"Fui Dar uma Vacina ao Meu Filho e Saí de Lá com a Família Quase Toda Revistada"
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Há dias em que uma pessoa sai de casa com uma missão simples.
Hoje era um desses dias.
Levar o meu filho, de 10 anos, à vacina.
Nada de extraordinário.
Entrámos no centro de saúde com a serenidade de quem vai cumprir uma obrigação perfeitamente normal.
Eu, o meu filho e a minha filha, que tem 23 anos e aparentemente considera que acompanhar o irmão a uma vacina é uma excelente oportunidade para exercer funções de irmã mais velha e picá-lo antes da enfermeira.
A enfermeira abriu a porta e disse:
— Podem entrar todos.
Excelente.
Entrámos.
O meu filho sentou-se.
A minha filha começou imediatamente a cumprir a sua missão civilizacional:
— Então? Estás com medo?
Eu olhei para ela.
Ela olhou para o irmão.
O irmão olhou para nós as duas com aquela expressão muito própria de quem percebeu que, afinal, o perigo não vinha da agulha.
Vinha da família.
A enfermeira abriu a ficha.
Olhou para o computador.
Depois olhou para mim.
Fez aquele silêncio clínico que nunca anuncia nada de bom.
E disse:
— Já tentámos entrar em contacto consigo várias vezes para vir fazer uma vacina que tem em atraso.
Eu fiquei em silêncio.
A minha filha ficou em silêncio.
O meu filho ficou em silêncio.
Durante três segundos, aquela sala tornou-se um tribunal.
E eu, sem grande preparação jurídica, respondi:
— Depois marco.
A enfermeira olhou para mim.
Não sei explicar exactamente o que aconteceu naquele olhar.
Mas foi o olhar de uma mulher que tinha acabado de ouvir a palavra "depois" pela quadragésima vez naquela manhã.
Respondeu:
— Leva já.
Pronto.
Acabou a negociação.
Não houve recurso.
Não houve segunda instância.
A minha filha e o meu filho começaram a rir.
Eu pensei:
"Muito engraçados. Vamos ver quem ri quando chegar a vossa vez."
Primeiro foi o meu filho.
Duas vacinas.
Uma em cada braço.
Duas.
Não uma.
Duas.
E o rapaz ficou ali sentado como se tivesse ido comprar pão.
Não chorou.
Não se queixou.
Não fez drama.
Nem sequer me deu a oportunidade de dizer:
— Já passou.
Quando dei por mim, já estava despachado.
Olhei para ele com orgulho.
Depois chegou a minha vez.
E aqui começou a verdadeira tragédia familiar.
Sentei-me.
A enfermeira preparou a vacina.
Picou.
Terminou.
Eu levantei-me.
E imediatamente os meus filhos, numa manifestação de solidariedade familiar absolutamente extraordinária, perguntaram:
— Queres um abracinho?
As enfermeiras começaram a rir.
Eu também.
Porque há qualquer coisa de profundamente humilhante em ser vacinada e, imediatamente a seguir, ter dois filhos adultos — quer dizer, um adulto e outro ainda em idade de fazer trabalhos de casa — a perguntarem se queremos colo.
Ainda por cima depois de eu ter acabado de ver o meu filho levar duas vacinas sem pestanejar.
Mas eu estava pronta para sair.
Levantei-me.
E a enfermeira perguntou:
— Onde vai com tanta pressa?
Eu:
— Embora.
Ela:
— Espere.
E eu pensei:
"Pronto. O que é que eu fiz agora?"
Perguntei:
— O que se passa?
E ela começou:
— Altura?
Respondi.
— Peso?
Respondi.
— Faz exercício físico?
Respondi.
Até aqui tudo normal.
Depois veio a parte que transformou uma simples ida ao centro de saúde num interrogatório digno de uma comissão parlamentar.
— Há doenças na família?
— Sim.
— Diabetes?
— Sim.
— Hipertensão?
— Sim.
— Problemas cardíacos?
— Sim.
A enfermeira parou.
Eu continuei.
— Todas.
A cara dela foi maravilhosa.
Aquela expressão de quem estava a fazer perguntas de rotina e, de repente, descobriu que tinha aberto uma caixa de Pandora com ficha clínica.
Olhou para mim.
Olhou para o computador.
Voltou a olhar para mim.
Eu quase conseguia ouvir os pensamentos:
"Eu só queria saber se há hipertensão na família."
E eu, muito tranquilamente:
"Sim."
"Diabetes?"
"Sim."
"Coração?"
"Também."
A determinada altura faltou apenas perguntar:
— E por acaso existe alguém na família que não tenha nada?
E eu:
— Olhe... vamos não complicar.
O mais engraçado é que eu tinha entrado naquele centro de saúde para acompanhar o meu filho numa vacina.
O meu filho levou duas.
Eu levei uma.
A minha filha limitou-se a assistir, a rir e a oferecer abraços.
E, no final, quem parecia precisar de uma reunião familiar urgente com todos os profissionais de saúde era eu.
Saí de lá com uma conclusão muito clara:
Nunca se deve ir ao centro de saúde apenas para acompanhar alguém.
Porque podemos entrar como acompanhante...
...e sair como projecto de investigação.
E, sobretudo, nunca dizer à enfermeira:
"Depois marco."
Porque, aparentemente, "depois" não existe no vocabulário da enfermagem.
Existe apenas:
"Leva já."
E foi assim que uma simples vacina dos 10 anos acabou numa espécie de Dia da Família na Saúde, com direito a duas picadelas para o filho, uma para a mãe, risos das enfermeiras, abraços de emergência dos filhos...
...e uma enfermeira a descobrir, em aproximadamente quatro minutos, que a minha árvore genealógica aparentemente decidiu especializar-se em problemas de saúde.
Ao menos uma coisa ficou comprovada.
Os meus filhos podem gozar comigo.
As enfermeiras podem rir.
A minha ficha pode ganhar páginas.
Mas uma coisa ninguém pode dizer:
naquela família, pelo menos vacinas não faltam.
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