"Já tenho a passagem na mão. E há histórias que ainda nem começaram a ser escritas."
Tenho muito para partilhar.
Muito para contar.
E, desta vez, não serão apenas palavras.
Haverá fotografias.
Porque há momentos que consigo explicar, mas há outros que pedem uma imagem. Um lugar, uma rua, uma paisagem, um detalhe aparentemente insignificante, uma expressão, uma luz, qualquer coisa que ficou presa à memória e que, quando chegar a altura de escrever, talvez volte a ganhar vida.
Já tenho a passagem na mão.
E há qualquer coisa de curiosamente reconfortante em ter o regresso marcado.
Porque, por muito interessante que seja conhecer outros lugares, chega sempre aquele momento em que começo a sentir falta de casa.
E eu estou nessa fase.
Tenho saudades de casa.
Saudades das minhas coisas.
Saudades daquela familiaridade que não precisamos de explicar.
E, confesso, até tenho saudades de ouvir português.
É curioso como só percebemos determinadas coisas quando estamos longe.
A nossa língua acompanha-nos sempre, mas quando deixamos de a ouvir à nossa volta, percebemos que ela é muito mais do que um instrumento de comunicação.
É casa.
É reconhecimento.
É aquela sensação imediata de perceber uma conversa sem esforço, uma piada sem tradução, uma expressão que só tem exactamente aquele significado porque pertence à nossa maneira de falar e de sentir.
Há qualquer coisa de profundamente reconfortante em ouvir a nossa língua depois de algum tempo longe.
Talvez seja porque, durante uns instantes, o mundo deixa de exigir tradução.
E eu gosto de descobrir.
Gosto de estar longe.
Gosto de conhecer outras realidades, outras formas de viver, outras paisagens, outros ritmos.
Mas também gosto muito da sensação de voltar.
E já estou a caminho desse regresso.
A passagem está na minha mão.
A viagem ainda está a acontecer, mas uma parte de mim já começou a regressar.
E agora começa outra parte desta história.
Aquela em que tudo o que vivi vai começar a transformar-se em palavras.
Porque eu sei que estes dias vão dar muito texto.
Muito mesmo.
Há coisas que só consigo compreender depois de regressar e me sentar tranquilamente a pensar nelas.
Enquanto estamos a viver, acumulamos imagens.
Depois, quando ficamos sozinhos, começamos a perceber o significado.
É aí que entram as palavras.
Vou contar.
Vou escrever.
Vou seleccionar fotografias.
Vou voltar mentalmente a determinados momentos.
Vou provavelmente rir-me de alguns.
Vou talvez olhar para outros com uma perspectiva completamente diferente daquela que tinha no momento.
Porque viajar não termina necessariamente quando regressamos.
Às vezes, é precisamente aí que começa a verdadeira viagem.
Aquela que fazemos através da memória.
Aquela em que reconstruímos lugares, conversas, pessoas, situações e pequenos acontecimentos que, na altura, pareciam apenas fazer parte do dia.
Depois percebemos que eram precisamente esses detalhes que mereciam ficar.
E eu quero que fiquem.
Não quero simplesmente dizer:
"Fui aqui."
Quero contar como foi estar lá.
O que vi.
O que senti.
O que me surpreendeu.
O que achei estranho.
O que me fez rir.
O que me fez pensar.
O que talvez ninguém repare, mas eu reparei.
Porque é aí que uma viagem deixa de ser apenas um destino e passa a ser uma história.
E fotografias também não faltarão.
Tenho vontade de trazer estes dias para o blogue não como um relatório turístico, mas como aquilo que realmente foram:
dias vividos.
Com tudo o que tiveram de bonito, inesperado, cansativo, divertido, estranho e memorável.
E talvez seja precisamente por isso que ainda não conte tudo.
Há histórias que precisam de algum tempo antes de serem contadas.
Não por segredo.
Por maturação.
Primeiro vive-se.
Depois regressa-se.
Depois olha-se para trás.
E só então se escreve.
Eu já tenho a passagem na mão.
A casa está ali, à minha espera.
E, curiosamente, enquanto me preparo para regressar, sinto duas coisas ao mesmo tempo:
vontade de voltar e vontade de continuar a viver estes dias.
É uma contradição bonita.
Quero casa.
Quero ouvir português.
Quero voltar ao meu lugar.
Mas ainda tenho muito para guardar destes dias.
E vou guardar.
Nas fotografias.
Na memória.
E, sobretudo, nas palavras.
Porque uma coisa eu já sei:
muito texto vai sair daqui.
E provavelmente algumas histórias vão começar precisamente quando eu já estiver em casa, sentada, com tempo para olhar para tudo aquilo que aconteceu e finalmente perceber o que quero contar.
Por agora, fico com a passagem na mão, as saudades de casa a crescer e a sensação de que ainda há muito para viver antes de fechar este capítulo.
Depois...
depois conto-vos tudo.
Com fotografias, histórias, detalhes e, naturalmente, aquela tendência absolutamente saudável que tenho para transformar uma simples experiência numa quantidade pouco razoável de palavras.
Mas, sejamos honestos:
se eu voltasse de uma viagem sem trazer histórias para escrever, é que alguma coisa teria corrido muito mal.
Por isso, aguardem.
Eu volto a casa.
E volto com muito para contar.
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