"Entre o trabalho, o mundo e o silêncio: a hercúlea arte de viver um verão inteiro"

Este verão é uma aventura de gestão.

E digo-o com um sorriso, porque há alturas da vida em que parece que precisamos de uma agenda, uma bússola, um relógio suplementar e, talvez, de mais umas seis horas por dia para conseguirmos fazer tudo aquilo que gostaríamos. O problema é que eu continuo a trabalhar. Portanto, não tenho propriamente aquele verão idílico em que os dias se estendem infinitamente e podemos decidir, todas as manhãs, o que nos apetece fazer. A vida continua a exigir horários, responsabilidades, compromissos e trabalho.

E, ainda assim, eu quero viver.

Quero aproveitar.

Quero estar com os meus filhos, com o meu marido, com os meus amigos. Quero conhecer lugares, caminhar, ir à praia, fazer canoagem, sair, conversar, rir, jantar fora, tomar cafés demorados, descobrir festas, escrever, pensar, rezar e, sobretudo, ter tempo para estar comigo mesma.

E talvez seja precisamente aí que esteja a verdadeira dificuldade deste verão: não em encontrar coisas para fazer, mas em conseguir conciliar todas as dimensões de mim própria que precisam de espaço.

Porque não sou apenas a mulher que trabalha.

Não sou apenas mãe.

Não sou apenas mulher, esposa, amiga, escritora ou pessoa de fé.

Sou tudo isso ao mesmo tempo.

E cada uma dessas dimensões reclama, de quando em quando, o seu pedaço de tempo.

Por isso, mesmo que nem sempre faça tantas partilhas sobre onde estou, quando vou, o que faço ou por onde passo, a verdade é que muita coisa tem acontecido. Algumas coisas serão partilhadas mais cedo, outras provavelmente mais tarde. E talvez algumas nunca cheguem sequer a ser publicadas.

Há experiências que precisam primeiro de ser vividas antes de serem narradas.

Preciso de lhes dar tempo para assentarem dentro de mim.

Eu própria não gosto da ideia de transformar imediatamente tudo em conteúdo. Há momentos que quero simplesmente guardar. Há paisagens que quero contemplar sem pensar na fotografia. Há conversas que prefiro viver sem imaginar como poderiam ser escritas. Há dias em que quero apenas estar.

E isso também é uma forma de liberdade.

Eu espero pelas férias

Se existe coisa que eu aprecio verdadeiramente, é que cheguem as férias.

Não apenas porque me permitem afastar-me, ainda que temporariamente, do ritmo do trabalho, mas porque me devolvem uma coisa que considero cada vez mais preciosa: tempo de qualidade.

Tempo com os meus filhos.

Tempo com o meu marido.

Tempo com os meus amigos.

Tempo para mim.

Parece simples.

Não é.

O tempo de qualidade exige presença. E estar verdadeiramente presente tornou-se uma das coisas mais difíceis numa vida permanentemente atravessada por notificações, horários, responsabilidades e solicitações.

Por isso valorizo tanto os momentos em que posso simplesmente estar com alguém sem sentir que estou a fazer uma pausa entre duas obrigações.

Uma conversa que se prolonga.

Um jantar.

Um café.

Uma ida à praia.

Um passeio.

Uma tarde na piscina.

Uma caminhada.

Um silêncio partilhado.

São coisas aparentemente pequenas, mas a vida é feita delas.

Uma filha adulta que ainda escolhe estar

Há, neste verão, uma coisa que me toca particularmente.

Tenho uma filha de vinte e três anos que gosta de estar comigo.

E, quanto mais penso nisso, mais percebo o privilégio que existe nesta frase.

Ela é adulta. Tem a sua vida, os seus amigos, o namorado, os seus interesses, os seus próprios planos e uma autonomia que, naturalmente, fui desejando que conquistasse.

E, ainda assim, continua a escolher incluir a família.

Não apenas me inclui a mim: integra a família nas actividades com os amigos e com o namorado.

Isso diz-me muito.

Porque há uma diferença enorme entre a proximidade que nasce da dependência e aquela que nasce da liberdade.

Uma criança está connosco porque precisa de nós.

Um adulto pode estar connosco porque quer.

E eu prefiro mil vezes esta segunda forma de amor.

Não quero filhos que estejam perto porque sentem que devem.

Quero filhos que saibam que podem construir o próprio mundo e, ainda assim, encontrem prazer em abrir-nos a porta desse mundo.

