"Eu não tenho tempo para me vingar"

Quantas vezes já pensaste em vingares-te de alguém?

Talvez não tenhas feito nada.

Talvez tenhas apenas imaginado.

Aquela resposta que nunca deste.

Aquela frase que gostarias de ter dito.

Aquela vontade quase física de fazer o outro sentir, nem que fosse por alguns minutos, exactamente aquilo que te fez sentir.

É humano.

Quando somos feridos, uma parte de nós procura equilíbrio.

Queremos que a injustiça tenha uma resposta.

Queremos que alguém compreenda a dimensão do estrago que provocou.

Queremos, por vezes, que a pessoa sofra o suficiente para finalmente perceber.

Mas existe uma pergunta que vale a pena fazer antes de qualquer vingança:

e depois?

Depois de dizeres.

Depois de expôres.

Depois de ferires.

Depois de devolveres.

Depois de conseguires que o outro chore, se arrependa ou sinta uma pequena parte daquilo que tu sentiste...

o que recuperaste?

O tempo?

Não.

A confiança?

Não.

A tranquilidade?

Provavelmente não.

A pessoa que eras antes daquela ferida?

Também não.

Então para quê?

Eu não sou apologista de vingança.

Não porque nunca tenha conhecido a raiva.

Não porque nunca tenha sentido injustiça.

Não porque seja incapaz de compreender aquela vontade de responder na mesma moeda.

Sou contra a vingança precisamente porque compreendo demasiado bem aquilo que ela pode fazer.

Ela mantém-te ligada.

E essa é talvez a parte mais irónica.

Tu pensas que estás a castigar alguém, mas continuas a organizar uma parte da tua vida em função dessa pessoa.

Continuas a pensar nela.

Continuas a imaginar o que vai sentir.

Continuas a planear o que dizer.

Continuas a verificar se percebeu.

Continuas a querer que veja.

Continuas a esperar uma reacção.

E, sem perceberes, aquela pessoa que já não devia ter qualquer lugar dentro de ti continua a ocupar espaço.

A vingança promete liberdade e entrega dependência.

Porque, enquanto precisares que alguém sofra para conseguires ficar em paz, a tua paz continua nas mãos dessa pessoa.

E eu não quero viver assim.

Não quero entregar a ninguém esse poder.

Tenho demasiado para viver.

Tenho demasiado para aprender.

Tenho demasiado para amar.

Tenho pessoas para abraçar.

Lugares para conhecer.

Livros para ler.

Conversas para ter.

Risos para dar.

Dias que ainda não vivi.

E não vou oferecer tudo isso a alguém que me feriu.

A minha vida é demasiado valiosa para ser transformada numa resposta à vida de outra pessoa.

É por isso que, para mim, não me vingar não significa esquecer.

E muito menos significa desculpar aquilo que foi injusto.

Há coisas que precisam de ser reconhecidas pelo nome que têm.

Há comportamentos que não merecem ser relativizados.

Há pessoas das quais precisamos de nos afastar.

Há portas que devem permanecer fechadas.

Há relações que terminam.

Há consequências que precisam de existir.

Perdoar não elimina necessariamente a responsabilidade.

E seguir em frente não significa dizer que nada aconteceu.

Significa apenas que aquilo que aconteceu não terá autorização para continuar a acontecer dentro de mim todos os dias.

Existe uma diferença enorme entre justiça e vingança.

A justiça procura responsabilidade.

A vingança procura satisfação.

A justiça pode proteger.

A vingança quer devolver.

A justiça pergunta:

“Como impedimos que isto volte a acontecer?”

A vingança pergunta:

“Como faço para que sintas aquilo que eu senti?”

E são perguntas completamente diferentes.

Talvez a maturidade comece quando deixamos de precisar de equilibrar a dor através de outra dor.

Não porque nos tornámos indiferentes.

Mas porque percebemos que há uma forma muito mais exigente de vencer:

não permitir que aquilo que alguém fez de errado determine aquilo em que nos transformamos.

Porque este é o verdadeiro perigo.

Alguém pode ferir-te uma vez.

Mas tu podes passar anos a continuar essa ferida por tua própria conta.

Podes alimentar a história.

Repeti-la.

Revisitá-la.

Reconstituí-la.

Imaginar outras respostas.

Procurar novas provas.

Esperar novos erros.

E, quando deres por isso, aquela pessoa já nem sequer está presente na tua vida, mas continua a ocupar um quarto inteiro dentro da tua cabeça.

Isso também é prisão.

E há prisões sem grades que construímos com pensamentos.

Por isso, quando me perguntam se não tenho vontade de me vingar, talvez a resposta mais honesta seja:

tenho coisas melhores para fazer com o meu tempo.

Quero viver.

Quero amar.

Quero estar com quem me faz bem.

Quero aprender.

Quero crescer.

Quero conhecer aquilo que ainda não conheço.

Quero olhar para trás um dia e reconhecer uma vida que foi minha, não uma vida passada a reagir àquilo que os outros fizeram.

A vingança é um desperdício extraordinário.

Desperdício de tempo.

Desperdício de energia.

Desperdício de inteligência.

Desperdício de emoções.

Desperdício de oportunidades.

Desperdício de vida.

E o tempo é uma coisa demasiado séria para ser oferecida gratuitamente a quem não soube tratá-lo — nem a nós.

