"Ela levou-me"

Ultimamente não descrevo um dia, mas hoje tem de ser. Merece ficar e ser partilhado.

Há dias que acontecem e há dias que, de algum modo, ficam.

Não necessariamente porque tenham sido extraordinários aos olhos de quem os vê de fora, mas porque alguma coisa neles nos tocou num lugar que não sabemos nomear imediatamente. São dias que não pedem apenas para ser recordados; pedem para ser guardados. Talvez porque, entre o que aconteceu e aquilo que sentimos, exista uma espécie de verdade que merece não se perder.

Hoje foi um desses dias.

A minha grande amiga levou-me à Serra de São Francisco.

E esta frase, tão simples, contém muito mais do que parece.

Fomos nós as duas e levámos connosco os nossos filhos: o meu, com dez anos, e o dela, com doze. Quatro pessoas, dois adultos e dois rapazes, quatro maneiras de olhar, quatro ritmos, quatro pequenas geografias interiores a percorrer o mesmo caminho. O destino era a serra, mas, olhando agora para trás, percebo que o verdadeiro lugar a que chegámos não se encontra num mapa.

Fomos caminhar.

E há qualquer coisa de profundamente humano em caminhar.

Talvez porque, durante milhares de anos, antes de termos estradas, ecrãs, motores, horários sobrecarregados e a possibilidade de transportar praticamente o mundo inteiro dentro de um bolso, foi assim que o ser humano conheceu a distância, descobriu o território, encontrou outros, procurou alimento, regressou a casa e atravessou fronteiras. Caminhar não é apenas deslocar o corpo. É uma das experiências mais elementares da nossa condição.

Talvez por isso ainda tenha o poder de nos devolver ao essencial.

A Serra de São Francisco, integrada na Grande Rota Arqueológica da Arrábida, recebeu-nos com a sua dureza e a sua beleza. O percurso que fizemos tem cerca de 10,5 quilómetros, atravessando as serras do Louro e de São Francisco, com subidas que exigem das pernas e descidas que nos devolvem algum alento.

Mas há números que explicam muito pouco.

Podemos saber a distância, o desnível, o tempo, a altitude, o ritmo médio. Podemos registar tudo.

O que não conseguimos medir é aquilo que acontece dentro de nós enquanto caminhamos.

E foi isso que hoje me ficou.

No início havia conversa, movimento, curiosidade.

Os rapazes avançavam, voltavam, observavam, perguntavam, descobriam. Tinham aquela capacidade maravilhosa que as crianças ainda conservam de não precisarem de uma grande razão para se interessarem por alguma coisa.

Uma pedra pode ser suficiente.

Uma subida pode transformar-se num desafio.

Uma paisagem pode interromper uma conversa.

Um caminho desconhecido pode tornar-se uma pequena aventura.

Fui observando-os e pensei no privilégio — e na responsabilidade — de acompanhar uma criança enquanto ela aprende a habitar o mundo.

O meu filho tem dez anos. O filho da minha amiga, doze.

Estão naquela idade em que a infância começa lentamente a negociar com a adolescência. Ainda existe neles a espontaneidade da criança, mas já se percebe a aproximação de um outro território: mais consciência, mais autonomia, mais perguntas, mais mundo interior.

E talvez uma caminhada seja uma das formas mais bonitas de acompanhar essa passagem.

Não porque seja necessário transformar cada experiência numa lição, mas precisamente porque não é.

Eles aprendem connosco sem que estejamos sempre a ensinar.

Aprendem quando esperam.

Quando percebem que alguém ficou para trás.

Quando ajudam.

Quando descobrem que nem sempre o caminho mais rápido é o melhor.

Quando percebem que cada corpo tem o seu ritmo.

Quando se cansam e têm de decidir se param ou continuam.

Quando chegam ao fim e olham para trás.

Há uma pedagogia silenciosa no caminho.

E talvez seja uma das mais importantes.

Porque vivemos numa sociedade que ensina demasiado cedo a competir e demasiado pouco a acompanhar. Ensinamos resultados, desempenho, velocidade, comparação. Medimos quase tudo: notas, tempos, classificações, produtividade, seguidores, objetivos atingidos.

