"Aprendeste a posicionar-te ou aprendeste apenas a agradar?"

Diz-me uma coisa.

Aprendeste realmente a marcar a tua posição na vida?

E não estou a falar de estatuto, de autoridade, de dinheiro, de cargos ou do lugar que ocupas aos olhos dos outros.

Estou a falar de uma coisa muito mais incómoda:

conseguires permanecer fiel a ti própria quando ser fiel a ti própria tem um preço.

Porque enquanto toda a gente concorda contigo, ser coerente é fácil.

Difícil é continuar a sê-lo quando sabes que a tua verdade vai desiludir alguém.

É aí que começa o verdadeiro posicionamento.

Durante muito tempo, talvez tenhas acreditado que viver bem com os outros significava evitar conflitos a qualquer preço.

Concordar.

Compreender.

Perdoar.

Ceder.

Calcular as palavras.

Engolir determinadas opiniões.

Fingir que não viste.

Fingir que não ouviste.

Fingir que não te incomodou.

E há momentos em que isto é apenas diplomacia.

Todos precisamos dela.

Ninguém vive em sociedade dizendo tudo o que pensa, exactamente como pensa, a toda a hora.

Existe prudência.

Existe educação.

Existe respeito pelo momento, pelo contexto e pela sensibilidade dos outros.

Mas existe uma fronteira.

E é uma fronteira que, quando ultrapassada demasiadas vezes, começa a cobrar-nos uma factura interior muito mais elevada do que imaginávamos.

Porque, por mais que custe admiti-lo, quando a tua necessidade de estar bem com toda a gente se torna superior à necessidade de seres verdadeira, deixas de estar apenas a ceder.

Começas a representar.

E representação prolongada pode transformar-se em hipocrisia.

Dizes que gostaste quando não gostaste.

Concordas quando discordas.

Aplaudes aquilo que não admiras.

Dizes que está tudo bem quando sabes perfeitamente que não está.

Fazes silêncio quando deverias falar.

Não porque escolheste prudentemente calar-te, mas porque tens medo das consequências de dizer a verdade.

E, pouco a pouco, a pessoa que os outros conhecem começa a afastar-se da pessoa que tu sabes que és.

É aqui que a questão deixa de ser social.

Passa a ser moral.

Porque uma coisa é proteger alguém de uma verdade desnecessariamente cruel.

Outra é construir uma relação inteira sobre aquilo que não dizes.

Uma coisa é não responder a uma provocação.

Outra é fingires concordância para conservar uma proximidade.

Uma coisa é escolher o momento certo para falar.

Outra é nunca falares porque tens medo de perder o lugar que ocupas.

E há uma diferença enorme entre ser uma pessoa pacífica e ser uma pessoa que precisa de paz exterior para conseguir suportar a própria existência.

A primeira escolhe.

A segunda adapta-se.

E quanto mais se adapta, mais difícil se torna perceber onde termina a consideração pelos outros e começa o abandono de si própria.

Porque ninguém consegue viver indefinidamente contra aquilo que sabe.

Podes calar uma opinião.

Podes esconder uma mágoa.

Podes adiar uma conversa.

Podes fingir durante algum tempo.

Mas não consegues enganar eternamente a pessoa que encontrares quando estiveres sozinha.

Tu sabes.

Sabes quando estás a mentir.

Sabes quando estás a omitir deliberadamente.

Sabes quando estás a dizer “sim” porque tens medo de dizer “não”.

Sabes quando elogias apenas para seres aceite.

Sabes quando defendes uma coisa em público e pensas exactamente o contrário em privado.

E essa distância entre aquilo que mostras e aquilo que sabes que és tem um custo.

Talvez ninguém o veja.

Mas tu vives dentro dela.

É por isso que posicionar-te não significa transformar cada diferença de opinião numa batalha.

Muito pelo contrário.

Uma pessoa verdadeiramente segura de si não precisa de guerrear constantemente para provar que existe.

Pode ouvir.

Pode discordar.

Pode mudar de ideias.

Pode reconhecer que se enganou.

Pode dizer:

“Não sei.”

Pode dizer:

“Tens razão.”

E também pode dizer:

“Não concordo.”

Sem precisar de destruir ninguém.

Isto é fundamental.

Porque há quem confunda posicionamento com agressividade.

Não é.

A agressividade procura dominar.

A firmeza procura não se abandonar.

Há quem confunda dignidade com orgulho.

Também não é.

O orgulho precisa muitas vezes de vencer.

A dignidade precisa apenas de não se trair.

Há quem confunda humildade com submissão.

Também não.

Ser humilde é reconhecer que não somos o centro do universo.

Não é aceitar que os outros se tornem o centro da nossa vida.

E há ainda uma distinção mais difícil:

ser compreensiva não significa tornar-te cúmplice de tudo.

Podes compreender porque alguém age de determinada maneira e, ainda assim, não aceitar o comportamento.

Podes compreender uma ferida e não permitir que essa ferida te seja infligida.

Podes perdoar e estabelecer distância.

Podes amar alguém e dizer não.

Podes respeitar uma pessoa e não querer tê-la perto.

Podes ouvir uma opinião e decidir que não vais viver segundo ela.

Isto é maturidade.

Porque a vida adulta obriga-nos frequentemente a suportar uma verdade desagradável:

nem sempre é possível sermos honestos e simultaneamente agradarmos a toda a gente.

Aliás, talvez nunca tenha sido.

Se disseres sempre aquilo que o outro quer ouvir, acabarás por ter relações onde ninguém conhece verdadeiramente ninguém.

Se nunca discordares, a tua aprovação deixa de ter valor.

