"Seletividade"
Há quem interprete a mudança como uma renúncia. Quem observe uma pessoa mais silenciosa e conclua que ela desistiu de dizer aquilo que pensa. Quem veja uma postura mais reservada e a confunda com medo, conformismo ou insegurança. No entanto, algumas das transformações mais profundas não representam uma retirada. Representam uma depuração. Durante muitos anos fui uma pessoa directa. Não no sentido impulsivo da palavra, mas no sentido rigoroso. Pensava antes de falar. Observava antes de concluir. Analisava antes de formular uma opinião. E, uma vez construída essa opinião, expressava-a sem excessivas preocupações com a forma como seria recebida. Se concordava, dizia que concordava. Se discordava, dizia que discordava. Não via nisso qualquer acto de coragem extraordinária. Via apenas coerência. Parecia-me natural que existisse correspondência entre aquilo que uma pessoa pensava e aquilo que verbalizava. Nunca compreendi a necessidade de dizer uma coisa e pensar outra. Nunca me senti c...