"VIII Escola da Fé"

Liturgia: o que é realmente a Missa?

Depois de estudarmos a Igreja, chegamos agora à Liturgia, uma das áreas fundamentais da Teologia.

E talvez seja aqui que uma das maiores confusões religiosas precise de ser desfeita.

A Missa não é simplesmente uma reunião de pessoas que acreditam em Deus.

Não é uma palestra.

Não é uma aula de moral.

Não é um espectáculo.

Não é um momento para ouvir o padre.

Não é apenas uma oração comunitária.

E também não é uma representação teatral da Última Ceia.

A Liturgia é uma realidade muito mais profunda.

Na compreensão católica, a Liturgia é a acção de Cristo e da Igreja, através da qual o Mistério Pascal é celebrado sacramentalmente e os fiéis são santificados e conduzidos à glorificação de Deus.

Por isso, compreender a Missa exige compreender simultaneamente:

Cristologia.

Eclesiologia.

Pneumatologia.

Sacramentologia.

Soteriologia.

Escatologia.

Teologia bíblica.

Antropologia teológica.

Tudo converge na Liturgia.


O que significa “Liturgia”?

A palavra vem do grego leitourgía.

Na sua origem, referia-se a um serviço realizado em benefício da comunidade.

No contexto cristão, o significado torna-se profundamente teológico.

A Liturgia é o culto público da Igreja.

Mas “público” não significa simplesmente “feito em público”.

Significa que a Igreja, enquanto Corpo de Cristo, participa no culto dirigido a Deus.

A Liturgia não é propriedade privada do sacerdote.

Não é propriedade de uma comunidade particular.

Não pertence a quem preside.

É acção de Cristo e da Igreja.


Quem celebra a Liturgia?

Esta pergunta é fundamental.

Quem celebra a Missa?

A resposta mais profunda é:

Cristo.

O sacerdote preside sacramentalmente à celebração, mas Cristo é o verdadeiro protagonista.

A Igreja participa.

A assembleia participa.

O ministro ordenado exerce o seu ministério.

Mas a Liturgia não depende simplesmente da personalidade do celebrante.

Cristo é o verdadeiro Sumo Sacerdote.

O sacerdote age sacramentalmente in persona Christi — “na pessoa de Cristo” — particularmente no exercício das funções próprias do ministério ordenado.

Isto não significa que o sacerdote se transforme fisicamente em Cristo.

Significa que, sacramentalmente, exerce uma função que representa e torna presente a acção de Cristo Cabeça.


A assembleia litúrgica

A palavra assembleia também é importante.

Os cristãos reúnem-se porque foram convocados.

Não estão simplesmente juntos por acaso.

A comunidade reúne-se:

para ouvir a Palavra;

para celebrar os sacramentos;

para participar no Mistério Pascal;

para louvar Deus;

para dar graças;

para rezar;

para ser enviada em missão.

Por isso, a assembleia não é uma plateia.

É participante.

A Liturgia exige participação.

Mas participação não significa necessariamente falar, cantar ou desempenhar uma função.

Existe participação exterior.

E existe participação interior.

Uma pessoa pode cantar tudo e estar interiormente ausente.

Outra pode permanecer silenciosa e participar profundamente através da oração.

A verdadeira participação é plena, consciente e activa, tanto quanto possível, segundo a natureza da própria celebração.


A Missa e o Mistério Pascal

Agora chegamos ao centro.

A Missa está ligada ao Mistério Pascal:

Paixão.

Morte.

Ressurreição.

Ascensão.

A Igreja não repete a morte de Cristo.

Cristo morreu uma vez por todas.

O sacrifício da cruz não precisa de ser repetido.

Então o que acontece na Eucaristia?

A Liturgia torna sacramentalmente presente o único sacrifício de Cristo.

Não cria outro.

Não acrescenta outro.

Não melhora o da cruz.

Torna presente sacramentalmente o único acontecimento salvífico de Cristo.

É por isso que a Eucaristia possui uma dimensão sacrificial.


Sacrifício

A palavra “sacrifício” pode causar estranheza à mentalidade contemporânea.

Imaginamos frequentemente violência, sangue ou destruição.

Na linguagem bíblica, porém, o sacrifício está relacionado com a oferta a Deus.

No Antigo Testamento existiam diferentes formas de sacrifício.

Com Cristo acontece algo radicalmente novo.

Ele próprio é sacerdote.

É vítima.

E é altar.

Cristo oferece-Se ao Pai.

