"Os sonhos que ainda sabem o meu nome"
Há sonhos que não chegam durante a noite.
Vivem acordados dentro de nós.
Crescem silenciosamente enquanto cumprimos tarefas, respondemos a perguntas, atravessamos dias iguais, sorrimos quando é preciso sorrir e continuamos a fazer aquilo que a vida espera de nós. Não fazem barulho. Não exigem passagem. Permanecem.
Às vezes durante anos.
Talvez seja por isso que os sonhos sejam tão estranhos: não obedecem ao calendário.
Podemos envelhecer, mudar de cidade, mudar de pessoas, mudar de ideias, aprender a viver com aquilo que não conseguimos realizar e, ainda assim, existe dentro de nós uma parte que continua a lembrar-se de uma possibilidade que o tempo não conseguiu apagar.
Não é necessariamente ingenuidade.
Talvez seja memória de futuro.
Uma espécie de lembrança daquilo que ainda não aconteceu, mas que, de alguma maneira, já começou a existir dentro de nós no instante em que o imaginámos.
Porque antes de uma coisa existir no mundo, alguém teve de a conseguir imaginar.
Uma casa foi primeiro uma ideia.
Uma viagem foi primeiro um lugar desconhecido dentro da cabeça de alguém.
Uma obra foi primeiro uma inquietação.
Uma descoberta foi primeiro uma pergunta.
E uma vida diferente começa, muitas vezes, de uma forma muito menos grandiosa do que imaginamos:
com um pensamento que se recusa a desaparecer.
Os meus sonhos não são estrelas distantes.
Alguns estão muito mais perto.
Estão escondidos nas pequenas coisas que continuo a desejar.
Num lugar onde possa respirar sem pressa.
Numa manhã em que o silêncio não pese.
Num abraço que não precise de explicação.
Numa conversa que não tenha de ser interrompida pelo relógio.
No mar diante de mim, não como cenário, mas como aquela imensidão que me recorda que a existência é muito maior do que os problemas que, por vezes, ocupam todo o espaço da nossa cabeça.
Sonho com o vento no rosto porque há qualquer coisa de profundamente libertador em sentir o mundo sem precisar de o controlar.
Sonho com estradas que ainda não percorri.
Com lugares onde ninguém conhece o meu passado.
Com horizontes que não me perguntam quem fui antes de me permitirem descobrir quem posso ser.
E talvez seja isso que procuro quando digo que sonho com liberdade.
Não quero uma vida sem responsabilidades.
Não quero uma existência sem dificuldades.
Não quero uma felicidade artificial, permanentemente iluminada, onde nada dói e ninguém parte.
Quero uma vida em que aquilo que sou não precise constantemente de pedir autorização para existir.
Quero poder mudar de ideias sem sentir que traí quem fui.
Quero poder recomeçar sem ter de justificar eternamente o fracasso anterior.
Quero poder dizer não sem transformar a minha dignidade numa negociação.
Quero poder dizer sim sem medo de perder-me dentro da vontade dos outros.
Quero ser eu.
Não a versão de mim que fica mais confortável aos olhos de quem observa.
Eu.
Com as minhas contradições, a minha história, as minhas cicatrizes, as coisas que aprendi tarde e aquelas que ainda estou a aprender.
Talvez o verdadeiro sonho seja esse.
Não chegar a algum lugar.
Chegar a mim.
Há sonhos que parecem objectivos e, no fundo, são necessidades profundas de pertença, reconhecimento, liberdade ou sentido.
Pensamos que queremos uma determinada casa, quando talvez desejemos segurança.
Pensamos que queremos determinada pessoa, quando talvez desejemos ser escolhidos.
Pensamos que queremos sucesso, quando talvez desejemos finalmente sentir que aquilo que fazemos tem valor.
Pensamos que queremos partir, quando talvez estejamos apenas cansados de permanecer onde deixámos de caber.
Por isso, aprendi a desconfiar um pouco dos meus próprios sonhos.
Não para deixar de sonhar.
Para os compreender.
Porque nem tudo aquilo que desejamos é aquilo de que precisamos.
E nem tudo aquilo que precisamos tem, à primeira vista, a aparência de um sonho.
Há coisas que desejamos porque aprendemos a desejá-las.
Há outras que desejamos porque, em algum lugar profundo de nós, reconhecemos que nos fariam crescer.
Saber distinguir umas das outras talvez seja uma das tarefas mais difíceis de uma vida inteira.
