"As raízes não escolhem o solo"

Há raízes que nos deram água.

E há raízes que, apesar de nos terem alimentado, também nos apertaram.

Há árvores que crescem direitas porque encontraram desde cedo espaço, luz e terra suficiente para se expandirem. E há outras que crescem inclinadas, não porque lhes falte vontade de alcançar o céu, mas porque passaram anos a contornar pedras que ninguém via.

Talvez sejamos um pouco assim.

Crescemos a partir de um lugar que não escolhemos.

A família é o nosso primeiro solo.

É ali que chegamos ao mundo antes de possuirmos linguagem para o compreender. É ali que aprendemos, muito antes de sabermos nomeá-lo, se um abraço significa segurança ou se pode desaparecer a qualquer momento; se podemos falar ou devemos permanecer calados; se errar é uma oportunidade para aprender ou uma ameaça; se somos recebidos pelo que somos ou se precisamos de nos transformar para merecer amor.

Antes de sabermos quem somos, alguém nos devolve uma imagem de nós.

E passamos muitos anos a descobrir se essa imagem correspondia realmente àquilo que éramos.

É por isso que a infância não termina necessariamente quando deixamos de ser crianças.

Há experiências que continuam a viver em nós muito depois de termos crescido.

Uma palavra pode atravessar décadas.

Um abandono pode ensinar-nos a desconfiar de todas as despedidas.

Uma humilhação pode transformar-se numa necessidade quase permanente de provar valor.

Uma ausência pode fazer-nos procurar, durante anos, pessoas que finalmente preencham o lugar de alguém que nunca soube ficar.

E, por vezes, confundimos familiaridade com segurança.

Voltamos para aquilo que conhecemos, mesmo quando aquilo que conhecemos nos fez mal.

Não porque sejamos incapazes de compreender.

Mas porque o ser humano possui uma estranha tendência para procurar o conhecido, mesmo quando o conhecido dói.

Há sofrimentos que se tornam tão familiares que quase parecem fazer parte da identidade.

E é aqui que começa uma das batalhas mais silenciosas da vida adulta:

perceber que aquilo que nos aconteceu explica algumas das nossas feridas, mas não pode tornar-se a explicação para tudo aquilo que fazemos.

Porque existe uma diferença enorme entre compreender a origem de uma dor e entregar-lhe o governo da nossa vida.

Compreender é liberdade.

Entregar-lhe o comando é repetição.

A vida, entretanto, encarrega-se muitas vezes de trazer tempestades.

E há tempestades que não chegam para nos ensinar uma lição bonita.

Chegam simplesmente para destruir.

Há casas que julgávamos permanentes e que descobrimos não serem.

Há pessoas que julgávamos incapazes de nos abandonar e que partem.

Há relações que pareciam sólidas até ao momento em que uma única circunstância revela que estávamos, afinal, a viver dentro de uma construção cheia de fissuras.

Há momentos em que a vida arranca o telhado.

E ficamos expostos.

Sem a protecção das certezas.

Sem a arquitectura que nos permitia acreditar que sabíamos como o mundo funcionava.

Mas existe uma coisa extraordinária naquilo que acontece quando o telhado desaparece:

pela abertura que a destruição deixou, podemos finalmente ver o céu.

Não porque a destruição tenha sido boa.

Não foi.

Não precisamos de romantizar o sofrimento para reconhecer aquilo que, por vezes, conseguimos aprender depois dele.

Há perdas que não trazem presentes.

Há dores que não tinham qualquer propósito.

Há acontecimentos que nunca deveríamos ter precisado de atravessar.

E, ainda assim, podemos retirar-lhes alguma coisa que não lhes pertence originalmente: a capacidade de nos reconstruirmos de outra maneira.

É diferente.

Não é agradecer à dor.

É não lhe permitir que tenha a última palavra.

O corpo sabe isto de uma forma quase brutal.

Um osso partido pode voltar a unir-se.

Mas nem sempre volta exactamente à forma anterior.

A reparação deixa marcas.

E talvez seja uma das metáforas mais honestas da existência humana.

Há coisas que se curam sem desaparecer.

Há pessoas que sobrevivem e continuam a carregar partes daquilo que viveram.

Há feridas que deixam de sangrar, mas permanecem sensíveis.

Há lugares dentro de nós onde aprendemos a tocar com mais cuidado.

Isso não significa que estejamos quebrados.

Significa que fomos reparados.

E uma reparação não é uma falsificação do que aconteceu.

É uma nova forma de continuidade.

Por isso, talvez amadurecer não seja tornar-nos pessoas sem cicatrizes.

Talvez seja deixar de confundir cicatriz com incapacidade.

Uma cicatriz diz:

isto aconteceu.

Não diz:

isto continuará a acontecer.

E esta diferença pode mudar uma vida inteira.

O passado merece ser compreendido.

Mas não merece ser transformado em profecia.

Porque se acreditarmos que tudo aquilo que vivemos determina inevitavelmente tudo aquilo que viveremos, deixamos de possuir uma história e passamos a possuir uma sentença.

E nós não somos sentenças.

Somos seres em construção.

Podemos interromper padrões.

Podemos aprender novas formas de amar.

Podemos escolher pessoas diferentes.

Podemos estabelecer limites onde antes existia submissão.

Podemos aprender a dizer não sem culpa.

Podemos receber carinho sem desconfiar imediatamente dele.

Podemos deixar de pedir desculpa por ocupar espaço.

Podemos compreender que não precisamos de repetir a casa onde crescemos para provar que pertencemos a algum lugar.

