"O Verbo "Obedecer" Está à Beira de Pedir Baixa Médica"

Hoje deparei-me com uma publicação de um professor.

Não conheço o homem.

Mas, ao terminar de ler o que escreveu, senti uma vontade quase maternal de lhe oferecer um café, um abraço e, dependendo do número de testes que ainda lhe faltam corrigir, talvez umas férias de seis meses.

Escrevia ele:

"Estou a desesperar com a classificação do item 2, grupo I. Cerca de 95% dos alunos escrevem obdecer. Além disso, constroem este verbo com complemento direto: obdeceu-o. Ou seja, numa única palavra, um erro ortográfico e um erro de sintaxe."

A primeira reação foi rir.

A segunda foi pensar:

É extraordinário aquilo que a língua portuguesa consegue ensinar através de um único verbo.

Porque, reparem bem.

Naquele pequeno desastre linguístico cabem dois mundos completamente diferentes.

O primeiro pertence à ortografia.

O segundo pertence à sintaxe.

É quase uma promoção do tipo "leve dois erros e pague apenas uma palavra".

Comecemos pelo primeiro.

O misterioso aparecimento da letra "d"

O verbo chama-se:

obedecer.

Sempre.

Desde que nasceu.

Nunca acordou uma manhã e decidiu chamar-se "obdecer".

O "d" apareceu ali sem qualquer justificação histórica, etimológica ou gramatical.

É uma letra clandestina.

Entrou na palavra como aquele convidado que aparece num casamento, come marisco para vinte pessoas, dança até às quatro da manhã e, no fim, ninguém sabe quem o convidou.

As letras também têm regras de entrada.

Nem todas podem instalar-se onde lhes apetece.

A língua portuguesa é bastante paciente.

Mas há invasões que simplesmente não autoriza.

Esta é uma delas.

Se escrevermos:

obdecer

o "d" está completamente perdido.

É como encontrar um pinguim a vender bolas de Berlim na Praia da Rocha.

Existe.

Estamos a vê-lo.

Mas sabemos imediatamente que alguma coisa correu muito mal.


Agora vem a parte verdadeiramente interessante.

Porque, imaginemos que o aluno escreve corretamente.

Escreve:

obedecer.

Excelente.

A ortografia já não sofre.

Mas a gramática ainda nem começou a avaliação.

Porque saber escrever uma palavra não significa saber utilizá-la.

É exatamente a mesma diferença entre conhecer uma pessoa...

...e saber dançar com ela.


Os verbos portugueses têm personalidade.

Isto pode parecer estranho.

Mas é verdade.

Cada verbo estabelece as suas próprias exigências.

Uns aceitam complemento direto.

Outros recusam-no educadamente.

Outros só trabalham acompanhados por determinadas preposições.

São quase hóspedes de um hotel cinco estrelas.

Cada um com as suas manias.

O verbo obedecer pertence precisamente a este grupo.

Ele exige sempre um complemento indireto.

Façamos uma experiência muito simples.

Perguntem ao verbo:

Obedecer... a quem?

A resposta aparece naturalmente.

Ao professor.

À mãe.

Ao regulamento.

À lei.

Repararam?

Surge sempre a pequena preposição:

a.

E essa pequena letra muda absolutamente tudo.

Porque, quando substituímos esse complemento por um pronome, já não podemos escrever:

Obedeceu-o.

Porquê?

Porque "o" substitui complementos diretos.

E obedecer não quer complemento direto.

Nunca quis.

Nunca pediu.

Nunca precisou.

Quem faz esse trabalho é o pequeno e muitas vezes incompreendido pronome:

lhe.

Assim:

Obedeceu ao professor.

transforma-se em:

Obedeceu-lhe.

É simples.

Desde que deixemos o verbo escolher os seus próprios amigos.


Imagino frequentemente os verbos reunidos numa enorme sala.

Cada um sentado à sua mesa.

O verbo ver levanta-se.

— Eu aceito complemento direto.

Muito bem.

Aplausos.

Logo a seguir levanta-se o verbo obedecer.

— Eu trabalho exclusivamente com complemento indireto.

Perfeito.

Está registado.

Mas, todos os anos, chegam milhares de alunos e respondem:

— Não interessa.

Hoje vais aceitar complemento direto.

É quase como entrar num restaurante vegetariano e exigir um cozido à portuguesa.

Pode insistir o tempo que quiser.

Continua a não ser a especialidade da casa.


Há, aliás, uma ironia absolutamente deliciosa.

O verbo chama-se...

obedecer.

E é provavelmente um dos verbos a quem menos obedecem em toda a língua portuguesa.

É impossível não admirar esta coincidência.

O verbo cuja própria existência consiste em cumprir regras passa a vida inteira rodeado de pessoas que se recusam a respeitar as dele.

Se os verbos tivessem emoções, este já teria pedido transferência para outra língua.


O mais bonito da gramática é precisamente isto.

Ela nunca nos pede que decoremos palavras como quem memoriza números de telefone.

Pede-nos outra coisa.

Que compreendamos como elas vivem.

Como se relacionam.

Quem aceitam ao seu lado.

Quem recusam.

A gramática não é um conjunto de proibições.

É quase uma sociologia das palavras.

Cada verbo possui personalidade.

Preferências.

Hábitos.

Compatibilidades.

Uns gostam de complemento direto.

Outros apaixonam-se por complementos indiretos.

Alguns vivem felizes com ambos.

E todos, sem exceção, agradecem quando alguém os trata de acordo com a sua natureza.

Talvez seja essa a verdadeira lição escondida naquele desabafo do professor.

O problema nunca foi apenas um "d" a mais.

Nem um pronome trocado.

Foi esquecer que as palavras também têm identidade.

E que aprender uma língua não é decorar letras.

É aprender a respeitar o carácter de cada palavra.

Até porque, convenhamos...

há uma certa falta de delicadeza em desobedecer precisamente ao verbo obedecer.

A língua portuguesa tem um sentido de humor absolutamente extraordinário.

Só exige uma coisa.

Que lhe obedeçamos... quando ela tem razão.

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