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"Continuação, estudo"

  A Abertura dos Selos — A História Vista à Luz de Deus (Capítulo 6) Depois de o Cordeiro tomar o livro, inicia-se algo que muitos leitores interpretam como uma sucessão de castigos. Porém, a teologia deste capítulo é muito mais profunda: não se trata de “previsões do fim”, mas de uma leitura espiritual da história humana tal como ela realmente se desenrola . Os selos não desencadeiam desgraças novas. Eles revelam o que já está presente no mundo quando Deus é ignorado. É uma revelação, não uma condenação arbitrária. O Primeiro Selo — O Cavalo Branco Surge um cavaleiro com arco, avançando como vencedor. Durante séculos houve confusão sobre esta figura. Não representa Cristo, mas sim o fenómeno das conquistas humanas que prometem salvação histórica . É o símbolo das ideologias, dos impérios, dos projectos humanos que afirmam: “Agora será diferente. Agora construiremos o mundo perfeito.” O cavalo branco é a sedução do poder que se apresenta como redenção. O Segundo Se...

"Continuação do estudo"

  O Livro Selado e o Mistério do Cordeiro (Capítulo 5) Se o capítulo anterior nos mostrou o trono , isto é, Deus como centro da realidade, agora surge a pergunta decisiva: Se Deus reina, porque continua a história marcada por dor, injustiça e silêncio? Quem pode abrir o sentido do que vivemos? É a grande interrogação humana: a história tem significado — mas quem o revela? O Livro Selado: O Mistério da História O vidente contempla, na mão direita d’Aquele que está no trono, um livro escrito por dentro e por fora, fechado com sete selos . Na linguagem simbólica bíblica, este livro representa: ➡ o desígnio de Deus sobre o mundo, ➡ o sentido total da história humana, ➡ o “porquê” último do sofrimento e da redenção. O facto de estar escrito “por dentro e por fora” indica plenitude: nada falta, nada é acrescentado — tudo já está contido na sabedoria divina. Mas há um problema dramático: O livro está selado. Isto significa que o homem, por si só, não consegue interpreta...

"Estudo, superficial"

  A Liturgia do Céu — O Trono de Deus (Capítulo 4) no Apocalipse Depois das cartas às sete Igrejas — que constituem um apelo à conversão histórica — o texto muda abruptamente de horizonte. Já não estamos na terra, nas comunidades concretas, nas suas fragilidades. João é agora introduzido numa visão que ultrapassa o tempo. “Depois disto, vi uma porta aberta no Céu…” A imagem da porta aberta é profundamente simbólica: não é o homem que sobe ao mistério; é Deus que o deixa entrever. A revelação não é conquista intelectual — é dom. A Subida “em Espírito” João diz: “Fui arrebatado em espírito.” Este arrebatamento não é fuga do mundo, mas participação momentânea na realidade divina. A tradição teológica chama a isto visão profética : ver a história a partir de Deus, e não Deus a partir da história. Aqui começa uma mudança essencial de perspectiva: Na terra, tudo parece confuso. No Céu, tudo tem centro. O Apocalipse quer ensinar que o sentido da história só é com...

"Estudo"

As Sete Igrejas do Apocalipse (Capítulos 2–3) Depois da visão inaugural de Cristo glorificado, o texto torna-se surpreendentemente concreto. A revelação dirige-se a comunidades reais, com problemas reais. Antes de falar do fim do mundo, Deus fala da conversão presente da Igreja . Isto é fundamental: o Apocalipse não começa por julgar a História — começa por julgar o coração dos crentes. Quem fala é sempre Jesus Cristo , apresentado como Senhor que conhece profundamente cada comunidade: “Eu conheço as tuas obras.” Na teologia bíblica, este “conhecer” não é informação — é olhar que penetra a verdade da pessoa. Cada carta segue a mesma estrutura: Cristo revela-Se com um atributo da visão do capítulo 1. Reconhece o bem existente. Denuncia o desvio. Chama à conversão. Promete uma recompensa escatológica. É uma pedagogia espiritual: Deus corrige para salvar, não para condenar. A Igreja de Éfeso — A fé sem amor É uma comunidade exemplar na doutrina: combate...

"Apocalipse... Estudo"

O Prólogo e a Visão Inicial do Apocalipse (Capítulo 1) O primeiro capítulo do Apocalipse não é, antes de mais, um anúncio de catástrofes, como muitas leituras modernas sugerem. É, essencialmente, uma revelação de Cristo glorificado e uma introdução teológica ao sentido da História à luz de Deus. A palavra “apocalipse” (do grego apokálypsis ) significa desvelamento , retirar o véu. Não é um livro de medo — é um livro de esperança escatológica. A Origem da Revelação (Ap 1,1-3) O texto começa com uma cadeia de transmissão muito clara: Deus → Jesus Cristo → Anjo → João → Igreja Aqui encontramos o princípio fundamental da teologia da revelação: Deus permanece a fonte, Cristo é o mediador e a Igreja é a destinatária. O autor identifica-se como João de Patmos , não tanto como escritor, mas como testemunha . Ele não reivindica autoria intelectual; ele transmite o que viu. Esta estrutura mostra que: A história não é caótica. A revelação não nasce da imaginação humana. A I...

