"Chegamos às 250 mil"

 Existem momentos em que os números deixam de representar estatísticas e passam a representar presença humana.

Foi exactamente isso que senti quando parei, finalmente, para olhar verdadeiramente para o crescimento do blogue. Não com vaidade. Não com deslumbramento infantil. Mas com aquela lucidez tranquila de quem compreende que, por detrás de cada visualização, existe uma pessoa real que decidiu oferecer algo cada vez mais raro nos dias de hoje: atenção.

Mais de 253 mil visualizações.


Milhares de leituras distribuídas por reflexões longas, densas, emocionalmente exigentes, escritas num tempo em que quase tudo é feito para ser consumido em segundos e esquecido logo depois. E talvez seja precisamente isso que mais me impressiona: perceber que ainda existem pessoas dispostas a permanecer. A ler sem pressa. A sentir sem cinismo. A pensar para além da superfície.

Hoje tudo parece desenhado para reduzir o pensamento humano ao imediato. O excesso de estímulos tornou as pessoas rápidas a reagir, mas lentas a reflectir. Consome-se informação como quem muda de montra: sem profundidade, sem digestão emocional, sem verdadeiro encontro. E, no entanto, no meio dessa velocidade quase mecânica, houve quem escolhesse parar diante das minhas palavras.

Isso tem um peso humano enorme para mim.

Porque escrever nunca foi uma tentativa de parecer interessante. Nem um exercício de superioridade intelectual. Foi sempre uma necessidade íntima de organizar o mundo dentro de mim. Há emoções que eu só compreendi depois de as transformar em linguagem. Há experiências que só deixaram de ser caos quando encontraram estrutura em frases. E talvez seja por isso que tantas pessoas reconhecem verdade no que escrevo: porque os textos não nascem da intenção de impressionar. Nascem da tentativa honesta de compreender a condição humana, começando pela minha.

Mas crescer expõe.

E quando algo cresce sem depender de vulgaridade, de espectáculo ou de artificialidade, desperta inevitavelmente incómodo em quem acredita que tudo precisa de truques para existir. Então começam as interpretações pequenas. As insinuações previsíveis. As tentativas subtis de reduzir aquilo que não se consegue enquadrar dentro das próprias limitações.

É curioso observar como certas pessoas se sentem autorizadas a questionar capacidades que desconhecem completamente. Como se fosse impossível alguém escrever com profundidade sem estar a representar uma personagem. Como se o pensamento articulado tivesse deixado de parecer humano.

Talvez o problema esteja precisamente aí:
habituámo-nos tanto à superficialidade que a autenticidade passou a causar estranheza.

E, sinceramente, isso diz muito mais sobre a época em que vivemos do que sobre mim.

Quem escreve sabe que um texto não surge apenas de inteligência. Surge de acumulação humana. De leituras, de perdas, de observação silenciosa, de memória emocional, de tudo aquilo que alguém viveu sem necessariamente mostrar ao mundo. O vocabulário não aparece por acaso. A sensibilidade não nasce vazia. A capacidade de aprofundar emoções vem do confronto contínuo com a vida real.

Não existe algoritmo capaz de substituir aquilo que foi verdadeiramente vivido.

Uma ferramenta pode organizar frases. Mas não conhece o som da voz da minha mãe. Não se sentou à minha mesa depois do almoço. Não ouviu o meu filho dizer “amo-te infinito”. Não atravessou os meus silêncios, os meus lutos, os meus afectos, as minhas culpas, as minhas reconstruções interiores.

A escrita humana carrega vestígios invisíveis de quem a escreve.

E talvez seja exactamente isso que tantas pessoas encontram aqui sem conseguirem explicar totalmente: humanidade.

Por isso hoje quero agradecer.

Primeiro à minha família.

Ao amor constante que sustenta os dias comuns. Aos meus filhos, que tantas vezes me devolvem àquilo que realmente importa através de gestos tão simples que quase passam despercebidos. Ao meu marido, pela presença construída na continuidade e não apenas nos momentos fáceis. À casa cheia de conversas demoradas, brincadeiras inesperadas, cafés partilhados, abraços espontâneos e pequenos detalhes que acabam, inevitavelmente, infiltrados naquilo que escrevo.

Muito do que vocês lêem começou, na verdade, dentro da minha sala, à volta da mesa ou no silêncio tranquilo de um final de dia em família.

Quero agradecer também aos meus amigos verdadeiros.

Àqueles que nunca sentiram necessidade de competir comigo para permanecer ao meu lado. Aos que sabem ouvir sem transformar tudo em julgamento. Aos que compreendem profundidade emocional sem a confundirem com dramatização. Aos que conseguem conversar sobre livros, perdas, humor, vida e consciência sem fazer da conversa uma disputa de ego.

Essas pessoas tornaram-se raras.

E aquilo que é raro merece reconhecimento.

Mas seria incompleto agradecer apenas às partes luminosas do caminho.

Porque também devo uma parte importante daquilo que me tornei às pessoas que tentaram diminuir-me.

Aos falsos interessados. Aos que sorriram enquanto descredibilizavam. Aos que espalharam dúvidas não por procurarem verdade, mas por desconforto diante do crescimento de alguém. Aos que confundiram ironia com inteligência e malícia com lucidez.

Foram essas pessoas que me ensinaram a observar melhor o comportamento humano.

A perceber como a inveja raramente se apresenta de forma explícita. Como a insegurança costuma mascarar-se de sarcasmo sofisticado. Como existe quem precise desesperadamente de diminuir os outros para conseguir suportar a própria sensação de insuficiência.

E, paradoxalmente, tudo isso acabou por enriquecer a minha escrita.

Porque a dor, quando atravessada com consciência, pode transformar-se numa forma rara de clareza.

Hoje, acima de tudo, quero agradecer também a todos os que vieram ler.

A quem chegou por acaso e decidiu ficar.
A quem regressa silenciosamente.
A quem nunca comentou mas leu até ao fim.
A quem partilhou um texto meu numa madrugada difícil.
A quem encontrou nas minhas palavras aquilo que não conseguia verbalizar sozinho.

Vocês não imaginam aquilo que isso significa para quem escreve.

Porque escrever é um acto estranhamente vulnerável. Colocamos pensamentos no mundo sem saber quem os irá compreender verdadeiramente. E depois existem pessoas que aparecem apenas para dizer:
“Li.”
“Fez-me pensar.”
“Senti-me menos sozinho.”
“Continua.”

E, às vezes, isso basta para dar sentido a tudo.

Obrigada também a quem gosta genuinamente de mim.

Àqueles que me olham sem necessidade de me reduzir. Aos que compreendem que intensidade não é arrogância. Que sensibilidade não é fraqueza. Que profundidade não é representação.

Num tempo tão dominado pela aparência, encontrar pessoas capazes de reconhecer autenticidade tornou-se um privilégio raro.

Por isso hoje não celebro apenas crescimento.

Celebro permanência humana.

Celebro o facto de ainda existirem pessoas dispostas a sentir profundamente num mundo que tantas vezes recompensa o vazio.

E talvez seja precisamente essa a maior conquista de todas:
saber que aquilo que nasceu apenas de pensamentos escritos em silêncio encontrou lugar dentro do coração de tanta gente.




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