"Benção"

 Refletir sobre a forma como somos marcadas negativamente ao longo da vida é uma jornada profunda e intrincada. Quando alguém nos fere de maneira significativa, essas cicatrizes emocionais tendem a obliterar quaisquer memórias positivas associadas à pessoa em questão. Independentemente de continuarmos a vê-la ou de cruzarmos os mesmos caminhos, a marca negativa permanece e, na verdade, o afastamento pode ser uma estratégia eficaz para a nossa sanidade mental. Evitar o contacto é, muitas vezes, um método eficiente de esquecer a existência dessa pessoa, permite que ambas as partes desfrutem do privilégio de enterrar o passado.

Há uma estranheza intrínseca quando os outros tentam dizer-nos aquilo que pensam que queremos ouvir. Este tipo de interação, superficial e desonesta, contrasta fortemente com a autenticidade que procuramos nas relações humanas. Para mim, é essencial que as palavras e ações dos que me rodeiam sejam genuínas, pois só assim se pode construir uma base sólida de confiança e respeito mútuo.

Penso frequentemente no futuro do meu filho, na possibilidade de ele ter um futuro brilhante. Nesses momentos, pergunto-me se ele se lembrará das pessoas que passaram pela sua vida nos seus primeiros anos. Agora sei que é improvável que ele seja daqueles que recordam as professoras da primária ou os primeiros colegas. Na verdade, aqueles supostos familiares distantes que de alguma forma lhe fizeram mal não deixarão marcas duradouras na sua memória. Espero que ele cresça livre dessas sombras do passado, focando-se apenas nas experiências que realmente moldam o seu caráter e o seu percurso.


Ele já mal reconhece os antigos colegas e a primeira professora já não lhe diz nada. Passou ao pé da antiga escola e nem reconheceu o edifício ou as pessoas associadas a essa fase da vida. A psicóloga assegura-me que este fenómeno é normal, algo que se repetirá com os colegas, professores e auxiliares à medida que ele avança na sua vida.


Este processo de esquecimento é algo que já observei acontecer com uma antiga colega sua, bem como com os tios emprestados de outra colega e uma auxiliar, ele fala se eu fizer sinal. Depois de não estar ao pé pergunta: - Quem era mãe? Ao invés de ser motivo de preocupação, vejo isso como uma forma de defesa natural e um milagre maravilhoso. É a mente do meu filho a proteger-se, a deixar para trás aquilo que não contribui para o seu bem-estar atual.


Essa capacidade de esquecer os elementos negativos ou irrelevantes do passado permite-lhe concentrar-se no presente e nas oportunidades que o futuro lhe reserva. Cada passo que dá, livre das amarras de memórias negativas ou desnecessárias, é um passo rumo a um futuro mais promissor e feliz.


Embora possa parecer estranho ou até mesmo preocupante à primeira vista, esta aptidão para esquecer revela-se uma benção disfarçada.  Ele não carregará o peso de recordações que poderiam atormentá-lo ou desviá-lo do seu caminho. Assim, vejo com gratidão e esperança este mecanismo de defesa que lhe proporciona uma existência mais leve e livre, permitindo-lhe construir um futuro sem as sombras do passado. 

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