"Não há mistério nenhum na forma como escrevo"
Há quem procure uma explicação escondida na forma como escrevo.
Porque digo “tu”.
Porque digo “nós”.
Porque faço perguntas.
Porque começo muitas vezes com um “sabias?”, um “sabes?” ou um “talvez”.
Porque falo directamente com quem está a ler, como se estivesse sentada diante dessa pessoa, numa mesa, numa conversa demorada, em vez de escrever para uma multidão anónima.
E talvez seja melhor esclarecer isto de uma vez:
não há mistério nenhum.
Não existe código.
Não existe mensagem secreta.
Não estou necessariamente a escrever para uma determinada pessoa só porque utilizo a segunda pessoa.
Não estou a transformar cada texto numa indirecta.
E muito menos tenho a pretensão de conhecer a vida de quem lê.
Estou simplesmente a escrever como um ser humano fala com outro ser humano.
E faço-o deliberadamente.
Quando digo “tu”, estou a aproximar.
Quando digo “nós”, estou a incluir-me.
Quando digo “eu”, assumo a experiência como minha.
São três lugares diferentes dentro da mesma conversa.
O “eu” conta aquilo que vivi.
O “tu” convida quem lê a olhar para dentro de si.
O “nós” lembra-nos que, apesar das diferenças, há experiências que pertencem à condição humana.
É tão simples quanto isso.
E talvez seja precisamente por ser simples que algumas pessoas procuram complicá-lo.
Os temas que escrevo não são exclusivos meus.
Nem poderiam ser.
Escrevo sobre amor.
Sobre perda.
Sobre família.
Sobre amizade.
Sobre rejeição.
Sobre medo.
Sobre dignidade.
Sobre envelhecer.
Sobre crianças.
Sobre educação.
Sobre solidão.
Sobre fé.
Sobre morte.
Sobre relações.
Sobre comparação.
Sobre aquilo que fazemos quando alguém nos magoa.
Sobre aquilo que fazemos quando somos nós próprios a magoar alguém.
Sobre partir.
Sobre ficar.
Sobre perdoar.
Sobre não voltar.
Sobre começar novamente.
Sobre aquilo que nos acontece e sobre aquilo em que nos transformamos depois.
Tudo isto é humano.
Eu não inventei nenhuma dessas experiências.
Tu também não.
É precisamente por isso que escrevo sobre elas.
Porque não me interessa inventar sentimentos extraordinários para parecer original.
Interessa-me olhar para aquilo que todos conhecemos e tentar encontrar uma formulação que ainda não tínhamos encontrado.
A dor não é original.
A maneira como a compreendemos pode ser.
A saudade não é original.
A frase que finalmente consegue explicar uma saudade pode ser.
O amor não é original.
Mas aquilo que cada pessoa aprende sobre amar pode sê-lo.
A perda é universal.
A maneira como cada um sobrevive a ela não é.
E é aqui que começa a minha escrita.
Não na pretensão de descobrir sentimentos que ninguém sentiu antes.
Mas na tentativa de dar palavras ao que tantas pessoas sentem e nem sempre conseguem dizer.
É por isso que os meus textos podem começar numa coisa aparentemente banal.
Uma conversa num café.
Uma árvore.
Um abraço.
Uma pauta escolar.
Uma mensagem.
Uma amizade.
Uma fotografia.
Uma viagem.
Uma criança que não quer ir à escola.
Uma pessoa que deixou de responder.
Uma flor num funeral.
Uma porta que alguém fechou.
Uma pessoa que escolheu ficar.
Uma pessoa que precisou de partir.
E, de repente, aquilo deixa de ser apenas aquele acontecimento.
Porque o acontecimento é muitas vezes apenas a porta.
O verdadeiro assunto está atrás dela.
Uma árvore pode falar de raízes.
As raízes podem falar de identidade.
A identidade pode falar de aquilo que nos sustenta quando ninguém está a olhar.
Um abraço pode falar de pertença.
A pertença pode falar da solidão contemporânea.