E, mesmo assim, continuo a sonhar.
Não porque acredite que tudo aquilo que imagino me será entregue.
A esperança adulta não funciona assim.
Ela sabe que existem portas que permanecerão fechadas.
Pessoas que não ficarão.
Projectos que fracassarão.
Caminhos que teremos de abandonar.
Desejos que nunca chegarão a transformar-se em realidade.
Mas também sabe que a impossibilidade de um sonho não torna inútil o acto de o ter sonhado.
Há sonhos que não foram feitos para serem alcançados.
Foram feitos para nos revelar.
Mostram-nos aquilo que valorizamos.
Aquilo de que sentimos falta.
Aquilo que não estamos dispostos a perder.
Aquilo que ainda temos coragem de desejar.
E talvez seja essa uma das funções mais bonitas dos sonhos: eles não nos dizem apenas para onde queremos ir.
Dizem-nos quem somos enquanto caminhamos.
Há pessoas que deixam de sonhar muito antes de deixarem de viver.
Continuam a trabalhar.
Continuam a cumprir.
Continuam a pagar contas.
Continuam a responder “está tudo bem”.
Continuam a aparecer nas fotografias.
Mas alguma coisa dentro delas deixou de imaginar.
E uma pessoa pode sobreviver assim durante muitos anos.
O problema é que sobreviver não é o mesmo que viver.
Viver exige alguma abertura ao possível.
Exige ainda sermos capazes de dizer:
E se?
E se houver outro caminho?
E se eu ainda puder aprender?
E se não for demasiado tarde?
E se aquilo que perdi não for a última coisa que vou amar?
E se a pessoa que sou hoje ainda não for a minha versão definitiva?
Gosto dessa pergunta.
Não porque ofereça garantias.
Mas porque deixa uma porta entreaberta.
E às vezes uma porta entreaberta é tudo aquilo de que precisamos para não confundirmos o presente com o destino.
Também aprendi que os sonhos precisam de disciplina.
Sonhar é bonito.
Construir é outra coisa.
Entre a imagem que criamos dentro de nós e a realidade existe trabalho.
Existem escolhas.
Existem renúncias.
Existem manhãs em que não temos vontade nenhuma de continuar.
Existem pequenos passos que ninguém vê.
E existe uma parte pouco romântica da esperança: a persistência.
Não aquela persistência cega que nos obriga a bater eternamente na mesma porta.
Mas a capacidade de continuar a caminhar, mesmo quando o caminho precisa de mudar.
Porque persistir não significa insistir sempre na mesma direcção.
Às vezes, persistir é ter coragem para mudar de estrada.
O sonho permanece.
Nós é que finalmente percebemos que a maneira como estávamos a tentar alcançá-lo nos estava a destruir.
Talvez crescer seja isto também:
aprender a distinguir fidelidade de teimosia.
Há sonhos que precisam de tempo.
Há outros que precisam de coragem.
Alguns precisam de renúncia.
E existem aqueles que precisam simplesmente de ser deixados partir.
Não porque tenham sido falsos.
Mas porque já não pertencem à pessoa em que nos tornámos.
É doloroso reconhecer isso.
Porque também fazemos luto por aquilo que nunca aconteceu.
Há vidas que imaginámos e nunca vivemos.
Pessoas que pensámos que permaneceriam.
Lugares onde acreditámos que chegaríamos.
Versões de nós próprias que julgávamos inevitáveis.
E, ainda assim, podemos agradecer-lhes.
Até aos sonhos que não se cumpriram.
Porque alguns ensinaram-nos a desejar.
Outros ensinaram-nos a esperar.
Outros obrigaram-nos a descobrir que queríamos uma coisa completamente diferente.
E alguns, talvez os mais importantes, ensinaram-nos que a felicidade não estava exactamente onde pensávamos.
Por isso, não quero chegar ao fim da minha vida e descobrir que fui demasiado prudente para viver.
Não quero olhar para trás e encontrar uma colecção de possibilidades que nunca toquei porque passei demasiado tempo a calcular o risco.
Não quero ter protegido tanto o meu coração que ele tenha esquecido como se abre.
Não quero possuir uma vida perfeitamente organizada e profundamente estranha para mim.
Quero ter histórias.
Quero ter memórias que não nasceram de fotografias mas de momentos.
Quero ter amado.
Quero ter errado.
Quero ter aprendido.
Quero ter mudado de opinião.