E talvez uma das formas mais profundas de liberdade seja precisamente esta:

honrar as nossas raízes sem ficarmos presos a elas.

Porque as raízes sustentam.

Mas não foram feitas para impedir o crescimento.

Uma árvore não trai a terra quando cresce para cima.

E nós também não traímos a nossa história quando escolhemos viver de maneira diferente daquela que nos ensinaram.

Podemos amar a nossa família e reconhecer aquilo que nos feriu.

Podemos agradecer o que recebemos sem negar aquilo que nos faltou.

Podemos compreender os nossos pais sem absolver tudo.

Podemos reconhecer que fizeram aquilo que conseguiram e, simultaneamente, admitir que aquilo que conseguiram fazer não foi suficiente para tudo aquilo de que precisávamos.

A maturidade raramente vive nos extremos.

Não exige transformar os nossos pais em monstros para reconhecer as suas falhas.

Nem exige transformá-los em santos para preservar o amor.

Permite-nos dizer:

isto foi bom.

Isto foi mau.

Isto salvou-me.

Isto feriu-me.

Isto recebi.

Isto faltou-me.

Tudo pode ser verdade ao mesmo tempo.

E talvez seja precisamente aí que começa uma relação mais adulta com a própria história.

Porque enquanto precisarmos de escolher entre idealizar o passado ou odiá-lo, continuaremos presos a ele.

A liberdade chega quando conseguimos olhar para trás sem precisar de voltar.

Quando conseguimos dizer:

eu vim daqui, mas não pertenço necessariamente a tudo aquilo que aqui aprendi.

Esta frase contém uma espécie de revolução silenciosa.

Porque há comportamentos que herdamos sem perceber.

Medos que recebemos sem que ninguém no-los tenha explicado.

Silêncios que aprendemos a interpretar.

Formas de amar que confundimos com sacrifício.

Formas de cuidar que confundimos com controlo.

Formas de estar disponíveis que nos ensinaram a esquecer-nos de nós próprios.

E um dia percebemos que estamos a repetir, com outras pessoas, uma história que jurámos nunca repetir.

É nesse momento que a consciência se torna uma possibilidade de mudança.

Não para apagar o passado.

Mas para impedir que ele continue a escrever sozinho o futuro.

Porque aquilo que nos aconteceu merece um lugar na nossa história.

Não merece, porém, ocupar todos os capítulos.

A dor pode explicar porque trememos.

Mas não precisa de decidir de quem nos aproximamos.

O abandono pode explicar porque temos medo de perder.

Mas não precisa de escolher por nós quem devemos amar.

A humilhação pode explicar a necessidade de reconhecimento.

Mas não precisa de determinar o nosso valor.

A rejeição pode explicar a nossa insegurança.

Mas não pode ser autorizada a tornar-se a voz permanente com que falamos connosco.

É aqui que a reconstrução se torna verdadeiramente humana.

Não quando deixamos de sentir.

Mas quando aprendemos a sentir sem obedecer cegamente a tudo aquilo que sentimos.

Não quando esquecemos.

Mas quando conseguimos recordar sem voltar a viver.

Não quando a cicatriz desaparece.

Mas quando deixamos de organizar toda a nossa vida à volta dela.

E talvez seja por isso que algumas das pessoas mais fortes que conhecemos não sejam aquelas que tiveram vidas fáceis.

São aquelas que, depois de terem conhecido a escuridão, recusaram tornar-se escuridão para os outros.

Pessoas que poderiam ter aprendido crueldade e escolheram delicadeza.

Que poderiam ter aprendido desconfiança e escolheram discernimento.

Que poderiam ter aprendido abandono e escolheram presença.

Que poderiam ter aprendido a ferir antes de serem feridas e escolheram interromper o ciclo.

Isso é uma forma extraordinária de liberdade.

Porque há uma diferença entre carregar a própria história e fazer os outros pagarem por ela.

Nem todos os que chegam depois de nós têm de pagar as dívidas daqueles que chegaram antes.

Nem todas as pessoas merecem receber a versão ferida de nós.

Algumas merecem conhecer a pessoa que conseguimos construir depois da ferida.

E talvez seja esse um dos maiores trabalhos da vida:

transformar herança em escolha.

Aquilo que recebemos não está inteiramente nas nossas mãos.

Aquilo que transmitimos começa, em grande medida, a estar.

As raízes são importantes.

Mas também são importantes os ramos.

E mais importante ainda é aquilo que fazemos com a árvore que recebemos.

Porque não escolhemos o solo.

Não escolhemos a quantidade de água.

Não escolhemos todas as tempestades.

Não escolhemos quem nos feriu.

Não escolhemos todas as perdas.

Mas chega um momento em que a vida nos pergunta, silenciosamente:

e agora, o que vais fazer com tudo isto?

É nessa pergunta que começa a liberdade.

Não numa liberdade ingénua, que acredita poder apagar tudo.

Mas numa liberdade adulta, que olha para as próprias cicatrizes e diz:

eu sei de onde vim.

Sei o que me aconteceu.

Sei o que me faltou.

Sei aquilo que me feriu.

Mas não vou permitir que a minha dor seja a única autora da pessoa que me tornarei.

Porque as raízes podem explicar a inclinação do caule.

Mas não determinam para sempre a direcção dos ramos.

E talvez viver seja precisamente isso:

crescer sem negar a terra de onde viemos,

reconhecer as tempestades sem viver eternamente dentro delas,

aceitar as cicatrizes sem lhes entregar o mapa,

e, apesar de tudo aquilo que nos aconteceu,

continuar a procurar o céu.

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