"Resumo"

A fé não se impõe: conhece-se, discerne-se e escolhe-se

Como têm reparado, tenho vindo a partilhar alguns resumos de matéria e de estudo da Escola da Fé. Faço-o por uma razão muito simples: porque estudar a fé não é o mesmo que impô-la.

Eu posso explicar aquilo em que acredito. Posso estudar a Escritura, a Tradição, a teologia, a liturgia e o ensinamento da Igreja. Posso partilhar aquilo que aprendi e tentar tornar inteligíveis conceitos que, muitas vezes, são apresentados de forma excessivamente simplificada. Mas não posso — nem quero — escolher por outra pessoa.

A fé cristã não anula a liberdade humana.

Deus chama, propõe, revela-Se, oferece a graça; o ser humano responde livremente. A própria Revelação não trata o homem como um objecto passivo, mas como alguém capaz de conhecer, acolher, interrogar, discernir e responder. O Catecismo afirma que, na fé, intelecto e vontade cooperam com a graça divina.

Por isso, quem me lê não é obrigado a seguir a minha fé. Pode concordar, discordar, estudar, questionar ou simplesmente não acreditar.

O livre-arbítrio não desaparece porque eu acredito.

Mas há uma coisa que considero intelectualmente indispensável: se vamos falar de cristianismo, falemos do cristianismo que realmente existe, e não de uma caricatura construída por opiniões, experiências particulares ou frases retiradas da Bíblia sem contexto.

E há alguns pontos que precisam mesmo de ser esclarecidos.


Deus não é uma personagem solitária: Deus é Trindade

Quando a Igreja diz que Deus é Uno e Trino, não está a afirmar que existem três deuses.

Também não está a dizer que existe um Deus que, conforme as circunstâncias, se apresenta ora como Pai, ora como Filho, ora como Espírito Santo.

E também não está a dividir Deus em três partes.

A fé cristã afirma algo muito mais profundo:

há um só Deus, uma só natureza divina, e três Pessoas realmente distintas: Pai, Filho e Espírito Santo.

O Catecismo é absolutamente explícito: não professamos três deuses, mas um só Deus em três Pessoas. Cada Pessoa divina é plenamente Deus; não existe um terço de Deus no Pai, outro terço no Filho e outro terço no Espírito Santo.

É por isso que o Credo diz:

«Creio em um só Deus»

e simultaneamente confessa o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Não são três divindades independentes.

São três Pessoas na única natureza divina.

E aqui entramos no centro do mistério cristão: Deus é comunhão.

O Pai não é o Filho.

O Filho não é o Pai.

O Espírito Santo não é o Pai nem o Filho.

Mas o Pai é Deus.

O Filho é Deus.

O Espírito Santo é Deus.

E Deus é um só.

A linguagem humana começa aqui a mostrar os seus limites. Não porque a doutrina seja irracional, mas porque estamos diante de uma realidade que ultrapassa a experiência criada.

O próprio Catecismo chama à Trindade o mistério central da fé e da vida cristã.

E isto é fundamental para compreender tudo o que vem depois.

Porque o Pai não trabalha contra o Filho, o Filho contra o Espírito, nem o Espírito contra o Pai.

A acção divina é uma.

As Pessoas divinas são distintas, mas a obra de Deus não é uma competição interna.

O Pai envia o Filho.

O Filho cumpre a missão recebida do Pai.

O Espírito Santo é enviado pelo Pai e pelo Filho e torna presente na Igreja a obra de Cristo.

Jesus diz:

«Eu e o Pai somos um.»
(Jo 10,30)

E promete:

«Eu pedirei ao Pai, e Ele vos dará outro Paráclito, para estar sempre convosco.»
(Jo 14,16)

E ainda:

«O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas.»
(Jo 14,26)

Portanto, quando falamos da acção do Espírito Santo, não estamos a falar de uma espécie de "Deus separado" que aparece de repente para fazer coisas que o Pai e o Filho desconhecem.


O Espírito Santo não é um funcionário que actua às escondidas do Pai e do Filho

Esta questão é particularmente importante.

Às vezes ouve-se falar do Espírito Santo como se fosse uma entidade autónoma dentro da Trindade:

"Agora é o Espírito que está a fazer isto."

"Agora o Espírito decidiu aquilo."

"O Espírito revelou isto sem que o Pai e o Filho soubessem."

Não.