A cruz é, portanto, o acontecimento sacrificial definitivo.

A Eucaristia não repete essa oferta.

Participa sacramentalmente nela.


A Última Ceia

Para compreender a Missa temos de regressar à Última Ceia.

Jesus reúne os discípulos.

Toma o pão.

Pronuncia a bênção.

Parte-o.

Entrega-o.

Depois toma o cálice.

Fala do seu sangue.

Estabelece uma Nova Aliança.

E diz:

“Fazei isto em memória de Mim.”

Esta frase é fundamental.

A palavra bíblica relacionada com “memória” é muito mais profunda do que simplesmente recordar mentalmente.

No horizonte bíblico, o memorial — anámnesis — torna presente, no culto, a realidade salvífica celebrada.

Não é uma simples lembrança psicológica.

A Igreja celebra o memorial da Páscoa de Cristo.


Anamnese

Encontramos aqui um termo litúrgico essencial:

anamnese.

Significa memorial.

Na Eucaristia, a Igreja recorda sacramentalmente:

a Paixão;

a Morte;

a Ressurreição;

a Ascensão;

e aguarda a vinda gloriosa de Cristo.

Não se trata simplesmente de dizer:

“Há dois mil anos aconteceu isto.”

A celebração insere a assembleia no mistério celebrado.

O passado salvífico torna-se sacramentalmente presente.

E o futuro escatológico é antecipado.

Por isso, a Liturgia possui uma dimensão simultaneamente:

memorial, presença e esperança.


A Liturgia da Palavra

A Missa possui duas grandes partes:

Liturgia da Palavra.

Liturgia Eucarística.

Não são duas celebrações independentes.

Formam uma única acção litúrgica.

Na Liturgia da Palavra, Deus fala.

Escutamos:

primeira leitura;

salmo;

segunda leitura, quando prevista;

Evangelho;

homilia;

profissão de fé;

oração universal.

A Palavra não é um intervalo antes da parte “importante”.

A Liturgia da Palavra é verdadeira Liturgia.

Deus continua a falar à sua Igreja através da proclamação das Escrituras.


A Bíblia proclamada

Existe uma diferença entre ler a Bíblia individualmente e proclamá-la liturgicamente.

Na Liturgia, a Escritura é proclamada perante a assembleia.

A Palavra torna-se acontecimento litúrgico.

É Deus quem fala à comunidade através das Escrituras.

Por isso, o ambão possui importância própria.

Não é simplesmente um suporte para folhas.

É o lugar destinado à proclamação da Palavra.


O Evangelho

Entre as leituras existe uma particular solenidade em torno do Evangelho.

Levantamo-nos.

Cantamos o Aleluia, salvo nos tempos em que não é utilizado.

O Evangelho é proclamado.

Fazemos pequenos sinais da cruz:

na testa;

na boca;

no peito.

O gesto exprime o desejo de que a Palavra esteja:

na nossa mente;

nos nossos lábios;

no nosso coração.

E depois escutamos.

Porque a fé cristã nasce também da escuta.


A homilia

A homilia não deve ser confundida com uma palestra motivacional.

A sua finalidade é relacionar a Palavra proclamada com a vida concreta da comunidade e com o Mistério que está a ser celebrado.

Uma boa homilia não substitui o Evangelho.

Serve o Evangelho.

Não é espaço para o sacerdote falar sobre si.

Não deve transformar-se num comentário político.

Não deve ser simplesmente uma colecção de opiniões pessoais.

Deve ajudar a assembleia a compreender e viver a Palavra de Deus.


O Credo

Depois da homilia, em determinados domingos e solenidades, a assembleia professa a fé.

“Creio…”

Não dizemos apenas:

“Eu penso.”

Dizemos:

“Creio.”

O Credo é uma síntese da fé da Igreja.

É trinitário.

Professa:

o Pai;

o Filho;

o Espírito Santo;

a Igreja;

o Baptismo;

a ressurreição;

a vida eterna.

Assim, a assembleia responde à Palavra com uma profissão pública de fé.


A oração dos fiéis

Depois da profissão de fé, a Igreja intercede.

Pelo mundo.

Pela Igreja.

Pelos governantes.

Pelos que sofrem.

Pelos pobres.

Pelos doentes.

Pelas necessidades da comunidade.

A Igreja não celebra fechada sobre si própria.

A Eucaristia abre o coração ao mundo.

Uma comunidade verdadeiramente eucarística não pode permanecer indiferente ao sofrimento humano.


