"IX Escola da Fé"

Sacramentologia: os sacramentos e a graça de Deus

Chegamos agora à Sacramentologia, a disciplina da Teologia que estuda os sacramentos.

E aqui encontramos uma das afirmações mais importantes da fé católica:

Deus não é apenas uma ideia que contemplamos. Deus comunica-Se.

A Revelação não termina numa teoria sobre Deus.

Deus entra na História.

O Verbo faz-Se carne.

Cristo morre e ressuscita.

O Espírito Santo é enviado.

E a Igreja recebe a missão de tornar presente, através dos sacramentos, a obra salvífica de Cristo.

É por isso que os sacramentos não são acessórios da religião.

São constitutivos da vida sacramental da Igreja.

E, antes de estudarmos os sete individualmente, precisamos de compreender exactamente o que é um sacramento.


O que é um sacramento?

Na linguagem teológica católica, um sacramento é:

um sinal eficaz da graça, instituído por Cristo e confiado à Igreja, pelo qual nos é dispensada a vida divina.

Cada palavra desta definição importa.

Sinal.

Porque utiliza uma realidade visível para significar uma realidade invisível.

Eficaz.

Porque não se limita a representar aquilo que significa: realiza sacramentalmente aquilo que significa.

Da graça.

Porque comunica a vida e a acção salvadora de Deus.

Instituído por Cristo.

Porque a origem última dos sacramentos está em Cristo.

Confiado à Igreja.

Porque é a Igreja que celebra e administra sacramentalmente aquilo que recebeu do seu Senhor.


Sinal e realidade significada

O ser humano vive rodeado de sinais.

Uma aliança pode significar casamento.

Uma bandeira representa uma nação.

Uma fotografia torna presente à memória alguém que está ausente.

Um aperto de mão pode significar amizade ou acordo.

Mas os sacramentos são sinais de uma natureza diferente.

Não são apenas símbolos convencionais.

Existe neles uma eficácia sacramental.

Por isso, quando dizemos que a água do Baptismo significa purificação, não estamos apenas a dizer:

“a água lembra-nos que devemos ser puros”.

O Baptismo realiza sacramentalmente aquilo que significa:

incorpora a pessoa em Cristo e comunica a graça baptismal.


O visível e o invisível

Os sacramentos possuem sempre uma dimensão visível.

Há:

água;

óleo;

pão;

vinho;

palavras;

gestos;

imposição das mãos;

consentimento matrimonial.

Mas aquilo que acontece sacramentalmente ultrapassa aquilo que os sentidos conseguem observar.

Esta é uma característica essencial da fé cristã:

o invisível pode ser comunicado através do visível.

É precisamente a lógica da Encarnação.

O Deus invisível manifesta-Se no Filho feito homem.

O cristianismo é profundamente sacramental porque acredita que Deus entrou na materialidade da História.


Cristo é o sacramento primordial

Aqui entramos numa ideia teológica extraordinariamente importante.

Antes dos sacramentos da Igreja existe:

Cristo.

Cristo é o Sacramento primordial da salvação.

Nele, o Deus invisível torna-Se visível.

Quem vê Cristo encontra a manifestação perfeita do Pai.

Por isso, os sacramentos não são mecanismos independentes.

Todos têm origem no Mistério Pascal de Cristo.

Cristo é a fonte.

A Igreja é o sacramento de Cristo.

E os sacramentos comunicam a graça de Cristo.


A Igreja como sacramento

Já vimos anteriormente que a Igreja é compreendida como sacramento universal de salvação.

Existe aqui uma relação profunda:

Cristo → Igreja → Sacramentos → Vida sacramental.

Cristo salva.

A Igreja anuncia e celebra.

Os sacramentos comunicam sacramentalmente a graça.

Não devemos imaginar que Deus fica “preso” aos sacramentos.

Deus é livre.

Mas a Igreja reconhece nos sacramentos os meios ordinários pelos quais Cristo comunica a sua graça.


Quantos sacramentos existem?

Na Igreja Católica existem:

sete sacramentos.

São eles:

  1. Baptismo

  2. Confirmação

  3. Eucaristia

  4. Penitência ou Reconciliação

  5. Unção dos Enfermos

  6. Ordem

  7. Matrimónio

Este número não apareceu arbitrariamente.

