"Há presenças que incomodam sem terem feito absolutamente nada"
Há uma coisa estranha na natureza humana: por vezes, alguém pode entrar numa sala sem dizer uma palavra e, ainda assim, alterar a forma como outra pessoa se sente.
Não porque tenha feito alguma coisa.
Não porque tenha procurado atenção.
Não porque seja mais bonita, mais inteligente, mais rica ou mais interessante.
Simplesmente porque existe.
E talvez uma das coisas mais difíceis de compreender nas relações humanas seja precisamente esta: nem todas as reacções que provocamos nas pessoas nasceram daquilo que fizemos. Algumas nascem daquilo que a nossa existência desperta nelas.
Há pessoas diante das quais nos sentimos tranquilamente nós próprios.
E há outras cuja presença nos obriga, ainda que por instantes, a olhar para aquilo que tentamos manter fora do campo de visão.
É aí que começa a comparação.
Não aquela comparação consciente, racional, quase inocente, que nos permite aprender com alguém. Essa pode ser saudável. Podemos olhar para outra pessoa e pensar: gosto da maneira como ela vive; talvez exista alguma coisa ali que eu também possa aprender.
O problema começa quando deixamos de observar o outro para começarmos a medir-nos por ele.
A partir desse momento, a existência alheia deixa de ser apenas existência.
Transforma-se numa medida.
E quando alguém passa a ser uma medida do nosso próprio valor, já não conseguimos vê-lo com inteira liberdade.
A sua conquista parece uma acusação.
A sua tranquilidade parece uma provocação.
A sua beleza parece uma ameaça.
A sua inteligência parece diminuir a nossa.
A sua liberdade lembra-nos as concessões que fizemos.
A sua coragem pode recordar-nos as vezes em que tivemos medo.
E, sem que a outra pessoa tenha feito absolutamente nada, começamos a construir dentro de nós uma narrativa que precisa de a tornar menor.
É um mecanismo profundamente humano.
Quando aquilo que vemos no outro entra em conflito com a imagem que temos de nós próprios, existe uma escolha: podemos rever-nos ou podemos atacar o espelho.
A segunda opção é, quase sempre, mais cómoda.
É muito mais fácil dizer ela acha-se muito importante do que perguntar porque é que a segurança dela me incomoda?
É mais fácil dizer ele teve sorte do que reconhecer eu gostaria de ter tido a coragem de tentar.
É mais confortável desvalorizar uma conquista do que admitir que também desejávamos aquela conquista.
E é assim que, silenciosamente, começamos a fabricar explicações para aquilo que não queremos sentir.
Às vezes fazemos isso sem maldade consciente.
Nem sempre existe uma pessoa cruel do outro lado.
Existe, muitas vezes, apenas um ser humano a tentar proteger uma imagem de si próprio.
E talvez seja precisamente aqui que devêssemos ser mais cuidadosos com os nossos julgamentos.
Porque é demasiado fácil transformar toda a antipatia em inveja e toda a crítica em perseguição.
Isso também pode ser uma forma de vaidade.
Nem tudo gira à nossa volta.
Nem todas as pessoas que não gostam de nós gostariam de ser como nós.
Nem toda a distância esconde ressentimento.
Nem toda a crítica nasce da inferioridade.
Às vezes, simplesmente não existe afinidade.
Às vezes errámos.
Às vezes o outro tem uma leitura de nós que merece ser ouvida.
E às vezes, sim, encontramos alguém que precisa de nos diminuir para se sentir maior.
A maturidade está em não precisarmos de decidir imediatamente qual destas possibilidades é verdadeira.
Aprendemos a observar.
E observar sem concluir depressa é uma das formas mais difíceis de inteligência.
Porque fomos educados para classificar.
Bom ou mau.
Certo ou errado.
Amigo ou inimigo.
Superior ou inferior.
Vencedor ou vencido.
A vida, porém, é muito menos organizada do que as categorias que inventámos para conseguir compreendê-la.
Uma pessoa pode admirar-nos e, simultaneamente, sentir inveja.
Pode gostar de nós e competir connosco.
Pode amar-nos e ferir-nos.
Pode ter boas intenções e produzir consequências dolorosas.
Pode ser generosa num momento e profundamente egoísta noutro.
Nós próprios somos assim.
Somos feitos de contradições.
E reconhecer isso não nos torna menos dignos.
Torna-nos humanos.
Talvez por isso eu desconfie tanto das pessoas que precisam de parecer impecáveis.
Há qualquer coisa de mais verdadeiro em quem consegue dizer:
Eu também me engano.
Eu também tenho invejas.
Eu também tenho medos.
