"III Escola da Fé"
A Fé: a resposta humana à Revelação de Deus
Depois de compreender o que é a religião e de perceber que, no cristianismo, Deus não é apenas procurado pelo ser humano, mas Se revela e Se dá a conhecer, surge naturalmente a pergunta seguinte:
O que acontece quando o ser humano se encontra diante dessa Revelação?
A resposta é uma das palavras mais importantes de toda a existência cristã:
fé.
Mas fé não significa simplesmente acreditar que Deus existe.
Não significa fechar os olhos perante a realidade.
Não significa aceitar sem pensar.
Não significa repetir aquilo que outros disseram.
E muito menos significa possuir uma certeza psicológica permanente, incapaz de ser atravessada por perguntas, sofrimento ou dúvida.
A fé cristã é uma realidade muito mais profunda.
É resposta livre, racional e existencial do ser humano a Deus que Se revela.
E, precisamente por isso, compreender a fé exige compreender simultaneamente Deus, a Revelação, a liberdade, a razão, a confiança, a graça, a Igreja e Cristo.
O que significa “fé”?
A palavra portuguesa fé vem do latim fides, relacionada com confiança, fidelidade e crédito.
No âmbito bíblico, porém, a realidade é ainda mais rica.
No Antigo Testamento, a ideia de fé encontra-se intimamente relacionada com a raiz hebraica ’mn, de onde provém também a palavra “Amém”.
A ideia fundamental é a de firmeza, confiança, segurança, fidelidade.
Ter fé significa, portanto, apoiar a própria existência numa realidade considerada digna de confiança.
No cristianismo, essa confiança possui um rosto:
Deus.
E possui uma manifestação histórica:
Jesus Cristo.
A fé não é simplesmente acreditar em alguma coisa.
É acreditar em Alguém.
Fé não é opinião
Na linguagem quotidiana dizemos:
“Eu tenho fé que vai correr bem.”
Ou:
“Eu acredito que isto seja verdade.”
Mas estas expressões não correspondem necessariamente àquilo que a teologia entende por fé.
Uma opinião pode ser alterada porque apareceu uma informação nova.
Uma hipótese pode ser abandonada quando surgem argumentos melhores.
Uma preferência pode mudar.
A fé cristã possui outra natureza.
Quando alguém diz:
“Creio em Deus”,
não está simplesmente a afirmar:
“Tenho uma opinião favorável acerca da existência de Deus.”
Está a realizar uma adesão pessoal.
Está a dizer:
“Reconheço Deus como verdadeiro e digno da minha confiança; acolho aquilo que Ele revela e procuro entregar-Lhe a minha existência.”
É uma diferença enorme.
Fé e crença
Também devemos distinguir fé de crença.
Podemos acreditar que uma determinada afirmação é verdadeira sem que isso transforme a nossa vida.
Uma pessoa pode acreditar que existe um determinado país sem nunca ter estado lá.
Pode acreditar que determinada teoria científica está correcta sem que essa convicção tenha qualquer consequência pessoal.
Pode acreditar historicamente que Jesus existiu sem ser cristã.
A fé cristã acrescenta uma dimensão relacional e existencial.
Não basta reconhecer que Jesus existiu.
É necessário confrontar a pergunta:
Quem é Jesus para mim?
É precisamente esta pergunta que percorre os Evangelhos.
Jesus não pergunta aos discípulos apenas se compreenderam os Seus ensinamentos.
Pergunta:
“E vós, quem dizeis que Eu sou?”
Esta pergunta é uma das mais importantes de toda a existência cristã.
Porque a fé começa a tornar-se pessoal quando deixamos de falar apenas sobre Cristo e começamos a responder a Cristo.
Fé e razão não são inimigas
Uma das ideias mais persistentes na cultura contemporânea é a de que acreditar é o contrário de pensar.
Segundo esta visão, temos duas possibilidades:
ou somos racionais;
ou temos fé.
A tradição cristã rejeita esta oposição.
A fé não elimina a inteligência.
E a razão, quando utilizada correctamente, não precisa de destruir a fé.
Pelo contrário.
A inteligência pergunta:
O que significa aquilo em que acredito?
Porque acredito?
É racionalmente defensável?
Que fundamentos possui?
O que significa dizer que Deus existe?
Quem é Cristo?
O que significa a Ressurreição?
Como se formou o cânone bíblico?
Como a Igreja chegou às formulações dogmáticas?
Estas perguntas não são uma ameaça à fé.
Podem ser precisamente a forma através da qual a fé amadurece.
A fé procura compreender
Existe uma expressão clássica da tradição teológica:
“A fé que procura compreender.”
Esta ideia é fundamental.
A fé não é um ponto final no pensamento.
É o início de uma inteligência nova.