A montanha não mede nada disso.

Não quer saber quem chegou primeiro.

Não distingue quem tem mais ou menos.

Não recompensa a pressa.

Apenas permanece.

E obriga-nos, a todos, a negociar com aquilo que somos.

À medida que avançávamos, o silêncio começou a ocupar mais espaço.

Primeiro quase não o notámos.

Depois começou a ouvir-se.

É estranho dizer isto: começou a ouvir-se.

Mas é precisamente assim.

Porque o silêncio da natureza não é ausência de som.

É outra forma de presença.

É o vento a atravessar a vegetação.

É uma ave algures entre as árvores.

É o som dos passos sobre a terra e a pedra.

É a nossa respiração quando a subida aperta.

É o corpo a lembrar-nos que estamos vivos.

E, talvez acima de tudo, é a interrupção daquela torrente permanente de estímulos que tantas vezes nos impede de escutar o que acontece dentro de nós.

Vivemos demasiado acompanhados pelo ruído.

Notificações.

Conversas.

Ecrãs.

Informação.

Opiniões.

Urgências.

Coisas para responder.

Coisas para resolver.

Coisas para antecipar.

Há sempre alguma coisa.

E, quando finalmente surge um espaço vazio, sentimos frequentemente a necessidade de o preencher.

Na serra, aconteceu-me o contrário.

Não senti necessidade de preencher o silêncio.

Deixei-o ficar.

E foi talvez aí que comecei verdadeiramente a caminhar.

Há uma diferença entre andar e caminhar.

Andar é deslocarmo-nos.

Caminhar é estarmos presentes enquanto o fazemos.

Quando caminhamos verdadeiramente, o corpo deixa de ser apenas o instrumento que nos transporta e passa a ser parte da experiência.

Senti os pés.

Senti a inclinação.

Senti a respiração.

Senti o cansaço.

Senti o esforço.

E percebi novamente uma coisa que tantas vezes esquecemos: somos corpo.

Passamos demasiado tempo a viver da cabeça para cima. Pensamos, analisamos, antecipamos, recordamos, interpretamos, preocupamo-nos. Construímos cenários para aquilo que ainda não aconteceu e revisitamos aquilo que já aconteceu, como se pudéssemos, através do pensamento, controlar o tempo.

Depois uma subida obriga-nos a concentrar no próximo passo.

E, por momentos, tudo se simplifica.

Não existe ontem.

Não existe amanhã.

Existe aquele passo.

Depois o seguinte.

E outro.

É quase uma disciplina interior sem disciplina imposta.

O caminho ensina-me aquilo que tantas vezes preciso de reaprender: não tenho de resolver tudo hoje.

Posso simplesmente continuar.

A minha amiga caminhava comigo.

E há uma beleza especial nisso.

Porque existem pessoas com quem precisamos de falar para sabermos que estamos acompanhadas.

E existem outras com quem podemos estar em silêncio e continuar a sentir-nos profundamente acompanhadas.

Ela é dessas pessoas.

Foi ela quem me levou.

E talvez ela não saiba a dimensão dessa frase.

Talvez, para ela, tenha sido um convite simples. Uma ideia. Um programa. Uma caminhada entre amigas com os filhos.

Mas há gestos que não sabem o tamanho que têm quando são oferecidos.

Há pessoas que nos fazem bem sem fazerem grandes discursos sobre o nosso bem-estar.

Não nos interrogam incessantemente.

Não tentam consertar-nos.

Não nos dizem que tudo vai ficar bem.

Simplesmente aparecem.

E, às vezes, um “vamos?” dito no momento certo é uma forma muito bonita de cuidado.

Ela levou-me.

E eu fui.

Fomos conversando.

Fomos rindo.

Fomos ficando em silêncio.

E gostei especialmente dos momentos em que nenhuma de nós precisou de dizer nada.

Porque o silêncio entre duas pessoas pode revelar muito sobre a qualidade de uma relação.

Quando existe desconforto, o silêncio pesa.

