"Funeral"

 Na minha família, não que possa sentir família pois não existe afinidade nenhuma, o absurdo é uma arte praticada com maestria. Não há nada que os meus "parentes" não consigam transformar num espetáculo surreal, e o episódio que vos relato agora é a prova disso.

Tudo começou com a morte de um dos nossos.  Mas, como em qualquer família, há sempre quem tenha o poder de transformar até a morte numa tragicomédia. Neste caso, a mulher decidiu que o corpo dele não passaria pela capela. Nada de velório, nada de despedidas. O plano era simples: do hospital, direto para o cemitério, como se quisesse enterrar, junto com o corpo, todos os segredos e vergonhas acumuladas ao longo dos anos.

A história, no entanto, chegou aos meus ouvidos pela boca da mulher funil, aquela que, na família, nunca deixa nada escapar, sabe tudo, é muito "sincera", "verdadeira".Foi ela que foi á mortuária ver o que não tinha de ver e decidiu seguir o carro funerário, desconfiada de que algo estranho estava a ser encoberto. Após o funeral eis o seu relato.

“O carro saiu do hospital a uma velocidade alucinante,” começou a mulher funil, a descrever a cena com o seu tom típico, voz de bagaço e cheia de uma ironia fina. “Não era normal, nem para um carro funerário. Parecia que estavam a fugir, mas do quê ou de quem, só Deus sabe. E eu, claro, fui atrás. Queria ver com os meus próprios olhos o que estavam a tentar esconder.”

Ela contou-me que a perseguição pelas ruas foi digna de um filme de ação. O motorista, talvez apressado em se livrar do fardo, passou por sinais vermelhos, virou esquinas como se estivesse numa corrida, enquanto ela, obstinada, não lhe perdeu o rasto.

Quando chegaram ao cemitério, já sem mais testemunhas por perto, a mulher funil saiu do carro, de olhos bem abertos para o que viria a seguir. E o que viu só confirmou as suas suspeitas.

“O caixão, se é que se podia chamar àquilo de caixão, estava a balançar com a brisa como uma folha prestes a voar,” contou ela. “Era de papelão, acredita? Papelão! Nunca vi coisa mais triste. E os esticadores que o seguravam pareciam prontos a rebentar a qualquer momento.”

Ela aproximou-se, sem que ninguém tivesse coragem de a deter, e levantou o lençol que cobria o corpo. O que encontrou foi ainda mais grotesco: o homem estava vestido com um fato velho, algo que parecia ter saído dos anos 50, já meio devorado pelas traças. E os sapatos... “Estavam tão desgastados que mal cabiam nos pés, inchados, como se nunca tivessem sido do tamanho certo.”

A cena não ficaria completa sem o toque final: os cortinados do caixão, sem dúvida retirados da casa da tetraavó, com aquele padrão floral antiquado, a forrar o interior de forma descuidada. “Parecia uma paródia da morte,” disse a mulher funil, sem conseguir esconder o riso nervoso. “Tudo aquilo a balançar com o vento, como se a qualquer momento o caixão fosse sair a voar, levando-o para longe deste circo que é a família dele.”

No final, o enterro foi feito às pressas, como se todos estivessem desesperados por acabar logo com aquilo. Enterraram o corpo rapidamente, quase sem palavras, a tentar enterrar com ele a vergonha daquele espetáculo deprimente.

E assim ficou mais uma história para a nossa coleção. Ouvi a mulher funil relatar tudo com uma mistura de incredulidade e um humor negro que só quem conhece bem a família consegue entender. Afinal, na  família, até a morte é uma piada mal contada, uma peça de teatro improvisada onde o ridículo nunca deixa de ser o protagonista, onde não se perde a oportunidade de rebaixamento alheio ou dos familiares. 

______________________________________________

© 2014–2026 TeceHistórias (Marisa). Todos os direitos reservados.

Os conteúdos deste blogue, incluindo textos originais, encontram-se protegidos pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC) e demais legislação aplicável. É expressamente proibida a reprodução, cópia, transcrição, adaptação, publicação, distribuição, disponibilização pública ou qualquer forma de utilização, total ou parcial, por qualquer meio ou suporte, sem autorização prévia, expressa e escrita da autora. A utilização não autorizada poderá dar origem a responsabilidade civil e criminal nos termos da lei portuguesa da União Europeia.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

"Chegamos às 250 mil"