O Ofertório

Chegamos à preparação dos dons.

Apresentam-se:

pão e vinho.

Mas existe uma dimensão espiritual que ultrapassa os elementos materiais.

A comunidade apresenta a Deus a própria existência.

Trabalho.

Sofrimento.

Alegria.

Família.

Esperança.

Fragilidade.

Tudo aquilo que somos.

O pão e o vinho tornam-se os sinais sacramentais através dos quais a Igreja entra na oferta de Cristo.


A Liturgia Eucarística

Começa então a segunda grande parte da celebração:

Liturgia Eucarística.

Nela encontramos:

preparação dos dons;

oração sobre as oferendas;

Oração Eucarística;

epiclese;

narração da instituição;

aclamação memorial;

oferta;

intercessões;

doxologia;

Pai-Nosso;

rito da paz;

fracção do pão;

comunhão.

Cada elemento possui significado.

Nada deveria ser simplesmente “um conjunto de coisas que fazemos porque sempre fizemos”.

A Liturgia possui uma arquitectura teológica.


A Oração Eucarística

A Oração Eucarística é o centro da celebração eucarística.

É dirigida ao Pai.

A Igreja dá graças.

Recorda a obra de Cristo.

Invoca o Espírito.

Proclama o Mistério.

Oferece Cristo.

Intercede pela Igreja e pelo mundo.

E conclui com a doxologia.

É uma oração profundamente trinitária.


Eucaristia

A palavra Eucaristia vem do grego eucharistía:

acção de graças.

É uma designação profundamente bela.

A Igreja não vai simplesmente “receber a hóstia”.

Vai celebrar a acção de graças ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo.

A Eucaristia é simultaneamente:

sacrifício;

memorial;

presença real;

banquete;

acção de graças;

comunhão;

antecipação escatológica.

Nenhuma destas dimensões deve ser eliminada.


A Epiclese

Outro termo fundamental:

epiclese.

É a invocação do Espírito Santo.

Na Oração Eucarística, a Igreja invoca o Espírito sobre os dons e, em relação à tradição litúrgica e às diferentes formulações, também sobre a assembleia.

Isto mostra novamente aquilo que estudámos anteriormente:

a Eucaristia é trinitária.

O Pai.

O Filho.

O Espírito Santo.

A acção é una.

As Pessoas divinas são distintas.


A Consagração

Chegamos ao momento em que são proclamadas as palavras de Cristo na Última Ceia.

O sacerdote diz:

“Isto é o meu Corpo.”

“Este é o cálice do meu Sangue.”

Aqui encontramos o coração sacramental da Eucaristia.

Segundo a fé católica, pela consagração ocorre a transubstanciação.

Este é um dos termos mais importantes da Teologia Sacramental.


 Transubstanciação

A palavra pode parecer complicada.

Mas a ideia fundamental é esta:

a substância do pão e do vinho é transformada na substância do Corpo e do Sangue de Cristo, enquanto permanecem as aparências sensíveis do pão e do vinho.

Ou seja:

continuamos a ver pão;

continuamos a saborear pão;

continuamos a tocar algo que possui as características do pão.

Mas, pela fé da Igreja, aquilo que é sacramentalmente recebido é verdadeiramente Cristo.

Não se trata de uma transformação química.

Não é uma alteração física detectável por microscópio.

É uma transformação sacramental e ontológica, expressa pela linguagem filosófica da substância e dos acidentes.


Presença Real

Daqui surge outro conceito:

Presença Real.

A Igreja Católica ensina que Cristo está verdadeiramente presente na Eucaristia:

realmente;

verdadeiramente;

substancialmente.

Não apenas simbolicamente.

Não apenas emocionalmente.

Não apenas na memória.

Cristo está presente de modo sacramental.

É por isso que a Eucaristia ocupa uma posição absolutamente central na fé católica.


O que significa “Corpo de Cristo”?

Quando recebemos a Eucaristia, recebemos Cristo.

Mas a expressão “Corpo de Cristo” possui também uma dimensão eclesial.

A Eucaristia une os baptizados ao próprio Cristo e, precisamente por isso, une-os uns aos outros.

São Paulo fala da Igreja como Corpo de Cristo.

A Eucaristia constrói a comunhão.

Daqui vem uma consequência extraordinária:

não podemos comungar Cristo e desprezar sistematicamente o próximo.

A Eucaristia exige conversão.


A Comunhão

A palavra diz tudo:

comunhão.