Quando existe confiança, o silêncio repousa.

E há amizades em que podemos simplesmente caminhar lado a lado, olhar a mesma paisagem, respirar o mesmo ar e não precisar de transformar cada minuto numa conversa.

Isso, para mim, é intimidade.

Não a intimidade que invade.

A que respeita.

A que permanece.

A que não exige uma versão melhor de nós.

Houve também momentos em que olhei para a paisagem e senti aquela espécie de assombro que a natureza consegue provocar quando deixamos de a olhar apenas como cenário.

A serra não estava ali para nos entreter.

Não precisava de nós.

Não sabia que existíamos.

E, ainda assim, ofereceu-nos a sua beleza.

Há qualquer coisa de profundamente humilde nessa experiência.

Perceber que somos pequenos sem sermos insignificantes.

Que fazemos parte de algo muito maior do que a nossa biografia.

Que antes de nós já havia árvores, pedras, montanhas, vento e céu; e que depois de nós continuará a existir qualquer coisa que não depende da nossa presença.

Essa consciência não me diminui.

Pelo contrário.

Liberta-me da obrigação impossível de ser o centro.

Talvez uma das funções mais discretas da natureza seja precisamente esta: devolver-nos a proporção.

Aquilo que parecia enorme dentro de nós pode tornar-se pequeno diante de uma paisagem.

Não porque os nossos problemas deixem de existir, mas porque deixam de ocupar todo o horizonte.

E enquanto caminhava, pensei na fé.

Não de uma forma estudada, nem como quem procura transformar tudo numa mensagem.

Simplesmente pensei.

Talvez porque o silêncio favoreça perguntas que o ruído não deixa nascer.

A própria linguagem da fé é uma linguagem de caminho.

Há um povo que caminha.

Há pessoas que partem.

Há desertos.

Há montanhas.

Há encontros pelo caminho.

Há quedas.

Há recomeços.

E há, no centro da experiência cristã, um Cristo que caminha ao encontro das pessoas.

Não é uma fé imóvel.

É uma fé que se desloca, que procura, que encontra, que acompanha.

E talvez seja por isso que certas caminhadas tenham uma dimensão espiritual mesmo quando não começamos por lhes atribuir esse propósito.

Porque caminhar é também aprender a confiar no próximo passo.

Nem sempre vemos a totalidade do percurso.

Vemos apenas o suficiente para continuar.

E há uma sabedoria profunda nisso.

Talvez a vida também nos peça frequentemente o mesmo.

Não que saibamos tudo.

Não que controlemos tudo.

Apenas que não desistamos do próximo passo.

Pensei também na maternidade.

Naquilo que queremos deixar nos nossos filhos.

Não apenas conhecimento.

Não apenas competências.

Não apenas boas notas, bons resultados, capacidade de competir e de vencer.

Queremos — ou pelo menos eu quero — que saibam viver.

Que saibam olhar.

Que saibam escutar.

Que saibam esperar.

Que saibam cuidar.

Que saibam reconhecer o outro.

Que saibam pedir ajuda e oferecê-la.

Que não confundam sucesso com superioridade.

Que percebam que ser forte não significa nunca precisar de ninguém.

E talvez seja precisamente em dias como este que lhes damos algumas das aprendizagens mais importantes, sem sequer pronunciarmos uma frase pedagógica.

Eles viram-nos caminhar.

Viram-nos adaptar o passo.

Viram-nos parar.

Viram-nos continuar.

Viram-nos cansar.

Viram-nos apreciar.

Viram-nos estar juntas.

E aprenderam, talvez sem saberem, que a vida não precisa de ser vivida sempre em corrida.

A certa altura, percebi que já não estava a pensar nas horas.

E isso, para mim, foi extraordinário.

O tempo tinha deixado de ser uma coisa que precisava de controlar.

Estava simplesmente a passar.

Como sempre passa.

Mas, nesta tarde, eu estava dentro dele.

Não à frente.

Não atrás.

Dentro.

E talvez seja isso que procuramos tantas vezes sem saber: voltar a sentir que estamos verdadeiramente dentro da nossa própria vida.