Uma pauta pode falar de infância.
A infância pode falar daquilo que fazemos com as nossas próprias feridas quando nos tornamos pais.
Uma amizade pode falar de reciprocidade.
A reciprocidade pode falar de dignidade.
Uma perda pode falar daquilo que adiámos enquanto ainda tínhamos tempo.
É assim que os textos crescem.
Não parto sempre de uma grande ideia.
Muitas vezes parto de uma pequena coisa que contém uma pergunta maior.
E depois sigo essa pergunta.
Talvez seja por isso que os temas sejam tão diferentes e, simultaneamente, tão iguais.
Porque por baixo de todos eles existe quase sempre a mesma matéria:
ser humano.
Quem sou?
Quem somos?
Porque fazemos aquilo que fazemos?
Porque permanecemos onde sofremos?
Porque temos medo de partir?
Porque confundimos amor com sacrifício?
Porque precisamos tanto de aprovação?
Porque acreditamos na opinião de quem nem sequer conhece a nossa história?
Porque algumas pessoas só valorizam quando perdem?
Porque é tão difícil perdoar?
Porque podemos perdoar alguém e ainda assim escolher a distância?
Porque é que algumas pessoas precisam de controlar aquilo que os outros pensam delas?
Porque é que confundimos presença com atenção?
Porque é que podemos estar ligados a milhares de pessoas e continuar profundamente sós?
Porque é que algumas crianças precisam apenas de alguém que as veja?
Porque é que, tantas vezes, só damos flores quando já não podemos dar abraços?
Estas perguntas atravessam os meus textos.
E não preciso de colocar uma etiqueta académica em cada uma delas.
Não preciso de escrever:
“Agora vou falar de psicologia.”
ou:
“Segundo a filosofia…”
ou:
“Do ponto de vista sociológico…”
Se a ideia estiver verdadeiramente compreendida, pode entrar no texto sem apresentar cartão de identidade.
Há pensamento filosófico numa pergunta.
Há psicologia numa relação.
Há sociologia numa multidão.
Há pedagogia numa criança.
Há ética numa escolha.
Há memória numa ausência.
Há identidade numa rejeição.
Há aprendizagem numa dor.
E há, muitas vezes, uma pessoa inteira escondida dentro de uma situação aparentemente pequena.
É isso que me interessa encontrar.
Não quero escrever para demonstrar que sei nomes.
Quero escrever para compreender fenómenos.
E, sobretudo, para os tornar compreensíveis a quem não tem obrigação nenhuma de conhecer a linguagem académica.
Porque uma pessoa não precisa de conhecer o nome de um mecanismo psicológico para reconhecer que está a vivê-lo.
Não precisa de ter estudado filosofia para perguntar pelo sentido da própria vida.
Não precisa de estudar sociologia para perceber que a sociedade influencia aquilo que deseja.
Não precisa de conhecer pedagogia para perceber que uma criança aprende também através da relação.
Não precisa de conhecer psicanálise para reconhecer que há coisas que repetimos sem perceber porquê.
A experiência vem muitas vezes antes do conceito.
A pessoa vive.
Depois tenta compreender.
E é nesse intervalo entre viver e compreender que muita da minha escrita acontece.
Por isso também existe estrutura.
Porque escrever de forma humana não significa escrever de forma desorganizada.
Uma conversa pode ser espontânea.
Mas uma reflexão precisa de arquitectura.
Uma ideia precisa de entrar.
Outra precisa de a desenvolver.
Outra precisa de a contrariar.
Outra precisa de a aprofundar.
E, finalmente, alguma coisa precisa de ficar.
É por isso que um texto pode começar aparentemente simples e terminar numa questão muito maior.
Não é uma sequência aleatória de frases bonitas.
Existe uma progressão.
Existe ritmo.
Existe repetição quando a repetição é necessária.
Existe silêncio entre determinadas frases.
Existe uma pergunta onde quero que o leitor pare.
Existe uma conclusão quando a ideia já percorreu o caminho que precisava de percorrer.