Isso seria incompatível com a fé trinitária.

O Espírito Santo é Deus.

Não é inferior ao Pai.

Não é inferior ao Filho.

Não é uma energia.

Não é uma força impessoal.

Não é uma espécie de "atmosfera espiritual".

É uma Pessoa divina, consubstancial ao Pai e ao Filho. O Catecismo afirma que o Espírito Santo é uma das Pessoas da Santíssima Trindade e que é adorado e glorificado com o Pai e o Filho.

Por isso, se dizemos que o Espírito Santo age, estamos verdadeiramente a dizer que Deus age pelo Espírito Santo.

E o Espírito não precisa de "pedir autorização" a outro deus porque não existem três deuses.

Existe um único Deus.

A distinção das Pessoas não destrói a unidade divina.

Pelo contrário: a própria distinção acontece dentro da perfeita unidade.


O Espírito Santo pode agir de modos que nós não compreendemos

Agora vem uma distinção importante.

Dizer que o Espírito Santo não age independentemente do Pai e do Filho não significa dizer que nós conseguimos prever ou compreender antecipadamente tudo aquilo que Ele faz.

Não conseguimos.

Jesus explica isso a Nicodemos com uma imagem extraordinariamente poderosa:

«O vento sopra onde quer; ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito.»
(Jo 3,8)

Há uma diferença enorme entre:

Deus agir em unidade trinitária

e

nós conseguirmos explicar antecipadamente a maneira como Deus age.

A primeira é uma verdade de fé.

A segunda ultrapassa frequentemente a nossa capacidade.

É precisamente por isso que o discernimento é indispensável.

Nem tudo aquilo que uma pessoa sente é automaticamente inspiração do Espírito Santo.

Nem tudo aquilo que alguém imagina durante uma oração é revelação.

Nem toda emoção intensa é manifestação sobrenatural.

Nem toda experiência interior tem origem divina.

A própria Igreja ensina a necessidade de discernir os carismas. Os carismas devem ser avaliados e ordenados para o bem comum e para a edificação da Igreja.

Isto é extraordinariamente importante porque protege simultaneamente duas coisas:

a acção real do Espírito Santo e a pessoa humana contra a ilusão de confundir qualquer experiência com Deus.


E chegamos ao famoso "falar em línguas"

Aqui existe uma enorme confusão contemporânea.

A Bíblia fala, efectivamente, de falar em línguas.

Mas precisamos de ler todos os textos, e não apenas escolher aquele que confirma aquilo que já pensamos.

Em Pentecostes, em Actos 2, acontece algo muito concreto.

Os discípulos recebem o Espírito Santo e começam a falar noutras línguas.

E o que acontece imediatamente?

Pessoas de diferentes regiões ouvem-nos falar nas suas próprias línguas.

O texto enumera povos e regiões diferentes.

A finalidade é profundamente missionária:

a mensagem do Evangelho atravessa as barreiras linguísticas.

Pentecostes não é apresentado como uma demonstração privada de espiritualidade.

É uma manifestação pública ligada à missão.

Os Apóstolos precisam de ferramentas para anunciar.

E Deus concede-lhes um dom que, naquele contexto, serve precisamente essa missão.

O acontecimento não é:

"Vejam como somos espiritualmente extraordinários."

É:

"Ide e anunciai."

A lógica é completamente diferente.


Pentecostes não é espectáculo: é missão

O Pentecostes é inseparável da missão.

Jesus tinha dito:

«Recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas [...] até aos confins da terra.»
(Act 1,8)

E depois, em Actos 2, o Espírito Santo desce sobre os discípulos.

O resultado é anúncio.

Pedro prega.

As pessoas compreendem.

A mensagem é comunicada.

E cerca de três mil pessoas acolhem a palavra e são baptizadas (Act 2,41).

O fenómeno extraordinário está subordinado a uma finalidade muito maior:

comunicar o Evangelho.

Não é o fenómeno que é o centro.

É Cristo.


São Paulo impede-nos de transformar as línguas numa competição espiritual

E aqui temos uma passagem absolutamente decisiva.

Paulo escreve à comunidade de Corinto precisamente porque havia confusão relativamente aos dons espirituais.

E Paulo não nega os carismas.

Mas também não permite que se transformem numa espécie de ranking de espiritualidade.

Ele pergunta:

«Falam todos línguas? Interpretam todos?»
(1 Cor 12,30)

A resposta implícita é:

não.