A compreensão dos sete sacramentos desenvolveu-se progressivamente na História da Igreja e foi definida de forma particularmente clara no Ocidente medieval, sendo reafirmada pelo Concílio de Trento no contexto da Reforma Protestante.


Porque sete?

O número sete possui também grande importância simbólica na tradição bíblica.

Mas não devemos concluir que existem sete sacramentos simplesmente porque “sete é o número perfeito”.

A Igreja reconhece sete sacramentos porque, através da sua Tradição e reflexão teológica, identificou nestes sete sinais sacramentais uma estrutura fundamental da economia sacramental da Nova Aliança.

Cada sacramento responde a dimensões fundamentais da existência humana e da vida cristã.


Três grupos

Os sete sacramentos são tradicionalmente agrupados em três categorias.

Sacramentos da iniciação cristã

Baptismo

Confirmação

Eucaristia

Sacramentos de cura

Reconciliação

Unção dos Enfermos

Sacramentos ao serviço da comunhão e da missão

Ordem

Matrimónio

Esta organização não é apenas pedagógica.

Ajuda-nos a compreender a arquitectura da vida cristã.


Sacramentos da iniciação

A iniciação cristã não é simplesmente uma sequência de cerimónias.

É um caminho de incorporação em Cristo.

O Baptismo é o começo sacramental.

A Confirmação fortalece e sela essa vida pelo Espírito Santo.

A Eucaristia alimenta e leva à plenitude a participação sacramental na vida de Cristo.

Por isso, estes três sacramentos formam uma unidade.


O Baptismo

Começamos pelo primeiro.

Baptismo.

A palavra está relacionada com o grego baptízein, associado à ideia de mergulhar.

O simbolismo é extraordinariamente rico.

Mergulhar.

Morrer.

Emergir.

Renascer.

O Baptismo significa participação na morte e ressurreição de Cristo.

São Paulo explica esta realidade através da imagem de morrer e ressuscitar com Cristo.


A água

A matéria sacramental do Baptismo é:

água.

Porquê água?

Porque a água possui uma enorme riqueza bíblica.

É vida.

Purificação.

Nascimento.

Mas também pode representar morte.

No Baptismo encontramos esta ambivalência.

A pessoa é mergulhada sacramentalmente na morte de Cristo e emerge para uma vida nova.

Não é simplesmente:

“lavar os pecados”.

É muito mais profundo.

É participar na Páscoa de Cristo.


O pecado original

No Baptismo recebemos a remissão dos pecados.

Incluindo aquilo que a tradição chama:

pecado original.

É importante compreender o conceito.

Pecado original não significa que um bebé tenha cometido pessoalmente um acto pecaminoso.

Não é uma culpa pessoal adquirida por uma criança.

Designa a condição humana marcada pelo pecado e pela ruptura da comunhão com Deus, transmitida à humanidade desde as origens.

O Baptismo introduz a pessoa na graça de Cristo.


Filiação divina

Uma das realidades fundamentais do Baptismo é:

filiação adoptiva.

O baptizado torna-se filho de Deus pela graça.

Não no sentido de que Deus anteriormente não fosse seu Criador.

Mas porque passa a participar sacramentalmente na vida filial de Cristo.

A linguagem cristã torna-se extraordinariamente bela:

Cristo é o Filho por natureza; nós tornamo-nos filhos por graça.


Incorporação na Igreja

O Baptismo também incorpora a pessoa na Igreja.

Por isso não existe Baptismo puramente individual.

O baptizado passa a pertencer sacramentalmente ao Corpo de Cristo.

É introduzido na comunidade da fé.

Recebe uma dignidade que não depende:

da riqueza;

da inteligência;

da profissão;

da posição social;

da cultura;

do estatuto.

A dignidade baptismal é anterior a tudo isso.


O carácter baptismal

O Baptismo imprime aquilo que a teologia chama:

carácter sacramental.

É uma marca espiritual permanente.

Por isso:

o Baptismo não pode ser repetido.

Não se baptiza alguém novamente porque mudou de paróquia, porque se afastou da Igreja, porque teve uma crise de fé ou porque posteriormente voltou à prática religiosa.

O Baptismo é único.


Confirmação

O segundo sacramento da iniciação é:

Confirmação, também chamado Crisma.

Está particularmente associado ao dom do Espírito Santo.

O Baptismo introduz.

