"VII Escola da Fé"

Eclesiologia: o mistério da Igreja

Depois de termos estudado Cristo e o Espírito Santo, chegamos inevitavelmente à Igreja.

E aqui é necessário começar por desfazer um equívoco frequente:

a Igreja não é simplesmente um edifício.

Uma igreja pode ser um edifício.

Pode ter altar, sacrário, imagens, vitrais, bancos, torre e sinos.

Mas isso não é, teologicamente, a Igreja.

A palavra Igreja vem do grego ekklesía, relacionado com a ideia de uma assembleia convocada, reunida.

No cristianismo, esta palavra adquire uma profundidade muito maior:

a Igreja é a comunidade daqueles que Deus convoca, reúne e incorpora em Cristo pelo Baptismo, vivificados pelo Espírito Santo e enviados em missão.

Por isso, podemos entrar numa igreja vazia e encontrar um edifício.

Mas a Igreja, enquanto realidade teológica, é uma realidade viva.

É simultaneamente:

mistério;

comunhão;

Povo de Deus;

Corpo de Cristo;

Templo do Espírito Santo;

sacramento universal de salvação;

comunidade visível e espiritual;

instituição e realidade carismática;

peregrina na história e orientada para a eternidade.

É precisamente esta complexidade que torna a Eclesiologia uma das áreas centrais da teologia.


O que é Eclesiologia?

Eclesiologia é a disciplina teológica que estuda a natureza, identidade, origem, missão, estrutura, sacramentalidade e destino da Igreja.

Pergunta:

O que é a Igreja?

Mas também:

Quem a fundou?

Qual é a sua relação com Cristo?

Qual é o papel do Espírito Santo?

Porque existem ministros ordenados?

Porque existem sacramentos?

O que significa dizer que a Igreja é una, santa, católica e apostólica?

Qual é a relação entre Igreja e Reino de Deus?

Porque existe uma hierarquia?

Que lugar possuem os leigos?

Como deve a Igreja relacionar-se com o mundo?

Estas perguntas levam-nos directamente à Teologia Fundamental, à Cristologia, à Pneumatologia, à Sacramentologia, à Liturgia, à Moral e à própria Antropologia Teológica.

A Igreja não é uma disciplina isolada.

É um ponto de convergência de praticamente toda a teologia.


A Igreja nasce de Deus

Uma compreensão superficial poderia imaginar que Jesus morreu e, posteriormente, os seus seguidores organizaram uma instituição para preservar os seus ensinamentos.

Historicamente, houve naturalmente um processo de organização.

Mas teologicamente a questão é muito mais profunda.

A Igreja pertence ao próprio desígnio de Deus.

O Pai chama um povo.

O Filho reúne discípulos.

Cristo anuncia o Reino.

Escolhe os Doze.

Institui sinais da Nova Aliança.

Entrega aos Apóstolos uma missão.

Morre e ressuscita.

E envia o Espírito Santo.

A Igreja manifesta-se publicamente no Pentecostes.

Portanto:

a Igreja nasce do desígnio do Pai, é fundada sobre Cristo e vivificada pelo Espírito Santo.

Mais uma vez encontramos a estrutura trinitária.


Jesus pregou o Reino de Deus

Há uma distinção fundamental.

Jesus não veio simplesmente anunciar:

“Vou fundar uma instituição chamada Igreja.”

A sua pregação centra-se no Reino de Deus.

O Reino significa o exercício soberano de Deus, a sua presença salvadora, a restauração da criação, a vitória sobre o pecado e a abertura de uma realidade nova.

A Igreja e o Reino não são exactamente a mesma realidade.

A Igreja não é o Reino em toda a sua plenitude.

Ela é sinal e instrumento do Reino.

O Reino é maior do que a própria Igreja.

Esta distinção é fundamental.


Reino de Deus e Igreja

Podemos dizer:

o Reino é o horizonte; a Igreja é chamada a ser sinal e instrumento desse Reino.

A Igreja anuncia:

a conversão;

o Evangelho;

a justiça;

a misericórdia;

a reconciliação;

a vida eterna;

a vitória de Cristo.

Mas não pode confundir os seus interesses institucionais com o Reino de Deus.

Sempre que a Igreja transforma a preservação da própria instituição no seu fim absoluto, perde de vista a sua finalidade.

A Igreja existe para Cristo.

E Cristo veio anunciar e inaugurar o Reino.


Cristo e a Igreja

São Paulo utiliza uma imagem extraordinariamente forte:

o Corpo de Cristo.