Nem todos têm o mesmo carisma.

E isso é importantíssimo.

Depois, em 1 Coríntios 14, Paulo estabelece um princípio ainda mais claro.

Se alguém fala em línguas numa assembleia, mas ninguém compreende, qual é o benefício comunitário?

Paulo prefere poucas palavras compreensíveis que edifiquem a comunidade a uma quantidade enorme de palavras que ninguém entende.

E estabelece uma regra muito concreta:

se não houver intérprete, deve haver silêncio na assembleia.

Ou seja:

o carisma não está acima da caridade, da inteligência, da ordem e da edificação comunitária.

É exactamente o contrário.

O carisma existe para servir.

Não para exibir.


A medida de tudo é a caridade

E aqui chegamos a um dos textos mais importantes de todo o Novo Testamento:

1 Coríntios 13.

É colocado precisamente entre os capítulos 12 e 14, onde Paulo fala dos dons espirituais.

Não é uma coincidência.

Paulo está a dizer, essencialmente:

Podem existir dons.

Podem existir capacidades extraordinárias.

Podem existir línguas.

Pode existir profecia.

Pode existir conhecimento.

Pode existir fé capaz de transportar montanhas.

Mas, sem amor, tudo isso perde o seu sentido.

«Se não tiver caridade, nada sou.»
(cf. 1 Cor 13,2)

E isto desmonta uma quantidade enorme de espiritualidade baseada na espectacularidade.

Porque o cristianismo não ensina:

"Quanto mais extraordinário o fenómeno, mais santo é o indivíduo."

Ensina precisamente o contrário.

A pergunta fundamental é:

Que fruto produz isto?

Produz amor?

Produz humildade?

Produz serviço?

Produz reconciliação?

Produz verdade?

Produz comunhão?

Produz misericórdia?

Produz crescimento?

Ou produz vaidade, competição, superioridade e dependência emocional?

Porque os critérios bíblicos não desaparecem perante uma experiência intensa.


Os milagres de Jesus não eram uma máquina de satisfazer desejos

Outro ponto que considero absolutamente necessário esclarecer.

Jesus realizou milagres.

Isto pertence ao núcleo dos Evangelhos.

Mas para quê?

O Catecismo explica que os milagres são sinais do Reino de Deus, testemunham que Jesus é o Messias e dão testemunho de que o Pai O enviou. Eles convidam à fé e testemunham a identidade de Jesus.

A palavra é importante:

sinal.

Um sinal aponta para alguma coisa.

O milagre não é o destino.

É sinal de uma realidade maior.

Jesus cura um cego.

Mas o objectivo não é simplesmente produzir pessoas fisicamente saudáveis.

Jesus ressuscita Lázaro.

Mas Lázaro volta a morrer.

Jesus multiplica os pães.

Mas aquelas pessoas voltariam a ter fome.

Jesus cura enfermos.

Mas nenhum dos curados passou a ser biologicamente imortal.

Isto é decisivo.

Os milagres não aboliram a condição humana.

O próprio Catecismo explica que Jesus não veio eliminar todos os males terrenos, mas libertar o ser humano da escravidão mais profunda: o pecado.

Portanto, transformar o milagre cristão numa espécie de mecanismo sobrenatural para conseguir dinheiro, emprego, casa, casamento ou qualquer outro benefício material é reduzir profundamente a lógica do Evangelho.


O milagre cristão não é "Deus deu-me aquilo que pedi"

Posso rezar por um emprego.

Posso rezar por uma casa.

Posso rezar por saúde.

Posso rezar por um casamento.

Posso pedir ajuda económica.

Posso pedir uma cura.

É legítimo apresentar pedidos a Deus.

Jesus próprio ensina a pedir:

«Pedi, e dar-se-vos-á.»
(Mt 7,7)

Mas isto não significa que Deus seja uma máquina automática de distribuição de desejos.

A oração cristã não é uma transacção:

"Eu acredito em Ti; Tu dás-me isto."

Isso seria transformar Deus num instrumento para satisfazer necessidades.

E o Evangelho não apresenta Deus assim.

Cristo ensina-nos a rezar:

«Seja feita a vossa vontade.»
(Mt 6,10)

E o próprio Jesus, no Getsémani:

«Não se faça, contudo, a minha vontade, mas a tua.»
(Lc 22,42)

Aqui está o coração da oração cristã.