Há pessoas que passam tanto tempo a tentar destruir os outros que nunca chegam a construir uma vida que verdadeiramente admirem.

Vivem de comparações.

De ressentimentos.

De conflitos.

De pequenas guerras.

De histórias antigas.

De necessidade de provar.

De necessidade de vencer.

De necessidade de serem reconhecidas como certas.

E talvez exista aí uma espécie de pobreza que nenhum dinheiro consegue resolver.

Porque uma pessoa pode ter muito e continuar absolutamente vazia.

Pode vencer discussões e perder relações.

Pode destruir reputações e continuar sem carácter.

Pode conseguir que alguém chore e continuar sem saber amar.

Pode convencer muitas pessoas da sua versão e continuar sem conseguir construir intimidade verdadeira.

Pode ganhar uma batalha e permanecer exactamente no mesmo lugar interior onde começou.

É por isso que não acredito que tenhamos de ser nós a aplicar o “castigo” a determinadas pessoas.

Algumas já vivem dentro das consequências das próprias escolhas.

Não precisamos de acrescentar nada.

Uma pessoa que mente habitualmente precisa de continuar a viver consigo própria.

Uma pessoa que não sabe amar continuará a encontrar relações que não consegue sustentar.

Uma pessoa que transforma todos os outros em inimigos terá sempre novos inimigos.

Uma pessoa incapaz de reconhecer os próprios erros continuará a repetir os mesmos padrões.

Uma pessoa que destrói confiança encontrará cada vez menos confiança disponível.

E isso não é vingança.

É consequência.

A vida, às vezes, não precisa de nós para fazer justiça.

Precisa apenas de tempo suficiente para revelar padrões.

E eu prefiro confiar nisso.

Não quero assistir.

Não quero esperar.

Não quero verificar.

Não quero saber se finalmente percebeu.

Não quero saber se se arrependeu.

Não quero saber se alguém lhe contou.

Não quero sequer precisar que a realidade me dê razão.

Porque existe um momento em que ter razão deixa de ser importante.

O que importa é estar em paz.

E a paz não é a ausência de pessoas que nos fizeram mal.

É a ausência da necessidade de continuarmos emocionalmente ligados ao mal que nos fizeram.

É podermos lembrar sem voltar a viver.

É podermos reconhecer sem voltar a entrar.

É podermos dizer:

“Sim, aconteceu.”

E continuar.

Sem teatro.

Sem discursos.

Sem vingança.

Sem necessidade de audiência.

Sem transformar a nossa dignidade numa arma.

Há uma força extraordinária em não responder.

Mas atenção: não responder não significa aceitar.

Às vezes a resposta é afastarmo-nos.

Às vezes é dizer não.

Às vezes é denunciar.

Às vezes é proteger-nos.

Às vezes é estabelecer uma consequência.

Às vezes é simplesmente fechar uma porta e não voltar a abri-la.

A ausência de vingança não é ausência de limites.

É exactamente o contrário.

É colocar o limite certo sem precisar de destruir ninguém do outro lado dele.

E talvez seja essa uma das formas mais bonitas de liberdade:

não precisares que o outro fique mal para conseguires ficar bem.

Porque quando chegas aí, recuperaste qualquer coisa que a dor tinha tentado tirar-te.

A tua atenção.

O teu tempo.

A tua capacidade de olhar para a frente.

A possibilidade de voltares a confiar na vida.

E, sobretudo, a capacidade de não transformares uma pessoa que te feriu na arquitecta do teu futuro.

Eu não quero ser construída pelaquilo que alguém fez comigo.

Quero ser construída também por aquilo que escolhi fazer depois.

E escolho não devolver.

Escolho aprender.

Escolho afastar-me quando for necessário.

Escolho proteger-me.

Escolho perdoar quando conseguir.

Escolho não voltar quando não fizer sentido.

Escolho continuar.

Porque há uma coisa que ninguém me devolve:

o tempo.

E eu não vou gastar o meu a imaginar maneiras de tornar pior a vida de alguém.

Prefiro usá-lo para tornar melhor a minha.

Prefiro uma tarde a rir com quem amo do que uma hora a pensar em quem me feriu.

Prefiro um abraço verdadeiro a uma vingança perfeita.

Prefiro uma viagem a uma discussão.

Um livro a uma obsessão.

Uma conversa a um ressentimento.

Uma oração a uma guerra interior.

Um beijo a uma resposta.

Uma vida inteira a viver a uma única pessoa a tentar provar-lhe alguma coisa.

Porque, no fim, talvez a maior vingança nem sequer seja vingança.

É simplesmente deixares de precisar dela.

É acordares um dia e perceberes que já não tens raiva.

Não porque esqueceste.

Mas porque a tua vida cresceu tanto que aquela história deixou de ter tamanho suficiente para ocupar o espaço que ocupava.

E então compreendes:

não precisavas de destruir ninguém.

Precisavas apenas de não te destruíres a ti própria por causa do que alguém fez.

E isso, para mim, é vencer.

Não porque o outro perdeu.

Mas porque eu continuei a viver.

E, enquanto houver vida para viver, amor para oferecer, pessoas para abraçar, coisas para aprender e beleza para descobrir, não vou desperdiçar um único minuto a tentar tornar alguém infeliz.

A vida já é demasiado curta.

E eu tenho coisas muito mais importantes para fazer.

Tenho uma vida para viver.

E quero vivê-la inteira.

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