Talvez uma das maiores recompensas silenciosas da maternidade seja precisamente essa: perceber que, depois de tantos anos a ensinar alguém a caminhar sozinho, essa pessoa continua a escolher caminhar algumas vezes ao nosso lado.

Não é uma garantia.

É uma conquista afectiva.

E eu agradeço-a.

E depois há o meu filho

Tenho também um filho de dez anos que continua a querer estar com a família.

Ainda prefere muitas vezes o tempo connosco ao tempo com os amigos.

Tem poucos amigos, mas seleccionados com cuidado.

E há algo de profundamente bonito nisso.

Ele não parece procurar quantidade.

Procura qualidade.

Não precisa de estar rodeado por dezenas de pessoas para sentir que pertence.

E eu gosto de observar isso.

Porque as crianças ensinam-nos muito quando temos a humildade de as observar sem tentarmos imediatamente corrigi-las ou encaixá-las naquilo que imaginamos que deveriam ser.

Ele está a crescer.

E eu sei que, dentro de alguns anos, as coisas serão diferentes.

Os amigos ocuparão naturalmente mais espaço.

A autonomia será maior.

A família continuará a ser importante, espero, mas já não será o centro absoluto.

É assim que deve ser.

Por isso aproveito agora.

Não para o prender.

Mas para estar presente enquanto ele ainda procura a minha mão com tanta naturalidade.

O marido, os amigos e a vida partilhada

E depois existe o meu marido.

A vida conjugal também precisa de tempo.

Não apenas o tempo funcional das tarefas, das contas, da casa, das decisões e da gestão familiar.

Precisa de tempo em que somos simplesmente nós.

Um jantar.

Uma saída.

Uma conversa.

Uma caminhada.

Uma cumplicidade.

Aquela intimidade tranquila de quem já partilhou tantas fases da vida e não precisa de preencher todos os silêncios.

E os amigos têm também o seu lugar.

Há amizades que não precisam de grandes cerimónias. Um café pode bastar. Um jantar pode recuperar semanas de distância. Uma conversa pode devolver uma proximidade que o quotidiano tinha apenas colocado em suspenso.

Tenho aprendido que amizade adulta é também isto: não exigir presença permanente para reconhecer presença verdadeira.

Praia: o corpo também precisa de respirar

Tenho ido para as praias da costa, para o Sado e para outros lugares.

E talvez a praia seja uma das formas mais simples de descanso que existem.

O mar obriga-nos a relativizar.

Há qualquer coisa de profundamente regulador no acto de olhar para uma extensão que não conseguimos dominar.

Ali, durante algum tempo, deixo de pensar em listas.

Não há tarefas.

Há água.

Há horizonte.

Há vento.

Há luz.

Há corpo.

E o corpo, tantas vezes condenado a acompanhar o ritmo da cabeça, finalmente ganha espaço para existir sem ser apenas instrumento de produtividade.

Na praia, nem sempre quero fazer alguma coisa.

Às vezes quero apenas estar.

E isso é importante.

Trilhos: caminhar para fora e para dentro

Depois há os trilhos.

Muitos.

Gerês, Estrela, Luso e tantos outros.

Cada trilho tem uma coisa que gosto particularmente: obriga-me a aceitar o ritmo do caminho.

Não posso apressar uma subida sem pagar o preço disso.

Não posso atravessar uma paisagem sem olhar.

Não posso chegar ao fim sem percorrer o meio.

E talvez seja uma metáfora demasiado evidente para a vida, mas continua a ser verdadeira.

Caminhar ensina-nos que há lugares onde só chegamos porque aceitamos avançar devagar.

O Gerês tem a sua força.

A Estrela tem a sua imponência.

O Luso tem outra espécie de beleza.

E cada lugar deixa qualquer coisa.

Às vezes uma imagem.

Às vezes uma sensação.

Às vezes uma ideia.

Canoagem: quando o equilíbrio deixa de ser apenas uma palavra

Também fomos fazer canoagem.

E ainda iremos.

O dia?

Não sabemos.

E gosto dessa incerteza.

A canoagem tem uma particularidade interessante: obriga-nos a encontrar equilíbrio enquanto avançamos.

Não ficamos imóveis para equilibrar a embarcação.

Aprendemos a equilibrá-la em movimento.

E talvez seja uma das melhores imagens para este verão.

Estou a tentar equilibrar trabalho, família, amigos, escrita, descanso, espiritualidade e vida social enquanto continuo em movimento.