Não é manipular Deus.

É entrar em relação com Deus.


Então qual é o verdadeiro milagre?

O verdadeiro milagre cristão não pode ser reduzido a uma melhoria económica.

Uma pessoa consegue emprego?

É uma graça e pode ser motivo de agradecimento.

Mas isso, por si só, não define o milagre cristão.

Uma pessoa consegue uma casa?

Graças a Deus.

Mas isso não é o centro da salvação.

Uma pessoa casa?

Pode ser uma bênção.

Mas não é o objectivo último do Evangelho.

O centro é muito mais profundo:

a transformação da pessoa pela graça.

Aprender a amar.

Aprender a perdoar.

Aprender a reconciliar.

Aprender a servir.

Aprender a abandonar o ressentimento.

Aprender a reconhecer o outro.

Aprender a viver em comunhão.

Aprender a dominar aquilo que nos destrói.

Aprender a abandonar o egoísmo.

Aprender a converter o coração.

É por isso que São Paulo coloca a caridade no topo:

«Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade.»
(1 Cor 13,13)

E o Catecismo é igualmente explícito: a caridade é a maior das virtudes teologais e é aquilo que dá forma à vida cristã.


A capacidade de perdoar pode ser uma graça muito maior do que aquilo que pedimos

Há pessoas que rezam anos para que Deus mude uma circunstância.

E, entretanto, talvez Deus esteja a trabalhar numa coisa ainda mais profunda:

nelas próprias.

Não porque as circunstâncias não importem.

Importam.

Mas porque o cristianismo não promete uma existência sem sofrimento.

Promete redenção.

Há uma diferença gigantesca.

Deus pode não retirar imediatamente uma cruz.

Mas pode dar força para a carregar.

Pode transformar uma ferida em lugar de crescimento.

Pode transformar ressentimento em liberdade.

Pode transformar medo em confiança.

Pode transformar isolamento em comunhão.

Pode transformar uma pessoa centrada exclusivamente em si mesma numa pessoa capaz de amar.

E isso é uma transformação radical.


Os dons do Espírito não são prémios pessoais

Paulo é novamente muito claro.

Os dons são distribuídos de formas diferentes.

«Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo.»
(1 Cor 12,4)

E:

«A cada um é dada a manifestação do Espírito, para o bem comum.»
(1 Cor 12,7)

Esta última frase deveria estar afixada em muitos lugares.

Para o bem comum.

Não para alimentar o ego.

Não para criar estatuto espiritual.

Não para produzir uma elite de "mais ungidos".

Não para estabelecer quem é mais santo.

Não para transformar uma comunidade numa competição de experiências.

Os carismas são graças concedidas para o bem da Igreja e das pessoas. O Catecismo confirma que, sejam extraordinários ou simples e humildes, os carismas estão ordenados à edificação da Igreja, ao bem das pessoas e às necessidades do mundo.


E aqui entra a oferta

Também é necessário corrigir uma ideia muito difundida: a oferta cristã não é um preço que compramos a Deus.

Não existe uma tabela celestial:

50 € = uma bênção

100 € = uma cura

500 € = prosperidade

1000 € = emprego

Isto não é Evangelho.

É uma perversão da relação com Deus.

Jesus é particularmente duro quando a religião se transforma em comércio.

«Recebestes de graça, dai de graça.»
(Mt 10,8)

A oferta cristã nasce da gratidão, da responsabilidade e da caridade.

E a Bíblia não estabelece uma tarifa universal para a generosidade.

Aliás, Jesus observa uma viúva que coloca no tesouro do templo duas pequenas moedas e mostra que o valor do gesto não pode ser avaliado simplesmente pela quantidade monetária.

São Paulo estabelece também um princípio:

«Cada um dê conforme tiver decidido em seu coração, não com tristeza nem por constrangimento, pois Deus ama quem dá com alegria.»
(2 Cor 9,7)

Isto é radicalmente diferente de pressão religiosa.


A oferta existe para a comunhão, a caridade e a missão

A Igreja precisa de recursos materiais.

Há edifícios para manter.

Há pessoas a ajudar.

Há actividades pastorais.

Há formação.

Há missões.

Há obras de misericórdia.

Há pobres.

Há doentes.

Há pessoas isoladas.

Há necessidades concretas.

A caridade cristã não é abstracta.