Quando uma pessoa ama verdadeiramente alguém, quer conhecê-lo.
Quer compreender a sua história.
Quer conhecer aquilo que pensa.
Quer saber aquilo que o alegra, aquilo que o magoa, aquilo que valoriza.
O amor procura conhecimento.
Na relação com Deus acontece algo semelhante.
Se digo que amo Deus, é legítimo perguntar:
Quero conhecê-Lo?
Quero conhecer a Escritura?
Quero compreender os sacramentos?
Quero perceber a liturgia?
Quero estudar Cristo?
Quero conhecer aquilo que a Igreja realmente ensina?
Quero compreender a história da fé?
Quero saber distinguir doutrina de tradição popular?
Quero perceber onde termina a minha opinião e começa aquilo que pertence à fé da Igreja?
Estas perguntas não tornam a fé menos espiritual.
Podem torná-la mais adulta.
A fé é dom e resposta
Aqui encontramos outra questão essencial.
Se a fé é uma resposta humana, então é apenas resultado do esforço da pessoa?
Não.
A teologia cristã afirma que a fé é simultaneamente dom da graça e resposta livre do ser humano.
Deus toma a iniciativa.
É Ele quem Se revela.
É Ele quem chama.
É Ele quem oferece a graça.
Mas o ser humano é verdadeiramente livre.
Não é programado para acreditar.
Não é obrigado interiormente a amar.
Não é uma máquina religiosa.
Pode responder.
Pode recusar.
Pode procurar.
Pode afastar-se.
Pode voltar.
A fé é, portanto, uma relação extraordinariamente profunda entre graça divina e liberdade humana.
Deus oferece.
O ser humano responde.
A graça não destrói a liberdade
Este ponto merece atenção.
Por vezes imagina-se a graça como uma espécie de força divina que obriga a pessoa a acreditar.
Não é assim.
A graça não transforma o ser humano num autómato.
A graça aperfeiçoa a liberdade.
Na perspectiva cristã, quanto mais verdadeiramente livre uma pessoa é, mais capaz se torna de amar.
E quanto mais capaz de amar, mais capaz é de se entregar livremente.
Por isso, Deus não procura uma fé produzida pelo medo.
A relação com Deus não é uma chantagem cósmica.
“Crê ou serás castigado.”
A fé cristã nasce do encontro com um Deus que chama.
A resposta pode ser:
“Sim.”
Mas esse “sim” só possui verdadeira dignidade porque poderia ter sido “não”.
A fé possui uma dimensão intelectual
A fé cristã contém conteúdos.
Não é simplesmente sentimento religioso.
O cristão não acredita apenas “em algo”.
Acredita em afirmações concretas acerca de Deus, de Cristo, da Igreja, da criação, da salvação e da vida eterna.
É por isso que existe o Credo.
Quando a Igreja professa:
“Creio em Deus, Pai todo-poderoso…”
não está a recitar uma fórmula mágica.
Está a confessar aquilo que acredita.
O Credo funciona, assim, como uma espécie de arquitectura fundamental da fé.
Creio em Deus.
Creio em Jesus Cristo.
Creio no Espírito Santo.
Creio na Igreja.
Creio no Baptismo.
Creio na ressurreição dos mortos.
Creio na vida eterna.
Cada uma destas afirmações contém uma profundidade teológica imensa.
E será precisamente isso que iremos estudar ao longo desta caminhada.
“Creio em” e “creio que”
A linguagem do Credo é particularmente interessante.
Existe uma diferença entre:
“Creio que Deus existe.”
e
“Creio em Deus.”
A primeira afirmação pode significar apenas uma convicção intelectual.
A segunda possui uma dimensão pessoal.
Quando digo:
“Creio em Deus”,
não estou apenas a afirmar uma proposição sobre a existência divina.
Estou a colocar a minha confiança em Deus.
A diferença é semelhante à existente entre dizer:
“Reconheço que determinada pessoa é digna de confiança”
e dizer:
“Confio nela.”
A fé cristã envolve as duas dimensões:
crer que determinadas verdades são verdadeiras;
e crer em Deus, entregando-Lhe a própria vida.
Fé individual e fé da Igreja
Existe hoje uma expressão muito comum:
“Eu tenho a minha fé.”
Há alguma verdade nesta frase.
A fé é pessoal.
Ninguém pode acreditar em meu lugar.
Ninguém pode estabelecer uma relação com Deus em meu nome.
Ninguém pode amar Cristo por mim.
Mas existe aqui um perigo se a expressão for entendida como:
“Eu acredito no que quiser.”
Isso já não corresponde à compreensão católica da fé.
A fé cristã é pessoal, mas não é inventada individualmente.
O cristão recebe uma fé que existia antes dele.
Recebe uma Escritura que não escreveu.
Recebe um Credo que não inventou.