A Igreja não é apenas um grupo de pessoas que admiram Cristo.

Os baptizados são incorporados sacramentalmente em Cristo.

Cristo é a Cabeça.

A Igreja é o seu Corpo.

Esta linguagem exprime uma união profunda entre Cristo e os seus membros.

Mas não significa que a Igreja seja literalmente o corpo físico de Jesus.

É uma realidade sacramental e mística.

Cristo permanece distinto da Igreja.

Mas está profundamente unido a ela.


A Igreja como Povo de Deus

Outra grande imagem é:

Povo de Deus.

Esta expressão mergulha profundamente no Antigo Testamento.

Israel é chamado por Deus.

É reunido.

Recebe uma Aliança.

É enviado.

A Igreja compreende-se como continuidade e cumprimento da história da salvação, sem simplesmente apagar ou substituir a realidade de Israel de forma simplista.

A Nova Aliança realizada em Cristo abre a convocação do Povo de Deus a todos os povos.

A Igreja torna-se universal.

Não é propriedade de uma etnia.

Não pertence a uma cultura específica.

Não é uma religião nacional.

É enviada:

a todas as nações.


A Igreja como Templo do Espírito Santo

Já estudámos a Pneumatologia.

Agora conseguimos compreender esta expressão.

A Igreja é Templo do Espírito Santo.

O Espírito habita nela.

Distribui carismas.

Santifica.

Une.

Conduz.

Envia.

Mas esta expressão possui também uma consequência prática:

uma Igreja verdadeiramente guiada pelo Espírito não pode ser uma comunidade dominada pela vaidade, pelo abuso, pela manipulação, pela rivalidade ou pela procura de poder.

O Espírito produz:

comunhão;

serviço;

verdade;

santidade;

caridade.

Quando estas realidades desaparecem, a Igreja precisa sempre de regressar à sua fonte.


As quatro notas da Igreja

No Credo professamos:

“Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica.”

Estas quatro palavras são fundamentais.

Não são adjectivos decorativos.

São chamadas tradicionalmente as quatro notas da Igreja.

A Igreja é:

Una.

Santa.

Católica.

Apostólica.

Cada uma destas palavras exige um estudo próprio.


Una

A Igreja é una porque existe um só Deus, um só Cristo, um só Espírito, um só Baptismo e uma só fé fundamental.

Mas isto não significa que todos tenham de possuir a mesma cultura, espiritualidade ou personalidade.

Unidade não é uniformidade.

A Igreja pode conter:

africanos;

europeus;

asiáticos;

americanos;

pessoas de diferentes culturas;

diferentes línguas;

diferentes tradições litúrgicas;

diferentes espiritualidades.

A unidade cristã não destrói a diversidade.

Procura integrá-la.


As divisões dos cristãos

Mas existe uma ferida evidente:

os cristãos estão divididos.

Católicos.

Ortodoxos.

Anglicanos.

Luteranos.

Calvinistas.

E muitas outras comunidades e tradições cristãs.

Como podemos então falar de uma Igreja una?

A resposta exige humildade.

A divisão cristã é uma realidade histórica dolorosa.

A unidade professada no Credo é uma realidade que a Igreja acredita já existir em Cristo, mas cuja manifestação plena ainda precisa de ser aprofundada.

Daqui nasce o Ecumenismo.

O ecumenismo procura a unidade dos cristãos.

Não significa apagar diferenças artificialmente.

Significa procurar a verdade e a comunhão através do diálogo, da conversão e do reconhecimento do que já existe em comum.


Santa

A Igreja é chamada santa.

Mas imediatamente surge uma objecção:

“Como pode a Igreja ser santa se existem pessoas pecadoras dentro dela?”

Precisamente aqui precisamos de compreender a distinção.

A santidade da Igreja não significa que todos os seus membros sejam santos.

A Igreja é santa porque:

Cristo é santo.

O Espírito Santo é santo.

A sua fé é santa.

Os sacramentos são instrumentos de santificação.

E Deus continua a santificar pessoas dentro dela.

A Igreja é santa na sua origem e vocação, mas é também constituída por seres humanos que necessitam permanentemente de conversão.


Uma Igreja de pecadores

Esta expressão é importante:

a Igreja é uma comunidade de pecadores chamada à santidade.

O facto de existir pecado dentro da Igreja não refuta a necessidade de santidade.

Torna-a ainda mais necessária.