A Confirmação fortalece e aprofunda.

O Espírito que ressuscitou Cristo é o mesmo Espírito que é comunicado sacramentalmente ao baptizado.


O óleo do Crisma

Na Confirmação utiliza-se o:

Santo Crisma.

É um óleo perfumado, consagrado pelo bispo.

A unção possui uma enorme tradição bíblica.

Reis eram ungidos.

Sacerdotes eram ungidos.

Profetas eram associados à unção.

Cristo é o Messias, o Ungido.

A Confirmação associa o cristão mais profundamente à missão de Cristo.


Os dons do Espírito Santo

A tradição cristã fala dos sete dons do Espírito Santo:

sabedoria;

entendimento;

conselho;

fortaleza;

ciência;

piedade;

temor de Deus.

Não são sete “poderes sobrenaturais”.

São disposições espirituais através das quais o cristão se deixa conduzir pelo Espírito.

A Confirmação não transforma automaticamente uma pessoa num cristão maduro.

A graça precisa de ser acolhida e vivida.


Eucaristia

E chegamos ao centro.

Eucaristia.

Já estudámos a Liturgia Eucarística.

Agora conseguimos compreender a sua dimensão sacramental.

A Eucaristia é:

sacrifício de Cristo tornado sacramentalmente presente;

memorial da Páscoa;

presença real;

banquete;

comunhão;

acção de graças.

É o centro da vida sacramental da Igreja.


A Eucaristia é Cristo

Na fé católica, depois da consagração:

Cristo está realmente presente.

Não apenas a sua influência.

Não apenas a sua mensagem.

Não apenas a sua memória.

Cristo.

A Igreja utiliza a linguagem da transubstanciação para explicar que a substância do pão e do vinho é transformada, permanecendo as aparências sensíveis.

Por isso a Eucaristia é tratada com adoração.


Reconciliação

Passamos agora aos sacramentos de cura.

O primeiro é:

Reconciliação.

Também chamado:

Penitência.

Confissão.

Sacramento do Perdão.

Todos estes nomes evidenciam uma dimensão verdadeira do sacramento.

Existe pecado.

Existe arrependimento.

Existe confissão.

Existe absolvição.

Existe reconciliação.

Existe conversão.


Porque precisamos da Confissão?

Se Deus pode perdoar directamente, porque precisamos de um sacramento?

Porque Cristo quis que a Igreja participasse sacramentalmente no ministério da reconciliação.

O sacerdote não substitui Deus.

É ministro do perdão de Deus.

Quando o sacerdote absolve, o perdão não nasce da santidade pessoal do padre.

A eficácia sacramental não depende da personalidade extraordinária do ministro.

É Cristo quem age.


Ex opere operato

Chegamos a uma expressão latina fundamental:

ex opere operato.

Literalmente, algo como:

“pelo próprio facto de a acção sacramental ser realizada.”

Isto significa que a eficácia sacramental não depende primariamente da santidade pessoal de quem administra o sacramento.

Se um sacerdote é espiritualmente medíocre, isso não significa que os sacramentos deixem automaticamente de ser válidos.

Porque:

é Cristo quem age no sacramento.

Mas isto não significa que qualquer celebração seja automaticamente válida.

São necessários os elementos essenciais e a intenção sacramental adequada, entre outras condições.


Ex opere operantis

Existe também outra expressão:

ex opere operantis.

Refere-se à disposição daquele que recebe.

Aqui encontramos uma distinção importante.

O sacramento possui eficácia pela acção de Cristo.

Mas a graça recebida pode produzir frutos diferentes conforme a disposição da pessoa.

A graça não deve ser confundida com magia.

O sacramento não transforma a pessoa contra a sua liberdade.

Deus oferece.

A pessoa responde.


A liberdade humana

Aqui entramos na Antropologia Teológica.

Deus concede graça.

Mas o ser humano possui liberdade.

A graça não destrói a liberdade.

Cura-a e eleva-a.

A vida cristã não é:

“Deus faz tudo e eu não faço nada.”

Nem:

“Eu consigo salvar-me sozinho.”

É cooperação entre graça e liberdade.

A salvação é dom.

Mas o ser humano é chamado a responder a esse dom.


A Penitência

A palavra:

penitência

não significa simplesmente castigo.

Está relacionada com conversão.

