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"Reflexão"

 Hoje decidi rebentar balões. Não os de aniversário. Esses merecem viver. Refiro-me aos outros: os balões insuflados pelo ego, pela imaginação fértil e pela extraordinária capacidade humana de transformar desejos em "factos". É uma aptidão curiosa. Não consta nos manuais de Psicologia como superpoder, mas merecia um capítulo próprio. Para esta sessão de desinsuflação trago fotografias. Fotografias a sério. Da época em que a memória não cabia num telemóvel nem podia ser editada com um filtro chamado "Realidade Melhorada". Eram rolos fotográficos. Esperava-se dias para revelar as imagens. E, imagine-se o drama, ninguém podia apagar o passado porque não gostava dele. Primeira surpresa, que para alguns será quase um fenómeno paranormal. Continuo casada com o mesmo homem por quem me apaixonei quando ainda era menor de idade. O mesmo homem. O pai dos meus dois filhos. Nem clone, nem versão premium, nem atualização de software. O original. A vida, às vezes, é extraordinari...

"Falemos de Amor... ou da Relação Mais Duradoura da Europa"

Ainda a propósito do Mundial , confesso que ando fascinada pela Noruega. Não apenas pelo futebol, mas por aquele extraordinário cerimonial viking. Há qualquer coisa de profundamente bonita em ver um povo inteiro a remar em uníssono. Remam os jogadores, remam os adeptos, remam as crianças, remam os idosos, remam nas ruas, nos centros comerciais... Tenho para mim que, se por lá passar um carrinho de supermercado, alguém lhe pega e começa a remar também. É impossível não sorrir. Mas, pensando melhor, talvez este fascínio entre Portugal e a Noruega não tenha começado agora. Na verdade, suspeito que esta história de amor já dura há muitos séculos. Imagino o primeiro encontro. Portugal apareceu primeiro. Como sempre, um pouco atrasado, mas convencido de que um sorriso resolveria qualquer contratempo. Trazia o Atlântico nos olhos, cheiro a maresia, azeite nas mãos e aquela extraordinária capacidade portuguesa de transformar um desconhecido em amigo antes da sobremesa. A Noruega surgiu envolta...

"Há Pessoas Que Morrem Muito Antes de o Corpo Partir"

Vejo, todos os dias, pessoas a morrer. Não falo da morte biológica, essa que faz parte da condição humana e que, mais cedo ou mais tarde, a todos nos encontrará. Refiro-me a outra morte, infinitamente mais silenciosa, mais lenta e, por isso mesmo, mais difícil de reconhecer. A morte de quem continua a respirar, a sorrir, a trabalhar, a cuidar dos outros... mas deixou, há muito, de habitar plenamente a própria vida. Há pessoas que morrem sufocadas pelas palavras que nunca disseram. Morrem um pouco de cada vez. Não porque lhes falte coragem para viver, mas porque, durante demasiado tempo, confundiram amor com renúncia, bondade com submissão, paz com silêncio e maturidade com a capacidade de suportar tudo sem nunca incomodar ninguém. Aprenderam cedo que dizer "não" podia ser interpretado como egoísmo. Que colocar limites poderia desiludir. Que discordar era sinónimo de conflito. Que pedir ajuda denunciava fragilidade. Que chorar era um sinal de fraqueza. E, sem se aperceberem, f...

"Ninguém Se Faz Humano Sozinho"

"Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens educam-se entre si, mediatizados pelo mundo." — Paulo Freire Há frases que sobrevivem ao tempo porque não pertencem apenas ao momento histórico em que foram escritas; pertencem à própria condição humana. Esta afirmação de Paulo Freire é uma delas. Em poucas palavras, desmonta uma das maiores ilusões da modernidade: a crença de que o ser humano se constrói exclusivamente pela vontade individual, como se pudesse existir isolado da história, da cultura, das relações e dos outros. Costumamos imaginar a educação como um percurso linear: alguém sabe, alguém não sabe; alguém ensina, alguém aprende. Durante séculos, esta representação dominou escolas, universidades e instituições. O conhecimento era entendido como um património pertencente a quem ensinava e destinado a ser transferido para quem ignorava. O aluno era frequentemente concebido como um recipiente vazio, cuja principal virtude consistia em receber, memorizar e re...

"Entre a Fragilidade e a Resiliência: Será Esta a Geração Mais Fraca ou Apenas a Mais Exposta?"

Vivemos numa época curiosa. Nunca a humanidade falou tanto sobre saúde mental, emoções, trauma, autocuidado, empatia e vulnerabilidade. Nunca existiram tantos recursos para compreender o funcionamento da mente humana. Nunca se estudou com tanta profundidade o desenvolvimento infantil, a aprendizagem, os vínculos afetivos ou os mecanismos que estruturam a personalidade. E, paradoxalmente, nunca pareceu existir uma sensação tão generalizada de fragilidade. É frequente ouvir-se a expressão "geração floco de neve". A metáfora é sugestiva: o floco de neve é singular, belo, irrepetível... mas dissolve-se ao menor contacto. A expressão pretende descrever uma geração particularmente sensível à crítica, pouco tolerante à frustração e emocionalmente vulnerável perante as inevitáveis adversidades da existência. Mas será esta uma descrição rigorosa? Ou estaremos perante mais um rótulo simplificador criado por gerações que, em tempos diferentes, também foram incompreendidas? A História en...

"Leitores"

  Olá, queridos leitores. Fiz uma breve pausa neste blogue. Uma pausa necessária, não por falta de palavras, mas porque, por vezes, também a escrita precisa de silêncio para voltar a respirar. Recebi várias mensagens, sobretudo de leitores que me acompanham através do WordPress, a perguntarem se o Fios de Imaginação iria continuar. A resposta foi, desde o primeiro instante, a mesma: sim . Escrever continua a ser uma das formas mais autênticas que encontro de pensar, sentir, aprender e partilhar. Apenas precisei de reorganizar o tempo, as prioridades e, sobretudo, a forma como escolho expor a minha vida. Nos próximos dias irei publicar aqui alguns textos que escrevi anteriormente e que já tinham sido partilhados noutras plataformas. Muitos perguntam por que motivo não coloco simplesmente a ligação direta para essas publicações. A resposta é simples. O Fios de Imaginação é um espaço público, pensado para chegar a qualquer leitor que goste de reflexão, literatura, filosofia da vida ...

"Deixem-me. Só Isso. Deixem-me."

Hoje não tenho respostas. Tenho apenas perguntas. Perguntas que se atropelam umas às outras e às quais ninguém consegue responder. Porque é que a guerra gera morte... e a morte gera mais guerra? Porque é que uma dor parece precisar sempre de encontrar outra dor para sobreviver? Porque é que, quando alguém sofre, sentimos tanta necessidade de procurar um culpado, como se encontrar um nome conseguisse diminuir a ausência? Não sei. E talvez seja precisamente isso que mais me angustia. Não sei. Não sei como isto aconteceu. Não sei como chegámos aqui. Não sei como é possível um ser humano fazer isto a outro ser humano. Não sei como é possível esquecermo-nos, tantas vezes, de que por detrás de cada rosto existe uma história, uma família, uma infância, uma dor, um coração que bate exatamente como o nosso. Não sei. E hoje permito-me, pela primeira vez, não saber. Por favor... Deixem-me. Deixem-me tentar compreender aquilo que, neste momento, ainda não consigo compreender. Deixem-me pegar em to...