Os próprios Apóstolos não eram homens sem falhas.

Pedro negou Cristo.

Tomé duvidou.

Os discípulos discutiram sobre quem era o maior.

Paulo perseguiu os cristãos antes da sua conversão.

A Igreja nunca foi uma associação de pessoas moralmente perfeitas.

É uma comunidade chamada por graça.


Católica

“Católica” significa:

universal.

Não significa simplesmente “romana”.

A Igreja é católica porque Cristo é enviado a todos.

A salvação não pertence a um povo específico.

A missão é universal.

A palavra também contém uma dimensão de plenitude.

A Igreja é chamada a conservar a plenitude da fé apostólica.

Por isso, “católica” significa simultaneamente universalidade e integridade da fé.


Apostólica

A Igreja é apostólica.

Isto significa que está fundada sobre o testemunho dos Apóstolos.

A fé recebida dos Apóstolos é transmitida através das gerações.

Aqui encontramos a noção de Tradição Apostólica.

Tradição, na teologia, não significa simplesmente:

“aquilo que fazemos há muito tempo”.

É muito mais profundo.

É a transmissão viva da fé recebida dos Apóstolos.


Escritura e Tradição

Aqui entramos num ponto fundamental da Teologia Fundamental.

A Igreja Católica compreende Sagrada Escritura e Tradição como inseparáveis no processo de transmissão da Revelação.

A Bíblia não apareceu caída do céu já encadernada.

Existe uma história.

Primeiro há acontecimentos.

Há experiência de fé.

Há pregação.

Há transmissão oral.

Há comunidades.

Há textos.

Há reconhecimento do cânone.

A Igreja recebeu, preservou, transmitiu e discerniu estes escritos.

Isto não significa que a Igreja esteja “acima” da Palavra de Deus.

A Igreja está ao serviço da Palavra.


O Magistério

E aqui aparece outra realidade:

o Magistério.

O Magistério é o serviço de ensino confiado à Igreja.

Não é uma terceira fonte independente de Revelação.

A sua função é interpretar autenticamente o depósito da fé.

Podemos pensar numa relação:

Escritura → Tradição → Magistério.

Não como três compartimentos isolados.

Mas como realidades profundamente interligadas.

A Igreja recebe a Revelação.

Transmite-a.

Interpreta-a.

Protege-a.

E procura evitar que cada geração simplesmente reinvente o cristianismo.


Os Apóstolos

Jesus escolheu os Doze.

Esta escolha possui enorme significado.

Não escolheu apenas indivíduos aleatórios para o acompanharem.

Os Doze evocam as doze tribos de Israel.

Jesus está a realizar um gesto simbólico de enorme alcance:

está a reunir o novo Povo de Deus.

Os Apóstolos recebem uma missão.

São enviados.

Testemunham a Ressurreição.

Pregam.

Baptizam.

Celebram.

Organizam comunidades.

E transmitem a missão.


Pedro

Entre os Doze existe uma particularidade:

Pedro possui um papel singular.

Jesus confia-lhe uma missão específica.

A tradição católica compreende essa missão como fundamento do ministério petrino.

Depois da morte dos Apóstolos, essa missão é entendida como continuada no ministério do Bispo de Roma:

o Papa.

Isto não significa que o Papa seja um “novo Pedro” no sentido de repetir historicamente a mesma pessoa.

Significa que a Igreja Católica entende existir uma continuidade do serviço de unidade associado à missão petrina.


O Papa

O Papa é:

Bispo de Roma.

Sucessor de Pedro.

Pastor da Igreja universal.

É importante evitar dois extremos.

O primeiro:

“O Papa é apenas um bispo como os outros.”

A visão católica reconhece-lhe uma missão singular.

O segundo:

“Tudo aquilo que o Papa diz é infalível.”

Também isto é falso.

A infalibilidade papal é uma doutrina extremamente específica.

Não significa impecabilidade.

Não significa inspiração divina permanente.

Não significa que o Papa não possa pecar.

Não significa que toda entrevista, opinião ou decisão prudencial seja dogma.

É uma questão que estudaremos separadamente.


Os bispos

Os bispos são sucessores dos Apóstolos.

Recebem a plenitude do sacramento da Ordem.

A sua missão inclui:

ensinar;

santificar;

governar.

O bispo não é simplesmente um administrador de uma região.

É pastor de uma Igreja particular, em comunhão com os outros bispos e com o Bispo de Roma.

A diocese é, assim, uma realidade fundamental da estrutura da Igreja.


