"O único lugar onde a vida acontece chama-se hoje."
Já reparaste como, por vezes, nós, seres humanos, somos profundamente contraditórios?
Passamos anos a sacrificar o presente por causa do futuro. Trabalhamos mais do que o corpo suporta, adiamos encontros, sufocamos afectos, deixamos sonhos em suspenso e convencemo-nos de que, um dia, quando tudo estiver finalmente no lugar, então começaremos verdadeiramente a viver.
Mas o futuro chega.
E, quando chega, transforma-se imediatamente em presente.
É então que olhamos para trás e percebemos que aquilo por que tanto ansiávamos acabou por nos roubar aquilo que nunca poderemos recuperar: o tempo vivido.
É curioso.
Preocupamo-nos tanto com o amanhã que nos esquecemos de habitar o hoje.
Depois, quando o amanhã se torna ontem, choramos precisamente o hoje que deixámos escapar.
Talvez uma das maiores ironias da condição humana seja esta: destruímos o presente por medo do futuro e, mais tarde, sofremos porque o passado já não pode ser mudado.
Vivemos, muitas vezes, como se a vida estivesse sempre noutro lugar.
Uns vivem presos ao que aconteceu.
Outros vivem obcecados com aquilo que ainda poderá acontecer.
Poucos permanecem onde a existência verdadeiramente se desenrola: neste instante.
A mente humana possui uma capacidade extraordinária. Consegue atravessar décadas em poucos segundos. Viaja entre memórias, constrói cenários, imagina possibilidades, antecipa perdas, revive conversas, reescreve acontecimentos e inventa respostas para perguntas que talvez nunca cheguem a existir.
Essa capacidade permitiu-nos criar civilizações, produzir conhecimento, antecipar riscos e construir cultura.
Mas, quando deixa de ser um instrumento e passa a governar-nos, transforma-se também na origem de grande parte do nosso sofrimento.
Porque nem todas as lembranças são memória.
Algumas tornam-se prisão.
Nem todas as previsões são prudência.
Algumas transformam-se em ansiedade.
Vivemos a repetir, interiormente, acontecimentos que terminaram há muito tempo ou a preparar-nos para desastres que talvez nunca aconteçam.
Enquanto isso, a vida continua.
Silenciosamente.
Sem esperar que estejamos prontos.
Talvez seja precisamente por isso que tantas pessoas têm dificuldade em reconhecer os momentos felizes enquanto os vivem.
Só compreendem a sua beleza quando eles já pertencem ao passado.
É como se a consciência chegasse sempre alguns instantes demasiado tarde.
Há uma razão profundamente humana para isto.
O cérebro procura segurança.
Tenta antecipar perigos, reduzir a incerteza e proteger-nos da dor.
Mas a vida nunca prometeu ausência de incerteza.
Prometeu apenas movimento.
E viver implica aceitar que não controlamos tudo.
Nem devemos controlar.
Existe uma diferença enorme entre preparar o futuro e viver exclusivamente para ele.
Planear é um acto de responsabilidade.
Habitar permanentemente o amanhã é abandonar o único lugar onde podemos verdadeiramente amar, decidir, perdoar, aprender, construir e transformar alguma coisa.
Porque apenas o presente admite acção.
O passado já não pode ser alterado.
O futuro ainda não pode ser vivido.
Só este instante aceita a nossa presença.
Talvez a verdadeira maturidade consista exactamente em reconciliar estas três dimensões do tempo.
Honrar o passado sem viver acorrentado a ele.
Preparar o futuro sem lhe entregar a paz.
E permanecer suficientemente desperto para reconhecer que é hoje que a vida acontece.
É hoje que um abraço pode ser dado.
É hoje que uma conversa pode ser iniciada.
É hoje que um pedido de desculpa pode ser feito.
É hoje que um sonho pode começar.
É hoje que uma decisão muda uma existência inteira.
Quantas vezes adiamos a felicidade porque acreditamos que ainda falta alguma coisa?
Quando terminar o curso.
Quando encontrar o emprego certo.
Quando comprar a casa.
Quando os filhos crescerem.
Quando houver mais dinheiro.
Quando desaparecerem os problemas.
Mas a vida tem uma estranha capacidade de substituir um desafio por outro.
Quem espera pelas condições perfeitas acaba, muitas vezes, por esperar a vida inteira.
Não porque lhe tenha faltado tempo.
Mas porque lhe faltou presença.
A sabedoria nunca consistiu em esquecer o passado ou ignorar o futuro.
Consiste em colocar cada um no lugar que lhe pertence.
O passado é um mestre.
Não uma morada.
O futuro é uma possibilidade.
Não uma garantia.
O presente é a única realidade onde podemos existir plenamente.
É aqui que respiramos.
É aqui que amamos.
É aqui que escolhemos.
É aqui que crescemos.
Talvez nunca consigamos impedir a mente de viajar.
Ela continuará a recordar e a imaginar.
Faz parte da nossa condição humana.
Mas podemos sempre escolher regressar.
Regressar ao instante.
Ao rosto de quem está diante de nós.
À beleza discreta das coisas simples.
Ao silêncio que nos recompõe.
Ao pão partilhado.
À gargalhada inesperada.
À mão que segura a nossa.
Porque, no fim de tudo, a vida nunca aconteceu ontem.
Também nunca acontecerá amanhã.
A vida acontece sempre agora.
E talvez a maior forma de sabedoria seja esta: aprender a estar tão inteiro no presente que, quando ele se transformar em memória, possamos olhar para trás sem o peso do arrependimento, mas com a serenidade de quem pode dizer:
"Eu estive verdadeiramente aqui."
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