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"Alegria"

 Há uma diferença profunda entre felicidade, alegria e bem-aventurança , e compreendê-la é essencial para compreender aquilo que o cristianismo realmente promete ao homem. Dizer simplesmente que « Deus não promete felicidade, mas alegria » contém uma intuição verdadeira, mas, formulado assim, é teologicamente incompleto. A Igreja ensina algo mais profundo: Deus colocou no coração humano o desejo de felicidade e chama o homem à bem-aventurança; contudo, essa felicidade não consiste num estado permanente de bem-estar, nem na ausência de sofrimento, nem na posse dos bens deste mundo. A sua plenitude está no próprio Deus. E é precisamente nesta comunhão com Deus que nasce a verdadeira alegria. O Catecismo da Igreja Católica é explícito. No n.º 1718, afirma que as Bem-aventuranças respondem ao desejo natural de felicidade e que esse desejo é de origem divina: Deus colocou-o no coração humano para o atrair a Si, «o único que o pode satisfazer ». E, no n.º 1719, acrescenta que Deus chama...

"II Escola da fé"

Revelação: quando Deus Se dá a conhecer Se o primeiro passo foi compreender o que significa religião, o passo seguinte é inevitável: o que distingue a fé cristã de uma simples procura humana pelo transcendente? A resposta encontra-se numa palavra fundamental de toda a teologia cristã: Revelação. Sem Revelação, teríamos religião no sentido mais amplo do termo: o ser humano procurando Deus, interrogando o sentido da existência, elevando os olhos para aquilo que o ultrapassa. Com a Revelação, porém, acontece uma inversão extraordinária. Já não somos apenas nós a procurar Deus. É Deus quem Se dá a conhecer. E esta pequena diferença contém praticamente toda a arquitectura da fé cristã. Revelação não significa simplesmente “Deus contar coisas” Quando ouvimos a palavra “revelação”, podemos imaginar alguém que possui uma informação secreta e decide transmiti-la. Não é esse o sentido cristão. A Revelação não consiste primariamente na transmissão de informações acerca de Deus. Consiste na autoco...

"O monstro que nasceu no dia em que disseste não"

É curioso — e, por vezes, assustador — perceber a rapidez com que uma pessoa pode deixar de ser considerada maravilhosa e passar a ser descrita como um problema assim que deixa de estar disponível para aquilo que esperavam dela. Ontem eras leal. Hoje és egoísta. Ontem eras generosa. Hoje és fria. Ontem eras compreensiva. Hoje és arrogante. Ontem eras aquela pessoa em quem se podia confiar. Hoje, porque disseste não , alguém descobriu em ti uma quantidade extraordinária de defeitos que aparentemente nunca tinha visto. E talvez valha a pena parar aqui. Porque nem sempre mudámos tanto quanto nos querem fazer acreditar. Às vezes mudou apenas a relação de poder. Enquanto fazias o que esperavam, eras previsível. Enquanto cedias, eras boa. Enquanto compreendias tudo, eras madura. Enquanto estavas disponível, eras especial. Enquanto não questionavas, eras fácil de amar. Enquanto suportavas, eras forte. Mas no momento em que começaste a estabelecer limites, apareceu uma versão de ti que o outro...

"Escola da Fé"

Religião: do fenómeno religioso ao mistério da Revelação Antes de iniciar esta série de textos sobre religião e teologia, importa esclarecer uma coisa que para mim não é meramente uma questão de estilo: tudo aquilo que aqui vou escrever será elaborado com o máximo respeito pela fé, pela experiência religiosa, pela tradição cristã e pela inteligência de quem lê . Não pretendo simplificar aquilo que é complexo, nem transformar questões teológicas profundas em respostas fáceis. Também não pretendo apresentar opiniões pessoais como se fossem doutrina. Pelo contrário: procurarei estudar os conceitos, compreender a sua origem, conhecer o seu desenvolvimento histórico, confrontá-los com a Sagrada Escritura, a Tradição, a reflexão teológica e o ensinamento da Igreja, procurando distinguir aquilo que pertence ao núcleo da fé daquilo que resulta de interpretações, costumes, devoções ou formulações historicamente situadas. Faço-o por uma razão que me parece essencial: para amar, temos de conhecer...

"Religiões Tradicionais Africanas"

Introdução As chamadas religiões tradicionais africanas não constituem uma religião única, organizada segundo uma doutrina universal, com um fundador, um livro sagrado ou uma autoridade religiosa comum. A expressão designa um conjunto extremamente diversificado de tradições religiosas desenvolvidas por diferentes povos africanos ao longo de muitos séculos. Antes da expansão do cristianismo e do islamismo em África, já existiam sistemas religiosos complexos que procuravam explicar a origem do universo, a existência humana, a relação com a natureza, a morte, a doença, o sofrimento, a fertilidade, a comunidade e o destino dos indivíduos. Mesmo depois da expansão do cristianismo e do islamismo, muitas destas tradições não desapareceram completamente. Em diversas sociedades, elementos das religiões tradicionais continuaram a existir, por vezes de forma autónoma e, noutras situações, combinados com práticas e crenças cristãs ou islâmicas. Este fenómeno é frequentemente designado por sincret...

"Aprendeste a posicionar-te ou aprendeste apenas a agradar?"

Diz-me uma coisa. Aprendeste realmente a marcar a tua posição na vida? E não estou a falar de estatuto, de autoridade, de dinheiro, de cargos ou do lugar que ocupas aos olhos dos outros. Estou a falar de uma coisa muito mais incómoda: conseguires permanecer fiel a ti própria quando ser fiel a ti própria tem um preço. Porque enquanto toda a gente concorda contigo, ser coerente é fácil. Difícil é continuar a sê-lo quando sabes que a tua verdade vai desiludir alguém. É aí que começa o verdadeiro posicionamento. Durante muito tempo, talvez tenhas acreditado que viver bem com os outros significava evitar conflitos a qualquer preço. Concordar. Compreender. Perdoar. Ceder. Calcular as palavras. Engolir determinadas opiniões. Fingir que não viste. Fingir que não ouviste. Fingir que não te incomodou. E há momentos em que isto é apenas diplomacia. Todos precisamos dela. Ninguém vive em sociedade dizendo tudo o que pensa, exactamente como pensa, a toda a hora. Existe prudência. Existe educação. E...