Os presbíteros

Os presbíteros, vulgarmente chamados padres, colaboram com os bispos no ministério pastoral.

Presidem à Eucaristia.

Administram determinados sacramentos.

Pregam.

Acompanham comunidades.

Exercem uma missão pastoral.

Mas o padre não é “a Igreja”.

E muito menos substitui toda a comunidade.

O sacerdócio ministerial existe para o serviço do sacerdócio comum dos fiéis.


O sacerdócio comum dos fiéis

Esta é uma realidade frequentemente esquecida.

Todos os baptizados participam no sacerdócio de Cristo.

Isto chama-se:

sacerdócio comum dos fiéis.

Não significa que todos possam exercer exactamente as mesmas funções sacramentais do sacerdócio ministerial.

Existe uma diferença entre ambos.

Mas ambos participam do único sacerdócio de Cristo.

O leigo não é um cristão de segunda categoria.

É plenamente membro da Igreja.

Tem vocação.

Tem missão.

Tem responsabilidade.

Tem dignidade baptismal.


Os leigos

O leigo vive a vocação cristã particularmente no meio do mundo:

na família;

na profissão;

na cultura;

na política;

na educação;

na ciência;

na arte;

na sociedade.

A missão do leigo não consiste simplesmente em “ajudar o padre”.

É muito maior.

É levar o Evangelho às realidades temporais.

Transformar a sociedade segundo a dignidade humana e os valores do Evangelho.

Ser cristão no mundo.


A Igreja não é apenas clero

Por isso, uma concepção exclusivamente clerical da Igreja é teologicamente insuficiente.

A Igreja é:

todo o Povo de Deus.

Clero.

Religiosos.

Religiosas.

Leigos.

Famílias.

Consagrados.

Cada um possui vocação e missão próprias.

A diversidade de ministérios não significa desigualdade de dignidade baptismal.

Todos recebem a mesma dignidade fundamental:

ser filhos de Deus em Cristo.


Carismas e ministérios

O Espírito Santo distribui dons diferentes.

Alguns recebem dons de ensino.

Outros de serviço.

Outros de evangelização.

Outros de cuidado.

Outros de administração.

Outros de contemplação.

Outros exercem ministérios reconhecidos pela Igreja.

A diversidade é necessária.

Um corpo onde todos desempenhassem exactamente a mesma função seria um corpo absurdo.

São Paulo utiliza precisamente esta imagem:

o corpo possui muitos membros.

A Igreja também.


A Igreja como Sacramento

O Concílio Vaticano II utiliza uma expressão extraordinariamente importante:

a Igreja é, em Cristo, como que sacramento, isto é, sinal e instrumento da união com Deus e da unidade de todo o género humano.

Esta afirmação é profunda.

A Igreja não é Deus.

Não substitui Cristo.

Não é a salvação.

É sinal e instrumento da salvação.

Existe para apontar para aquilo que a transcende.

Quando a Igreja se torna o centro absoluto de si própria, contradiz a sua própria natureza.

A Igreja deve conduzir para Cristo.


Igreja visível e invisível

A Igreja possui uma dimensão visível:

templos;

comunidades;

bispos;

padres;

instituições;

liturgia;

sacramentos;

normas;

estruturas.

Mas possui também uma dimensão espiritual e invisível:

graça;

comunhão;

fé;

caridade;

acção do Espírito;

comunhão dos santos.

Não podemos reduzir a Igreja a uma burocracia religiosa.

Mas também não podemos reduzi-la a uma experiência espiritual sem estrutura.

A Igreja é simultaneamente:

visível e espiritual.


A Igreja e a Liturgia

A Liturgia é a acção de Cristo e da Igreja.

Na celebração litúrgica, a comunidade não está simplesmente a assistir a um espectáculo religioso.

Participa no Mistério de Cristo.

A Eucaristia constitui o centro da vida litúrgica.

A Igreja nasce da Páscoa.

Celebra a Páscoa.

Vive da Páscoa.

E espera a consumação da Páscoa.

Por isso, a Liturgia e a Eclesiologia estão profundamente ligadas.

A Igreja manifesta aquilo que é quando celebra aquilo que Cristo realizou.


A Igreja e os sacramentos

Os sacramentos constituem uma dimensão essencial da Igreja.

São sinais eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja.

O Baptismo incorpora.

A Confirmação fortalece.

A Eucaristia alimenta.

A Reconciliação restaura.

