"Não nasci a saber ser mãe. Aprendi a escutar."
Recebi várias mensagens de mães preocupadas com o regresso às aulas.
Algumas contam-me que, à medida que agosto chega ao fim, os filhos começam a dizer que não querem voltar à escola. Outras falam de dores de barriga, dificuldade em dormir, irritabilidade, choro ou daquela mudança subtil de comportamento que uma mãe aprende, com o tempo, a reconhecer antes de a criança conseguir explicar o que está a sentir.
E talvez seja importante começar por aqui:
nem sempre é manha.
Nem sempre é preguiça.
Nem sempre é falta de vontade.
E, sobretudo, nem sempre uma criança consegue dizer:
“Estou ansiosa com aquilo que vai acontecer.”
O corpo pode dizer aquilo que as palavras ainda não conseguem.
Uma dor de barriga pode ser uma preocupação.
Uma dificuldade em adormecer pode ser antecipação.
Uma irritabilidade aparentemente desproporcionada pode esconder medo.
Uma criança pode até afirmar que não quer ir para a escola quando, no fundo, aquilo que teme não é a escola inteira, mas uma coisa muito concreta que ainda não sabe nomear.
Quem é o professor?
Onde é a sala?
Com quem vou ficar?
Quem me vai buscar?
Vou conseguir acompanhar?
E se não souber?
E se ninguém falar comigo?
E se acontecer alguma coisa e a mãe não estiver?
Para um adulto, algumas destas perguntas podem parecer pequenas.
Para uma criança, podem ocupar uma parte enorme do mundo.
É por isso que, quando me perguntam o que fiz com o meu filho, confesso que tenho alguma dificuldade em responder.
Não porque tenha uma fórmula secreta.
Não tenho.
Não nasci com uma espécie de manual incorporado que me ensinasse a interpretar cada silêncio, cada comportamento ou cada medo de uma criança.
Sou mãe.
E sou humana.
Também erro.
Também tenho dúvidas.
Também há momentos em que olho para o meu filho e penso: “Como é que te ajudo nisto se nem tu consegues explicar-me o que sentes?”
A diferença é que, perante essa dúvida, nunca me pareceu suficiente dizer:
“Sou mãe, portanto sei.”
Não.
Ser mãe dá-me amor.
Não me dá automaticamente conhecimento.
E foi precisamente por amar que procurei conhecimento.
Quando percebi que havia coisas que não sabia, procurei ajuda.
Li.
Perguntei.
Observei.
Procurei formação em áreas que considerei relevantes para compreender melhor o meu filho e, inevitavelmente, para me compreender também a mim enquanto mãe.
Porque educar uma criança não é apenas ensinar-lhe o mundo.
É também aprender a olhar para o mundo através dos olhos dela.
E isso exige humildade.
Uma humildade que, para mim, é absolutamente indispensável na parentalidade:
admitir que não sabemos.
Não saber não é falhar.
Recusar aprender quando percebemos que não sabemos é que pode tornar-se um problema.
Foi assim que fui construindo a minha maneira de estar.
Não procurei transformar o meu filho numa criança que nunca sente medo.
Procurei que ele soubesse que podia sentir medo sem ficar sozinho dentro dele.
Não procurei eliminar todas as dificuldades do caminho.
Procurei dar-lhe ferramentas para atravessá-las.
Não procurei responder imediatamente a tudo.
Procurei aprender a fazer melhores perguntas.
E há uma diferença enorme entre estas duas coisas.
Porque, quando uma criança diz:
“Não quero ir.”
é muito fácil responder:
“Tens de ir.”
A obrigação resolve a questão prática.
Mas não resolve necessariamente aquilo que está por baixo dela.
Podemos obrigar uma criança a atravessar a porta da escola.
Não podemos obrigá-la a deixar o medo do outro lado.
É preciso perceber o que esse medo está a tentar dizer.
Por isso, quando uma criança começa a manifestar ansiedade perante o regresso às aulas, não me parece sensato ridicularizar, minimizar ou dramatizar.
