"Nem em sonhos"
Afinal, o blogue não morreu — aparentemente, anda bastante vivo
Hoje abri o blogue.
E fiquei alguns segundos a olhar para o ecrã.
Daqueles segundos em que uma pessoa olha, volta a olhar, confirma se está mesmo a ver bem e começa a desconfiar que talvez tenha aberto outra coisa qualquer.
Mas não.
Era mesmo o meu blogue.
E os números estavam ali.
3.202.062 visualizações desde sempre.
Três milhões, duzentas e duas mil e sessenta e duas.
Confesso: fiquei sem palavras.
E isso, para quem escreve, já é uma ocorrência digna de estudo científico.
Eu, que tenho sempre qualquer coisa para dizer, fiquei simplesmente a olhar.
Hoje: 2.419 visualizações.
Ontem: 2.061.
Este mês: 17.135.
Mês anterior: 18.133.
E, noutra das ferramentas associadas ao blogue, aparecem 4.077 visualizações, com uma subida de 1,5%, e 12 utilizadores activos no momento registado.
E eu confesso que não estava preparada para isto.
Nem um bocadinho.
Porque eu comecei simplesmente a escrever
Não comecei a escrever para conquistar a internet.
Não comecei com uma estratégia empresarial.
Não comecei com uma equipa de marketing.
Não tenho uma agência de comunicação escondida numa cave a trabalhar enquanto eu bebo café.
Não tenho uma sala cheia de especialistas a dizer:
— Marisa, hoje precisamos de publicar às 14h37 porque o algoritmo está particularmente receptivo à introspecção feminina.
Nada disso.
Escrevi.
Escrevi porque precisava de escrever.
Porque sempre gostei de palavras.
Porque há coisas que precisam de sair de dentro de nós para deixarem de ocupar espaço.
Porque algumas experiências precisam de ser pensadas para poderem ser compreendidas.
Porque algumas dores precisam de ganhar linguagem.
Porque algumas ideias não cabem numa conversa de cinco minutos.
Porque há pensamentos que não se dizem bem em voz alta, mas encontram exactamente o lugar certo quando chegam ao papel.
E assim nasceu e cresceu o blogue.
Texto após texto.
Pensamento após pensamento.
Reflexão após reflexão.
Sem grandes pretensões.
E, aparentemente, alguém foi lendo.
Depois outro alguém.
E outro.
E outro.
E, entretanto, chegámos a mais de três milhões de visualizações.
Eu ainda estou a tentar perceber exactamente em que momento isto deixou de ser "um blogue que eu tenho" e passou a ser uma coisa que anda por aí pelo mundo.
E agora vem a parte deliciosamente irónica
Houve quem quisesse fechar o blogue.
Não uma vez.
Foram feitas várias denúncias.
Houve quem decidisse que aquele pequeno espaço de escrita precisava de ser eliminado.
Não sei exactamente o que terá levado determinadas pessoas a gastar tempo, energia e imaginação com isso.
Continuo sem saber.
E talvez seja melhor assim.
Porque há mistérios que ficam muito mais interessantes quando não tentamos resolvê-los.
Ainda hoje não sei que mente brilhante se deu ao trabalho de inventar histórias acerca de um blogue de escrita.
Um blogue.
De escrita.
Não é um cartel internacional.
Não é uma organização secreta.
Não estou a negociar urânio enriquecido através da caixa de comentários.
Estou a escrever.
Mas houve quem aparentemente tivesse decidido que era uma questão suficientemente grave para merecer denúncias.
E aqui começa a parte que eu acho particularmente deliciosa.
Queriam fechar.
Entretanto...
3.202.062 visualizações.
Não sei se isto se chama ironia.
Talvez seja simplesmente estatística com sentido de humor.
E a Google aparentemente também quis conversar
Depois das denúncias, houve verificações.
E foi emitido um certificado que, segundo o que me foi apresentado, comprova que o blogue não apresenta os problemas que lhe estavam a ser atribuídos, nomeadamente situações relacionadas com abuso, malware ou roubo de dados.
Ou seja, fizeram-se acusações.
Verificou-se.
E o blogue continuou ali.
Imperturbável.
A escrever.
Que é, aliás, aquilo que sabe fazer.
Não sei se há alguma moral mais elegante do que esta:
quando não existe aquilo de que nos acusam, às vezes basta deixar que a realidade seja verificada.
Não precisei de fazer uma campanha.Não precisei de andar a convencer ninguém.
Não precisei de publicar um manifesto de 48 páginas intitulado "Eu juro que o meu blogue não é uma ameaça à segurança nacional".
A tecnologia verificou.
Os números continuam a aparecer.
E eu continuo a escrever.
Agora vamos falar das visitas "às escondidas"
E aqui também há uma pequena curiosidade.
Tenho duas ferramentas associadas ao blogue para protecção e contagem.
