram. Homens que desejaram desaparecer. Homens que chegaram a um lugar interior onde já não conseguiam continuar a desempenhar o papel de quem sabia exactamente para onde ia. Moisés, aquele a quem tantas vezes associamos à força, à liderança e à libertação de um povo inteiro, chega a um momento em que a responsabilidade se torna demasiado pesada e pede a Deus que lhe tire a vida: “Se assim hás-de proceder comigo, mata-me, peço-te, se achei graça aos teus olhos; e não me deixes ver a minha desgraça.” Números 11,15 Não é uma frase bonita. Não é uma frase religiosa. Não é uma frase de alguém que ...

"Há presenças que incomodam sem terem feito absolutamente nada"

Há uma coisa estranha na natureza humana: por vezes, alguém pode entrar numa sala sem dizer uma palavra e, ainda assim, alterar a forma como outra pessoa se sente. Não porque tenha feito alguma coisa. Não porque tenha procurado atenção. Não porque seja mais bonita, mais inteligente, mais rica ou mais interessante. Simplesmente porque existe. E talvez uma das coisas mais difíceis de compreender nas relações humanas seja precisamente esta: nem todas as reacções que provocamos nas pessoas nasceram daquilo que fizemos. Algumas nascem daquilo que a nossa existência desperta nelas. Há pessoas diante das quais nos sentimos tranquilamente nós próprios. E há outras cuja presença nos obriga, ainda que por instantes, a olhar para aquilo que tentamos manter fora do campo de visão. É aí que começa a comparação. Não aquela comparação consciente, racional, quase inocente, que nos permite aprender com alguém. Essa pode ser saudável. Podemos olhar para outra pessoa e pensar: gosto da maneira como ela v...