Eu também me comparo.
Eu também tenho dias em que não gosto daquilo que vejo em mim.
Porque uma pessoa que reconhece as próprias zonas menos luminosas já não precisa de fingir que elas não existem.
E quem consegue olhar para dentro sem se destruir talvez tenha menos necessidade de atacar aquilo que encontra fora.
É também por isso que a educação verdadeira não se mede pela quantidade de informação que alguém acumulou.
Há pessoas extremamente instruídas que continuam incapazes de conviver com a diferença.
Sabem muitas coisas e compreendem poucas.
Conhecem palavras, mas não conhecem limites.
Dominam argumentos, mas não sabem escutar.
Possuem títulos, mas não aprenderam aquela forma elementar de sabedoria que consiste em perceber que o outro também tem uma interioridade tão complexa como a nossa.
Educação é, em parte, aprender a sair de nós próprios.
É perceber que uma pessoa que pensa de maneira diferente não é necessariamente ignorante.
Que alguém que escolheu outro caminho não é necessariamente menos inteligente.
Que uma vida diferente da nossa não é uma vida errada.
Que não precisamos de vencer todas as diferenças.
Precisamos de aprender a habitá-las sem destruir quem está do outro lado.
E talvez seja aqui que uma sociedade se revela.
Não apenas naquilo que celebra, mas naquilo que tolera.
Vivemos num tempo em que a exposição constante tornou a comparação quase permanente. Vemos vidas editadas, corpos seleccionados, sucessos cuidadosamente apresentados, relações fotografadas nos melhores ângulos e fracassos quase sempre escondidos.
Depois olhamos para a nossa própria vida — com as suas contas, dúvidas, doenças, perdas, discussões, cansaços, fracassos, inseguranças e dias absolutamente banais — e perguntamo-nos porque não somos como aquelas pessoas.
Esquecemo-nos de que estamos a comparar a nossa vida inteira com uma selecção da vida de alguém.
E isso é uma das maiores distorções do nosso tempo.
Aprendemos a olhar para os outros antes de aprendermos a olhar para nós.
Aprendemos a procurar aprovação antes de aprendermos a construir identidade.
Aprendemos a contar reacções antes de aprendermos a reconhecer valor.
E, pouco a pouco, a pergunta deixa de ser:
Quem sou eu?
Para passar a ser:
Como estou a ser visto?
É uma mudança pequena na linguagem e enorme na existência.
Porque quem vive demasiado dependente do olhar alheio acaba por entregar aos outros uma espécie de autoridade sobre a própria identidade.
Se me elogiam, existo melhor.
Se me criticam, duvido de mim.
Se me admiram, sinto-me seguro.
Se me rejeitam, começo a reconstruir-me para voltar a ser aceite.
E uma vida assim pode parecer socialmente bem-sucedida enquanto, interiormente, se torna cada vez mais distante de si própria.
Talvez por isso exista uma liberdade particular em deixar de precisar que todos compreendam quem somos.
Não significa tornar-nos indiferentes.
Significa distinguir reconhecimento de identidade.
Eu posso gostar de ser apreciada sem depender da apreciação.
Posso ouvir uma crítica sem transformar a crítica numa sentença.
Posso aceitar que alguém não gosta de mim sem concluir que existe alguma coisa profundamente errada comigo.
Posso até reconhecer que alguém tem razão sobre uma parte de mim sem entregar-lhe o direito de definir-me por inteiro.
Isso exige uma espécie de centro interior.
Não uma rigidez.
Um centro.
Algo que permaneça quando desaparecem os aplausos e as acusações.
Porque há uma diferença profunda entre uma pessoa que sabe quem é e uma pessoa que precisa de convencer os outros de quem é.
A primeira pode permanecer em silêncio.
A segunda precisa constantemente de testemunhas.
E talvez seja por isso que algumas pessoas confundam serenidade com arrogância.
Uma pessoa que já não explica tudo parece distante.
Uma pessoa que deixou de justificar cada escolha parece convencida.
Uma pessoa que aprendeu a dizer não parece egoísta.
Uma pessoa que não responde a todas as provocações parece superior.
Mas, muitas vezes, não existe superioridade nenhuma.
Existe apenas cansaço.
Cansaço de explicar.
Cansaço de ser interpretada.
Cansaço de tentar convencer quem já decidiu aquilo que quer acreditar.
Há momentos em que o silêncio não é desprezo.
É economia de alma.
Nem todas as batalhas merecem a nossa voz.
Nem todas as acusações merecem defesa.
Nem todas as versões precisam de ser corrigidas.
E isto não significa desistir da verdade.
