"Estou cansada"

Estou cansada de uma forma que não sei descrever.

Não é aquele cansaço que se resolve com uma noite de sono, umas férias, um fim de semana sem obrigações ou uma manhã em que ninguém nos pede nada.

É outro.

É um cansaço que parece ter chegado a um lugar onde as palavras já não chegam.

Não é o ruído constante da cabeça. Esse conheço-o há demasiado tempo. Aprendi cedo a viver com pensamentos que não fazem fila, com perguntas que chegam todas ao mesmo tempo, com aquela espécie de tumulto interior que, para quem olha de fora, nem sequer existe.

Aprendi a funcionar dentro dele.

O corpo também continua.

Mesmo quando dói.

Mesmo quando está cansado.

Mesmo quando pede uma pausa que quase nunca lhe concedo.

Continua.

Levanta-se.

Anda.

Faz.

Cuida.

Responde.

Sorri quando é preciso.

Não é infelicidade.

Essa seria, talvez, uma explicação demasiado simples.

Sou amada.

Sei que sou.

Sou feliz.

E não tenho qualquer necessidade de pertencer a todos os lugares, nem de ser escolhida por toda a gente. Há muito que percebi que não se pode construir uma vida inteira à procura de aprovação.

Então, o que é isto?

Não sei.

Ou sei e não quero escrever.

Talvez existam verdades que, quando finalmente ganham forma, se tornam demasiado reais.

E talvez eu esteja cansada precisamente de tornar tudo real.

Passei demasiado tempo a compreender.

A antecipar.

A reparar.

A proteger.

A encontrar alternativas quando parecia não existir nenhuma.

A bater a portas.

A esperar que alguém abrisse.

A aceitar que algumas permaneceriam fechadas.

E há qualquer coisa profundamente desgastante em descobrir, repetidamente, que nem toda a insistência abre uma porta.

Às vezes apenas nos deixa com as mãos cansadas.

O coração já parou uma vez.

E eu voltei.

Voltei porque havia alguém que ainda precisava de me conhecer mais tempo.

Voltei porque quero ver o meu filho crescer.

Quero vê-lo chegar à maioridade.

Quero saber que homem será.

Quero conhecer as suas escolhas, os seus amores, os seus erros, as suas conquistas, as coisas que hoje ainda não consigo sequer imaginar.

Há uma parte de mim que quer assistir a tudo isso.

E há outra, muito cansada, que olha para a própria vida e pensa:

já vivi tanto.

quero simplesmente descansar.

Talvez esta seja a contradição mais difícil de explicar.

Podemos amar profundamente a vida de alguém e, simultaneamente, estar exaustos da nossa própria existência.

Podemos ter amor à nossa volta e sentir, ainda assim, que dentro de nós existe uma divisão silenciosa.

Podemos reconhecer tudo aquilo que temos e não conseguir transformar esse reconhecimento em força suficiente para mais um combate.

E não é ingratidão.

Nem sempre quem está cansado quer morrer.

Às vezes queremos mesmo terminar, escolher o dia a hora e como.

Às vezes queremos apenas deixar de ter de lutar daquela maneira.

Queremos que alguma coisa pare.

Queremos silêncio.

Queremos descanso.

Queremos deixar de sentir que precisamos de encontrar constantemente uma solução para tudo aquilo que parece não ter solução.

E talvez seja por isso que, por vezes, observo a minha vida e penso em coisas que provavelmente ninguém compreenderia.

Tenho uma família que se amam.

Eu e meu marido nos respeitamos.

Na minha casas existe cumplicidade.

E penso no modo como, perante determinadas portas fechadas, a minha existência pode parecer mais uma variável a complicar uma equação que já é difícil. Se eu deixasse de existir tudo era mais fácil. Esta sociedade é assim.

Esse pensamento assusta-me precisamente porque parece lógico quando se está muito cansada.

Mas talvez nem tudo aquilo que parece lógico no interior da exaustão seja verdade.

Mas talvez seja verdade.

Talvez seja apenas a mente desesperada por encontrar uma forma de diminuir o peso.

Porque existe uma diferença entre querer desaparecer e querer que a dor desapareça, que as soluções sejam para famílias inteiras, não famílias partidas.

E talvez eu esteja cansada demais para saber distingui-las sempre.

Não sei.

Hoje não sei.

Só sei que não quero transformar esta confissão numa declaração de força.

Estou cansada.

É só isso.

Cansada de ter de explicar por que razão continuo.

Cansada de ouvir que sou forte como se a força fosse uma obrigação perpétua.

Cansada de parecer capaz.

Porque há uma crueldade escondida na imagem de quem consegue sempre:

as pessoas esquecem-se de perguntar quanto custa conseguir.

Talvez eu tenha aprendido demasiado bem a sobreviver.

Talvez tenha ficado tão competente a fazê-lo que ninguém percebe quando já não tenho vontade de continuar a desempenhar esse papel.

E há dias em que a maior honestidade que consigo oferecer ao mundo é esta:

eu não sei quanto tempo consigo continuar a ser a mulher que todos imaginam que sou. Sou forte mas também vulnerável.

Mas ainda estou aqui.

E, por enquanto, isso é um facto.

Não uma promessa.

Não uma vitória.

Não uma epifania.

Apenas um facto.

Estou aqui.

E talvez hoje tenha de ser suficiente.

Amanhã logo veremos.

Porque talvez a dignidade não esteja em decidir antecipadamente como termina a nossa história.

Talvez esteja em não permitir que um capítulo escrito pela exaustão seja confundido com o último.

Talvez seja possível parar de lutar contra tudo sem parar de viver.

Talvez seja possível fechar algumas portas sem fechar todas.

Talvez seja possível dizer não.

Talvez seja possível pedir colo sem deixar de ser forte.

Talvez seja possível, finalmente, não resolver nada durante algum tempo.

E talvez exista uma espécie de coragem que ninguém fotografa:

a de permanecer quando não conseguimos imaginar uma razão suficientemente grande para o fazer.

Não sei o que farei com todos os dias que ainda me pertencem.

Hoje não consigo pensar tão longe.

Sei apenas que existe um rapaz que ainda quero ver crescer.

E mesmo que decida desaparecer, será sempre por amor. Prefiro terminar com a minha vida a ver a minha família separada por ter todas as portas fechadas. Assim eles permanecem juntos.

E talvez exista também uma mulher que ainda não conheci completamente.

Talvez seja essa mulher que, um dia, olhe para esta versão de mim e compreenda aquilo que hoje não consigo compreender:

que eu não precisava de terminar a minha história.

Precisava de descansar.

Talvez eu não precise de desaparecer.

Talvez precise, pela primeira vez, de deixar de carregar tudo.

E, por hoje, fico com essa possibilidade.

Não porque tenha encontrado todas as respostas.

Mas porque ainda não encontrei todas as perguntas.

E enquanto houver perguntas,

a história ainda não acabou.

Mas se acabar, não foi infelicidade, dor ou falta de quem caminha ao meu lado. É simplesmente uma decisão minha, é cansaço. É esta sociedade que não quer abrir uma porta a uma família inteira e feliz. 

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