"Missa"

 Hoje, ao abrir o Messenger e ao percorrer as mensagens que me haviam sido enviadas, deparei-me com algumas observações que me feriram — não pela discordância, que é legítima e até saudável, mas pela forma apressada, desinformada e, permitam-me a franqueza, ignorante como foram formuladas. Peço desculpa pela dureza do termo, mas não encontro outro que exprima, com rigor, aquilo que senti ao ler palavras escritas sem conhecimento daquilo que se julgava criticar. Se eu sou católica, falo da fé que abracei. Comento aquilo que escolhi viver. Não me compete pronunciar-me sobre religiões que desconheço, pois fazê-lo seria, precisamente, cair na tal ignorância que tanto lamento. Mesmo dentro da minha própria Igreja, caminho com prudência e humildade: sou católica há pouco tempo. Estou a aprender. Estou a escutar. Estou a deixar-me formar. Ainda assim, sinto-me no dever de responder — não individualmente, não expondo nomes, mas diante de todos — porque a fé, quando é vivida com verdade, n...

"Leve"

 Tenho um apreço quase visceral pelo que é simples. Não pela simplicidade ingénua que ignora a complexidade do mundo, mas por aquela que nasce depois de a complexidade ter sido compreendida. A simplicidade que permanece após o excesso ter sido descartado. Como escreveu Leonardo da Vinci , “A simplicidade é o último grau de sofisticação.” E talvez seja isso que procuro: não o rudimentar, mas o depurado. Vivemos numa era em que a aparência ganhou estatuto de substância. Contudo, continuo a admirar quem não precisa de se ampliar para ser visto. Há uma grandeza silenciosa em quem é exactamente o que é. Sócrates lembrava que “a vida não examinada não merece ser vivida.” Eu diria que a vida exagerada para impressionar também não merece ser representada. A autenticidade é mais rara do que o talento; mais valiosa do que o aplauso. Gosto de quem sente sem cálculo. Num mundo onde até os afectos podem ser estratégicos, encontrar alguém que torce genuinamente pelo bem do outro é quase um ...

"É isto..."

 Ao longo da vida acumulamos encontros como quem atravessa estações sucessivas. Rostos, nomes, conversas, promessas — alguns ficam apenas como vestígios na memória; outros cumprem um papel preciso, quase funcional, e seguem o seu percurso. A maioria pertence ao tempo. Poucos pertencem à permanência. Há pessoas que entram por acaso, como coincidências que a vida ensaia. Outras surgem por necessidade, quando somos ainda incapazes de atravessar sozinhos determinados territórios. Mas existem aquelas — raras e silenciosamente decisivas — que permanecem por escolha consciente. E permanecer, no mundo de hoje, é talvez o gesto mais revolucionário. Essas pessoas não se prendem à estabilidade das circunstâncias. Caminham connosco quando o trajecto se redefine, quando o ritmo abranda, quando as certezas que julgávamos estruturais se revelam provisórias. Não se aproximam apenas da luz; ficam quando atravessamos sombra. E isso não é romantismo — é maturidade afectiva. A verdadeira presença n...

"Continuo a escrever"

 Boa noite. Escrevo estas palavras com a mesma intenção com que, há anos, seguro uma caneta: não para ocupar espaço, mas para lhe dar sentido. Continuo a escrever. Nunca deixei de o fazer. Apenas respeito um ritual que para mim não é detalhe, mas essência. Antes de qualquer palavra surgir neste espaço digital, ela nasce no papel. Precisa do silêncio da folha, do peso da tinta, da pausa entre uma frase e outra. Escrevo primeiro com o corpo — com a mão que sente, com o pensamento que amadurece, com a emoção que encontra forma antes de procurar público. A paixão pelo papel não é nostalgia; é método interior. É ali que penso com mais profundidade, que erro com mais liberdade, que sinto sem a pressão da publicação imediata. O papel obriga-me a demorar. E, numa época em que tudo é instantâneo, demorar tornou-se um acto quase subversivo. Tenho estado bastante ocupada. A vida exige presença, e nem sempre o tempo se organiza com a generosidade que desejaríamos. Por isso, a passagem dos ...

"Pressa"

 Há uma pressa silenciosa que atravessa muitas vidas: a pressa de explicar, de justificar, de ser compreendida antes que o tempo faça perguntas. Quem vive assim gasta uma energia imensa a tentar alinhar o mundo à sua volta, como se a verdade precisasse de ser empurrada para existir. Mas a sabedoria começa quando essa urgência se dissolve. Agir com consciência é perceber que o tempo não responde à ansiedade — responde à coerência. O tempo observa, acumula, decanta. Revela o que é autêntico, expõe o que é fingido, ajusta o que estava fora do lugar. Não por vingança, nem por justiça poética, mas por natureza. Não há nada a convencer. Nem pessoas, nem circunstâncias, nem narrativas. A tentativa de convencer nasce quase sempre do medo de perder controlo sobre a forma como somos vistos. E, paradoxalmente, quanto mais se explica, mais se fragiliza aquilo que era sólido. O silêncio, ao contrário do que se pensa, não é ausência de voz — é escolha. É um gesto de maturidade. Preserva ...