Recebe sacramentos que não criou.
Recebe uma Tradição que atravessou séculos.
Recebe o testemunho apostólico.
Recebe uma comunidade.
Por isso dizemos que a fé é simultaneamente pessoal e eclesial.
Eu creio.
Mas creio com a Igreja.
A Igreja como comunidade de fé
A palavra Igreja vem do grego ekklesía, relacionado com uma assembleia convocada.
Isto já nos diz alguma coisa.
A Igreja não é simplesmente um edifício.
Não é apenas a hierarquia.
Não é apenas o clero.
Não é uma associação religiosa entre outras.
É a comunidade daqueles que foram convocados por Cristo.
A fé cristã possui, portanto, uma dimensão comunitária.
O cristianismo não é originalmente:
“Eu e Deus.”
É:
“Eu, Deus e os irmãos.”
Esta dimensão terá consequências enormes para a Eclesiologia, para a Liturgia, para a Eucaristia e para a própria moral cristã.
Fé e sacramentos
A fé também não existe separada dos sacramentos.
No Baptismo, a pessoa é incorporada sacramentalmente em Cristo.
Na Confirmação, recebe uma efusão particular do Espírito Santo.
Na Eucaristia, participa sacramentalmente do Corpo e Sangue de Cristo.
Na Reconciliação, recebe o perdão sacramental.
No Matrimónio, o amor conjugal é inserido na economia sacramental da salvação.
Na Ordem, existe uma configuração sacramental para o serviço ministerial.
Na Unção dos Enfermos, a Igreja acompanha sacramentalmente a pessoa na doença e fragilidade.
A fé não é, portanto, apenas uma convicção interior.
É celebrada, sacramentalizada e vivida.
Fé e Liturgia
É também por isso que a liturgia não pode ser separada da fé.
A Igreja celebra aquilo em que acredita.
Existe uma expressão latina tradicional:
“Lex orandi, lex credendi.”
A lei da oração é a lei da fé.
Aquilo que a Igreja reza revela aquilo que acredita.
Não é por acaso que a liturgia está repleta de referências à Trindade, à Encarnação, à Ressurreição, à Igreja, à graça, ao pecado, à salvação e à vida eterna.
Quando celebramos, estamos simultaneamente a professar.
A liturgia não é apenas expressão estética da fé.
É também lugar de transmissão e celebração da fé.
Fé e dúvida
E chegamos a uma questão que muitas vezes provoca sofrimento desnecessário:
pode uma pessoa ter fé e dúvidas?
Sim.
Uma dúvida não é automaticamente uma negação da fé.
Há uma diferença entre:
perguntar porque se procura compreender
e
recusar deliberadamente aquilo que se reconhece como verdade.
A própria história bíblica conhece a interrogação, a angústia e a procura.
Os discípulos tiveram medo.
Tomé teve dificuldade em acreditar no testemunho da Ressurreição.
Os Salmos conhecem o grito de abandono.
Jó questiona.
A fé bíblica não é uma experiência psicológica permanentemente estável.
É uma relação que atravessa também a noite.
Por isso, uma pessoa que pergunta não deve necessariamente ser tratada como alguém que perdeu a fé.
Às vezes, a pergunta é precisamente o lugar onde uma fé infantil começa a tornar-se adulta.
Fé e obras
Existe outra questão clássica:
Se a salvação é graça, então as obras são desnecessárias?
Não.
A tradição cristã rejeita tanto a ideia de que o ser humano se salva exclusivamente pelos seus próprios méritos como a ideia de que a fé possa existir sem transformação da vida.
A fé autêntica produz frutos.
Se acredito na dignidade humana, isso deverá transformar a maneira como trato o outro.
Se acredito na misericórdia, isso deverá afectar a minha capacidade de perdoar.
Se acredito no Evangelho, isso deverá interpelar a minha maneira de viver.
Se acredito que Cristo está presente no outro, não posso construir uma vida baseada na indiferença.
A fé que nunca toca a existência corre o risco de permanecer apenas discurso.
A fé como caminho
Não devemos imaginar a fé como um estado psicológico que uma pessoa alcança definitivamente e depois nunca mais interroga.
A fé é também caminho.
Há momentos de grande proximidade.
Há momentos de aridez.
Há momentos de entusiasmo.
Há momentos de silêncio.
Há momentos de compreensão.
Há momentos em que quase tudo parece obscuro.
Há momentos em que a pessoa sente Deus intensamente.
Há outros em que precisa de permanecer fiel sem sentir praticamente nada.
Isto é importante porque sentir Deus não é o mesmo que ter fé.
As emoções religiosas podem ser belas e importantes.
Mas a fé é mais profunda do que a emoção.
Se a fé dependesse permanentemente de sentir alguma coisa, seria extremamente frágil.