Não existe um momento em que tudo fique perfeitamente equilibrado.

O equilíbrio é dinâmico.

É preciso reajustar constantemente.

Festas, jantares, cafés e a alegria sem necessidade de justificação

Também houve festas medievais.

E festas normais.

Porque nem tudo precisa de ter uma grande finalidade.

Às vezes vamos porque é divertido.

Porque gostamos.

Porque queremos rir.

Porque queremos sair da rotina.

Porque a vida também precisa de leveza.

Depois vêm os jantares.

As saídas.

Os cafés.

As conversas.

As pequenas decisões espontâneas que transformam um dia banal num dia memorável.

E até aquelas tardes em que chego da praia completamente cansada, olho para o meu filho e, em vez de ir descansar, agarro nele e vou para uma piscina em casa de amigas.

É absurdo.

É cansativo.

É maravilhoso.

E, provavelmente, daqui a alguns anos será exactamente esse tipo de episódio que vou recordar com mais ternura.

Mas há uma parte do verão que ninguém vê

E aqui está uma coisa importante.

No meio de tudo isto, eu também preciso de silêncio.

Preciso de solitude.

E solitude não é solidão.

É escolha.

É aquele tempo em que não sou chamada por ninguém.

Em que não preciso de responder.

Em que não preciso de organizar.

Em que não preciso de cuidar.

Em que posso simplesmente existir comigo.

Há momentos em que preciso de fechar a porta, sentar-me com um livro, escrever algumas linhas ou simplesmente ficar em silêncio.

Às vezes escrevo.

Outras vezes não consigo escrever uma palavra.

E isso também é escrita.

Porque há pensamentos que precisam de amadurecer antes de se transformarem em frases.

Há experiências que ainda não sei explicar.

Há emoções que primeiro preciso de compreender.

E há dias em que a melhor coisa que posso fazer pela minha escrita é não tentar escrever.

Ficar quieta.

Observar.

Pensar.

Deixar que alguma coisa se organize dentro de mim.

Porque escrever, para mim, não é apenas produzir texto.

É uma forma de elaboração interior.

Primeiro vivo.

Depois sinto.

Depois penso.

E só muito mais tarde, às vezes, escrevo.

E existe ainda o tempo da oração

Há também momentos em que preciso de outra espécie de silêncio.

O tempo para rezar.

E este tempo não é uma actividade que acrescento à agenda como quem acrescenta mais uma tarefa.

É um espaço diferente.

Um espaço de recolhimento.

De escuta.

De gratidão.

De interrogação.

De entrega.

Às vezes rezo porque tenho alguma coisa para agradecer.

Outras vezes porque tenho alguma coisa que não sei resolver.

E outras simplesmente porque preciso de parar.

A oração devolve-me uma perspectiva que o ruído quotidiano facilmente me rouba.

Quando estou demasiado envolvida nas pequenas urgências da vida, tudo parece enorme.

Quando paro e me recolho, algumas coisas voltam ao tamanho que realmente têm.

Nem sempre encontro respostas.

E talvez a oração nem sequer tenha como finalidade principal dar respostas.

Às vezes serve para nos ensinar a permanecer diante das perguntas sem precisarmos de fugir imediatamente delas.

Há coisas que não resolvo.

Entrego.

Há coisas que não compreendo.

Aceito que, por enquanto, não compreendo.

Há coisas que me inquietam.

Silencio-me diante delas.

E há outras pelas quais simplesmente agradeço.

Porque também é importante reconhecer aquilo que recebemos enquanto ainda o temos.

O meu tempo para pensar

Também preciso de tempo para reflectir.

E esse tempo é diferente da escrita e diferente da oração.

É o espaço onde me observo.

Onde tento perceber porque reagi de determinada maneira.

Porque determinada situação me afectou.

Porque algumas pessoas permanecem e outras deixaram de fazer sentido.

Porque algumas experiências me transformam e outras simplesmente passam.

A reflexão obriga-me a não aceitar imediatamente a primeira explicação que encontro para aquilo que sinto.

E isso, por vezes, é incómodo.

Nem sempre gostamos daquilo que descobrimos quando olhamos honestamente para dentro.

Mas prefiro essa honestidade ao conforto das explicações fáceis.

Talvez seja também por isso que gosto tanto de escrever.

A escrita obriga-me a organizar aquilo que, dentro de mim, aparece inicialmente como confusão.