A pessoa reconhece o pecado.

Arrepende-se.

Confessa.

Recebe absolvição.

Assume uma satisfação ou penitência.

Procura reparar, quanto possível, o mal cometido.

A verdadeira reconciliação não consiste apenas em dizer:

“Desculpa.”

É uma transformação da vida.


Contrição

Outro termo fundamental:

contrição.

É a dor da alma e rejeição do pecado cometido, acompanhada do propósito de não voltar a pecar.

Existe:

contrição perfeita, motivada principalmente pelo amor a Deus;

e

contrição imperfeita, que pode nascer, por exemplo, do reconhecimento da gravidade do pecado e do temor das suas consequências.

Ambas possuem importância na teologia do sacramento da Reconciliação.


Absolvição

Depois da confissão e da disposição necessária, o sacerdote pronuncia a:

absolvição.

É o momento sacramental em que a Igreja, através do ministro ordenado, declara e comunica o perdão de Deus.

Não é simplesmente:

“Eu desculpo-te.”

É uma acção sacramental.

O sacerdote actua como ministro de Cristo.


Unção dos Enfermos

O segundo sacramento de cura é:

Unção dos Enfermos.

Existe uma ideia errada muito comum:

“É o sacramento dos moribundos.”

Não necessariamente.

É o sacramento daqueles que enfrentam uma doença grave ou fragilidade séria relacionada com a saúde.

A Igreja pede:

força;

paz;

consolo;

perdão dos pecados, quando apropriado;

e união com Cristo no sofrimento.


Sofrimento e Cristo

A Unção dos Enfermos possui uma profunda dimensão cristológica.

O sofrimento humano é colocado em relação com:

Cristo sofredor.

O cristão não recebe uma promessa de que nunca sofrerá.

Recebe a graça de não enfrentar o sofrimento sozinho.

O sacramento não significa:

“Deus vai necessariamente curar-te fisicamente.”

Significa:

Cristo permanece contigo.

E essa presença possui um valor que ultrapassa a cura física.


Sacramentos ao serviço da comunhão

Entramos agora no terceiro grupo:

Ordem e Matrimónio.

São chamados sacramentos ao serviço da comunhão e da missão.

Isto significa que não existem apenas para a santificação individual daquele que os recebe.

Estão orientados para o serviço dos outros e para a construção da Igreja e da sociedade.


Ordem

O sacramento da Ordem possui três graus:

episcopado;

presbiterado;

diaconado.

Não são três sacramentos diferentes.

É um único sacramento da Ordem em três graus.


Diácono

O diácono recebe a missão sacramental própria do ministério diaconal.

A palavra está relacionada com:

serviço.

O diácono pode proclamar o Evangelho, pregar, baptizar em determinadas circunstâncias e presidir a algumas celebrações, conforme a disciplina litúrgica.

O diaconado recorda uma verdade essencial:

todo o ministério cristão deve ser serviço.


Presbítero

O presbítero recebe o sacramento da Ordem e participa no sacerdócio ministerial de Cristo.

Celebra a Eucaristia.

Administra determinados sacramentos.

Prega.

Serve pastoralmente.

Mas a sua identidade não se resume a “fazer cerimónias”.

É chamado a configurar a própria vida ao serviço de Cristo e da comunidade.


Bispo

O episcopado é a plenitude do sacramento da Ordem.

O bispo é sucessor dos Apóstolos.

Recebe a missão de:

ensinar;

santificar;

governar.

Está inserido no colégio episcopal e em comunhão com o Bispo de Roma.

A Igreja compreende assim a sucessão apostólica não como uma simples sucessão administrativa, mas como continuidade sacramental da missão recebida dos Apóstolos.


Matrimónio

Chegamos ao último sacramento:

Matrimónio.

Na fé católica, o matrimónio sacramental é uma aliança entre um homem e uma mulher, ordenada ao bem dos cônjuges e à geração e educação dos filhos.

É uma aliança.

Não é apenas um contrato civil.

A linguagem da aliança é profundamente bíblica.

Deus estabelece Aliança com o seu povo.

Cristo é apresentado como Esposo.

A relação conjugal torna-se também uma imagem teológica da relação entre Cristo e a Igreja.


Consentimento

No Matrimónio, o elemento essencial é:

o consentimento dos esposos.