Porque podemos estar presentes fisicamente e, ainda assim, viver permanentemente deslocados de nós próprios.

Estamos numa mesa e pensamos no que falta fazer.

Estamos com os filhos e pensamos no amanhã.

Estamos com amigos e respondemos a mensagens.

Estamos de férias e continuamos a trabalhar mentalmente.

Estamos num lugar bonito e pensamos em fotografá-lo antes de realmente o contemplarmos.

A serra não me permitiu essa dispersão.

Ou talvez tenha sido eu que, finalmente, lhe dei menos espaço.

Quando começámos a regressar, senti aquela espécie de cansaço bom que só algumas experiências deixam.

O corpo cansado.

A cabeça mais leve.

A alma — se me permitem a palavra — mais quieta.

Não voltei com respostas.

Voltei com espaço.

E talvez o espaço seja, por vezes, mais importante do que as respostas.

Porque é no espaço que conseguimos voltar a pensar.

Voltei também com gratidão.

Por ela.

Pelos nossos filhos.

Pela possibilidade de caminhar.

Pelo privilégio de ainda poder surpreender-me.

Pela natureza.

Pelo silêncio.

Por esta tarde que não teve de ser extraordinária para se tornar inesquecível.

Talvez um dia os nossos filhos não se lembrem dos 10,5 quilómetros.

Talvez não se recordem da inclinação exacta daquela subida.

Talvez esqueçam o nome de uma árvore, o lugar onde parámos ou a conversa que nos fez rir.

Mas acredito que alguma coisa permanecerá.

Porque a memória não guarda apenas acontecimentos.

Guarda atmosferas.

Guarda sensações.

Guarda a maneira como nos sentimos junto de determinadas pessoas.

E talvez, daqui a muitos anos, um deles volte a uma serra, a um caminho, a um dia de sol e se recorde, sem saber exactamente porquê, de ter caminhado com a mãe e com o amigo.

Talvez se recorde de duas mulheres a conversar.

Talvez se recorde do silêncio.

Talvez se recorde de ter caminhado sem pressa.

E então, sem saber, estará a regressar a este dia.

Hoje não quero apenas guardar uma fotografia.

Quero guardar a experiência.

Porque há fotografias que captam uma paisagem, mas há dias que captam uma parte de nós.

E este captou.

Captou a amizade.

A maternidade.

A infância dos nossos filhos.

O corpo em movimento.

A beleza da serra.

O silêncio.

A natureza.

A simplicidade.

A fé que, às vezes, se aproxima de nós não através de palavras, mas através da contemplação.

E captou sobretudo uma coisa que quero lembrar: há pessoas que entram na nossa vida não apenas para a acompanhar, mas para nos devolverem a determinados lugares de nós próprios.

Ela levou-me.

E talvez seja essa a frase que verdadeiramente quero guardar.

Ela levou-me à serra, mas levou-me também para longe da pressa.

Levou-me para um lugar onde consegui ouvir o que normalmente não ouço.

Levou-me para um lugar onde o mundo não precisava de nada de mim.

Levou-me para junto dela.

Para junto dos nossos filhos.

Para junto da natureza.

Para junto do silêncio.

E, sem saber, levou-me um pouco de volta a mim.

É por isso que hoje tinha de escrever.

Porque há dias que merecem mais do que ser vividos.

Merecem ser lembrados.

E há pessoas que merecem mais do que um simples agradecimento.

Merecem que lhes digamos, mesmo que através de palavras escritas muito depois do caminho ter terminado:

obrigada por me teres levado.

Eu talvez não soubesse que precisava daquele caminho.

Tu soubeste apenas que devíamos ir.

E foste.

E eu fui contigo.

Talvez seja isto, afinal, uma grande amizade: não caminhar sempre à frente, não carregar o outro às costas, não impedir-lhe as subidas, mas reconhecer, de vez em quando, que ele precisa de sair do lugar onde está — e ter a delicadeza de dizer:

vem. Vamos caminhar.

E algumas vezes, basta isso para uma pessoa começar a regressar a casa.


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