"Há Mortes Que Começam Muito Antes do Último Suspiro"
Há algo que me inquieta profundamente. A velocidade com que algumas pessoas passam do insulto ao luto. Ontem era "drogado". Era "carocho". Era "maluco". Era "porco". Era o alvo perfeito para comentários, piadas, publicações, grupos privados, mensagens partilhadas e gargalhadas que encontravam na humilhação alheia uma forma estranha de entretenimento. Hoje, muitos dizem estar chocados. Sentem-se ofendidos porque não souberam. Porque não houve velório. Porque não puderam despedir-se. Porque não foram informados. Mas a pergunta que verdadeiramente importa é outra. Onde estavam quando ele ainda estava vivo? Vivemos numa sociedade paradoxal. Nunca foi tão fácil comunicar e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil desumanizar alguém. A distância de um ecrã produz um fenómeno amplamente estudado pelas ciências do comportamento: a desinibição. Aquilo que dificilmente seria dito olhando alguém nos olhos é escrito com uma facilidade inquietante quando o outro ...