São os próprios esposos que se conferem mutuamente o sacramento através do consentimento matrimonial válido, segundo a compreensão católica.

O ministro ordenado recebe o consentimento em nome da Igreja e exerce a função litúrgica própria.

Por isso, o casamento cristão não é simplesmente:

“o padre casou duas pessoas.”

São os próprios esposos que estabelecem a aliança matrimonial através do seu consentimento.


Unidade e indissolubilidade

O matrimónio sacramental é compreendido através de características fundamentais:

unidade;

fidelidade;

indissolubilidade;

abertura à vida.

A indissolubilidade significa que a aliança matrimonial sacramental não deve ser entendida como um contrato facilmente dissolúvel.

Cristo leva a sério a palavra:

“os dois serão uma só carne.”

É uma concepção exigente.

E precisamente por isso exige também preparação, maturidade e responsabilidade.


Graça matrimonial

O Matrimónio não é apenas uma bênção sobre um casal.

É um sacramento.

A graça sacramental ajuda os esposos a:

amar;

perdoar;

ser fiéis;

educar os filhos;

suportar dificuldades;

crescer juntos;

ser testemunhas do amor de Cristo.

A própria vida conjugal torna-se lugar de santificação.


Os três sacramentos que imprimem carácter

Dos sete sacramentos, três imprimem carácter sacramental permanente:

Baptismo.

Confirmação.

Ordem.

Por isso não podem ser repetidos.

Existe uma marca espiritual permanente associada à configuração sacramental da pessoa.

É uma realidade ontológica e sacramental, não uma marca física.


Matéria e forma

A teologia sacramental clássica utiliza também duas categorias:

matéria

e

forma.

A matéria corresponde, de modo geral, ao elemento ou gesto sacramental.

A forma corresponde às palavras essenciais.

Por exemplo:

no Baptismo, água e fórmula baptismal;

na Eucaristia, pão e vinho e as palavras sacramentais próprias;

na Confirmação, unção com o Crisma e fórmula correspondente.

Estas categorias ajudam a compreender a estrutura sacramental.


Ministro

Também é necessário considerar:

quem administra o sacramento?

O ministro varia conforme o sacramento.

No Baptismo, por exemplo, em determinadas circunstâncias pode baptizar até uma pessoa não ordenada.

Na Eucaristia, a consagração é própria do bispo ou presbítero validamente ordenado.

Na Confirmação, o ministro ordinário é o bispo, embora a Igreja preveja situações em que um presbítero pode administrar validamente o sacramento.

No Matrimónio, os esposos são os ministros do sacramento através do consentimento.

Cada sacramento possui uma estrutura própria.


Validade e liceidade

Aqui aparece uma distinção importante.

Um sacramento pode ser:

válido;

lícito;

ou inválido.

Válido significa que o sacramento realmente aconteceu sacramentalmente.

Lícito significa que foi celebrado de acordo com as normas da Igreja.

Uma celebração pode ser válida mas ilícita em determinadas circunstâncias.

E se faltar um elemento essencial, pode ser inválida.

Esta distinção é importante porque impede afirmações simplistas.


Não é magia

Talvez seja a ideia mais importante a guardar.

Sacramento não é magia.

Magia pressupõe, em termos gerais, a tentativa de manipular uma força através de determinadas técnicas.

O sacramento é exactamente o contrário.

Não manipulamos Deus.

É Deus quem age.

Não existe uma fórmula que obrigue Deus a fazer aquilo que queremos.

A Liturgia é relação.

É graça.

É aliança.

É dom.

É participação no Mistério de Cristo.


Sacramentalidade e materialidade

Existe ainda uma característica profundamente cristã:

Deus utiliza a matéria.

Água.

Óleo.

Pão.

Vinho.

Corpo.

Palavra.

Toque.

Imposição das mãos.

Consentimento.

Isto não é acidental.

O cristianismo não despreza o corpo.

Porque o próprio Deus assumiu um corpo.

A Encarnação impede uma espiritualidade que considere a matéria simplesmente impura.

O corpo pode tornar-se lugar de encontro com Deus.


Os sacramentos e a Encarnação

Aqui voltamos à Cristologia.

O Filho de Deus:

fez-Se carne.

E é precisamente esta realidade que ilumina a sacramentalidade.

O cristianismo não anuncia um Deus que permanece eternamente distante da matéria.