São Tiago é brutalmente claro:

«Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e privados do alimento quotidiano, e alguém lhes disser: “Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos”, sem lhes dar o necessário para o corpo, de que lhes serve isso?»
(Tg 2,15-16)

A fé precisa de corpo.

Precisa de mãos.

Precisa de comida.

Precisa de abrigo.

Precisa de cuidado.

Precisa de presença.

O Catecismo identifica precisamente as obras de misericórdia corporais e espirituais e apresenta a esmola como expressão da caridade fraterna e também como obra de justiça.

Portanto, uma oferta não compra Deus.

Ajuda a Igreja e o próximo.

E isso é completamente diferente.


Não existe uma "quantia mágica" que Deus exige

A generosidade não é uma competição.

Quem pode dar muito, dê muito.

Quem pode dar pouco, dê pouco.

Quem pode oferecer tempo, ofereça tempo.

Quem pode oferecer conhecimento, ofereça conhecimento.

Quem pode visitar um doente, visite.

Quem pode alimentar alguém, alimente.

Quem pode perdoar, perdoe.

Quem pode ensinar, ensine.

Quem pode consolar, console.

Porque a caridade não é apenas monetária.

O próprio Catecismo inclui como obras de misericórdia instruir, aconselhar, consolar, confortar, perdoar e suportar com paciência, além das obras corporais.

Portanto, às vezes uma pessoa oferece dinheiro.

Outra oferece duas horas.

Outra oferece uma refeição.

Outra oferece uma visita.

Outra oferece competência profissional.

Outra oferece escuta.

Outra oferece oração.

Outra oferece perdão.

Tudo isto pode ser serviço.


E finalmente: só existe um Baptismo

Aqui também não pode existir confusão.

A profissão de fé católica diz:

«Professo um só Baptismo para remissão dos pecados.»

Não existem vários baptismos cristãos que uma pessoa precise de acumular.

O Baptismo é um sacramento.

É realizado em nome do:

Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Jesus ordena:

«Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.»
(Mt 28,19)

A fórmula é trinitária.

O Catecismo explica que o Baptismo é realizado com água e com a invocação da Santíssima Trindade e que o baptizado nasce para uma vida nova em Cristo, torna-se filho adoptivo do Pai, membro de Cristo e templo do Espírito Santo.

Portanto, um só Baptismo.

Não precisamos de ser baptizados novamente porque tivemos uma experiência espiritual diferente.

Não precisamos de multiplicar baptismos para provar uma conversão.

Não precisamos de transformar o Baptismo numa espécie de certificado que se actualiza sempre que mudamos de comunidade.

Há um só Baptismo.

E há uma razão profunda para isso:

a iniciativa é de Deus e a incorporação em Cristo é sacramental.


O Baptismo já contém uma lógica profundamente trinitária

É belíssimo perceber isto.

No Baptismo:

o Pai adopta;
o Filho incorpora;
o Espírito Santo habita.

Não são três acontecimentos separados.

É o único Deus que comunica a sua graça.

O Baptismo introduz a pessoa na vida trinitária.

Por isso não é simplesmente:

"fui baptizado quando era criança."

É uma realidade sacramental que configura a existência cristã.

O Catecismo apresenta o Baptismo como nascimento para a nova vida em Cristo, com a remissão dos pecados e a incorporação na vida trinitária.


E então, afinal, o que significa ser cristão?

Não significa colecionar fenómenos religiosos.

Não significa procurar continuamente experiências extraordinárias.

Não significa falar de milagres como se Deus fosse um fornecedor de soluções.

Não significa medir a fé pelo dinheiro que alguém dá.

Não significa acreditar que quem fala em línguas é automaticamente mais santo.

Não significa confundir emoção com revelação.

Não significa achar que qualquer pensamento interior é uma mensagem divina.

Não significa procurar Deus apenas quando precisamos de alguma coisa.

E não significa transformar a religião numa espécie de contrato comercial.

Ser cristão é entrar numa relação com o Deus Uno e Trino revelado em Jesus Cristo, receber a graça, converter a vida e aprender a amar.

E é precisamente aqui que tudo converge.

Trindade.

Cristologia.

Espírito Santo.

Baptismo.

Eucaristia.

Caridade.

Missão.

Misericórdia.

Não são assuntos independentes.

São dimensões de uma mesma realidade.

O Pai envia o Filho.

O Filho revela o Pai.

O Espírito torna presente na Igreja a obra de Cristo.

A Igreja anuncia.