Isso chama-se escrever.
E escrever bem não é encher uma página de palavras difíceis.
É saber quando uma palavra simples é mais exacta do que uma palavra sofisticada.
É saber quando uma frase precisa de respirar.
É saber quando uma ideia deve ser explicada e quando deve simplesmente ser deixada diante do leitor.
É saber que emoção sem estrutura pode transformar-se em desabafo.
E que estrutura sem humanidade pode transformar-se em texto morto.
Eu procuro as duas coisas.
Pensamento e humanidade.
Forma e verdade.
Rigor e proximidade.
Por isso digo “tu”.
Porque quero conversar.
Não quero discursar.
Não quero escrever de cima para baixo.
Não quero colocar-me numa espécie de púlpito imaginário para explicar às pessoas como devem viver.
Eu também estou a aprender.
Também erro.
Também mudo.
Também tenho contradições.
Também há coisas que só compreendi depois de as viver.
Também há coisas que ainda não compreendi.
Por isso digo “nós”.
Porque não me excluo daquilo que observo.
Se escrevo sobre a dificuldade de perdoar, não estou necessariamente a ensinar alguém a perdoar.
Estou a pensar sobre o perdão.
Se escrevo sobre relações, não estou a apresentar uma fórmula para relações perfeitas.
Estou a observar como nos relacionamos.
Se escrevo sobre dor, não estou a dizer que a dor é boa.
Estou a tentar compreender o que fazemos com ela.
Se escrevo sobre dignidade, não estou a afirmar que nunca errei.
Estou a tentar compreender onde termina a cedência saudável e começa o abandono de nós próprios.
E se escrevo sobre felicidade, não estou a prometer que descobri o caminho.
Estou a perguntar se estamos, pelo menos, a caminhar na direcção certa.
É por isso que os textos não são instruções.
São convites.
Convites para pensar.
Para recordar.
Para questionar.
Para reconhecer.
Para discordar.
Até para dizer:
“Não vejo as coisas assim.”
Tudo bem.
Um texto não precisa de produzir concordância para ter cumprido a sua função.
Às vezes basta produzir pensamento.
E talvez esta seja a parte que mais me interessa.
Não quero que quem lê pense como eu.
Quero que pense.
Há uma diferença enorme.
E talvez seja essa a razão pela qual os meus textos procuram falar de coisas tão comuns.
Porque a verdadeira matéria-prima da literatura não precisa de ser extraordinária.
É a vida.
A vida comum.
Aquela que acontece enquanto estamos preocupados com outras coisas.
O café que bebemos sem reparar.
A pessoa que nos abraça.
A mãe que já não podemos abraçar.
O filho que cresce depressa demais.
A amiga que conhecemos há décadas.
A mensagem que não enviámos.
O pedido de desculpa que adiámos.
A relação que mantivemos tempo demais.
A porta que finalmente fechámos.
O medo que ninguém viu.
A vitória que ninguém soube quanto custou.
O silêncio que alguém interpretou mal.
A pequena alegria que quase passou despercebida.
É tudo material de escrita.
Porque uma vida humana é extraordinariamente rica mesmo quando parece absolutamente banal.
E talvez seja por isso que tantas pessoas se reconhecem em temas que, à partida, são genéricos.
Todos já perdemos.
Todos já amámos.
Todos já fomos rejeitados.
Todos já tivemos medo.
Todos já desejámos voltar atrás.
Todos já dissemos alguma coisa que gostaríamos de não ter dito.
Todos já ficámos calados quando devíamos ter falado.
Todos já falámos quando devíamos ter ficado calados.
Todos já sentimos falta de alguém.
Todos já desejámos que alguém ficasse.
Todos já quisemos partir.
Todos já precisámos de ser perdoados.
Todos já precisámos de perdoar.
Todos já nos perguntámos se éramos suficientes.
Todos já olhámos para a vida de alguém e achámos que estávamos atrasados.
