"E se a tua maior perda for aquilo que nunca te permitiste tentar?"
Há frases que incomodam precisamente porque encontram dentro de nós uma verdade que temos tentado evitar.
"Se existir uma oportunidade, por pequena que seja, de alguma coisa ou de alguém te fazer feliz, arrisca."
Talvez doa porque, no fundo, sabemos que muitas vezes não é a falta de oportunidades que nos impede de viver.
É o medo das consequências.
É a necessidade quase obsessiva de garantir que nada corre mal antes de darmos um passo.
É aquela tentativa impossível de negociar com a vida:
"Eu avanço, mas só se tiver a certeza de que não vou sofrer."
E a vida, infelizmente, não assina esse contrato.
Nunca assinou.
Talvez seja por isso que tantas pessoas passam anos a preparar-se para viver.
Esperam pelo momento certo.
Pela estabilidade financeira.
Pela pessoa certa.
Pelo emprego certo.
Pela coragem suficiente.
Pelo corpo certo.
Pela idade certa.
Pela ocasião perfeita.
E, enquanto esperam que todas as condições se alinhem, a própria vida vai acontecendo sem pedir autorização.
Os anos passam.
As pessoas mudam.
As oportunidades fecham-se.
Algumas portas deixam de existir.
E aquilo que ontem parecia apenas uma possibilidade torna-se amanhã uma pergunta:
"E se eu tivesse tentado?"
Existe uma diferença profunda entre prudência e medo.
A prudência observa.
Pondera.
Questiona.
Calcula consequências.
O medo, porém, pode fazer exactamente a mesma coisa.
Também calcula.
Também questiona.
Também apresenta argumentos.
Também encontra razões aparentemente sensatas.
A diferença é que a prudência procura uma decisão consciente.
O medo procura uma justificação para não decidir.
E esta diferença nem sempre é fácil de reconhecer.
Porque o medo raramente se apresenta como medo.
Às vezes chama-se responsabilidade.
Outras vezes chama-se bom senso.
Por vezes veste-se de maturidade.
E, noutras, diz simplesmente:
"Agora não é a altura."
O problema é que o "agora não" pode tornar-se uma forma elegante de dizer "nunca".
E há vidas inteiras construídas sobre adiamentos.
Não porque as pessoas não tenham sonhos.
Mas porque aprenderam a protegê-los tanto do fracasso que acabaram por protegê-los também da possibilidade de se realizarem.
É estranho, não é?
Podemos passar anos a tentar construir uma existência segura e, um dia, descobrir que a segurança também tem um preço.
Porque não existe apenas o risco de perder aquilo que temos.
Existe o risco de nunca descobrir aquilo que poderíamos ter tido.
Não arriscar também é uma escolha.
Ficar também é uma decisão.
Recusar também produz consequências.
E, por vezes, a opção aparentemente mais segura é apenas a que nos permite adiar a dor.
Só que aquilo que adiamos não desaparece necessariamente.
Fica.
Acompanha-nos.
Transforma-se naquela pergunta silenciosa que aparece em determinados momentos da vida:
"E se?"
E talvez poucas palavras tenham tanto poder sobre a imaginação humana.
E se tivesse ido?
E se tivesse ficado?
E se tivesse dito?
E se tivesse amado?
E se tivesse mudado?
E se tivesse começado?
E se tivesse acreditado?
O "e se" é uma espécie de território paralelo onde podemos imaginar todas as vidas que não vivemos.
E talvez seja precisamente por isso que é tão sedutor.
Ali não falhamos.
Porque nunca tentámos.
Ali a relação teria funcionado.
O projecto teria resultado.
A viagem teria sido maravilhosa.
O sonho teria sido possível.
A pessoa teria ficado.
Tudo pode correr perfeitamente no território das hipóteses.
Mas existe uma crueldade silenciosa nessa fantasia:
ela oferece todas as possibilidades sem nos obrigar a pagar o preço de nenhuma.
Por isso, viver no "e se" pode ser mais confortável do que viver.
Porque viver implica risco.
Implica exposição.
Implica vulnerabilidade.
Implica aceitar que podemos escolher correctamente e, ainda assim, as coisas podem correr mal.
E talvez esta seja uma das maiores dificuldades da maturidade:
compreender que uma decisão sensata não é uma decisão sem risco.
É uma decisão cujo risco estamos dispostos a assumir porque aquilo que está em jogo merece a tentativa.
Há relações que podem não resultar.
Há mudanças profissionais que podem correr mal.
Há sonhos que podem revelar-se diferentes daquilo que imaginávamos.
Há pessoas que podem desiludir-nos.
Há portas que podemos atravessar e descobrir, do outro lado, que não era ali que queríamos estar.
Mas isso não significa necessariamente que tenhamos errado.
Às vezes, erramos.
Outras vezes, aprendemos.
E há uma diferença extraordinária entre as duas coisas.
Nem toda a tentativa precisa de produzir sucesso para produzir sentido.
Há experiências que não nos dão aquilo que procurávamos, mas dão-nos aquilo que precisávamos de aprender.
Há caminhos que não nos levam ao destino imaginado, mas obrigam-nos a descobrir capacidades que nunca teríamos conhecido se tivéssemos permanecido imóveis.
