"Não"
Há um equívoco curioso — e, confesso, até ligeiramente cómico — na forma como algumas pessoas se aproximam dos outros: acreditam, com uma convicção quase admirável, que aquilo que imaginam corresponde àquilo que é. Como se a percepção fosse realidade. Como se a expectativa tivesse autoridade ontológica. Não tem. Convém esclarecer — com a serenidade possível e uma pitada de ironia — que eu não sou uma personagem moldável ao gosto de quem observa. Não sou um projecto em aberto à intervenção alheia, nem uma versão inacabada à espera que alguém venha “corrigir”. Não há aqui um manual de instruções disponível ao público, nem um botão de ajuste fino para alinhar com as tuas preferências. A presunção, por mais elegante que se apresente, continua a ser apenas isso: presunção. E é fascinante — no sentido quase antropológico do termo — como se instala essa expectativa de que eu deva agir como queres, pensar como idealizas, reagir como te é confortável. Como se a minha existência tivesse...