É preciso encontrar um meio-termo muito mais difícil:
acolher sem alimentar o medo.
Dizer:
“Percebo que estejas nervoso.”
não significa dizer:
“Tens razão para ter medo.”
Significa apenas:
“Eu vejo aquilo que estás a sentir e não vou fazer-te sentir errado por sentires isso.”
E isso pode mudar tudo.
Porque uma criança que percebe que pode falar sem ser julgada começa, pouco a pouco, a conseguir pensar sobre aquilo que sente.
E aquilo que conseguimos pensar deixa de ser apenas uma sensação difusa.
Ganha contornos.
Ganha palavras.
Ganha possibilidade de ser compreendido.
Por vezes, aquilo que parece um medo gigantesco é uma pergunta muito concreta que ainda ninguém fez.
“O que é que te preocupa mais?”
“Há alguma coisa na escola que te esteja a deixar nervoso?”
“O que achas que vai acontecer?”
“Há alguma coisa que gostasses de saber antes de começar?”
Não precisamos de interrogar.
Precisamos de abrir espaço.
E, sobretudo, precisamos de não transformar cada preocupação numa catástrofe.
Uma criança não precisa de uma mãe que lhe garanta que tudo correrá perfeitamente.
Precisa de uma mãe que consiga transmitir:
“Se alguma coisa correr mal, nós lidamos com isso.”
Parece uma diferença pequena.
Não é.
Porque prometer que nada correrá mal é impossível.
Ensinar uma criança que poderá enfrentar aquilo que correr mal é construir segurança verdadeira.
Foi também por isso que aprendi a importância de antecipar o concreto.
O medo gosta do desconhecido.
Quanto menos sabemos sobre uma situação, mais espaço existe para a imaginação preencher os vazios.
Por isso, preparar uma criança não significa apenas comprar mochilas, cadernos e material escolar.
É também tornar o desconhecido um pouco mais conhecido.
Saber onde vai.
Saber como será o primeiro dia.
Conhecer, quando possível, o espaço.
Retomar horários.
Organizar o material.
Voltar gradualmente ao ritmo de sono.
Falar sobre aquilo que vai acontecer sem transformar o regresso numa operação militar.
Pequenos gestos.
Pequenas previsibilidades.
Pequenas âncoras.
E há outra coisa que considero fundamental:
não transmitir à criança a nossa própria ansiedade como se fosse uma herança inevitável.
Os filhos observam muito mais do que aquilo que lhes dizemos.
Podemos dizer:
“Não tens nada com que te preocupar.”
enquanto o nosso rosto, a nossa voz e a nossa maneira de falar lhes comunicam precisamente o contrário.
As crianças não escutam apenas palavras.
Leem ambientes.
Percebem tensões.
Sentem expectativas.
E, por isso, também nós temos de aprender a regular aquilo que levamos para dentro de casa.
Não somos obrigados a ser emocionalmente perfeitos.
Mas podemos ser conscientes.
Podemos parar.
Respirar.
Pensar antes de reagir.
E procurar ajuda quando percebemos que sozinhos não estamos a conseguir.
Foi isso que fiz.
Não porque seja uma mãe extraordinária.
Mas precisamente porque sei que não sou.
Sou uma mãe que ama profundamente o filho e que, por isso mesmo, não quer que o amor seja confundido com omnisciência.
Não sei tudo.
Não consigo prever tudo.
Não consigo protegê-lo de todas as dores.
E talvez a maternidade seja, em grande parte, aprender a aceitar esta verdade sem deixar de estar presente.
Há coisas que poderei evitar.
Outras terei de o ensinar a atravessar.
E haverá ainda aquelas que só ele poderá viver e compreender.
É doloroso perceber isto.
Queremos poupar os filhos.
Queremos colocar o corpo entre eles e o mundo.
Mas educar também é preparar para que, um dia, consigam caminhar quando já não estivermos imediatamente ao lado.