Não estão ali para me permitir espiar pessoas.
Estão ali para fazer aquilo que as ferramentas de análise fazem: proteger e contabilizar actividade.
Uma delas consegue registar determinados acessos que podem não aparecer da mesma maneira nas estatísticas mais convencionais.
A outra fornece a contagem e análise das visualizações.
Portanto, quando digo que os números são estes, não estou a tirar um número do ar porque achei que ficava bonito.
São números apresentados pelas próprias ferramentas.
E gosto particularmente da ideia de existirem pessoas que talvez pensem:
"Eu entro sem ninguém saber."
Minha querida criatura...
eu não sei quem és.
Mas a estatística provavelmente sabe que alguém entrou.
É diferente.
Não há uma senhora sentada atrás de um computador a dizer:
— Atenção! Entrou novamente a pessoa misteriosa!
Não.
Há números.
E os números têm uma falta de sensibilidade extraordinária.
Não têm opinião.
Não têm ciúmes.
Não fazem intrigas.
Não dizem:
"Eu não gosto muito daquela autora."
Limitam-se a contar.
E, neste caso, estão a contar bastante.
Três milhões de visualizações não são uma coisa pequena
E eu não quero fingir que são.
Seria falsa modéstia.
Claro que me impressiona.
3.202.062.
Quando comecei a escrever, não imaginava isto.
Nem perto.
Se alguém me tivesse dito:
"Um dia, mais de três milhões de visualizações depois..."
Eu provavelmente teria respondido:
"Sim, claro. E amanhã compro uma ilha."
Porque há números que simplesmente não cabem na expectativa que tínhamos quando começámos.
E este é um deles.
Mais de três milhões de vezes alguém abriu, viu, encontrou ou passou por alguma coisa que saiu de dentro da minha cabeça e ganhou forma através das minhas mãos.
Isso é extraordinário.
Não porque três milhões sejam uma medalha.
Mas porque representam três milhões de possibilidades de encontro.
Algumas pessoas terão lido um texto inteiro.
Outras terão ficado apenas alguns segundos.
Algumas terão gostado.
Outras provavelmente terão revirado os olhos.
Outras terão discordado.
Algumas talvez tenham encontrado uma frase exactamente no dia em que precisavam dela.
E há qualquer coisa de profundamente bonita nisso.
Porque escrever é lançar palavras para um lugar onde já não controlamos o que lhes acontece.
E agradeço até às denúncias
Sim.
Vou mesmo agradecer.
Porque, pensando bem, há pessoas que tiveram uma contribuição absolutamente inesperada para a história deste blogue.
Não sei quem são.
Não sei exactamente o que pretendiam.
Não sei quantas vezes denunciaram.
Não sei quanto tempo perderam.
Mas posso deixar uma pequena nota de agradecimento:
Obrigada pelo empenho.
A sério.
Se era para fazer desaparecer o blogue, o resultado ficou um bocadinho aquém do esperado.
Muito aquém.
Aliás, olhando para os números, diria que a operação de encerramento teve um pequeno problema estratégico.
É que o blogue continua aberto.
E tem mais de três milhões de visualizações.
Portanto, talvez seja necessário convocar uma reunião extraordinária para rever o plano.
Sugiro começar pela pergunta:
"E se não conseguirmos fechá-lo?"
É sempre importante ter um plano B.
Obrigada também a quem entrou sem fazer barulho
E aqui está a parte verdadeiramente importante.
Obrigada a quem lê.
A quem volta.
A quem partilha.
A quem encontra um texto por acaso.
A quem chega através de uma pesquisa.
A quem lê durante cinco minutos.
A quem fica meia hora.
A quem lê um texto antigo.
A quem descobre outro.
A quem nunca comentou absolutamente nada, mas continua a aparecer nos números.
A quem entra silenciosamente.
A quem lê sem que eu alguma vez saiba que esteve lá.
Porque, no fundo, é isso que acontece com a escrita.
Há leitores que nunca conhecemos.
Não sabemos o nome.
Não sabemos de onde vieram.
Não sabemos porque chegaram.
E, mesmo assim, estiveram ali.
Isso é uma das coisas mais fascinantes da internet.
Eu escrevo sozinha.
Mas os textos deixam de ser completamente meus no momento em que alguém os lê.
Passam a existir também na experiência de quem os encontrou.
E talvez o maior agradecimento seja este
Obrigada a quem discordou.
Sim, também.
Porque um texto que provoca pensamento nem sempre precisa de produzir concordância.
Às vezes, uma pessoa lê e pensa:
"Não concordo absolutamente com nada disto."
Muito bem.
Já aconteceu qualquer coisa.
Pensou.
Já não é pouco.
Prefiro provocar pensamento a provocar indiferença.
Prefiro uma pessoa que discorde conscientemente de mim a alguém que passe por tudo sem sequer reparar.
