"Continuo a escrever"
Boa noite. Escrevo estas palavras com a mesma intenção com que, há anos, seguro uma caneta: não para ocupar espaço, mas para lhe dar sentido. Continuo a escrever. Nunca deixei de o fazer. Apenas respeito um ritual que para mim não é detalhe, mas essência. Antes de qualquer palavra surgir neste espaço digital, ela nasce no papel. Precisa do silêncio da folha, do peso da tinta, da pausa entre uma frase e outra. Escrevo primeiro com o corpo — com a mão que sente, com o pensamento que amadurece, com a emoção que encontra forma antes de procurar público. A paixão pelo papel não é nostalgia; é método interior. É ali que penso com mais profundidade, que erro com mais liberdade, que sinto sem a pressão da publicação imediata. O papel obriga-me a demorar. E, numa época em que tudo é instantâneo, demorar tornou-se um acto quase subversivo. Tenho estado bastante ocupada. A vida exige presença, e nem sempre o tempo se organiza com a generosidade que desejaríamos. Por isso, a passagem dos ...