Os sacramentos comunicam a graça.

Os carismas servem a comunidade.

A caridade dá forma à existência.

E o ser humano é chamado a responder livremente.


A verdadeira pergunta não é "o que é que Deus me pode dar?"

Talvez seja esta a mudança mais profunda que o Evangelho nos propõe.

A pergunta:

"O que é que Deus me vai dar?"

é legítima, porque somos seres necessitados.

Mas não pode ser a pergunta central.

A pergunta cristã amadurecida torna-se:

"Em que pessoa me posso tornar pela graça de Deus?"

Posso tornar-me mais capaz de amar?

Mais capaz de perdoar?

Mais capaz de compreender?

Mais misericordiosa?

Mais justa?

Mais humilde?

Mais livre?

Mais capaz de servir?

Mais capaz de viver em comunhão?

Porque Jesus não veio simplesmente para tornar a nossa existência terrena mais confortável.

Veio anunciar e realizar o Reino.

E o Reino transforma a pessoa a partir de dentro.

As Bem-aventuranças mostram precisamente isso: felicidade não é apresentada simplesmente como riqueza, conforto ou ausência de sofrimento, mas como vida orientada para Deus, para a justiça, para a misericórdia, para a pureza de coração e para a paz.


Por isso continuo a estudar

É também por isso que partilho estes textos.

Não para converter ninguém à força.

Não para dizer a alguém:

"Tens de acreditar porque eu acredito."

Isso seria intelectualmente pobre e espiritualmente contraditório.

Partilho porque acredito que para amar é preciso conhecer.

E, para rejeitar uma coisa com seriedade, também convém conhecê-la primeiro.

Não quero uma fé baseada em frases feitas.

Quero uma fé capaz de sobreviver às perguntas.

Uma fé que conheça a Bíblia.

Que conheça a Tradição.

Que compreenda a liturgia.

Que conheça a Cristologia.

Que compreenda a Trindade.

Que saiba distinguir revelação de opinião pessoal.

Que compreenda o que é um sacramento.

Que saiba o que é um carisma.

Que não confunda emoção com Espírito Santo.

Que não transforme milagres em magia.

Que não transforme ofertas em pagamentos.

Que não transforme a oração numa máquina de satisfação de desejos.

Que não transforme o Baptismo numa repetição.

E, sobretudo, uma fé que saiba aquilo que São Paulo colocou acima de todos os dons:

«Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como bronze que ressoa ou címbalo que tine.»
(1 Cor 13,1)

Esta frase deveria ser suficiente para nos obrigar a parar.

Podemos falar muito.

Podemos estudar muito.

Podemos conhecer muito.

Podemos ter dons.

Podemos ter experiências intensas.

Podemos rezar durante horas.

Podemos participar em inúmeras actividades religiosas.

Podemos dar dinheiro.

Podemos cantar.

Podemos pregar.

Podemos falar em línguas.

Podemos fazer coisas extraordinárias.

Mas existe uma pergunta que permanece:

amamos?

Porque, no cristianismo, a medida última não é o espectáculo espiritual.

É a caridade.

Não é aquilo que conseguimos exibir.

É aquilo que nos tornámos.

Não é quanto conseguimos obter de Deus.

É quanto aprendemos a receber de Deus para, depois, nos darmos aos outros.

E talvez seja precisamente aí que toda a teologia deixa de ser apenas matéria estudada e começa a tornar-se vida.

Um só Deus.

Três Pessoas.

Um só Baptismo.

Um Espírito que distribui dons.

Dons destinados ao bem comum.

Milagres que são sinais e não magia.

Ofertas que são expressão de gratidão, missão e caridade, não pagamentos a Deus.

Uma fé que não elimina a liberdade, mas pede uma resposta livre.

E, acima de tudo:

um Deus que não nos chama primordialmente a possuir mais, receber mais ou aparentar mais, mas a amar mais.

Porque, no fim, se tudo aquilo que fazemos em nome de Deus não nos torna mais capazes de amar, perdoar, servir, compreender e viver em comunhão, então talvez tenhamos aprendido muitas palavras sobre Deus sem termos ainda compreendido verdadeiramente o centro do Evangelho.

E é precisamente por isso que estudar importa.

Não para ganhar uma discussão.

Não para obrigar alguém a acreditar.

Mas para que, quando dissermos "Deus", saibamos de Quem estamos realmente a falar.

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