Comunhão com Cristo.

Comunhão com a Igreja.

Comunhão com os irmãos.

Por isso, aproximar-se da Eucaristia não deve ser um gesto automático.

É uma profissão sacramental de pertença e comunhão.

Daí a importância da disposição interior.

A Igreja ensina a necessidade de estar devidamente disposto para receber a Eucaristia.

A comunhão não é um prémio por sermos perfeitos.

Mas também não deve ser recebida com absoluta indiferença relativamente à vida de fé e à comunhão eclesial.


O pecado e a Eucaristia

Aqui aparece uma ligação entre Liturgia e Moral.

A Eucaristia não substitui a conversão.

Se alguém tem consciência de pecado grave, a disciplina católica indica a necessidade de recorrer primeiro ao sacramento da Reconciliação, salvo situações previstas pela própria disciplina sacramental.

Isto não significa que a Igreja seja uma instituição de pessoas perfeitas.

Significa precisamente o contrário:

somos pecadores que precisam de conversão.


O Pai-Nosso

Depois da Oração Eucarística, a assembleia reza:

“Pai Nosso…”

Não é uma oração colocada ali por acaso.

Depois de celebrarmos o Mistério Pascal e antes de recebermos a comunhão, dirigimo-nos ao Pai com a oração ensinada pelo próprio Cristo.

Mais uma vez:

Cristologia e Liturgia encontram-se.

Rezamos a oração de Jesus.


O rito da paz

A paz litúrgica não é simplesmente:

“Vamos cumprimentar os vizinhos.”

É um gesto que exprime reconciliação e comunhão.

Cristo é aquele que dá a paz.

A comunidade é chamada a viver aquilo que celebra.

Não faria sentido celebrar o Sacramento da unidade e alimentar deliberadamente ódio, desprezo ou divisão.

O gesto é simples.

A exigência é enorme.


A fracção do pão

Outro gesto antigo:

a fracção do pão.

Recorda a prática da comunidade apostólica e as acções de Jesus.

O pão é partido.

O gesto recorda a entrega de Cristo.

E o canto:

“Cordeiro de Deus…”

introduz-nos directamente no mistério sacrificial de Cristo.


O Cordeiro de Deus

Jesus é chamado:

Cordeiro de Deus.

A imagem possui raízes profundas no Antigo Testamento e alcança particular importância no Novo Testamento.

Cristo é apresentado como aquele que tira o pecado do mundo.

A linguagem sacrificial converge aqui.

Mas existe também uma dimensão pascal.

O Cordeiro remete para a Páscoa.

Cristo é o novo Cordeiro Pascal.

A sua entrega inaugura a Nova Aliança.


“Eis o Cordeiro de Deus”

Antes da comunhão, o sacerdote apresenta a Eucaristia e proclama:

“Eis o Cordeiro de Deus…”

A assembleia responde:

“Senhor, eu não sou digno…”

Esta oração possui uma profundidade espiritual enorme.

Reconhecemos:

não somos auto-suficientes;

não conquistamos Deus;

não merecemos a salvação por mérito próprio;

recebemos a graça.

A comunhão é dom.


A bênção e o envio

A Missa não termina simplesmente quando recebemos a comunhão.

Existe a conclusão.

E existe:

o envio.

A própria palavra “Missa” está relacionada com o latim missio, envio.

Aquele que celebrou é enviado.

Aquele que comungou é enviado.

Aquele que escutou a Palavra é enviado.

Aquele que participou no Mistério Pascal é enviado.

Por isso, a Missa não é fuga do mundo.

É preparação para regressar ao mundo transformado pelo Evangelho.


O Ano Litúrgico

A Igreja não celebra todos os mistérios de Cristo de forma aleatória.

Existe um ciclo:

Advento.

Natal.

Quaresma.

Tríduo Pascal.

Páscoa.

Pentecostes.

Tempo Comum.

O Ano Litúrgico não é simplesmente um calendário.

É uma pedagogia da fé.

A Igreja percorre sacramentalmente os mistérios de Cristo.


Advento

O Advento prepara:

a celebração do nascimento de Cristo;

e a esperança da sua vinda definitiva.

Tem, portanto, uma dimensão dupla:

memória da Encarnação;

esperança escatológica.

O cristão vive entre a primeira vinda de Cristo e a expectativa da consumação final.


Natal

No Natal celebramos a Encarnação.

O Filho eterno assume a natureza humana.

Não celebramos simplesmente o aniversário de um bebé extraordinário.

