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"Deixem-me. Só Isso. Deixem-me."

Hoje não tenho respostas. Tenho apenas perguntas. Perguntas que se atropelam umas às outras e às quais ninguém consegue responder. Porque é que a guerra gera morte... e a morte gera mais guerra? Porque é que uma dor parece precisar sempre de encontrar outra dor para sobreviver? Porque é que, quando alguém sofre, sentimos tanta necessidade de procurar um culpado, como se encontrar um nome conseguisse diminuir a ausência? Não sei. E talvez seja precisamente isso que mais me angustia. Não sei. Não sei como isto aconteceu. Não sei como chegámos aqui. Não sei como é possível um ser humano fazer isto a outro ser humano. Não sei como é possível esquecermo-nos, tantas vezes, de que por detrás de cada rosto existe uma história, uma família, uma infância, uma dor, um coração que bate exatamente como o nosso. Não sei. E hoje permito-me, pela primeira vez, não saber. Por favor... Deixem-me. Deixem-me tentar compreender aquilo que, neste momento, ainda não consigo compreender. Deixem-me pegar em to...

"Há Mortes Que Começam Muito Antes do Último Suspiro"

Há algo que me inquieta profundamente. A velocidade com que algumas pessoas passam do insulto ao luto. Ontem era "drogado". Era "carocho". Era "maluco". Era "porco". Era o alvo perfeito para comentários, piadas, publicações, grupos privados, mensagens partilhadas e gargalhadas que encontravam na humilhação alheia uma forma estranha de entretenimento. Hoje, muitos dizem estar chocados. Sentem-se ofendidos porque não souberam. Porque não houve velório. Porque não puderam despedir-se. Porque não foram informados. Mas a pergunta que verdadeiramente importa é outra. Onde estavam quando ele ainda estava vivo? Vivemos numa sociedade paradoxal. Nunca foi tão fácil comunicar e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil desumanizar alguém. A distância de um ecrã produz um fenómeno amplamente estudado pelas ciências do comportamento: a desinibição. Aquilo que dificilmente seria dito olhando alguém nos olhos é escrito com uma facilidade inquietante quando o outro ...

"A Inveja Nunca Quis Ter Razão. Quis Sempre Ter Lugar."

Há emoções profundamente humanas que merecem compaixão. A inveja é uma delas. Não porque seja nobre, mas porque raramente nasce da abundância. Nasce quase sempre da experiência íntima da insuficiência. É o desconforto que surge quando a existência do outro obriga alguém a confrontar-se com aquilo que gostaria de ter sido, feito ou alcançado. A inveja nunca começa no outro. Começa na incapacidade de fazer as pazes consigo própria. Por isso é um erro pensar que o invejoso sofre por causa da felicidade alheia. Não. Ele sofre porque a felicidade do outro interrompe a narrativa que construiu para justificar a sua própria estagnação. É um mecanismo profundamente humano. Quando a realidade ameaça a imagem que construímos de nós mesmos, a mente procura proteger-se. Em vez de rever escolhas, rever crenças ou assumir responsabilidades, torna-se psicologicamente mais confortável diminuir o mérito de quem conseguiu aquilo que desejávamos alcançar. A crítica passa a funcionar como um analgésico do ...

"A Maior Saudade Nem Sempre É de Alguém"

Há uma pergunta que me acompanha há muito tempo e que, quanto mais observo a vida, mais difícil se torna responder-lhe com honestidade. De quem sentimos verdadeiramente saudades? À primeira vista, a resposta parece evidente. Pensamos em pessoas que partiram, em lugares onde fomos felizes, em épocas que o tempo tornou quase míticas ou em momentos que a memória insiste em polir até lhes retirar todas as imperfeições. A saudade parece sempre apontar para fora de nós, como se estivesse inevitavelmente presa a alguém ou a algum lugar. Mas a experiência, essa professora discreta que raramente fala alto, acaba por revelar uma realidade mais profunda. Muitas vezes, não sentimos falta das pessoas. Sentimos falta da pessoa que éramos quando estávamos com elas. Não sentimos apenas falta daquela casa. Sentimos falta da tranquilidade que habitava em nós quando a chamávamos de lar. Não sentimos apenas falta de um tempo. Sentimos falta da forma como esse tempo nos fazia olhar para o futuro. Existe um...

"O Adjetivo Não Anda ao Calhas"

Porque Não É a Mesma Coisa Dizer “Um Grande Homem” e “Um Homem Grande” Há pessoas que acreditam que mudar uma palavra de lugar não altera rigorosamente nada. Essas pessoas nunca estudaram gramática. Ou montaram móveis sem olhar para o esquema. Porque, em português, a posição das palavras nem sempre muda apenas a ordem. Às vezes muda completamente o sentido. E poucas classes gramaticais são tão temperamentais como os adjetivos. O adjetivo tem uma função aparentemente simples: Qualificar. Descrever. Acrescentar informação ao substantivo. Até aqui tudo parece pacífico. Mas a língua portuguesa decidiu complicar um pouco a vida e fez uma pergunta inesperada: "E se mudássemos o adjetivo de sítio?" Foi o caos. Vejamos o exemplo mais famoso. Um grande homem. Agora: Um homem grande. As palavras são exatamente as mesmas. O substantivo continua a ser "homem". O adjetivo continua a ser "grande". Só mudou a ordem. E, no entanto, deixámos de...

"A Paz Também Se Escolhe"

Há uma ideia que a experiência me ensinou de forma lenta e irreversível: ninguém habita o mundo em estado de pureza absoluta, nem em isolamento moral. A vida não é um espaço neutro onde a consciência se exerce em liberdade plena; é antes um território denso, atravessado por relações, expectativas, linguagens herdadas e formas subtis de pertença que nos antecedem e nos ultrapassam. Nunca escolho inteiramente os lugares por onde passo, nem as pessoas com quem convivo, nem os códigos implícitos que regulam o que pode ou não ser dito, feito ou sentido. Há ambientes onde a lucidez é valorizada e outros onde ela se torna incómoda. Há contextos que ampliam a subjetividade e outros que a comprimem até à quase invisibilidade. E, ainda assim, é nesse interior condicionado que se vai desenhando aquilo a que chamamos identidade. Durante muito tempo interroguei-me sobre uma questão essencial. Como se preserva a integridade num mundo que, de forma tão subtil quanto constante, nos convida a ajustarmo...

"Celestino III: o Centésimo Septuagésimo Terceiro Papa da Igreja Católica"

Após a morte de Clemente III, a Igreja de Roma elegeu Celestino III , reconhecido como o centésimo septuagésimo terceiro Papa da Igreja Católica e sucessor de Clemente III na Sé de Roma. O seu pontificado decorreu entre os anos 1191 e 1198 da era cristã e foi marcado pelas relações complexas com o Sacro Império Romano-Germânico, pelo fim da Terceira Cruzada e pelo fortalecimento da autoridade da Igreja na Europa. Origem e formação Celestino III nasceu em Roma , por volta do ano 1106 . O seu nome de nascimento era Giacinto Bobone Orsini . Pertencia à influente família Orsini e recebeu sólida formação em teologia, direito e administração eclesiástica. Antes de ser eleito Papa, serviu durante muitos anos como cardeal-diácono, tornando-se um dos membros mais experientes do Colégio Cardinalício. Eleição ao papado Após a morte de: Clemente III os cardeais elegeram Giacinto Bobone Orsini em 30 de março de 1191 , que adoptou o nome de Celestino III. Tinha cerca de 85 anos , sendo ...