E, naturalmente, agradeço muito mais quem lê com carinho.
Mas até a discordância pode ter utilidade.
Desde que não se transforme naquela modalidade particularmente cansativa de comportamento humano em que a pessoa já não discute ideias e passa a inventar histórias sobre quem escreve.
Aí já estamos perante outro género literário.
E, sinceramente, não fui eu que o escrevi.
Hoje olho para estes números de outra maneira
Porque, durante muito tempo, um blogue podia parecer uma coisa pequena.
Um espaço pessoal.
Um conjunto de textos.
Uma espécie de casa feita de palavras.
Mas hoje olho para aquele número:
3.202.062
e penso em tudo aquilo que aconteceu desde o primeiro texto.
Quantas horas.
Quantas páginas.
Quantas ideias.
Quantas revisões.
Quantas vezes escrevi quando não sabia exactamente o que estava a tentar dizer.
Quantas vezes uma experiência se transformou numa reflexão.
Quantas vezes uma reflexão se transformou num texto.
Quantas vezes escrevi apenas porque precisava.
E, algures no caminho, outras pessoas começaram a encontrar esses textos.
E agora tenho uma nova teoria
Talvez não seja preciso ter milhões para fazer alguma coisa chegar longe.
Talvez seja preciso simplesmente continuar.
Continuar quando ninguém está a olhar.
Continuar quando parece que ninguém lê.
Continuar quando uma publicação tem pouco alcance.
Continuar quando pensamos:
"Será que vale a pena?"
Porque a internet tem uma coisa curiosa.
Às vezes, aquilo que parece estar parado está simplesmente a caminhar devagar.
Um texto publicado hoje pode ser encontrado daqui a meses.
Ou anos.
Uma frase que escrevemos num determinado momento pode aparecer perante alguém numa circunstância completamente diferente.
E é por isso que não escrevo apenas para o hoje.
Escrevo também para o desconhecido.
Para a pessoa que ainda não chegou.
Para o leitor que ainda não sabe que existe aquele texto.
Para alguém que talvez venha daqui a cinco anos procurar uma coisa e encontre, por acaso, palavras que escrevi numa tarde qualquer.
Essa possibilidade é maravilhosa.
Portanto, ficam aqui os agradecimentos oficiais
Obrigada aos leitores.
Obrigada aos que partilham.
Obrigada aos que voltam.
Obrigada aos que aparecem todos os dias.
Obrigada aos que aparecem de vez em quando.
Obrigada aos silenciosos.
Obrigada aos comentadores.
Obrigada aos curiosos.
Obrigada aos que chegaram por acaso.
Obrigada aos que procuraram uma coisa e encontraram outra.
Obrigada aos que discordaram.
Obrigada aos que concordaram.
Obrigada aos que leram até ao fim.
Obrigada aos que leram apenas uma frase.
Obrigada aos que recomendaram.
Obrigada aos que levaram uma palavra minha para outro lugar.
Obrigada até aos que decidiram denunciar.
Sim, vocês também.
Não sei exactamente o que pretendiam oferecer, mas aparentemente contribuíram para uma história bastante engraçada.
E, claro, obrigada à tecnologia, que resolveu fazer aquilo que a tecnologia faz melhor: contar.
Porque, no fim, eu posso dizer muita coisa.
Mas os números têm uma vantagem extraordinária:
não precisam de opinião.
Hoje são estes.
3.202.062 visualizações desde sempre.
2.419 hoje.
2.061 ontem.
17.135 este mês.
18.133 no mês anterior.
E numa das ferramentas:
4.077 visualizações e uma subida de 1,5%.
Não sei onde isto vai parar.
E, pela primeira vez, acho que nem quero saber.
Quero continuar a escrever.
Quero continuar a publicar.
Quero continuar a pensar.
E quero continuar a deixar que as palavras façam aquilo que as palavras fazem quando encontram espaço:
andar.
Quanto ao resto...
Bom.
Podem continuar a tentar fechar o blogue, se isso vos fizer particularmente felizes.
Eu, entretanto, vou ali escrever mais um texto.
É que há uma coisa que talvez ainda não tenham percebido:
o blogue não é alimentado por aquilo que dizem dele.
É alimentado por aquilo que eu escrevo.
E enquanto eu tiver coisas para dizer...
há texto.
E, aparentemente, há leitores.
Muitos.
Mais de três milhões deles, pelo menos, em visualizações acumuladas.
Nem em sonhos.
Mas agora que aconteceu?
Obrigada. Mesmo.
E continuem a entrar.
Os que entram pela porta da frente, os que chegam por pesquisa, os que aparecem silenciosamente...
são todos muito bem-vindos.
Só não precisam de fingir que ninguém sabe que entraram.
A estatística é uma senhora extremamente indiscreta. 😏
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