Significa compreender que a verdade não precisa de correr atrás de todas as pessoas que decidiram não a procurar.
O tempo possui uma pedagogia que nós, seres humanos, raramente conseguimos imitar.
Ele deixa os comportamentos repetirem-se até que já não possam ser confundidos com acidentes.
Deixa as máscaras cansarem-se.
Deixa as relações revelarem os seus padrões.
Deixa as palavras encontrarem os actos.
E, ao fim de algum tempo, já não é necessário explicar tanto.
As pessoas mostram-se.
Não de uma vez.
Aos poucos.
Num gesto.
Numa ausência.
Numa reacção à felicidade alheia.
Na maneira como tratam alguém que deixou de lhes ser útil.
Na forma como falam de quem não está presente.
Na incapacidade de pedir desculpa.
Na necessidade constante de ter razão.
No desconforto perante o crescimento dos outros.
É aí que o carácter aparece.
Não nos grandes discursos.
Nos pequenos acontecimentos que ninguém considera suficientemente importantes para representar alguma coisa.
E talvez seja por isso que hoje prefira observar uma pessoa quando ela não sabe que está a ser observada.
É aí que desaparece a representação.
Não precisamos de ser extraordinários.
Precisamos de ser coerentes.
Porque há pessoas que passam uma vida inteira a construir uma imagem admirável e acabam por descobrir, demasiado tarde, que ninguém conhecia verdadeiramente a pessoa por detrás dela.
E há outras que nunca tiveram grande preocupação em parecer especiais.
Foram simplesmente aprendendo.
Caíram.
Erraram.
Pediram desculpa.
Mudaram.
Perderam.
Recomeçaram.
E um dia percebemos que existe nelas uma solidez que não veio da ausência de sofrimento, mas da capacidade de o transformar sem o usar como desculpa para ferir os outros.
Esse é, para mim, um dos sinais mais raros de maturidade.
Não aquilo que alguém consegue fazer quando está feliz.
Mas aquilo em que se transforma depois de ter sido profundamente magoado.
Porque a dor pode produzir duas coisas muito diferentes.
Pode tornar-nos mais duros ou mais conscientes.
Pode ensinar-nos a desconfiar de toda a gente ou a escolher melhor em quem confiamos.
Pode fazer-nos querer controlar os outros ou finalmente perceber que ninguém nos pertence.
Pode transformar-nos numa pessoa que distribui feridas ou numa pessoa que decide interromper a transmissão delas.
E talvez seja aqui que o verdadeiro carácter se separa da mera personalidade.
Personalidade é aquilo que mostramos.
Carácter é aquilo que fazemos com aquilo que a vida fez de nós.
Por isso, se alguma vez sentires que a tua presença incomoda alguém, não te apresses a chamar-lhe inveja.
E não te apresses também a diminuir-te.
Pergunta primeiro a ti própria:
Estou a ser injusta?
Estou a provocar alguma coisa que preciso de compreender?
Existe alguma coisa que possa aprender aqui?
E, depois de responderes honestamente, se descobrires que simplesmente estás diante de alguém que não consegue conviver com aquilo que és, não transformes isso numa guerra.
Não precisas.
A vida já é suficientemente exigente para passarmos os dias a tentar conquistar lugares no coração de quem não nos quer lá.
Há pessoas que nos reconhecerão.
Há pessoas que nos interpretarão mal.
Há pessoas que ficarão.
Há pessoas que partirão.
Há pessoas que nos amarão pela mesma razão que outras nos rejeitarão.
E isso também é liberdade.
Não fomos feitos para caber na percepção de toda a gente.
Fomos feitos para construir uma vida que possamos reconhecer como nossa quando, no fim do dia, fechamos a porta e ficamos sozinhos.
Nesse lugar não existem seguidores.
Não existem aplausos.
Não existem comentários.
Não existe reputação.
Existe apenas aquela pergunta silenciosa que ninguém consegue responder por nós:
estou a tornar-me na pessoa que gostaria de encontrar?
Talvez seja essa a medida que interessa.
Não ser mais do que os outros.
Não parecer melhor.
Não vencer.
Não impressionar.
Mas crescer sem precisar de diminuir ninguém.
Aprender sem perder ternura.
Ter limites sem perder humanidade.
Ter força sem adquirir crueldade.
E possuir uma consciência tão suficientemente habitada que já não precisamos de expulsar ninguém da sala para conseguirmos sentir que também temos lugar.
Porque, no fundo, talvez o verdadeiro brilho não seja aquele que faz os outros olhar.
Seja aquele que nos permite olhar para dentro sem vontade de fugir.
E isso ninguém consegue fingir durante muito tempo.
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