" Sentir no peito"
Existem histórias que não se ouvem apenas com os ouvidos — sentem-se no peito. Histórias que entram devagar, mas ficam. Que nos obrigam a baixar os olhos, não por vergonha deles, mas por vergonha nossa. Porque há frases que deviam rasgar-nos por dentro. “Não querem olhar para mim.” “Passam por mim como se eu não existisse.” “Mandam-me trabalhar, como se eu nunca tivesse trabalhado.” “Negaram-me um copo de água.” “Deitaram a loiça fora depois de eu beber um café.” Isto não é apenas pobreza. Isto é desumanização. É quando alguém deixa de ser visto como pessoa e passa a ser tratado como incómodo. Como paisagem triste. Como culpa ambulante. Como se a ausência de uma casa retirasse também o direito ao respeito. E talvez o mais cruel não seja a fome. Nem o frio. Nem a rua. Talvez o mais cruel seja a forma como lhes roubam a dignidade com um simples olhar. Porque há olhares que ferem mais do que palavras. Olhares que julgam sem conhecer. Que condenam sem perguntar. Que resumem uma vida i...