Quero ter chegado a lugares que um dia me pareceram demasiado distantes.
Quero ter dito sim algumas vezes quando o medo me dizia não.
E quero ter tido a inteligência de dizer não quando o desejo ameaçava destruir aquilo que eu devia proteger.
Quero continuar a surpreender-me.
Talvez esse seja um dos meus maiores sonhos.
Não saber exactamente quem serei daqui a dez anos.
Porque existe uma beleza imensa em não termos de permanecer para sempre a pessoa que fomos aos vinte, aos trinta ou aos quarenta.
A identidade não é uma fotografia.
É uma narrativa em movimento.
Nós escrevemo-nos enquanto vivemos.
Cada perda altera uma frase.
Cada encontro acrescenta uma personagem.
Cada decisão muda uma página.
Algumas pessoas permanecem durante capítulos inteiros.
Outras aparecem apenas numa página e, ainda assim, deixam uma frase que nunca mais esquecemos.
Há capítulos que gostaríamos de apagar.
Não podemos.
E talvez nem devêssemos.
Porque uma história sem conflito seria apenas uma superfície lisa.
São também as rupturas que nos obrigam a perguntar quem somos quando aquilo que nos definia desaparece.
E talvez seja aí que alguns dos sonhos mais importantes nascem.
Não quando tudo está bem.
Mas precisamente quando percebemos que já não queremos continuar a viver da mesma maneira.
Então levantamo-nos.
Nem sempre inteiros.
Nem sempre confiantes.
Às vezes apenas suficientemente cansados da antiga vida para tentarmos uma nova.
E damos um passo.
Depois outro.
E outro.
Até que, sem percebermos exactamente quando aconteceu, aquilo que um dia era apenas imaginação começa a ganhar matéria.
Uma escolha.
Uma viagem.
Uma página escrita.
Uma porta atravessada.
Uma pessoa conhecida.
Um projecto iniciado.
Uma versão nossa que já não pede desculpa por existir.
É assim que os sonhos encontram a realidade.
Não de uma vez.
Aos poucos.
Quase sempre de uma maneira diferente daquela que imaginámos.
Talvez porque a vida tenha uma inteligência própria e, por vezes, saiba construir caminhos que nós nunca teríamos capacidade de desenhar.
Por isso continuo a sonhar.
Não com uma vida perfeita.
Mas com uma vida que faça sentido.
Uma vida onde ainda exista espaço para o espanto.
Para o mar.
Para o vento.
Para o riso.
Para o amor.
Para a amizade.
Para a família.
Para a descoberta.
Para o silêncio.
Para a fé.
Para a liberdade.
Para a possibilidade de, numa manhã qualquer, olhar para o céu e sentir que ainda há alguma coisa em mim que não se rendeu.
Os meus sonhos já não são os mesmos de quando era criança.
E ainda bem.
Alguns morreram.
Outros amadureceram.
Alguns mudaram de nome.
Outros esperaram anos até eu finalmente compreender o que queriam dizer.
Mas há qualquer coisa que permanece.
A vontade de viver uma vida que seja verdadeiramente minha.
E talvez seja essa a estrela que continuo a seguir.
Não a promessa de que um dia terei tudo aquilo que desejo.
Mas a certeza íntima de que enquanto continuar capaz de desejar, imaginar, aprender e recomeçar, ainda não deixei de caminhar.
Talvez nunca exista um momento em que todos os sonhos se encontrem com a realidade.
Talvez a vida não seja esse lugar de chegada que imaginamos.
Talvez seja precisamente o intervalo entre aquilo que fomos e aquilo que ainda podemos ser.
E, se assim for, não quero ter pressa de chegar ao fim.
Quero caminhar.
Quero olhar.
Quero sentir.
Quero aprender.
Quero deixar que alguns sonhos se cumpram e que outros tenham a coragem de morrer.
Quero continuar a criar espaço para aquilo que ainda não conheço.
Porque talvez o mais bonito de sonhar não seja acreditar que, um dia, teremos tudo.
Seja saber que, apesar de tudo o que já vivemos, ainda existe dentro de nós uma parte que olha para o horizonte e consegue dizer:
ainda há qualquer coisa que eu quero viver.
E enquanto houver essa voz, mesmo baixa, mesmo cansada, mesmo quase escondida,
eu continuarei a caminhar.
Porque há sonhos que não precisam de ser alcançados para nos salvarem.
Basta que nos recordem que ainda estamos vivos.
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