"Querida... Amiga"

 Li o que escreveste com muita atenção. E talvez porque te conheço, algumas das tuas palavras ficaram comigo mais tempo do que outras.

A frase que mais me tocou foi precisamente essa: “eu construí isso.”

Porque existe uma solidão que nos acontece e existe outra que, pouco a pouco, vamos construindo à nossa volta. Não necessariamente porque queremos ficar sozinhos, mas porque, em determinados momentos da vida, estar com os outros se torna demasiado difícil, demasiado exigente ou simplesmente demasiado doloroso.

Às vezes afastamo-nos para nos protegermos.

Primeiro deixamos de sair.

Depois deixamos de procurar.

Deixamos de responder.

Deixamos de contar o que nos acontece.

Começamos a habituar-nos ao silêncio.

E, quando damos por nós, aquilo que começou como uma defesa tornou-se uma espécie de casa.

Uma casa estranha, talvez, mas uma casa conhecida.

E o conhecido, mesmo quando dói, pode tornar-se assustadoramente confortável.

Eu compreendo isso talvez mais do que gostaria.

Também houve um momento em que me isolei.

Não porque tivesse deixado de gostar das pessoas, nem porque tivesse decidido que não precisava de ninguém. A minha vida tinha-se tornado tão negra, tão pesada, tão difícil de suportar, que chegou uma altura em que simplesmente parei.

Parei de lutar como tinha lutado até aí.

E quando estamos demasiado tempo a sobreviver, às vezes confundimos o silêncio com paz.

Hoje consigo olhar para esse período com outra compreensão.

Na altura, eu não estava simplesmente a escolher estar sozinha.

Estava cansada.

Estava ferida.

Estava a tentar encontrar alguma forma de existir sem continuar permanentemente em estado de defesa.

Por isso, quando leio aquilo que escreveste, não penso apenas em alguém que “se habituou a estar sozinha”.

Penso em alguém que, provavelmente, encontrou na solidão uma forma de se proteger do mundo.

E há uma coisa importante que quero dizer-te:

não te condenes por teres construído essa distância.

Talvez, em determinado momento, ela tenha sido necessária.

Talvez tenha sido a maneira que encontraste de te manter inteira quando não tinhas força para muito mais.

Mas uma defesa que nos salva num determinado momento pode tornar-se uma prisão se continuarmos a viver dentro dela quando o perigo já passou.

E talvez seja aqui que esteja a parte mais delicada.

Não precisas de passar da solidão para uma vida cheia de pessoas.

Não precisas de te obrigar a sair constantemente.

Não precisas de te transformar noutra pessoa.

Nem sequer precisas de deixar de gostar da tua própria companhia.

Solitude e abandono não são a mesma coisa.

Há uma diferença entre escolher estar contigo própria e perceberes que já não sabes como deixar alguém aproximar-se.

Entre gostares do silêncio e precisares dele porque qualquer proximidade te assusta.

Entre não teres necessidade de muitas pessoas e teres deixado de acreditar que alguém possa verdadeiramente permanecer.

E talvez seja essa a fronteira que mereça ser observada com carinho, sem julgamentos.

Porque eu não quero que sintas que tens de “voltar ao mundo” de uma vez.

Talvez baste uma pessoa.

Uma conversa.

Um café.

Uma mensagem respondida.

Um passeio.

Uma porta entreaberta.

Pequenas coisas.

Às vezes reconstruímos a ligação à vida exactamente assim: não através de grandes gestos, mas através de pequenas experiências que nos recordam que ainda conseguimos pertencer.

E digo-te isto também porque és uma pessoa que eu considero verdadeiramente importante.

Não quero que confundas o facto de te teres habituado à solidão com a ideia de que estás condenada a ela.

Não estás.

Aquilo que construíste também pode ser reconstruído.

Devagar.

Sem violência contra ti própria.

Sem obrigações.

Sem a necessidade de te tornares aquilo que não és.

E há outra coisa que quero que saibas.

Tu não precisas de fazer um esforço extraordinário para merecer companhia.

Não precisas de estar sempre bem.

Não precisas de ser divertida.

Não precisas de ter respostas.

Não precisas sequer de falar.

Há pessoas que podem simplesmente sentar-se ao teu lado e ficar.

E, às vezes, é isso que significa amizade.

Não resolver.

Não pressionar.

Não exigir.

Ficar.

Eu não sei se alguma vez te disse isto exactamente desta maneira, mas quero que saibas que, para mim, não és uma pessoa que precise de se explicar para merecer um lugar.

És minha amiga.

E isso, para mim, não é uma palavra pequena.

Conheço o teu valor.

Conheço a pessoa que és.

E sei que, por detrás desse “estou acostumada”, pode existir muito mais do que aquilo que consegues dizer.

Por isso, não quero que sintas que tens de sair dessa solidão para me provar alguma coisa.

Não tens.

Se quiseres silêncio, eu respeito.

Se quiseres falar, eu escuto.

Se quiseres companhia, estou.

E se durante algum tempo não conseguires fazer absolutamente nada disso, não precisas de transformar essa dificuldade numa culpa.

Só não quero que acredites que o mundo acabou onde a tua porta se fechou.

Porque não acabou.

E talvez, sem sequer perceberes, já exista alguém do outro lado dessa porta que não está a tentar arrombá-la.

Está apenas ali.

Sem pressa.

À espera que um dia te apeteça abri-la um pouco.

E, se esse dia chegar, não precisas de sair completamente.

Basta abrires uma fresta.

Às vezes, é por uma fresta que a luz começa a entrar.

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