Anuncia um Deus que entra na História.

Toca.

Fala.

Chora.

Come.

Sofre.

Morre.

Ressuscita.

E permanece sacramentalmente presente na sua Igreja.


Os sacramentos e o Espírito Santo

Também encontramos a Pneumatologia.

O Espírito Santo:

santifica;

transforma;

une;

fortalece;

torna eficaz a celebração sacramental.

A Liturgia é profundamente pneumatológica.

Sem o Espírito, não existe vida sacramental cristã.

É o Espírito que torna a Igreja viva e conduz os fiéis à participação no Mistério de Cristo.


Os sacramentos e a Escatologia

Existe ainda uma dimensão escatológica.

Os sacramentos pertencem à Igreja peregrina.

Mas antecipam a plenitude futura.

A Eucaristia é particularmente clara:

é alimento para o caminho e antecipação do banquete definitivo.

O Baptismo inaugura uma vida que aponta para a ressurreição.

A Unção une o sofrimento humano à esperança da vida eterna.

Os sacramentos são, portanto:

sinais do presente que apontam para a plenitude futura.


Uma visão de conjunto

Podemos agora olhar para os sete sacramentos como um percurso da existência cristã:

Baptismo
→ nascemos para a vida nova.

Confirmação
→ somos fortalecidos pelo Espírito.

Eucaristia
→ alimentamo-nos de Cristo e entramos na comunhão sacramental.

Reconciliação
→ regressamos à comunhão quando o pecado a feriu.

Unção dos Enfermos
→ recebemos força de Cristo na doença e no sofrimento.

Ordem
→ alguns são configurados sacramentalmente para o serviço ministerial.

Matrimónio
→ a aliança conjugal torna-se caminho de santificação e missão.


A grande síntese

Depois de tudo isto, podemos finalmente compreender a lógica sacramental.

Deus revela-Se.

Cristo realiza a salvação.

O Espírito Santo torna presente e eficaz a obra de Cristo.

A Igreja celebra.

Os sacramentos comunicam a graça.

O ser humano recebe, responde e vive.

É uma dinâmica de:

Revelação → Cristo → Espírito → Igreja → Sacramento → Graça → Vida → Missão.

Nada está isolado.


Para guardar

Os sacramentos não são sete “rituais religiosos”.

São sete realidades sacramentais através das quais a Igreja celebra e comunica a graça de Cristo.

O Baptismo introduz-nos na vida cristã.

A Confirmação fortalece-nos pelo Espírito.

A Eucaristia alimenta-nos com Cristo e torna sacramentalmente presente o seu Mistério Pascal.

A Reconciliação restaura a comunhão ferida pelo pecado.

A Unção dos Enfermos comunica força e consolação no sofrimento e na doença.

A Ordem configura alguns fiéis ao ministério ordenado.

O Matrimónio santifica a aliança conjugal.

E todos apontam para uma única realidade:

Cristo salva.

Os sacramentos não competem com Cristo.

São sacramentos de Cristo.

Não substituem a fé.

Alimentam-na.

Não eliminam a liberdade.

Chamam-na a responder.

Não são magia.

São graça.

Não são apenas símbolos.

São sinais eficazes.

Não são cerimónias vazias.

São encontros sacramentais com o Mistério de Cristo.

E talvez esta seja a melhor forma de compreender toda a Sacramentologia:

Deus, que é invisível, não deixou o ser humano condenado a procurá-Lo apenas através de conceitos. Em Cristo, entrou na História; na Igreja, continua a agir; nos sacramentos, comunica a sua graça através de sinais visíveis.

É precisamente aqui que a Teologia deixa de ser apenas aquilo que pensamos sobre Deus.

Torna-se aquilo que Deus faz em nós.

E, para continuar a compreender esta arquitectura da fé, o próximo grande passo será:

Pneumatologia — quem é o Espírito Santo?

Não apenas a imagem da pomba, nem simplesmente “uma força de Deus”, mas a terceira Pessoa da Santíssima Trindade: a sua divindade, relação com o Pai e o Filho, missão na História da Salvação, dons, carismas, frutos, acção na Igreja, na Liturgia, nos sacramentos e na vida concreta do cristão.

Porque compreender o Espírito Santo é compreender como a presença de Cristo continua viva na Igreja e no mundo.

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