A fé pode permanecer mesmo quando o sentimento desaparece.
Fé, esperança e caridade
A tradição cristã fala de três virtudes teologais:
fé, esperança e caridade.
São chamadas teologais porque têm Deus como origem, motivo e finalidade.
A fé permite acolher Deus e a Sua Revelação.
A esperança orienta-nos para a promessa de Deus e para a plenitude futura.
A caridade une-nos a Deus e ao próximo por amor.
Estas três realidades não deveriam ser separadas.
Uma fé sem caridade pode tornar-se fria.
Uma esperança sem fé pode transformar-se numa expectativa vaga.
Uma caridade desligada da verdade pode reduzir-se a sentimentalismo.
A maturidade cristã exige integração.
O maior perigo: pensar que já sabemos
Talvez uma das maiores dificuldades da vida religiosa seja precisamente esta:
confundir familiaridade com conhecimento.
Conhecemos determinadas orações desde crianças.
Conhecemos certas histórias bíblicas.
Sabemos algumas respostas do catecismo.
Reconhecemos os gestos da Missa.
Sabemos o Pai-Nosso.
Reconhecemos a cruz.
Conhecemos imagens de santos.
E podemos ter a sensação de que conhecemos a fé.
Mas a familiaridade pode esconder uma enorme superficialidade.
Posso rezar o Credo durante décadas e nunca ter parado verdadeiramente diante da frase:
“Creio em Jesus Cristo, Seu único Filho, nosso Senhor.”
O que significa “Filho”?
O que significa “único”?
O que significa “Senhor”?
O que significa “Cristo”?
Porque se diz que é Filho?
Porque é Senhor?
Porque a Igreja precisou de Concílios para esclarecer estas afirmações?
Cada palavra abre uma porta.
E atrás de cada porta existe uma biblioteca inteira.
Conhecer para amar
É aqui que esta série encontra novamente o seu princípio.
Para amar, temos de conhecer.
Não porque o amor seja uma actividade intelectual.
Mas porque o amor verdadeiro não se contenta com uma caricatura do amado.
Se amo Cristo, quero conhecê-Lo.
Se quero conhecê-Lo, preciso de conhecer os Evangelhos.
Se quero compreender os Evangelhos, preciso de conhecer o contexto bíblico.
Se quero compreender a Igreja, preciso de conhecer a sua história.
Se quero compreender a Missa, preciso de conhecer a liturgia.
Se quero compreender os sacramentos, preciso de conhecer a sacramentologia.
Se quero compreender a salvação, preciso de estudar a soteriologia.
Se quero compreender quem é Jesus, preciso de entrar na Cristologia.
E quanto mais avançamos, mais percebemos que todas estas disciplinas se interpenetram.
Não estamos perante várias religiões.
Estamos perante diferentes portas de entrada no mesmo mistério cristão.
A fé não termina no conhecimento
Mas existe uma última correcção necessária.
Conhecer muito sobre Deus não significa necessariamente conhecer Deus.
Um teólogo pode conhecer profundamente a história dos dogmas e, ainda assim, ter uma vida espiritual pobre.
Pode dominar o grego bíblico e não amar o próximo.
Pode conhecer Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e os Padres da Igreja e não conseguir perdoar.
Pode saber explicar a Eucaristia e não viver a caridade.
Porque existe uma diferença entre:
conhecer Deus intelectualmente
e
conhecer Deus numa relação viva.
A teologia é extraordinariamente importante.
Mas não substitui a oração.
A oração não substitui a teologia.
A liturgia não substitui a caridade.
A caridade não dispensa a verdade.
Tudo precisa de encontrar o seu lugar.
Para guardar
A fé cristã pode ser compreendida através de uma sequência essencial:
Deus revela-Se.
O ser humano escuta.
A graça torna possível a resposta.
A liberdade responde.
A inteligência procura compreender.
A fé torna-se relação.
A Igreja guarda e transmite aquilo que recebeu.
A liturgia celebra.
Os sacramentos comunicam sacramentalmente a graça.
A vida transforma-se.
E no centro de tudo permanece Cristo.
Por isso, talvez a definição mais simples não seja necessariamente a mais pobre:
ter fé é confiar em Deus porque Deus Se revelou digno de confiança.
Mas, para o cristão, essa confiança não repousa numa ideia abstracta.
Repousa numa história.
Numa promessa.
Numa Aliança.
Numa cruz.
Num túmulo vazio.
Numa comunidade.
E, sobretudo, numa Pessoa.
Jesus Cristo.
É por isso que o próximo passo desta caminhada é inevitável: se a fé cristã é fé em Cristo, precisamos agora de parar diante da pergunta que atravessa todo o cristianismo:
Quem é Jesus Cristo?
É aí que começa verdadeiramente a Cristologia.
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