Celebramos um acontecimento cristológico:

Deus entrou na História.

O Verbo fez-Se carne.

O eterno entrou no tempo.

A divindade assumiu a humanidade.

É o coração do mistério da Encarnação.


Quaresma

A Quaresma conduz-nos para a Páscoa.

É tempo de:

oração;

jejum;

esmola;

conversão.

Não é uma competição de sofrimento.

Não é dieta religiosa.

Não é simplesmente deixar de comer alguma coisa.

É um caminho de conversão.

A pessoa é chamada a reconhecer aquilo que precisa de mudar.


Tríduo Pascal

Chegamos ao centro de todo o Ano Litúrgico:

Tríduo Pascal.

Quinta-Feira Santa.

Sexta-Feira Santa.

Sábado Santo.

E a Vigília Pascal.

É aqui que a Igreja celebra o núcleo do Mistério Pascal.

Não é uma simples sequência de cerimónias.

É o centro do ano cristão.


Quinta-Feira Santa

Celebramos particularmente:

a Última Ceia;

a instituição da Eucaristia;

o sacerdócio ministerial;

o mandamento do amor.

Mas existe uma imagem absolutamente decisiva:

Jesus lava os pés aos discípulos.

Aqui encontramos uma definição de autoridade cristã:

serviço.

Quem preside deve servir.

Quem tem poder deve servir.

Quem possui autoridade deve servir.

A Liturgia não pode ser separada da ética.


Sexta-Feira Santa

Celebramos a Paixão do Senhor.

A Igreja não celebra a morte como derrota.

Contempla a entrega de Cristo.

A cruz torna-se o lugar onde se revela a profundidade do amor.

A Liturgia deste dia possui uma sobriedade própria.

A Igreja contempla.

Escuta.

Adora a cruz.

Intercede pelo mundo.


Sábado Santo

É o dia do grande silêncio.

Cristo está no sepulcro.

A Igreja permanece em expectativa.

É um dos momentos mais teologicamente profundos do ano.

Porque existem momentos na vida em que parece que Deus está ausente.

O Sábado Santo possui também essa dimensão:

o silêncio entre a morte e a Ressurreição.


Vigília Pascal

E então:

a noite transforma-se em luz.

O fogo.

O círio pascal.

A proclamação da Páscoa.

As leituras da História da Salvação.

O Baptismo.

A renovação das promessas baptismais.

A Eucaristia.

Tudo converge para uma proclamação:

Cristo ressuscitou.

A morte não venceu.


Pentecostes

Cinquenta dias depois da Páscoa, celebramos:

Pentecostes.

O Espírito Santo manifesta-Se.

A Igreja é enviada.

A missão universal ganha nova força.

O Espírito transforma os discípulos.

E a Liturgia volta a mostrar a sua estrutura trinitária:

o Pai envia o Filho; o Filho realiza a Páscoa; o Espírito torna presente e eficaz a obra de Cristo na Igreja.


O altar

Agora podemos compreender melhor alguns elementos do espaço litúrgico.

O altar não é simplesmente uma mesa.

É o lugar central da celebração eucarística.

Nele se realiza sacramentalmente a celebração do único sacrifício de Cristo.

Por isso, o altar é simultaneamente:

mesa;

lugar de oferta;

sinal de Cristo.

A arquitectura litúrgica também possui teologia.


O ambão

O ambão é o lugar próprio da proclamação da Palavra.

Não é simplesmente “onde se lê”.

Representa a centralidade da Palavra proclamada.

Assim, altar e ambão exprimem duas dimensões inseparáveis:

Palavra e Eucaristia.

Cristo fala à sua Igreja.

Cristo alimenta a sua Igreja.


O sacrário

O sacrário é o lugar onde se conserva a Eucaristia consagrada, especialmente para que possa ser levada aos doentes e para a oração e adoração.

Daí nasce a prática da adoração eucarística.

A Igreja crê na presença real de Cristo na Eucaristia também depois da celebração, enquanto permanecem as espécies consagradas.

Por isso, o sacrário ocupa um lugar de particular reverência.


Genuflexão

A genuflexão diante do Santíssimo Sacramento é um gesto corporal de adoração.

Não adoramos um objecto.

Adoramos Cristo realmente presente na Eucaristia.

É um gesto corporal que exprime uma realidade espiritual:

a pessoa coloca-se diante de Deus.

A Liturgia envolve corpo e alma.


Incenso

O incenso aparece em determinados momentos litúrgicos.

