Mensagens

"Venham comigo."

Não vos prometo chegar a nenhum lugar extraordinário. Aliás, talvez a viagem nem seja sobre chegar. Quero apenas retribuir-vos, à minha maneira, toda a atenção, toda a persistência, todas as vezes em que ficaram por aqui, entre uma palavra e outra, mesmo quando eu escrevi coisas que talvez fossem difíceis de compreender à primeira leitura. Mas aviso-vos desde já: não vou retribuir da forma como talvez esperem. Eu sou peregrina. E um peregrino não caminha porque conhece a estrada inteira. Caminha apesar de não a conhecer. Talvez seja precisamente isso que fazemos todos os dias sem nos apercebermos: avançamos por uma vida cujo mapa nunca nos foi entregue. Sabemos de onde partimos. Imaginamos para onde queremos ir. Mas ninguém nos explica o que encontraremos depois da próxima curva. Há estradas que começam luminosas e acabam cobertas de nevoeiro. Há outras que parecem não levar a lado nenhum e, inesperadamente, abrem diante de nós uma paisagem que jamais teríamos encontrado se o caminho t...

"A culpa foi da sangria"

Eu estive na Suíça. Mas não é sobre a Suíça que vou escrever hoje. Ainda não. Mais tarde levarei todos comigo pelos lugares onde andei, pelas paisagens que vi, pelas estradas que parecem desenhadas por alguém que teve a desfaçatez de tornar a natureza excessivamente bonita. Hei de falar-vos daquele país extraordinário, de uma beleza quase extenuante, dessas paisagens que nos fazem desconfiar da própria fotografia porque parece impossível que a realidade tenha conseguido ser tão meticulosamente composta. Mas isso fica para depois. Hoje quero falar-vos de ontem. Ou, mais rigorosamente, daquilo que acontece quando duas amigas se encontram para lanchar e alguém, algures no percurso, comete o erro estratégico de introduzir sangria na equação. A minha amiga mora na Suíça e veio ter comigo. A ideia inicial era absolutamente inocente: conversar um pouco, falar sobre a Suíça, contar-lhe o que achei, o que visitei, trocar impressões e, naturalmente, lanchar. Nada que pudesse ameaçar a estabilida...

"O que ela me disse junto ao Tejo"

Fomos caminhar até à praia sem sabermos, talvez, que aquela caminhada acabaria por nos levar a lugares muito mais interiores do que aqueles que os nossos pés percorriam. Há conversas que começam enquanto caminhamos e que parecem, à primeira vista, apenas conversas. Falamos de coisas pequenas. Da vida. De pessoas. De acontecimentos. Rimos de qualquer coisa. Paramos por momentos. Retomamos o caminho. E depois, sem aviso, alguém diz uma frase que muda a natureza inteira da conversa. Foi o que aconteceu quando ela me disse: — Sinto falta do toque. Não foi a primeira vez que ouvi aquelas palavras. Anos antes, outra pessoa tinha-me dito exactamente a mesma coisa. E talvez seja estranho dizer isto, mas naquele momento pensei nessa coincidência. A mesma frase. Outra pessoa. Outro tempo. E eu, agora, diferente daquela mulher que tinha escutado a mesma confissão no passado. Porque há coisas que a vida nos repete não para que voltemos ao mesmo lugar, mas para percebermos que já não somos capazes ...

"Bento XI — o 194.º Papa da Igreja Católica"

Há aqui uma pequena correcção importante à numeração que vínhamos a utilizar: segundo a lista oficial do Vaticano, Bento XI é o 194.º Papa da Igreja Católica , e não o 192.º. A sequência oficial coloca Celestino V como 192.º, Bonifácio VIII como 193.º e Bento XI como 194.º . Bento XI foi um papa de transição. O seu pontificado durou apenas cerca de oito meses, mas situa-se num dos momentos mais delicados da história medieval do papado: imediatamente depois da violenta crise entre Bonifácio VIII e o rei francês Filipe IV de França . Quem era Bento XI? O seu nome de nascimento era Niccolò di Boccasio , também encontrado como Niccolò Boccasini. Nasceu em Treviso , no norte de Itália, provavelmente por volta de 1240 . O próprio Vaticano identifica Treviso como o seu local de nascimento e Niccolò di Boccasio como o seu nome secular. Pertencia a uma família de condição relativamente modesta e entrou muito jovem na Ordem dos Pregadores , isto é, nos Dominicanos. A sua formação religiosa e i...

"Há pessoas com quem a conversa não termina quando nos despedimos"

Sabes o que acho curioso nas pessoas? Passamos uma parte enorme da vida a tentar compreender porque é que algumas entram tão facilmente no nosso pensamento, enquanto outras, apesar de terem permanecido anos à nossa volta, desaparecem de nós quase sem deixar rasto. Não é uma questão de tempo. Nem de quantidade. Nem sequer de afinidade. Há qualquer coisa mais subtil. Uma espécie de reconhecimento que acontece antes de conseguirmos racionalizá-lo. Como se, no meio de tantas pessoas, algumas encontrassem uma porta que nós próprios nem sabíamos que estava aberta. E entram. Sem pedir licença. Sem fazer ruído. Sem precisar de grandes acontecimentos. Às vezes basta uma conversa. Uma conversa daquelas que começam por qualquer coisa completamente insignificante e, quando damos por isso, já estamos a falar de coisas que normalmente guardamos para nós. A infância. Os medos. As escolhas. As pessoas que perdemos. Aquilo que ainda esperamos da vida. As nossas contradições. As coisas que nos fazem rir...

"Um dia vais perceber que não precisavas de ter corrido tanto"

Não leias apenas o que escrevo. Sente. Lê devagar. Não como quem percorre palavras num ecrã, mas como quem, por alguns minutos, se senta diante da própria vida e tem coragem de olhar para ela sem a pressa habitual. Porque talvez isto não seja sobre mim. Talvez seja sobre ti. Sobre aquilo que tens feito com os teus dias. Sobre a quantidade de vezes que disseste «depois» quando, no fundo, querias dizer «agora» . Sobre todas as vezes em que te convenceste de que ainda não era o momento. E talvez seja. Talvez o momento seja precisamente este. Corremos muito. Eu sei. Mais do que aquilo que admitimos. Corremos para trabalhar, para pagar, para construir, para garantir, para melhorar, para chegar mais longe. Corremos para que os nossos filhos tenham mais. Para termos uma casa melhor. Para conseguirmos aquela viagem. Para podermos finalmente descansar. Para chegarmos a uma idade em que, supostamente, teremos tempo. E eu compreendo. Também tenho responsabilidades. Também tenho co...