Se nunca disseres não, ninguém saberá quando o teu sim é genuíno.

Se nunca estabeleceres limites, até a tua bondade pode ser confundida com disponibilidade ilimitada.

E se estiveres permanentemente preocupada em não desiludir ninguém, podes acabar a viver uma vida inteira a desiludir a única pessoa que não podes abandonar:

tu própria.

É por isso que, a certa altura, crescer implica aceitar que algumas pessoas vão gostar menos de nós.

Não porque tenhamos necessariamente feito alguma coisa errada.

Mas porque deixámos de ser convenientes.

E isto é muito diferente.

Há pessoas que gostam da nossa bondade enquanto ela lhes facilita a vida.

Gostam da nossa compreensão enquanto somos nós a compreender sempre.

Gostam da nossa disponibilidade enquanto somos nós a estar sempre disponíveis.

Gostam da nossa tolerância enquanto somos nós a tolerar.

Mas quando aparece um limite, descobrem uma versão nossa que não conheciam.

E talvez a frase mais honesta seja esta:

não mudaste necessariamente; deixaste de esconder aquilo que sempre esteve lá.

A pessoa que dizia sim a tudo não era obrigatoriamente mais bondosa.

Talvez estivesse apenas mais assustada.

A pessoa que nunca contrariava ninguém não era necessariamente mais pacífica.

Talvez tivesse apenas medo da rejeição.

A pessoa que sorria sempre não era necessariamente mais feliz.

Talvez tivesse aprendido a esconder o desconforto.

E há uma aprendizagem profundamente libertadora no momento em que percebes que não precisas de representar para pertencer.

Podes ser gentil sem ser submissa.

Podes ser firme sem ser cruel.

Podes ser educada sem ser falsa.

Podes ser discreta sem ser omissa.

Podes ser diplomática sem mentir.

Podes proteger a privacidade sem fabricar uma realidade.

Podes não dizer tudo sem dizer o contrário daquilo que pensas.

E podes, sobretudo, aceitar que nem toda a relação merece o preço da tua incoerência.

Porque há relações que sobrevivem à verdade.

E essas são valiosas.

Há relações que se desfazem no instante em que deixamos de representar.

E talvez isso também seja uma resposta.

Não significa que devamos procurar conflitos.

Não significa que devamos dizer tudo sem filtro.

Não significa que cada pensamento mereça ser pronunciado.

A maturidade não é brutalidade.

É discernimento.

É saber o que dizer, a quem dizer, quando dizer e, sobretudo, quando não dizer.

Mas existe uma diferença entre silêncio sábio e silêncio comprado pelo medo.

O primeiro protege.

O segundo aprisiona.

E talvez seja aqui que verdadeiramente começa o posicionamento.

Não quando aprendes a falar mais alto.

Mas quando deixas de precisar de mentir para seres aceite.

Quando já não precisas de fingir entusiasmo.

Quando consegues dizer não.

Quando consegues discordar.

Quando consegues sair de uma conversa sem convencer ninguém.

Quando consegues perder uma aprovação sem perder a tua consciência.

Quando percebes que ser uma pessoa boa não significa ser uma pessoa disponível para tudo.

E quando finalmente compreendes que ser fiel a ti própria não é fazer sempre aquilo que queres.

Às vezes é exactamente o contrário.

É fazer aquilo que sabes ser correcto quando seria muito mais cómodo fazer aquilo que esperam de ti.

É assumir um erro.

É pedir desculpa.

É reparar quando possível.

É mudar quando necessário.

É abandonar uma mentira que já te protegeu.

É reconhecer uma verdade que te incomoda.

É aceitar que também podes ser injusta.

É olhar para ti com a mesma exigência com que olhas para os outros.

Porque posicionamento sem autocrítica transforma-se rapidamente em arrogância.

E fidelidade a nós próprios não pode significar fidelidade aos nossos defeitos.

Também temos de saber mudar.

A pessoa que cresce não é aquela que nunca se contradiz.

É aquela que consegue reconhecer:

“Eu pensava assim. Hoje já não penso.”

Isso também é coerência.

Porque a coerência não consiste em permanecermos iguais.

Consiste em não traírmos aquilo que, naquele momento, reconhecemos como verdadeiro.

E talvez seja essa a forma mais adulta de ocupar um lugar no mundo:

não viver contra os outros,

não viver para os outros,

mas também não viver indiferente aos outros.

Viver com os outros sem deixar de ser nós próprios.

Porque no fim, talvez a pergunta mais importante não seja:

“Será que todos gostam de mim?”

Talvez seja:

“Quando fico sozinha comigo, reconheço a pessoa que estou a ser?”

Se a resposta for sim, não precisas de convencer o mundo inteiro.

Se alguém não compreender o teu limite, isso não o transforma automaticamente em injustiça.

Se alguém não gostar do teu crescimento, não precisas de encolher.

Se alguém preferia a tua versão mais silenciosa, não tens obrigação de voltar a ela.

E se para permanecer num determinado lugar tiveres de mentir, omitir constantemente, representar, fingir concordância e trair aquilo que sabes ser verdade, talvez a pergunta já não seja como conseguir ficar.

Talvez seja:

quanto de mim estou disposta a perder para não perder este lugar?

Porque há lugares que se conquistam.

Há lugares que se merecem.

E há lugares dos quais, por respeito por nós próprios, precisamos simplesmente de sair.

Não para provar nada a ninguém.

Não para vencer.

Não para castigar.

Mas porque chega um momento em que permanecer deixa de ser lealdade.

Passa a ser abandono de nós próprios.

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