"A menina que fui e a mãe que hoje sou"
A minha filha encontrou as minhas notas do período escolar.
E eu confesso: foi uma pequena viagem no tempo.
Ali estavam elas, referentes ao ano lectivo de 1997/98, quando eu ainda era apenas uma rapariga a aprender a ser pessoa, muito antes de imaginar a mulher, a mãe e tudo aquilo que a vida haveria de fazer de mim.
As classificações?
Máximas.
Sim, máximas.
Parece que, academicamente, a coisa estava muito bem encaminhada.
Mas depois chegam as apreciações dos professores.
E aí… bom.
Aí encontro-me.
Talvez até demasiado.
Porque há coisas que o tempo não apaga; apenas nos ensina a interpretá-las com maior ternura.
Numa das apreciações pode ler-se:
“Participou manifestando desinteresse nas actividades que foram programadas.”
Noutra:
“Teve bom aproveitamento em todas as áreas do programa, mas faz os trabalhos imperfeitos para acabar rapidamente.”
Até aqui, confesso, começo a reconhecer uma certa familiaridade.
Mas depois vem a parte verdadeiramente extraordinária:
“Conhece bem todas as regras de educação, de trabalhos e de jogos, mas não as quer cumprir.”
E, para terminar em beleza:
“Gosta de se manifestar, salientando-se pela negativa. Por vezes desorganiza o grupo por facilitar o cumprimento de regras.”
Bom.
A minha filha encontrou as minhas notas e eu encontrei uma versão de mim própria que já não via há décadas.
E, curiosamente, em vez de sentir vergonha, senti orgulho.
Não orgulho da desorganização, evidentemente.
Nem da tendência para testar os limites.
Nem daquilo a que hoje chamaríamos, provavelmente, uma relação pouco pacífica com a autoridade.
Mas orgulho porque reconheço naquela criança algumas características que, convenientemente orientadas pela vida, acabaram por permanecer.
A curiosidade.
A inquietação.
A dificuldade em aceitar uma regra apenas porque alguém disse que era uma regra.
A vontade de perguntar.
A necessidade de perceber.
A tendência para fazer as coisas à minha maneira.
E talvez até aquela pequena resistência interior que me fazia pensar:
“Eu sei que existe uma regra. Só ainda não percebi porque tenho de a cumprir.”
Hoje consigo rir-me disso.
Na altura, imagino que os meus professores nem sempre tivessem o mesmo sentido de humor.
Mas há qualquer coisa de profundamente interessante nestas apreciações antigas.
Elas mostram-nos que uma criança nunca é apenas aquilo que aparece numa pauta.
Uma classificação diz-nos alguma coisa.
Uma apreciação comportamental diz-nos outra.
E nenhuma delas, isoladamente, consegue explicar uma pessoa inteira.
Aquela menina tinha notas máximas e, simultaneamente, dava algum trabalho.
Hoje acho isso extraordinariamente humano.
Porque a infância não é uma antecâmara onde treinamos para sermos adultos perfeitos.
É precisamente o lugar onde aprendemos, muitas vezes por tentativa e erro, a transformar aquilo que somos naquilo que podemos vir a ser.
Eu não era uma criança academicamente problemática.
Era, aparentemente, uma criança academicamente competente e comportamentalmente… criativa.
Digamos assim.
E talvez seja precisamente por ter sido assim que hoje compreendo algumas coisas nos meus filhos que outras pessoas poderiam interpretar de forma diferente.
Conheço a diferença entre desinteresse e uma criança que simplesmente não encontra estímulo suficiente.
Conheço a diferença entre pressa e preguiça.
Conheço a diferença entre questionar e desafiar.
Conheço a diferença entre uma criança que não sabe e uma criança que sabe, mas não vê razão para fazer exactamente da maneira que lhe disseram.
E, sobretudo, conheço aquela zona maravilhosa e complicada em que uma criança tem muito potencial, mas ainda não possui maturidade suficiente para o administrar.
Porque fui essa criança.
A grande diferença é que os meus filhos fazem aquilo que eu aparentemente não fazia tão bem.
Eles têm excelentes resultados e têm um comportamento exemplar.
As classificações são máximas.
Mas, para mim, a maior vitória não está sequer na nota.
Está no carácter.
Na educação.
Na responsabilidade.
Na forma como tratam os outros.
Na capacidade de aprender.
Na curiosidade.
Na autonomia.