Possui significado simbólico:

oração;

honra;

sacralidade;

adoração.

O Salmo diz:

“Suba até Vós a minha oração como incenso.”

O símbolo torna visível algo invisível.

É uma característica fundamental da linguagem litúrgica.


Silêncio

Talvez um dos elementos mais esquecidos seja:

o silêncio.

O silêncio litúrgico não é ausência de celebração.

É parte da celebração.

Permite:

escutar;

interiorizar;

adorar;

contemplar;

responder.

Uma Liturgia sem qualquer silêncio pode tornar-se uma sucessão de palavras.

E o cristianismo não é apenas falar sobre Deus.

Também é:

escutar Deus.


Música e canto

O canto litúrgico também possui uma função teológica.

Não é simplesmente entretenimento.

A música pode:

sustentar a oração;

proclamar a fé;

unir a assembleia;

acentuar os diferentes tempos litúrgicos;

introduzir no mistério.

Mas nem toda música religiosa é necessariamente música litúrgica.

Uma canção pode ser espiritualmente bela sem ser adequada para determinado momento da Liturgia.

A questão não é apenas:

“É bonita?”

Mas:

“Serve a celebração?”


Participação não é espectáculo

Existe uma diferença enorme entre participação e protagonismo.

A Liturgia não existe para que:

o coro brilhe;

o leitor brilhe;

o padre brilhe;

o comentador brilhe;

ou qualquer pessoa demonstre as suas capacidades.

O centro é Cristo.

Quando todos querem ser protagonistas, Cristo desaparece atrás dos protagonistas.

A verdadeira Liturgia conduz a assembleia para fora de si própria.


Liturgia e estética

A beleza também possui lugar na Liturgia.

Arquitectura.

Música.

Silêncio.

Arte.

Luz.

Incenso.

Paramentos.

Gestos.

Cores.

Tudo pode contribuir para criar uma linguagem simbólica.

Mas a beleza litúrgica não deve transformar-se em espectáculo.

A estética está ao serviço do mistério.

Não é o mistério que está ao serviço da estética.


A Liturgia como antecipação do Céu

Finalmente, chegamos à Escatologia.

A Liturgia terrestre aponta para a Liturgia celeste.

No Apocalipse encontramos:

adoração;

louvor;

Cordeiro;

trono;

santos;

anjos;

cânticos.

A Liturgia terrestre é uma antecipação sacramental da realidade definitiva.

Por isso, quando a Igreja celebra:

o céu e a terra encontram-se sacramentalmente orientados para o mesmo louvor.


Para guardar

A Missa é muito mais do que aquilo que os olhos vêem.

Vemos:

um sacerdote;

uma assembleia;

pão;

vinho;

leituras;

cânticos;

gestos;

silêncio.

Mas a fé afirma uma realidade muito mais profunda.

Na Liturgia:

Cristo age.

A Igreja celebra.

O Espírito santifica.

O Pai é glorificado.

A Palavra é proclamada.

O Mistério Pascal é celebrado.

O sacrifício único de Cristo é tornado sacramentalmente presente.

A Eucaristia é consagrada.

Cristo torna-Se realmente presente.

A Igreja recebe-O na comunhão.

E os fiéis são enviados para viver aquilo que celebraram.

É por isso que a Missa não é simplesmente:

“ir à igreja”.

É entrar no coração do Mistério Cristão.

E agora conseguimos compreender uma frase que, sem esta formação, pode parecer apenas uma fórmula religiosa:

“A Eucaristia é fonte e cume da vida cristã.”

Porque dela parte a vida sacramental e para ela converge.

A Palavra conduz-nos ao Mistério.

O Mistério conduz-nos à comunhão.

A comunhão conduz-nos à missão.

E a missão conduz-nos novamente a Cristo.

Tudo converge para Ele.

Cristo é o centro da Liturgia.

E é precisamente por isso que o próximo passo nos leva a outra cadeira fundamental da Teologia:

Sacramentologia — o que é um sacramento, porque existem sete sacramentos, como actuam, qual a diferença entre sinal e graça, o que significa ex opere operato, e como Baptismo, Confirmação, Eucaristia, Reconciliação, Unção, Ordem e Matrimónio participam na única obra salvadora de Cristo.

Porque, depois de compreender quem é Cristo, quem é a Igreja, quem é o Espírito Santo e o que é a Liturgia, a pergunta seguinte é inevitável:

como é que a graça de Deus chega concretamente à vida humana?

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