"Teoria"
Sabem, eu tenho uma teoria muito interessante sobre as pessoas, ou melhor, sobre como as pessoas lidam com as outras pessoas. Enquanto estão vivas, são completamente irrelevantes. Não me entendam mal, elas até podem ter alguma utilidade, como, sei lá, passar manteiga no pão ou dar indicações para o café mais próximo. Mas a verdade é que ninguém realmente quer saber delas. Vivas, as pessoas são simplesmente... funcionais. Estão ali, a respirar, a ocupar espaço, a dar opiniões que ninguém pediu.
Agora, quando a pessoa está ausente... continuamos na mesma. Não é como se de repente a sua ausência trouxesse algum mistério fascinante. Até porque, sejamos honestas, se a pessoa não era importante enquanto estava ali a fazer sombra, porque haveria de ser agora que não está?
Mas há um fenómeno curioso que acontece: quando certas coisas se dão, como uma data especial, um filme que a pessoa gostava ou aquela expressão ridícula que usava sempre que estava nervosa, de repente, lá nos lembramos. Ah, que saudades! Lembram-se daquela vez em que ela fez aquela coisa? Pois, eu também não. E mesmo assim, não fazemos nada para procurar a criatura. Afinal, para quê mexer no passado quando podemos simplesmente continuar a ignorar a pessoa no presente?
Agora, tudo muda quando... tcharam... a pessoa morre. Aí sim, vira santa. Quase uma beatificação instantânea. "Era tão boa!", dizem, com os olhos marejados de lágrimas, como se a memória tivesse sido alvo de uma lavagem cerebral instantânea. "Que falta que vai fazer!", dizem outros, que nos últimos cinco anos só viram a pessoa no Natal, e mesmo assim, foi por videoconferência. De repente, as recordações surgem em cascata. "Lembram-se daquela vez em que ela fez aquilo?" Claro, ninguém se lembrava, mas agora, subitamente, todos se lembram. Afinal, quem é que não gosta de uma boa história post-mortem?
E então, fazemos aquela romaria ao funeral. Uma espécie de excursão macabra para apreciar a 'jóia de pessoa' na sua última exibição: a caixa de jóias, mais conhecida por caixão. Mas, convenhamos, o caixão não é nada mais que uma vitrine de mau gosto. É onde a pessoa fica exposta, como se fosse uma peça de arte trágica, para meia dúzia de pessoas que realmente sofrem se despedirem, e para dezenas de hipócritas fingirem que sofrem.
O que é que fazem naquelas horas no velório? Comentam, claro. Porque, se há coisa que nunca morre, é a língua afiada. “A roupa é nova, já viram? E os sapatos também. Que requinte!” Pois, realmente. Ou então: "Aquilo deve ter sido caríssimo. Caixão de mogno, com acabamento brilhante, não deve ter sido nada barato." Mas, cuidado, há aqueles que vão ao funeral apenas para apontar o dedo: "A sério, uns sapatos velhos? Não têm vergonha? E a roupa, parece tirada do fundo do armário! Olha-me este caixão, de papelão! Se isto não é vergonha, não sei o que é."
E assim se vai a vida, ou melhor, a morte, em que os irrelevantes de ontem se tornam os santos de amanhã, e as últimas despedidas são afinal só mais uma oportunidade para fazer o que sempre fazemos: falar, criticar e, claro, exibir a nossa própria hipocrisia.
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