Talvez por isso eu não tenha tentado construir uma infância sem dificuldades.
Tentei construir uma relação em que ele pudesse falar sobre elas.
E talvez o resultado mais bonito esteja precisamente naquilo que ele nunca me disse.
Até hoje, a única queixa que tenho ouvido sobre a escola é extraordinariamente simples:
“Porque é que a escola é tanto tempo?”
E depois:
“Porque é que começa tão cedo de manhã?”
Não é uma declaração de guerra ao sistema educativo.
Não é uma recusa existencial da aprendizagem.
É uma criança a achar que dormir mais seria uma excelente política educativa.
E, sinceramente, não consigo dizer que esteja completamente errada.
Mas por baixo do humor existe algo que me tranquiliza.
A escola, para ele, não parece ter sido construída como um lugar de ameaça.
E isso não aconteceu porque eu tenha conseguido eliminar todas as possibilidades de dificuldade.
Aconteceu porque, desde cedo, tentei construir uma relação em que a escola pudesse ser falada.
Em que as dúvidas pudessem existir.
Em que o erro não fosse uma vergonha.
Em que aprender não significasse apenas acertar.
Em que pedir ajuda não fosse sinal de fraqueza.
E em que ele soubesse que, acontecesse o que acontecesse, havia um lugar para onde podia voltar.
A casa.
A família.
O vínculo.
O lugar onde não precisava de ser o melhor aluno, o mais forte, o mais inteligente ou o mais competente.
Bastava ser ele.
É isto que digo às mães que me escrevem:
não procurem ser mães perfeitas.
Não existe esse lugar.
Procurem estar disponíveis.
Procurem observar.
Procurem aprender.
Procurem perceber aquilo que está por detrás do comportamento.
E, quando não souberem, façam aquilo que eu fiz:
procurem ajuda.
Não há vergonha nenhuma em dizer:
“Eu não sei como lidar com isto.”
Aliás, talvez essa seja uma das frases mais responsáveis que um adulto pode dizer.
Porque uma mãe que admite que não sabe pode aprender.
Uma mãe que acredita que já sabe tudo pode deixar de procurar.
E os nossos filhos merecem adultos que continuem a aprender.
Se uma criança disser que não quer voltar à escola, talvez não seja preciso entrar imediatamente em pânico.
Mas também não é preciso desvalorizar.
Escutem.
Observem.
Perguntem.
Preparem.
Acompanhem.
E, se a ansiedade for intensa, persistente ou começar a interferir de forma significativa no sono, na alimentação, na frequência escolar ou na vida quotidiana, não hesitem em procurar apoio profissional.
Pedir ajuda não significa que falhámos como pais.
Significa que percebemos que aquela criança merece mais do que a nossa boa vontade.
Merece cuidado informado.
E eu continuo a aprender.
Como mãe.
Como mulher.
Como pessoa.
Porque criar um filho não é ensinar-lhe apenas a crescer.
É aceitar que, enquanto ele cresce, nós também somos obrigados a crescer com ele.
E talvez esta seja a parte que ninguém nos explica suficientemente:
não precisamos de ter todas as respostas para sermos um lugar seguro.
Às vezes, basta estarmos disponíveis para procurar as respostas juntamente com eles.
E talvez seja isso que tenho feito desde o princípio.
Não sou especialista.
Não nasci com uma aptidão extraordinária.
Não tenho uma receita.
Tenho amor, tenho dúvidas, tenho vontade de aprender e tenho a humildade suficiente para procurar quem sabe mais do que eu.
E, até agora, quando o meu filho fala da escola, não me diz que tem medo de voltar.
Diz-me apenas, com a indignação muito própria de quem ainda não compreende por que razão a humanidade decidiu começar as aulas tão cedo:
“Porque é que a escola é tanto tempo?”
E eu penso que, entre tantas coisas que uma mãe pode desejar ouvir, esta não é, de todo, uma das piores.
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