A Unção consola e fortalece.

A Ordem configura para o serviço ministerial.

O Matrimónio santifica a aliança conjugal.

A Igreja é, portanto, uma comunidade sacramental.

A fé cristã não é puramente intelectual.

É uma fé celebrada e vivida sacramentalmente.


A Igreja e a salvação

Uma questão difícil:

É necessário pertencer visivelmente à Igreja para ser salvo?

A resposta católica não pode ser reduzida a um simples:

“quem não é católico está condenado.”

A doutrina católica afirma simultaneamente a necessidade de Cristo e da Igreja e a possibilidade de salvação daqueles que, sem culpa própria, não conhecem o Evangelho de modo adequado e procuram sinceramente a verdade e o bem, segundo a graça que recebem.

A Igreja não possui o poder de declarar arbitrariamente quem Deus salvará.

A salvação pertence a Deus.

Cristo é o Salvador.

A Igreja é instrumento dessa salvação.


A Igreja é peregrina

A Igreja ainda não chegou à plenitude.

Caminha na História.

Por isso, pode ser chamada:

Igreja peregrina.

Ela vive entre:

“já”

e

“ainda não”.

Cristo já ressuscitou.

O Reino já foi inaugurado.

O Espírito já foi dado.

A salvação já começou.

Mas a plenitude ainda não chegou.

Ainda existe sofrimento.

Ainda existe pecado.

Ainda existe morte.

Ainda existe injustiça.

A Igreja aguarda a consumação.


A Igreja e a escatologia

A Escatologia estuda as realidades últimas:

morte;

juízo;

céu;

inferno;

ressurreição;

vida eterna;

segunda vinda de Cristo;

consumação da História.

A Igreja vive orientada para esta plenitude.

Por isso, a Igreja não pode absolutizar nenhuma época histórica.

Nenhum regime.

Nenhuma cultura.

Nenhuma estrutura.

Nenhuma instituição.

Nenhum líder.

Tudo é provisório diante do Reino definitivo de Deus.


A comunhão dos santos

No Credo professamos:

“Creio na comunhão dos santos.”

Esta expressão pode ser entendida em vários níveis.

Os santos são aqueles que pertencem a Cristo.

Existe comunhão entre os fiéis na terra.

Existe comunhão com aqueles que já estão na presença de Deus.

E existe também uma relação de oração e caridade que ultrapassa a morte.

Daqui nasce uma das características mais belas da espiritualidade católica:

a Igreja não termina na fronteira do túmulo.


A Igreja dos vivos e dos mortos

A visão católica distingue:

Igreja peregrina — aqueles que caminham na terra;

Igreja padecente — tradicionalmente associada às almas em purificação;

Igreja triunfante — aqueles que contemplam Deus.

Estas expressões não descrevem três Igrejas separadas.

Existe uma única comunhão em Cristo.

A morte não destrói a comunhão daqueles que pertencem a Cristo.


Maria e a Igreja

Maria possui um lugar singular na Eclesiologia.

É:

Mãe de Cristo.

Mãe da Igreja, na compreensão católica.

Figura da Igreja.

Modelo de fé.

Discípula.

A sua importância não compete com Cristo.

Pelo contrário.

Toda a verdadeira devoção mariana deve conduzir a Cristo.

Maria é importante precisamente porque a sua existência aponta para o Filho.

“Fazei tudo o que Ele vos disser.”

É quase a definição da verdadeira espiritualidade mariana.


Igreja e mundo

A Igreja não existe para fugir do mundo.

Existe para servi-lo.

Mas também não pode simplesmente identificar-se com todas as estruturas do mundo.

Há uma tensão saudável:

estar no mundo sem ser absorvida por ele.

A Igreja deve denunciar injustiças.

Defender a dignidade humana.

Cuidar dos pobres.

Promover a paz.

Defender a vida.

Proteger a criação.

Educar.

Evangelizar.

Mas deve fazê-lo sem transformar o Evangelho numa mera ideologia.


A Doutrina Social da Igreja

Daqui nasce uma disciplina específica:

Doutrina Social da Igreja.

Estuda a aplicação da visão cristã da pessoa e da sociedade às realidades económicas, políticas, culturais e sociais.

Entre os seus princípios encontram-se:

dignidade da pessoa humana;

bem comum;

solidariedade;

subsidiariedade;

destino universal dos bens;

participação;

justiça;

cuidado da criação.

A fé cristã possui, portanto, consequências sociais.

