"João XXI: o Centésimo Octogésimo Quinto Papa da Igreja Católica"

Após a morte de Adriano V, a Igreja de Roma elegeu João XXI, reconhecido como o centésimo octogésimo quinto Papa da Igreja Católica e sucessor de Adriano V na Sé de Roma.

O seu pontificado decorreu entre 1276 e 1277 e, apesar de ter durado apenas alguns meses, João XXI ocupa um lugar absolutamente singular na história do papado: foi o único Papa português.

Origem e formação

João XXI nasceu em Lisboa, provavelmente entre 1210 e 1220.

O seu nome era Pedro Julião, também conhecido como Pedro Hispano.

Foi um dos grandes intelectuais portugueses da Idade Média.

Estudou medicina, filosofia, lógica e teologia e desenvolveu uma importante carreira académica e eclesiástica.

A sua obra intelectual ultrapassou largamente o âmbito religioso.

Pedro Hispano e a lógica

Pedro Julião ficou particularmente famoso pelos seus trabalhos de lógica.

A obra:

Summulae logicales

tornou-se um dos manuais de lógica mais utilizados nas universidades europeias durante séculos.

O livro sistematizava conceitos e métodos da lógica aristotélica, contribuindo para a formação intelectual de gerações de estudantes.

É precisamente desta tradição que deriva a famosa expressão "Pedro Hispano", nome pelo qual foi conhecido no mundo académico.

Medicina

Além da filosofia e da lógica, Pedro Julião destacou-se na medicina.

É-lhe tradicionalmente atribuída a obra:

Thesaurus pauperum

destinada sobretudo a apresentar tratamentos e conhecimentos médicos acessíveis a pessoas com poucos recursos.

A sua formação demonstra a amplitude extraordinária do saber medieval: teologia, filosofia, lógica e medicina não eram campos completamente separados.

Carreira na Igreja

Pedro Julião entrou na vida eclesiástica e alcançou posições de grande importância.

Foi:

  • bispo de Braga;
  • arcebispo de Braga;
  • cardeal-bispo de Tusculum;
  • médico e conselheiro de papas.

A sua experiência intelectual e diplomática tornou-o uma figura respeitada na Cúria Romana.

Eleição ao papado

Após a morte de:

Adriano V

os cardeais reuniram-se em Viterbo.

Pedro Julião foi eleito em 8 de setembro de 1276 e adoptou o nome de João XXI.

Por que João XXI?

Existe aqui uma curiosidade histórica.

Antes dele tinha existido um Papa chamado João XIV, mas a numeração dos papas chamados João sofreu erros de contagem na Idade Média.

Durante algum tempo, considerou-se que teria existido um João XV adicional, que na realidade era uma duplicação de outro pontífice.

Isso provocou uma alteração na numeração.

Pedro Julião escolheu chamar-se João XXI, mantendo a numeração que então era considerada correcta.

Só posteriormente os historiadores perceberam o erro.

O Papa intelectual

João XXI foi uma figura excepcional porque chegou ao papado depois de uma vida dedicada ao conhecimento.

Num período em que a filosofia aristotélica estava a transformar profundamente o pensamento cristão, João XXI procurou proteger e desenvolver os estudos filosóficos e científicos.

Demonstrou especial interesse pela:

  • lógica;
  • medicina;
  • filosofia natural;
  • teologia;
  • investigação científica.

Relação entre fé e razão

O seu pontificado ocorreu num momento em que a Igreja estava a tentar compreender a crescente influência das obras de:

Aristóteles

nas universidades europeias.

As questões levantadas pela filosofia aristotélica obrigavam os teólogos a pensar cuidadosamente sobre a relação entre:

fé e razão.

João XXI, pela sua própria formação, estava particularmente preparado para compreender essa transformação intelectual.

O desastre no palácio papal

O seu pontificado terminou de forma inesperada e trágica.

João XXI encontrava-se no:

Palácio Papal de Viterbo

quando uma parte do edifício desabou sobre ele.

O Papa ficou gravemente ferido.

Morreu poucos dias depois, em 20 de maio de 1277.

Tinha governado a Igreja durante apenas cerca de oito meses.

Uma morte extraordinária

A morte de João XXI deu origem posteriormente a várias interpretações.

Algumas tradições medievais chegaram a apresentar o desabamento como uma espécie de castigo divino relacionado com os seus interesses científicos.

Essa interpretação, porém, não possui fundamento histórico sólido.

O que sabemos é que o edifício sofreu um colapso estrutural e o Papa ficou mortalmente ferido.

Legado

João XXI deixou uma marca muito particular.

Foi:

o único português a ocupar a Sé de Pedro.

Foi também um dos raríssimos papas cuja fama intelectual precedia claramente a carreira eclesiástica.

A sua obra científica e filosófica demonstra que o pensamento medieval estava longe de ser intelectualmente estagnado.

Pelo contrário, universidades, mosteiros e estudiosos estavam envolvidos numa intensa discussão sobre filosofia, ciência, medicina e teologia.

Conclusão

Assim, o centésimo octogésimo quinto Papa da Igreja Católica foi João XXI, Pedro Julião, o único Papa português da história. Intelectual de extraordinária cultura, estudou lógica, filosofia, medicina e teologia e deixou obras que circularam pelas universidades europeias durante séculos. O seu pontificado foi breve e terminou tragicamente quando o palácio onde se encontrava desabou sobre ele. A sua figura permanece especialmente importante para a história portuguesa e para a história da relação entre fé, filosofia, ciência e razão na tradição medieval.

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