Todos já tivemos dias em que ninguém percebeu aquilo que se passava dentro de nós.
É por isso que escrevo.
Não porque tenha vivido tudo.
Não porque saiba tudo.
Não porque tenha respostas para tudo.
Mas porque sou humana entre humanos.
E porque algumas perguntas merecem ser feitas mais do que uma vez.
Talvez a minha escrita seja, no fundo, isso:
uma pessoa a tentar compreender a vida em voz alta.
Às vezes através de uma experiência minha.
Às vezes através de uma história bíblica.
Às vezes através de uma criança.
Às vezes através de uma árvore.
Às vezes através de uma conversa.
Às vezes através de uma dor.
Às vezes através de uma coisa tão simples como um abraço.
Mas sempre com a mesma intenção:
olhar para aquilo que acontece e perguntar o que é que isto nos diz sobre nós?
Por isso, quando encontrares um “tu” num dos meus textos, não procures imediatamente uma destinatária.
Quando encontrares um “ela”, não procures necessariamente uma pessoa.
Quando encontrares um “ele”, não assumes que existe uma história escondida.
E quando encontrares um “nós”, talvez aí esteja precisamente aquilo que quero dizer.
Nós.
As pessoas.
As nossas contradições.
As nossas fragilidades.
A nossa capacidade de amar e ferir.
De cair e reconstruir.
De aprender e repetir.
De perder e continuar.
De sofrer e, ainda assim, encontrar qualquer coisa que nos faça querer ficar.
Não há mistério.
Há linguagem.
Há experiência.
Há observação.
Há pensamento.
Há estrutura.
Há gramática.
E há uma escolha deliberada de não esquecer, enquanto escrevo, aquilo que tantas vezes esquecemos enquanto vivemos:
do outro lado das palavras existe sempre uma pessoa.
E eu escrevo para essa pessoa.
Não para uma estatística.
Não para uma métrica.
Não para um número de visualizações.
Não para uma audiência abstracta.
Para alguém.
Talvez alguém que eu nunca conheça.
Talvez alguém que esteja a ler em silêncio.
Talvez alguém que reconheça uma frase e pense:
“Era isto que eu sentia e não sabia dizer.”
Se isso acontecer, para mim já aconteceu alguma coisa importante.
Porque a originalidade de um texto não está necessariamente em descobrir um sentimento que nunca existiu.
Está, muitas vezes, em conseguir dizer de maneira nova aquilo que milhões de pessoas já sentiram.
Os temas são de todos.
A experiência humana pertence-nos.
O olhar é que pode ser diferente.
E é nesse olhar que começa a escrita.
Por isso escrevo assim.
Não há código.
Não há mensagens escondidas em cada “tu”.
Não há uma pessoa específica por detrás de cada frase.
Há uma mulher a pensar, a observar, a recordar, a aprender e a escrever.
E há, do outro lado, alguém que talvez esteja a fazer exactamente o mesmo.
É apenas isso.
Uma conversa humana.
Com gramática.
Com estrutura.
Com pensamento.
Com emoção.
E, acima de tudo, com gente lá dentro.
E, se ainda assim não compreenderes, talvez não seja o texto que precise de ser explicado. Talvez precises de ler mais, estudar mais e conhecer melhor a literatura, a gramática e a própria língua que estás a tentar interpretar.
Porque compreender uma escrita também exige conhecimento.
E a nossa língua merece esse respeito.
______________________________________________
© 2014–2026 TeceHistórias (Marisa). Todos os direitos reservados.
Os conteúdos deste blogue, incluindo textos originais, encontram-se protegidos pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC) e demais legislação aplicável. É expressamente proibida a reprodução, cópia, transcrição, adaptação, publicação, distribuição, disponibilização pública ou qualquer forma de utilização, total ou parcial, por qualquer meio ou suporte, sem autorização prévia, expressa e escrita da autora. A utilização não autorizada poderá dar origem a responsabilidade civil e criminal nos termos da lei portuguesa da União Europeia.
Comentários
Enviar um comentário