Mensagens

"O tempo dirá"

 Hoje, quando o meu filho saiu da escola, trazia nos olhos um brilho diferente — uma luz serena e determinada que não me passou despercebida. Assim que me viu, correu para mim, abraçou-me com força e, ainda ofegante da excitação, anunciou: — Mãe, afinal, quando for grande quero ser professor! De Matemática ou de Inglês. E quero ser professor aqui na minha escola. Confesso que, naquele instante, senti o coração vacilar. Não era, de todo, a profissão que alguma vez imaginei ou ambicionei para ele. Sorri, procurando não deixar transparecer a minha surpresa, e respondi que ainda tinha muito tempo para decidir, para crescer, para pensar melhor sobre o futuro. Perguntei-lhe, com genuína curiosidade, o que o fizera mudar de ideias. Com entusiasmo, explicou-me que, naquele dia, a professora de Inglês o escolhera para ajudar a corrigir os trabalhos dos colegas. Sentira-se como um pequeno professor adjunto, investido de uma responsabilidade nova e emocionante. Disse-me que adorara orientar o...

"Livre"

 Tudo o que amo, deixo livre. Que isto não seja lido como renúncia, mas como princípio. Não é afastamento — é elevação. Amar, para mim, tornou-se um acto de soberania interior: não prendo, não retenho, não reduzo. Sustento sem possuir. Acompanho sem invadir. Confio sem vigiar. Não me pertence o tempo de ninguém. Não me pertencem os caminhos, nem os desvios, nem as estações íntimas que cada ser humano precisa de atravessar. Amar não é delimitar território; é partilhar horizonte. E horizonte não se fecha — expande-se. Há uma forma menor de amor que nasce da insegurança. Essa forma exige garantias, contabiliza presenças, mede silêncios. Confunde proximidade com controlo e intensidade com domínio. Mas o amor que necessita de clausura para sobreviver já está fragilizado na sua origem. O que é autêntico não implora grades. O amor verdadeiro tem estrutura interna. Não depende de fiscalização emocional. Não se sustenta na ansiedade da perda. Vive da escolha renovada, da consciência lúcida,...

"Continuação, estudo"

  O Selo dos Servos de Deus e a Multidão Vestida de Branco (Capítulo 7) no Apocalipse Depois das imagens duras do capítulo anterior, este surge como uma pausa inesperada. Não é uma interrupção narrativa — é uma resposta teológica à pergunta deixada em aberto: “Quem poderá manter-se de pé?” O capítulo 7 mostra que, no meio da turbulência da história, Deus conhece, guarda e conduz aqueles que Lhe pertencem. Os Quatro Anjos e a Suspensão do Juízo João vê quatro anjos segurando os ventos da terra. Na linguagem bíblica, os ventos simbolizam forças de destruição, mudança, crise. Mas aqui estão contidos. Isto ensina algo essencial: o mal não tem autonomia absoluta. Nada acontece fora da permissão divina. A história não é desgovernada. Existe um tempo de espera — um tempo de misericórdia. O Selo na Fronte dos Servos Outro anjo aparece com “o selo do Deus vivo” e ordena: “Não causeis dano… até que tenhamos marcado os servos de Deus.” O selo é um símbolo antigo de p...

"Aprovação... Não"

 Não sou uma mulher à procura de aprovação. Há uma serenidade que nasce quando deixamos de mendigar reconhecimento fora e começamos a habitá-lo dentro. A minha medida não é o aplauso circunstancial, nem a interpretação apressada de quem observa de longe. A minha medida constrói-se no espaço mais exigente e mais verdadeiro que existe: o da convivência diária, onde não há palco, apenas vida. Em casa não se representam papéis — vive-se. Os meus filhos e o meu marido não aprovam uma versão idealizada de mim; conhecem a realidade inteira. Conhecem os dias luminosos e os dias difíceis, as palavras certas e os silêncios necessários, as fragilidades que não se exibem e a força que não precisa de ser anunciada. E, ainda assim, permanecem. A aprovação que nasce desse lugar não é julgamento, é vínculo. Não é validação externa, é pertença. Eles não confirmam apenas quem sou: acompanham quem ainda estou a aprender a ser. Por isso, quando alguém afirma conhecer-me e depois desenha uma personagem...

"Continuação, estudo"

  A Abertura dos Selos — A História Vista à Luz de Deus (Capítulo 6) Depois de o Cordeiro tomar o livro, inicia-se algo que muitos leitores interpretam como uma sucessão de castigos. Porém, a teologia deste capítulo é muito mais profunda: não se trata de “previsões do fim”, mas de uma leitura espiritual da história humana tal como ela realmente se desenrola . Os selos não desencadeiam desgraças novas. Eles revelam o que já está presente no mundo quando Deus é ignorado. É uma revelação, não uma condenação arbitrária. O Primeiro Selo — O Cavalo Branco Surge um cavaleiro com arco, avançando como vencedor. Durante séculos houve confusão sobre esta figura. Não representa Cristo, mas sim o fenómeno das conquistas humanas que prometem salvação histórica . É o símbolo das ideologias, dos impérios, dos projectos humanos que afirmam: “Agora será diferente. Agora construiremos o mundo perfeito.” O cavalo branco é a sedução do poder que se apresenta como redenção. O Segundo Se...

