"Cantiga"
Diz-me o que pensas, e eu digo-te já,
Que falas de mim, sem saber o que há.
Mas quando te vês, no espelho a olhar,
Desvias o olhar, para não te encarar.
Olhas para mim, com esse ar de certeza,
Mas no fundo, só sabes é da tua tristeza.
Falas tão alto, queres te afirmar,
Mas é no teu medo que estás a gritar.
No café da vila, és sempre a primeira,
A espalhar as novidades de maneira rasteira.
Dizes que sou fraca, sem força ou valor,
Mas de nós duas, quem esconde o terror?
A tua vida é teatro, uma peça de encenação,
Onde todos te aplaudem, mas sem convicção.
Finges ser grande, de moral e de fé,
Mas por trás da cortina, é só pó que tu és.
O que dizes de mim, é a tua própria dor,
Refletes em mim o teu medo e rancor.
Pintas-me de negro, para seres o branco,
Mas é na tua alma que eu vejo o espanto.
Falas de amores, de paixões que vivi,
Mas e os teus segredos? Por que escondes de ti?
És juíza de vidas, carrasca do povo,
Mas foges da tua, como de um lobo.
Pintas-me de má, cruel, sem coração,
Mas onde está o teu? Perdido na escuridão.
Julgas-me a mim por aquilo que és,
Uma sombra no dia, perdida nos pés.
És a voz do povo, a língua afiada,
Mas quando estás só, não és nada, nem nada.
Gritas aos quatro ventos a tua verdade,
Mas ninguém acredita, só há falsidade.
Diz-me, senhora, de onde vem tanta ira?
Por que tanto falas, o que tanto conspira?
Será que a tua vida é assim tão vazia,
Que tens de encher com mentiras e agonia?
És como um espelho, que reflete o que vê,
Mas o teu próprio rosto, não queres saber.
Atacas a todos, com força e com medo,
Mas é de ti mesma que foges, em segredo.
No fundo, minha cara, és só solidão,
E tudo o que dizes, é mera projeção.
Vês em mim o que não queres enxergar,
As falhas que tentas com o mundo ocultar.
Quanto mais falas, mais te denuncias,
Nos outros procuras, as tuas agonias.
Julgas-te esperta, a mais sábia de todas,
Mas a tua sabedoria são histórias rotas.
Na praça da vila, todos já sabem,
Que por trás do sorriso, só venenos cabem.
És o eco das dores que nunca curaste,
A sombra dos sonhos que tu mesma mataste.
Falas de mim com uma tal precisão,
Mas o que tu sabes é pura invenção.
Deves pensar que és dona da verdade,
Mas na tua boca só vive a maldade.
Quanto mais falas, mais te perdes em ti,
Vais cavando um poço, de onde não vais sair.
Criticas o mundo, apontas os dedos,
Mas os teus pecados guardas em segredos.
E quando chegar a hora de prestar contas,
Talvez percebas que as palavras são pontas.
Que ferem e cortam, sem medir a dor,
Mas o mais ferido, serás tu, sem amor.
Por isso, minha amiga, cuida da tua boca,
Que falar dos outros não te leva a coisa pouca.
Olha-te bem, antes de criticar,
E vê se o espelho te deixa encarar.
A vida é um ciclo, e tudo volta a ti,
O que dás ao mundo, é o que vais sentir.
Então, antes de julgares, cuida do teu lugar,
E lembra-te sempre, que a verdade há de chegar.
Na última quadra, deixo-te um aviso,
A língua é afiada, mas o juízo é preciso.
Fala menos de mim, e olha-te bem,
Porque no final, só resta quem se tem.
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