É por isso que não acredito nessa ideia simplista de que devemos "arriscar tudo" em nome da felicidade.
Não.
Há riscos irresponsáveis.
Há decisões impulsivas.
Há relações que devemos abandonar, e não perseguir.
Há situações em que a prudência é precisamente aquilo que nos protege.
A coragem não é ausência de discernimento.
A coragem verdadeira pensa.
Observa.
Pondera.
E depois decide.
O que não podemos fazer é transformar a prudência numa desculpa permanente para nunca viver.
Porque existe uma altura em que já não estamos a proteger a nossa vida.
Estamos simplesmente a evitar senti-la.
E isso é muito diferente.
Talvez seja por isso que algumas pessoas envelhecem com uma espécie de tristeza que não conseguem explicar.
Não lhes falta necessariamente dinheiro.
Nem família.
Nem conforto.
Nem histórias.
Falta-lhes a sensação íntima de terem participado verdadeiramente na própria existência.
Foram cumprindo.
Foram respondendo ao que era esperado.
Foram fazendo o que parecia seguro.
Foram adiando.
Foram esperando.
E, quando finalmente tiveram tempo para perguntar o que queriam, perceberam que passaram demasiado tempo a aprender a não querer demasiado.
Esta talvez seja uma das formas mais silenciosas de desperdício humano.
Não é morrer.
É viver sem nunca ter entrado verdadeiramente na própria vida.
É olhar para ela como quem observa uma paisagem através de uma janela.
Está tudo ali.
Mas não tocámos em quase nada.
Não amámos suficientemente.
Não tentámos suficientemente.
Não dissemos algumas coisas.
Não fomos a determinados lugares.
Não começámos determinados projectos.
Não nos permitimos determinadas mudanças.
Não porque não quiséssemos.
Mas porque tínhamos medo de perder aquilo que conhecíamos.
E há uma ironia dolorosa nisso:
passamos tanto tempo a tentar garantir que nada se perde que acabamos por perder precisamente o que nunca recuperaremos.
O tempo.
A possibilidade.
A juventude de determinadas escolhas.
A presença de determinadas pessoas.
A oportunidade de viver certas versões de nós próprias.
Porque uma oportunidade não permanece eternamente disponível apenas porque ainda não tivemos coragem de a aceitar.
Há portas que não se fecham com estrondo.
Fecham-se silenciosamente.
Um dia percebemos apenas que já não estão abertas.
E então compreendemos que o momento perfeito não existia.
Havia apenas o momento possível.
E talvez seja isto que precisamos de aprender:
não precisamos de ter a garantia de que uma escolha nos fará felizes para podermos escolhê-la.
Precisamos de saber se, apesar da incerteza, ela é coerente com aquilo que queremos construir.
Não precisamos de saber se vai resultar.
Precisamos de perguntar se conseguimos viver em paz sabendo que nunca tentámos.
Porque existem fracassos que conseguimos ultrapassar.
Mas há arrependimentos que regressam durante décadas.
Não porque sejam necessariamente maiores do que os fracassos.
Mas porque não podem ser corrigidos.
O fracasso permite-nos dizer:
"Tentei e não resultou."
O arrependimento pergunta:
"E se tivesse tentado?"
E essa pergunta não tem resposta.
Talvez seja por isso que, quando chegarmos ao fim, não nos preocupe tanto aquilo que não correu perfeitamente.
Preocupar-nos-á aquilo que nunca começámos.
Não pediremos uma vida sem erros.
Talvez peçamos apenas a serenidade de saber que estivemos presentes.
Que fizemos escolhas.
Que amámos.
Que dissemos aquilo que precisava de ser dito.
Que mudámos quando era necessário.
Que tivemos medo, sim, mas não deixámos que o medo tomasse todas as decisões por nós.
Porque a vida não nos promete felicidade.
Promete-nos possibilidade.
E a felicidade, quando aparece, não costuma pedir licença.
Às vezes chega numa pessoa.
Noutras, num lugar.
Num trabalho.
Num projecto.
Numa amizade.
Numa mudança que nos assusta.
Numa oportunidade aparentemente pequena que, naquele momento, parece demasiado incerta para merecer a nossa coragem.
Talvez mereça.
Talvez não.
Não há fórmula.
Não há garantia.
Existe apenas aquilo que tu sabes quando ficas sozinha contigo própria e já não tens ninguém a quem atribuir a decisão.
E talvez a pergunta mais honesta não seja:
"E se correr mal?"
Mas:
"E se correr bem?"
E, sobretudo:
"Quanto da minha vida estou disposta a entregar ao medo apenas para não descobrir?"
Porque a morte não é a única coisa que devemos temer.
Também devemos ter cuidado com uma vida tão protegida que nunca chega verdadeiramente a acontecer.
No fim, talvez não lamentemos todas as batalhas que perdemos.
Lamentaremos algumas das que nunca tivemos coragem de travar.
Por isso, se existe diante de ti uma possibilidade real, consciente e digna de te aproximar da vida que desejas...
pára.
Pensa.
Avalia.
Protege-te, se for necessário.
Mas não uses o medo como se fosse sabedoria.
Porque talvez a felicidade não esteja a pedir-te uma certeza.
Talvez esteja apenas a pedir-te coragem suficiente para abrires a porta.
E entrares.
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