"Continuação do estudo"

  O Livro Selado e o Mistério do Cordeiro (Capítulo 5) Se o capítulo anterior nos mostrou o trono , isto é, Deus como centro da realidade, agora surge a pergunta decisiva: Se Deus reina, porque continua a história marcada por dor, injustiça e silêncio? Quem pode abrir o sentido do que vivemos? É a grande interrogação humana: a história tem significado — mas quem o revela? O Livro Selado: O Mistério da História O vidente contempla, na mão direita d’Aquele que está no trono, um livro escrito por dentro e por fora, fechado com sete selos . Na linguagem simbólica bíblica, este livro representa: ➡ o desígnio de Deus sobre o mundo, ➡ o sentido total da história humana, ➡ o “porquê” último do sofrimento e da redenção. O facto de estar escrito “por dentro e por fora” indica plenitude: nada falta, nada é acrescentado — tudo já está contido na sabedoria divina. Mas há um problema dramático: O livro está selado. Isto significa que o homem, por si só, não consegue interpreta...

"Estudo, superficial"

  A Liturgia do Céu — O Trono de Deus (Capítulo 4) no Apocalipse Depois das cartas às sete Igrejas — que constituem um apelo à conversão histórica — o texto muda abruptamente de horizonte. Já não estamos na terra, nas comunidades concretas, nas suas fragilidades. João é agora introduzido numa visão que ultrapassa o tempo. “Depois disto, vi uma porta aberta no Céu…” A imagem da porta aberta é profundamente simbólica: não é o homem que sobe ao mistério; é Deus que o deixa entrever. A revelação não é conquista intelectual — é dom. A Subida “em Espírito” João diz: “Fui arrebatado em espírito.” Este arrebatamento não é fuga do mundo, mas participação momentânea na realidade divina. A tradição teológica chama a isto visão profética : ver a história a partir de Deus, e não Deus a partir da história. Aqui começa uma mudança essencial de perspectiva: Na terra, tudo parece confuso. No Céu, tudo tem centro. O Apocalipse quer ensinar que o sentido da história só é com...

"Estudo"

As Sete Igrejas do Apocalipse (Capítulos 2–3) Depois da visão inaugural de Cristo glorificado, o texto torna-se surpreendentemente concreto. A revelação dirige-se a comunidades reais, com problemas reais. Antes de falar do fim do mundo, Deus fala da conversão presente da Igreja . Isto é fundamental: o Apocalipse não começa por julgar a História — começa por julgar o coração dos crentes. Quem fala é sempre Jesus Cristo , apresentado como Senhor que conhece profundamente cada comunidade: “Eu conheço as tuas obras.” Na teologia bíblica, este “conhecer” não é informação — é olhar que penetra a verdade da pessoa. Cada carta segue a mesma estrutura: Cristo revela-Se com um atributo da visão do capítulo 1. Reconhece o bem existente. Denuncia o desvio. Chama à conversão. Promete uma recompensa escatológica. É uma pedagogia espiritual: Deus corrige para salvar, não para condenar. A Igreja de Éfeso — A fé sem amor É uma comunidade exemplar na doutrina: combate...

"Apocalipse... Estudo"

O Prólogo e a Visão Inicial do Apocalipse (Capítulo 1) O primeiro capítulo do Apocalipse não é, antes de mais, um anúncio de catástrofes, como muitas leituras modernas sugerem. É, essencialmente, uma revelação de Cristo glorificado e uma introdução teológica ao sentido da História à luz de Deus. A palavra “apocalipse” (do grego apokálypsis ) significa desvelamento , retirar o véu. Não é um livro de medo — é um livro de esperança escatológica. A Origem da Revelação (Ap 1,1-3) O texto começa com uma cadeia de transmissão muito clara: Deus → Jesus Cristo → Anjo → João → Igreja Aqui encontramos o princípio fundamental da teologia da revelação: Deus permanece a fonte, Cristo é o mediador e a Igreja é a destinatária. O autor identifica-se como João de Patmos , não tanto como escritor, mas como testemunha . Ele não reivindica autoria intelectual; ele transmite o que viu. Esta estrutura mostra que: A história não é caótica. A revelação não nasce da imaginação humana. A I...

"Missa"

 Hoje, ao abrir o Messenger e ao percorrer as mensagens que me haviam sido enviadas, deparei-me com algumas observações que me feriram — não pela discordância, que é legítima e até saudável, mas pela forma apressada, desinformada e, permitam-me a franqueza, ignorante como foram formuladas. Peço desculpa pela dureza do termo, mas não encontro outro que exprima, com rigor, aquilo que senti ao ler palavras escritas sem conhecimento daquilo que se julgava criticar. Se eu sou católica, falo da fé que abracei. Comento aquilo que escolhi viver. Não me compete pronunciar-me sobre religiões que desconheço, pois fazê-lo seria, precisamente, cair na tal ignorância que tanto lamento. Mesmo dentro da minha própria Igreja, caminho com prudência e humildade: sou católica há pouco tempo. Estou a aprender. Estou a escutar. Estou a deixar-me formar. Ainda assim, sinto-me no dever de responder — não individualmente, não expondo nomes, mas diante de todos — porque a fé, quando é vivida com verdade, n...