Na empatia.
Naquilo que fazem quando ninguém está a atribuir uma classificação.
E aqui existe uma espécie de ironia bonita da maternidade.
Eu passei anos a tentar compreender-me.
Hoje compreendo melhor os meus filhos precisamente porque já fui uma criança que precisava de ser compreendida.
Não quero filhos iguais a mim.
Quero filhos inteiros.
Não quero que reproduzam os meus erros para validarem a minha história.
Quero que possam herdar de mim aquilo que vale a pena e ultrapassar aquilo que eu precisei de aprender.
E, aparentemente, estão a fazer um trabalho extraordinário.
Muito melhor do que eu fazia naquela idade.
E digo isto com uma felicidade que não consigo esconder.
Porque uma mãe não devia olhar para o sucesso dos filhos como uma ameaça à própria história.
Pelo contrário.
Quando os nossos filhos vão mais longe do que nós fomos, não nos diminuem.
Continuam-nos.
Cada geração recebe qualquer coisa da anterior e, idealmente, acrescenta-lhe alguma coisa.
Eu recebi.
Transformei.
E eles estão a construir a partir daí.
Talvez esta seja uma das formas mais bonitas de evolução humana: não exigirmos aos nossos filhos que repitam a nossa trajectória, mas proporcionarmos-lhes condições para começarem um pouco mais à frente.
Por isso, hoje olho para estas notas de 1997/98 com uma ternura imensa.
Aquela menina não sabia nada do que a esperava.
Não sabia quantas coisas haveria de aprender.
Não sabia que um dia seria mãe.
Não sabia que haveria de olhar para as suas próprias avaliações escolares e encontrar nelas pequenas pistas da mulher em que se tornaria.
E muito menos imaginava que, décadas depois, os seus próprios filhos seriam capazes de lhe mostrar aquilo que ela ainda estava a aprender.
Há, aliás, qualquer coisa de profundamente pedagógico nisto.
Nós educamos os filhos.
Mas os filhos também nos obrigam a revisitar a criança que fomos.
E, por vezes, ajudam-nos a reconciliarmo-nos com ela.
Hoje não leio:
“Gosta de se manifestar, salientando-se pela negativa.”
Hoje leio:
“Esta criança tinha uma personalidade que ainda estava a aprender a orientar.”
Não leio:
“Não quer cumprir as regras.”
Leio:
“Ainda precisa de compreender que liberdade e responsabilidade não são adversárias.”
Não leio apenas:
“Faz os trabalhos imperfeitos para acabar rapidamente.”
Vejo uma criança com pressa de passar para aquilo que realmente lhe interessava.
E talvez seja precisamente aí que mora uma das maiores aprendizagens da maternidade:
uma criança não é um relatório.
É uma pessoa em construção.
E nós, adultos, também somos.
Por isso guardo estas notas.
Não apenas como uma recordação escolar.
Guardo-as porque são um pedaço da pessoa que fui.
E porque, ao lado delas, consigo colocar aquilo que os meus filhos são hoje.
Eles fizeram melhor do que eu.
E isso não me entristece.
Enche-me de orgulho.
Porque eu não precisava que os meus filhos fossem cópias melhoradas de mim.
Precisava apenas de lhes dar aquilo que pudesse ajudá-los a serem mais livres, mais conscientes, mais responsáveis e mais felizes.
E talvez tenha sido esse o meu maior sucesso enquanto mãe:
não ter conseguido fazer filhos perfeitos — porque isso nem sequer existe —, mas ter acompanhado pessoas que conseguem aprender, crescer, respeitar, questionar e, ao mesmo tempo, permanecer humanas.
As minhas notas dizem-me quem eu fui.
As deles mostram-me quem eles estão a escolher ser.
E há uma coisa que hoje sei com absoluta certeza:
eu tenho um orgulho imenso na menina que fui, precisamente porque consigo reconhecer as suas imperfeições sem deixar de a amar.
Mas tenho um orgulho ainda maior na mãe que me tornei.
E, sobretudo, nos filhos que estou a ter o privilégio de ver crescer.
Eles não são apenas alunos de notas máximas.
São a prova de que uma geração pode receber as melhores partes da anterior, aprender com aquilo que nela faltou e seguir um pouco mais longe.
E isso, para uma mãe, vale muito mais do que qualquer pauta.
Embora, confesso…
as notas máximas também sabem muito bem.
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