E quando finalmente encontro uma frase capaz de traduzir aquilo que sentia, alguma coisa se ilumina.

A minha grande corrida

E depois há o trabalho.

Porque tudo isto acontece enquanto continuo a trabalhar.

E isso não pode ser esquecido.

Eu não tenho um verão completamente livre.

Tenho de trabalhar.

Tenho responsabilidades.

Tenho de cumprir.

E é precisamente por isso que esta gestão é tão exigente.

Lembro-me de quando corria do trabalho para a escola.

Corria porque tinha de chegar.

Hoje continuo a correr.

Mas corro também porque quero aproveitar.

Essa diferença parece pequena.

Não é.

Antes corria sobretudo para cumprir obrigações.

Agora corro, muitas vezes, para não perder oportunidades.

Saio do trabalho e vou para a praia.

Da praia posso seguir para uma piscina.

Noutro dia há um jantar.

Noutro, um trilho.

Noutro, canoagem.

Noutro, simplesmente casa.

E há dias em que o meu maior programa é sentar-me sozinha e escrever.

Ou rezar.

Ou não fazer absolutamente nada.

Porque descanso também é actividade.

E silêncio também é tempo vivido.

Não quero fazer tudo. Quero viver o que fizer.

Talvez esta seja a grande aprendizagem deste verão.

Durante muito tempo pensamos que equilíbrio significa conseguir fazer tudo.

Não significa.

Equilíbrio é saber que não podemos fazer tudo e, ainda assim, escolher bem aquilo que fazemos.

Há coisas que ficarão por fazer.

Textos que serão escritos mais tarde.

Lugares que ficarão para outra ocasião.

Convites a que direi que não.

Dias em que o corpo pedirá descanso.

E tudo bem.

Não quero transformar o verão numa competição comigo própria.

Quero vivê-lo.

Quero que exista espaço para o mundo e espaço para o silêncio.

Para os outros e para mim.

Para o movimento e para a contemplação.

Para a gargalhada e para a oração.

Para a praia e para a página em branco.

Para o trabalho e para o ócio.

Para a família e para a solitude.

Porque talvez uma pessoa não seja verdadeiramente inteira quando consegue fazer muitas coisas.

Talvez seja inteira quando consegue dar espaço às diferentes partes de si sem permitir que nenhuma seja completamente esquecida.

E eu quero isso.

Quero os meus filhos.

Quero o meu marido.

Quero os meus amigos.

Quero trabalhar.

Quero escrever.

Quero caminhar.

Quero conhecer.

Quero rir.

Quero rezar.

Quero pensar.

Quero ficar sozinha.

Quero estar acompanhada.

Quero mar.

Quero montanha.

Quero silêncio.

Quero barulho.

Quero dias cheios.

Quero também dias vazios.

E, sobretudo, quero continuar a ter vontade.

Porque talvez a verdadeira riqueza deste verão não esteja na quantidade de coisas que estou a conseguir fazer.

Está na quantidade de coisas que ainda me despertam desejo.

Ainda quero descobrir.

Ainda quero caminhar.

Ainda quero escrever.

Ainda quero aprender.

Ainda quero conversar.

Ainda quero rezar.

Ainda quero olhar.

Ainda quero estar.

E isso, aos meus olhos, é uma forma extraordinária de juventude interior.

Não aquela que depende da idade, do corpo ou da aparência.

Mas aquela que nasce quando ainda somos capazes de nos deixar surpreender pela vida.

Por isso, sim: este verão é uma aventura de gestão.

É trabalho e férias.

É família e amigos.

É praia e montanha.

É canoagem e trilhos.

É festas, jantares e cafés.

É o meu filho de dez anos ainda a querer estar connosco.

É a minha filha de vinte e três anos a escolher incluir-nos no mundo dela.

É o meu marido.

É a escrita.

É a solitude.

É a reflexão.

É a oração.

É o cansaço.

É a alegria.

É a tentativa permanente de equilibrar aquilo que a vida exige com aquilo que a alma pede.

E, no meio de tudo isto, continuo a correr.

Mas já não corro apenas para chegar.

Corro porque há coisas que quero viver enquanto ainda tenho tempo para as viver.

E talvez seja esta a diferença fundamental.

Antes, corria porque a vida me mandava.
Agora, corro porque a vida me chama.

E, por mais cansada que chegue ao fim do dia, há uma coisa que me tranquiliza profundamente:

estou a tentar não deixar a vida acontecer sem mim.

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