"Martinho IV: o Centésimo Octogésimo Sétimo Papa da Igreja Católica"
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Após a morte de Nicolau III, a Igreja de Roma elegeu Martinho IV, o centésimo octogésimo sétimo Papa da Igreja Católica e sucessor de Nicolau III na Sé de Pedro.
O seu pontificado decorreu entre 1281 e 1285 e ficou profundamente marcado pela política internacional, pelo conflito entre os Angevinos e a Coroa de Aragão e, sobretudo, pela dramática revolta conhecida como Vésperas Sicilianas.
Origem e formação
Martinho IV nasceu por volta de 1210, em Montpensier, no Reino de França.
O seu nome de nascimento era Simon de Brion.
Era de origem francesa e recebeu uma sólida formação jurídica e eclesiástica.
Antes de chegar ao papado, desempenhou importantes funções junto da corte francesa e na administração da Igreja.
Foi nomeado cardeal em 1261 pelo Papa Urbano IV e tornou-se uma das figuras mais próximas da monarquia francesa.
Eleição ao papado
Após a morte de:
Nicolau III
os cardeais reuniram-se em Viterbo.
As divisões internas dificultaram novamente a eleição.
Depois de vários meses, Simon de Brion foi eleito em 22 de fevereiro de 1281.
Adoptou o nome de Martinho IV.
A sua eleição revelou também a crescente influência francesa na política da Igreja.
Um Papa que não governou de Roma
Uma característica curiosa do seu pontificado é que Martinho IV nunca conseguiu estabelecer-se em Roma.
Depois da sua eleição, preferiu permanecer em Viterbo e posteriormente mudou-se para:
Orvieto
Mais tarde, estabeleceu-se em Perúsia.
A instabilidade política romana dificultava o exercício normal da autoridade papal.
A influência de Carlos de Anjou
Martinho IV era um grande aliado de:
Carlos I de Anjou
Carlos já tinha recebido apoio decisivo dos papas anteriores para conquistar o Reino da Sicília.
Durante o pontificado de Martinho IV, a relação entre o Papa e Carlos tornou-se ainda mais estreita.
O Papa apoiava a política angevina e considerava Carlos um aliado fundamental contra os seus adversários políticos.
A questão de Aragão
Um dos principais adversários de Carlos era:
Pedro III de Aragão
Pedro III tinha ligações dinásticas com a Sicília e apoiava os revoltosos contra o domínio angevino.
Martinho IV apoiou Carlos e acabou por excomungar Pedro III.
Mais do que uma simples disputa religiosa, tratava-se de uma luta pelo controlo político do Mediterrâneo ocidental.
As Vésperas Sicilianas
Em 1282, ocorreu uma revolta decisiva:
Vésperas Sicilianas
A população da Sicília revoltou-se contra o domínio de Carlos de Anjou.
A revolta começou em Palermo e rapidamente se espalhou por grande parte da ilha.
Os sicilianos procuraram apoio de Pedro III de Aragão.
O resultado foi uma profunda transformação política:
a Sicília deixou de estar efectivamente sob o controlo de Carlos de Anjou e passou para a esfera da Coroa de Aragão.
A Cruzada contra Aragão
Martinho IV recusou reconhecer Pedro III como legítimo rei da Sicília.
Em 1284, proclamou uma cruzada contra Aragão.
Foi um acontecimento extraordinário: uma cruzada que não tinha como objetivo combater um poder muçulmano, mas sim um soberano cristão que o Papa considerava inimigo da Igreja e usurpador.
A expedição foi liderada pelo rei francês:
Filipe III de França
A campanha, contudo, fracassou.
A situação militar tornou-se cada vez mais difícil e a expedição terminou com graves perdas para os franceses.
A Igreja e a política europeia
O pontificado de Martinho IV demonstra claramente até que ponto o papado medieval estava envolvido na política europeia.
O Papa não actuava apenas como autoridade espiritual.
Intervinha em:
- sucessões dinásticas;
- alianças internacionais;
- conflitos territoriais;
- legitimidade dos soberanos;
- guerras entre reinos cristãos.
A sua aliança com Carlos de Anjou acabou por envolver directamente a Santa Sé numa das maiores disputas políticas do Mediterrâneo.
Cultura e Dante
Martinho IV ficou também célebre na literatura.
Na:
Divina Comédia
de Dante Alighieri, Martinho IV aparece no Purgatório entre as almas dos que cometeram o pecado da gula.
Dante associa-o, de forma humorística e satírica, à sua conhecida predileção por enguias do lago de Bolsena preparadas com vinho.
É uma das pequenas cenas em que a literatura medieval transforma uma figura papal numa personagem quase caricatural.
Morte
Martinho IV morreu em 28 de março de 1285, em Perúsia.
Foi sepultado na:
Catedral de Perúsia
Foi sucedido por Honório IV.
Legado
Martinho IV deixou um legado controverso.
Por um lado, procurou defender os interesses da Igreja e manter o equilíbrio político favorável ao papado.
Por outro, a sua estreita aliança com Carlos de Anjou tornou a Santa Sé profundamente envolvida no conflito siciliano.
A tentativa de organizar uma cruzada contra Pedro III de Aragão acabou por demonstrar os limites do poder papal quando este entrava directamente nas disputas dinásticas europeias.
Conclusão
Assim, o centésimo octogésimo sétimo Papa da Igreja Católica foi Martinho IV, um pontífice francês profundamente ligado à política da monarquia francesa e aos interesses dos Angevinos. O seu pontificado ficou indissociavelmente ligado às Vésperas Sicilianas, à luta pelo controlo da Sicília e à fracassada cruzada contra Aragão. A sua história revela uma Igreja medieval em que espiritualidade, direito, diplomacia e poder político estavam intimamente entrelaçados — e também demonstra como essa proximidade podia transformar uma decisão papal numa questão capaz de incendiar toda a política europeia.
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