Não existe uma espiritualidade verdadeiramente cristã que seja completamente indiferente ao sofrimento humano.


A Igreja precisa de conversão

Existe uma afirmação que precisa de ser mantida com honestidade:

a Igreja precisa permanentemente de conversão.

Não porque Cristo seja imperfeito.

Nem porque o Evangelho seja insuficiente.

Mas porque os seus membros são seres humanos.

A Igreja histórica carrega consigo grandeza e miséria.

Conheceu santos extraordinários.

Conheceu também pecados gravíssimos.

Conheceu actos de caridade heroica.

Conheceu abusos de poder.

Conheceu mártires.

Conheceu escândalos.

Conheceu missionários que deram a vida.

Conheceu membros que traíram profundamente o Evangelho.

Uma teologia adulta não precisa de esconder esta tensão.

A verdade não precisa de propaganda.


Santidade e reforma

A verdadeira reforma da Igreja não consiste simplesmente em mudar estruturas.

Também não consiste simplesmente em conservar tudo porque é antigo.

Reforma significa regressar à fonte.

Cristo.

A Igreja precisa continuamente de perguntar:

Estamos a anunciar Cristo?

Estamos a servir?

Estamos a proteger os frágeis?

Estamos a celebrar dignamente?

Estamos a formar consciências?

Estamos a viver a caridade?

Estamos a ser fiéis ao Evangelho?

Uma Igreja constantemente em conversão é mais fiel à sua identidade do que uma Igreja convencida de que já não precisa de se converter.


Para guardar

A Igreja não é simplesmente:

um edifício.

uma organização.

um conjunto de padres.

uma estrutura administrativa.

uma associação de pessoas religiosas.

É uma realidade muito mais profunda.

É:

Povo de Deus.

Corpo de Cristo.

Templo do Espírito Santo.

Sacramento de salvação.

Comunhão.

Comunidade apostólica.

Povo peregrino.

E confessa-se:

Una.

Santa.

Católica.

Apostólica.

A Igreja nasce do desígnio do Pai, está fundada em Cristo e é vivificada pelo Espírito Santo.

Não existe para substituir Deus.

Existe para conduzir a Deus.

Não existe para ser adorada.

Só Deus é adorado.

Não existe para se tornar o fim.

É instrumento e sinal.

Não existe para guardar Cristo como propriedade privada.

Existe para anunciá-Lo ao mundo.

E talvez aqui esteja uma das distinções mais importantes para compreender a fé católica:

amar a Igreja não significa idolatrar a instituição.

É possível amar profundamente a Igreja e, precisamente por isso, desejar que ela seja cada vez mais fiel a Cristo.

É possível respeitar a tradição e estudar criticamente a História.

É possível reconhecer a santidade e denunciar o pecado.

É possível amar a liturgia e exigir dignidade na sua celebração.

É possível amar os ministros e reconhecer a sua humanidade.

É possível amar a Igreja sem deixar de pensar.

Porque a fé cristã não pede que desliguemos a inteligência.

Pede que a coloquemos ao serviço da verdade.

E é precisamente por isso que estes textos devem ser estudados e não apenas lidos.

Cada conceito tem uma história.

Cada dogma possui uma génese.

Cada palavra litúrgica possui um significado.

Cada sacramento possui uma teologia.

Cada definição conciliar respondeu a problemas concretos.

Cada desenvolvimento doutrinal possui contexto histórico.

Não estamos a construir uma fé à medida daquilo que gostaríamos que fosse. Estamos a tentar compreender, com respeito, rigor e honestidade intelectual, aquilo que a Igreja efectivamente professa.

Porque há uma convicção que deve acompanhar toda esta caminhada:

para amar verdadeiramente, temos de conhecer.

E quanto mais conhecemos, mais percebemos que a Igreja é apenas compreensível a partir daquele que está no seu centro:

Jesus Cristo.

O próximo passo leva-nos directamente para uma das realidades mais importantes da vida da Igreja:

A Liturgia — o que é realmente a Missa?

Não apenas “ir à Missa”, mas compreender o que acontece na celebração, quem celebra, porque existe o altar, o ambão, o sacrário, a Eucaristia, a Liturgia da Palavra, a Liturgia Eucarística, a consagração, a epiclese, a anamnese, a doxologia, a comunhão e o envio.

Porque quando se compreende a Liturgia, começa-se a perceber que a Missa não é simplesmente uma reunião religiosa.

É o coração sacramental da vida da Igreja.

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